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sábado, 14 de janeiro de 2017

Igor Stravinsky e Miles Davis: grandes inovadores da música



De certa forma, Miles Davis está para o Jazz assim como Stravinsky para a Música Clássica do século XX. Pela sede de pesquisa e descoberta de novos sons, ambos estiveram na vanguarda de quase todos os movimentos importantes da época em que viveram, cada qual em seu gênero. Desbravaram fronteiras e criaram vertentes que foram seguidas por inúmeros músicos.

No balé inicial O Pássaro de Fogo (1910), Stravinsky foi influenciado por Rimsky-Korsakov e Debussy, mas logo encontrou a individualidade em Petrushka (1911), que o levou em 1913 à sua obra-prima mais famosa que é a Sagração da Primavera, de indiscutível valor artístico e histórico, pois esse audacioso bailado alterou definitivamente o caminho da música. Contudo, não permaneceu muito tempo nesse estilo. Buscou outras formas: a música de cena A História do Soldado (1918), de gênero indefinido, uma curiosa pantomima, mescla de commedia dell’arte e circo mambembe - extremamente original, uma obra-prima absoluta, e As Bodas, de 1919, balé-cantata com inspiração no folclore russo. No princípio dos anos 20, Stravinsky perturba o mundo com outra metamorfose. Muda completamente a direção, buscando na arte musical antes de Bach e de Pergolesi o novo estilo. Daí surgem os balés Pulcinella (1920) e Apollon Musagéte (1928) e, em destaque, a obra-prima de câmara Octeto para Instrumentos de Sopros (1923). A esse estilo (re)inventado deram o nome de 'neoclassico' ou 'neobarroco', que permaneceu por mais de trinta anos como diretriz para muitos compositores. A partir da estética sugerida por ele, para tirar a música dos excessos do romantismo, o compositor renova-se a cada obra, transmutando os clássicos do passado através de sua própria linguagem. E na mesma década de 20, a partir de Handel, cria outra obra-prima: a ópera-oratório com texto em latim Oedipus Rex (1927). A austera Sinfonia dos Salmos (1930), outra peça de estrutura mista, entre sinfonia e cantata, é uma das melhores de Stravinsky; foi a primeira obra coral surgida de sua necessidade de renovação, além de artística, espiritual. Nos anos 40, após alguma investida sinfônica à maneira de Beethoven e Brahms, como podemos notar em sua Sinfonia em Dó (1940) e sobretudo na Sinfonia em 3 Movimentos (sinfonia-suíte!), de 1945,  o russo mais uma vez muda de pele: torna-se católico fervoroso e escreve a Missa (1947), uma das mais belas e sinceras do século XX. E, no final da vida, a partir da Cantata (1952) e do Canticum Sacrum (1955), o compositor novamente modifica o estilo, desta vez adotando a 'técnica dos 12 tons' de Schoenberg (via Webern). De forma que, na velhice, já muito distante do período inicial das danças pagãs, Stravinsky torna-se introspectivo. Desta vez, na música sacra, gênero onde se localiza a maioria das obras da última fase, e ainda hoje pouco conhecidas, o ‘eterno inovador’ segue até o final experimentando no dodecafonismo novas possibilidades sonoras.

Em termos de metamorfoses, não foi diferente o caminho de Miles Davis. Começou no Bepop, tocou no quinteto do grande Charlie Parker, mas em pouco tempo, no período de 1949-50, torna-se um dos criadores do Cool, uma nova maneira de se fazer jazz, através das sessões de Birth of the Cool. Em 1956, surgem registros grandiosos em uma série com o The Miles Davis Quintet, que é uma de minhas preferidas: Cookin’, Relaxin’, Steamin’ e Workin’. Fase rica que culminou no Kind of Blue, de 1959, um dos maiores e mais importantes álbuns gravados na história não só do jazz mas de toda a música ocidental. Nos anos 60, mais uma vez Miles Davis demonstra em suas experiências inquietude e sede por renovação estética: é responsável pela fusão jazz-rock, com o álbum duplo Bitches Brew, de 1969, outra grande obra do jazz e de toda a música instrumental, ainda hoje considerado belamente ácida e inovadora. No final da vida, aproximou-se do Funk, procurando novas fusões e inovações.

É curioso lembrar que ambos os músicos também experimentaram no campo um do outro. Stravinsky, no final da guerra de 1914, quando residiu na Suiça, demonstrou interesse por rag-time que utilizou em peças para piano e de câmara, entre elas o Rag-time para 11 instrumentos. Na década de 40, escreveu o Ebony Concerto, obra mais próxima do jazz propriamente dito. Por outro lado, Miles Davis, junto com o genial arranjador Gil Evans, buscaram na música clássica uma nova atmosfera criativa. Gravaram uma versão de Porgy & Bess do americano George Gershwin, e Sketches of Spain, com peças dos espanhóis Joaquín Rodrigo e Manuel de Falla que, interpretadas de maneira muito pessoal, adquiriram face diferente, mas não menos geniais. São álbuns já antológicos, considerados obras supremas pelos melômanos. Para mim, superior a esses dois trabalhos é o instigante Miles Ahead, também em parceria com Evans, o responsável pelos arranjos da big band. E é histórico: nesse álbum está The Maids of Cádiz, de Délibes, a primeira peça de música clássica gravada por Miles Davis.

Como homenagem a esses desbravadores de fronteiras, deixo aqui duas gravações. Já são obras conhecidas, de longa data, por todos os apaixonados pelos dois gêneros. Mas nem todas as pessoas tiveram a chance de ouvi-las. Por isso, aqui estão.

O balé Le Sacre du Printemps (A Sagração da Primavera). A curiosidade é que esta versão apresenta-se na regência do próprio Stravinsky. É o primeiro de 9 CDs de uma coleção remasterizada e lançada pela Sony em 1999, com gravações dos anos 60. É uma oportunidade de ouvir a maneira como o compositor interpretava a sua prima obra.

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E Kind of Blue, a obra-prima de Miles Davis e de seu grupo, gravada em apenas duas sessões.

Um dos inúmeros méritos de Miles Davis era a sábia escolha dos músicos que integravam os seus grupos. A formação abaixo passou para a história do jazz como ‘o sexteto que gravou Kind of Blues’. De uma coesão impressionante, admirável em todos os sentidos, daquele tipo de interação que acontece raríssimas vezes, o sexteto brilha. Não era pra menos, eis os músicos:

Miles Davis (trumpete) - Julian "Cannonball" Adderley (sax alto) - John Coltrane (sax tenor) -Wynton Kelly & Bill Evans (piano) - Paul Chambers (contrabaixo) - Jimmy Cobb (bateria)

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MilesDavis.KindOfBlue1959.zip

 

quarta-feira, 5 de março de 2014

Villa-Lobos: 4 Bailados do Amazonas



Heitor Villa-Lobos nasceu no dia 5 de março de 1887 e faleceu em 17 de novembro de 1959, com a idade de 72 anos. Rio de Janeiro foi o seu berço e também o seu último leito. No percurso, uma vida inteira dedicada à música. De sua inspiração surgiram muito mais de duas mil obras em todos os gêneros: suítes orquestrais, sinfonias e concertos, peças para instrumento solo (piano e violão), quartetos de cordas e as mais inusitadas formações de câmara, centenas de canções para voz solo, corais; e como se não bastasse toda essa prolífica obra, ainda lhe restou tempo para compor alguns balés, óperas e trilhas para dois filmes. Hoje, após mais de 50 anos de sua morte, a arte musical de Villa-Lobos, gênio tupiniquim, permanece mais viva do que nunca, executada com entusiasmo nas mais importantes salas de recitais e concertos do mundo todo.

Essa denominação de 'gênio tupiniquim' é apenas uma saudável brincadeira, pois é bastante conhecida a indignação - uma indignação bem humorada, em tom de galhofa - que o próprio compositor demonstrava ao ser chamado de ''compositor brasileiro'', retrucando que ninguém se refere a Beethoven como músico alemão, ou Mozart, austríaco. Sim, entendemos... Então o qualifiquemos da forma como gostaria de ser chamado: Villa-Lobos, compositor nascido no Brasil, cujas obras foram criadas para a Humanidade, de qualquer tempo e de qualquer lugar. Enfim, Heitor Villa-Lobos, homem do Brasil, artista do mundo.

Na década de 40, nos EUA, quando Villa-Lobos foi considerado o maior compositor das três Américas, muita gente importante da música torceu o nariz, porém não havia exagero nessa elevação superlativa. Copland, o compositor mais querido dos americanos, embora discordasse de alguns pontos de vista estéticos de Villa-Lobos, o respeitava muito. No México, Manuel Maria Ponce e Carlos Chávez dedicavam-lhe reverência. O grande Ginastera da Argentina sempre demonstrou-lhe humilde gratidão. Isso só para citar nomes de peso da música erudita de outros países das Américas.

É difícil catalogar uma obra como a de Villa-Lobos, tão vasta como a própria selva amazônica, caudalosa como nossos rios, rica como a flora e a fauna de nossas florestas e campos, exoticamente melodiosa como o canto de nossos pássaros. Apesar de muitos defeitos, principalmente na orquestração excessiva, às vezes de exaustiva prolixidade, ou na falta de inspiração de várias obras de encomenda, ou da grande quantidade de coros cívicos e obras comemorativas de valor apenas para a ocasião, a inspiração de Villa é exuberante, sincera e de alta qualidade em pelo menos 50% da totalidade de sua criação.

Para avaliar a grandeza de Villa-Lobos, além das duas séries mais importantes: os Choros e as Bachianas Brasileiras, que já são obras-primas da música clássica moderna, bastaria mencionar a impressionante série de quartetos de cordas, 17 ao todo, e um inacabado, que escrevia quando morreu. É só lembrar que Hindemith compôs 7; Bartók, 6; Schoenberg, 4; Debussy, 1; Stravinsky, nenhum, para compreendermos a prolificidade villalobiana. Esse gênero difícil, pouco frequentado pela maioria dos compositores, foi o foco de atenção de Villa-Lobos em sua última década de vida, e vários desses quartetos permanecem como algumas de suas obras mais ricas. Quando a quantidade é citada, pensa-se que o número inibe o talento, mas não; diferente do que ocorrera com as sinfonias e vários concertos da última fase, a maioria escrita sob encomenda, e às vezes sem muita inspiração, os melhores desses quartetos de cordas foram criados pela necessidade do artista de dar voz a uma sensibilidade mais íntima.  

As sinfonias, em número de 12, mais as sinfonietas, não mostram o melhor de Villa-Lobos, com raras exceções, como a No. 6, de 1944, dita 'Sobre a Linha das Montanhas do Brasil', bela e interessantíssima em seu propósito criativo, ao seguir o gráfico da Serra dos Órgãos e torná-lo real em som; e talvez a No.10, a 'Sumé Pater Patrium' (1952), com texto do padre Anchieta. Mas esta é uma obra híbrida, mais um oratório do que sinfonia e, ainda assim, irregular; há momentos brilhantes e outros de uma inegável monotonia. O tema sacro não era o mais forte nem o mais sincero em Villa-Lobos, salvo quando podia contrapô-lo a um tema secular ou a uma crença diversa, como é o caso do grandioso e fascinante coro 'tupi' na Suíte No.4 de 'O Descobrimento do Brasil'.  

Já os 17 quartetos de cordas, ricos em profundidade, técnica, e sobretudo maturidade artística, hão de permanecer, e já bastariam para destacar Villa-Lobos como um dos maiores compositores, não somente das Américas, mas de todo século XX.

Com a devida justiça, Villa-Lobos, já é considerado pelos musicólogos de renome como um dos mais criativos compositores da história da música, e o mais significativo do continente latino-americano no sentido de englobar a música erudita, a folclórica (principalmente a ameríndia e a nordestina) e a popular (choros e modinhas do Rio de Janeiro, modas de viola do cancioneiro rural paulista e mineiro, etc.)

Há algumas décadas, afirmar com ênfase a genialidade de Villa-Lobos, seria motivo de riso para alguns críticos resistentes, mas hoje sabemos que de todos os lados do planeta aparecem gravações de obras do "índio de casaca", que seria do Brasil, se já não o fosse do mundo todo. Músicos admirados executam e proclamam a excelência dessas peças; ouvintes entusiastas divulgam-nas, realçando a emoção e a vida que há nessas criações. A frase inscrita na lápide de Villa-Lobos, a pedido do próprio: "Considero as minhas obras como cartas que escrevi à posteridade sem esperar resposta" não tem mais sentido, pois a posteridade já responde a essas "cartas" com júbilo e agradecimento.

De que maneira homenagear um grande compositor na data de seu nascimento, senão ouvi-lo com o mais respeitoso silêncio? Por isso, hoje, com a oportunidade de prestar minha reverência a um de meus compositores preferidos, escolhi quatro obras para ouvir. Todas têm em comum o fato de explorarem o tema da floresta amazônica, e pelo menos três delas foram escritas originariamente para a dança. A seleção é minha. Não existem como um todo em nenhum álbum gravado.


Amazonas (1917) poema sinfônico e bailado para orquestra. É a primeira obra-prima de Villa-Lobos. Utiliza melodias indígenas coletadas durante sua viagem ao norte do país. Mário de Andrade, que às vezes errava em seus comentários musicais, mas que também acertava, tinha toda a razão quando ouviu o bailado pela primeira vez e exclamou que ali irrompia o verdadeiro gênio de Villa. É uma música visceral e nos envolve desde o início com a presença do Amazonas, o rio mais imponente do planeta, e da paisagem selvagem da floresta que o circunda, cujo solo se oculta em cipós e ramagens escuras que se estendem cada vez mais ao alto pelas copas intrincadas das árvores. A peça musical é exata: a sensação é de claustrofobia. Um dinamismo de vida macro e microscópica nos toma a imaginação: ruídos, sussurros de animais e canto de aves exóticas re-inventados por uma orquestra experimental, introduzindo o violinofone (trompa+violino), instrumento inventado pelo Villa. Embora a orquestração em muitos trechos seja caótica, se comparada à límpida escrita neoclássica de Camargo Guarnieri, não deixa de ser original e ousada. Tanto que, anos depois, foi muito elogiada por Messiaen.

Uirapuru, o outro poema sinfônico e bailado para orquestra, escrito em 1917, apesar de menos comentado e menos famoso do que 'Amazonas', não é, de maneira alguma, inferior. Considero-o mais rico e imaginativo. Além de utilizar também temas aborígenes primitivos, colhidos por Roquete Pinto, Villa-Lobos constrói sobre a linha melódica do canto do pássaro Uirapuru uma arquitetura sonora mais do que admirável. Variando as três ou quatro notas da melodia da ave a música vai sendo exposta lentamente formando a estrutura orquestral, semelhante ao que fez Beethoven na 'Sinfonia No.5'. Em ambos os casos são pouquíssimas notas, células que vão se bipartindo e aumentando até surgir um tecido complexo.

O libreto foi escrito pelo compositor, adaptado das inúmeras narrativas dos indígenas e caboclos do Amazonas aos folcloristas: "...Conta uma lenda que a magia do canto noturno do Uirapuru era tão atraente, que as índias sumiam, durante a noite, à procura do mágico trovador das florestas brasileiras, porque as feiticeiras lhes haviam contado que o Uirapuru era o rei do amor e o mais belo cacique da Terra."

Mas há outras nuances da lenda... O Uirapuru é uma ave rara, mesmo na imensa variedade de pássaros amazonenses. E raro é também seu canto. Talvez não seja o mais belo, pois há o Sabiá Laranjeira com sua riqueza de timbres. Mas o do Uirapuru é um canto mágico, varia de ritmo e melodia, como uma improvisação. E nem é essa peculiaridade que o diferencia de outros, e sim a acentuada melancolia. Sendo um pássaro cuja espécie nunca foi numerosa, acredita-se que no tempo do acasalamento surge a dificuldade de encontrar a parceira. Então, quando se ouve no anoitecer ou no amanhecer a sua melodia triste, imagina-se que ele esteja chamando a companheira. E a floresta inteira para sentindo a solidão do Uirapuru. E, de fato, dizem que essa cantiga triste é precedida por um inquietante silêncio nas matas, que dura enquanto dura o seu canto. Essa versão da lenda é bem possível que seja uma invenção poética como metáfora da solidão do artista. E há lógica na comparação, pois os artistas são admirados pelo mais belo canto que possuem, mas pouco compreendidos quanto ao motivo que os impulsiona a emitir esse mesmo canto. São solitários mesmo ao lado daqueles que mais amam. Evidentemente, é rara a companheira que poderá ouvir esse chamado.

Mandú-Çarará (1939), cantata profana para coro misto, coro infantil e orquestra, que é também um bailado. Extraída de uma lenda amazônica colhida por Barbosa Rodrigues, é simplesmente outra obra-prima de Villa-Lobos que deveria ser mais conhecida e comentada. É a apoteose índia da dança.
 
Vasco Mariz em seu famoso livro sobre Villa nos conta sobre o conteúdo da lenda e da peça: "Abandonado na floresta pelo pai, por gostarem de 'Mandú-Çarará', a encarnação da dança, um casalzinho de irmãos depara subitamente com o Currupira, que procura atrair os dois para a sua cabana e comê-los. O autor conseguiu aqui uma feliz conjugação dos coros infantil e adulto, pintando de maneira expressiva a conversa de Currupira com as crianças, atemorizadas pelos gritos do monstro, em glissandi. Após um breve trecho orquestral, surge o tema do 'Mandú-Çarará', a princípio nos baixos e barítonos, para se estender a toda a massa coral com sonoridade empolgante. As crianças conseguem, enfim, enganar o Currupira e, após muitas peripécias, encontram a casa dos pais, onde já os aguarda o 'Mandú-Çarará' para dançar e brincar."

Choros No.10 (1925) para orquestra e coro, aqui é a única que não foi escrita diretamente para a dança. Alguns anos depois de sua composição original foi adaptada e coreografada para bailado, primeiro no Rio de Janeiro, depois em Paris por Serge Lifar, com o título de 'Jurupari'. Mesmo entre as mais fascinantes criações do mestre, essa obra merece um lugar de destaque. Trata-se, com certeza, da maior obra-prima de Villa-Lobos , e quanto à fama, só perde para a famosa 'Aria' de 'Bachianas Brasileiras No.5'. No entanto, existem várias obras do mestre que estão no mesmo nível em genialidade, força e beleza.

Novamente aqui, semelhante às três obras anteriores, a floresta amazônica, densa, imensa, misteriosa surge aos poucos no amanhecer. Ao contrário do bailado Amazonas, que é de tonalidades escuras, neste 'Choros No.10' Villa-Lobos supera-se a si mesmo na reconstituição da mata que desperta no lusco-fusco da aurora seguido pela claridade matinal. A flauta é a primeira a aparecer, sugerindo o canto do Azulão; depois, as flautas e as clarinetas soam como gorgeios e trinados de pássaros que vão unindo-se a ruídos de insetos que chiam e zunem. A fauna lentamente toma nuances e formas incitando-nos a sentir a flora luxuriante dos bosques e selvas. A metade da peça é orquestral. A partir daí aparece o coro; primeiro as vozes masculinas; depois as femininas com sons onomatopéicos em vocalises que aumentam de intensidade, pouco a pouco, mostrando o elemento humano, os indígenas que iniciam o dia em seu meio natural. O ritmo das vozes é sincronizado de tal maneira com os tambores e timbales que não é difícil enxergar a poderosa dança na taba: guerreiros e esposas saudando o sol. O êxtase de júbilo que vem a partir daí com a polifonia de vozes agudas e graves entrelaçando-se é o momento mais sublime e representativo da música erudita brasileira. A contagiante verve do coro associado aos instrumentos indígenas e sincronizados com a melodia quase selvagem de toda a peça, no final eclode na música "Yara" de Anacleto de Medeiros, que ao receber letra de Catulo da Paixão Cearense, tornou-se "Rasga Coração". Villa-Lobos fez isso, durante toda a vida: quis unir o folclore, o erudito e o popular. Mas somente no 'Choros No.10' ele o conseguiu da forma mais perfeita, sincera e grandiosa. 

***
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VillaLobos.4BailadosAmazonas.rar

Amazonas
Czecho-Slovak Radio Symphonic Orchestra (Bratislava)
Roberto Duarte, conductor

Uirapurú
Stadium Symphonic Orchestra of New York
Leopold Stokowski, conductor

Mandu-Çarará
Sistema Nacional de Coros Sinfónicos
(Zulia, Tachira, Merida y Metropolitano)
Niños Cantores del Nucleo Los Teques
Sinfónica de la Juventud Venezolana "Simon Bolívar"
Roberto Tibiriçá, director 

Choros No. 10 "Rasga o Coração"
OSESP: Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo
Coro Sinfônico do Estado de São Paulo
John Neschling, regente



sábado, 1 de dezembro de 2012

Falla: El Amor Brujo, por Rocío Jurado



Carlos Saura dirigiu em 1986 o filme “El Amor Brujo”, baseado no bailado gitano de Manuel de Falla, talvez o maior compositor espanhol do século XX. Falla, admirado no mundo todo, principalmente pelos balés "El Amor Brujo", "El Sombrero de Tres Picos" e a suíte "Noches en los Jardines de España", é um ícone da música clássica de Espanha.

“El Amor Brujo” é um balé singular: misto de danza flamenca e declamação teatral, além de algumas canções em autêntico cante jondo, ponto alto dessa obra tão exata e artisticamente rica.

Para interpretar essas canções no filme de Saura, foi escolhida nada mais nada menos do que Rocío Jurado. A escolha não poderia ser mais feliz. Trata-se de uma das maiores e mais amadas cantoras espanholas de música folclórica, em especial flamenco e coplas.

Nascida em 1946, Chipiona, Andalucía, Rocío Jurado teve uma carreira fascinante, cujo maior legado é a voz registrada em inúmeros shows, discos e filmes. Após uma vida de imenso sucesso nacional e internacional, demonstrou no final uma admirável coragem na batalha contra o câncer de pâncreas, que a levou em 2006.

No vídeo abaixo, ouça e veja a Canción del Fuego Fatuo, seguida pela Danza del Juego de Amor e Las Campanas del Amanecer, todas do bailado "El Amor Brujo"! Que interpretação fabulosa! Que elegância expressiva, que classe dessa bela mulher!

Rocío Jurado não será esquecida!





Manuel de Falla (1876-1946)
Rocío Jurado (1946-2006)


sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Christmas Night: Carols of the Nativity


Aos amigos que visitam Palavra e Melodia, deixo este presente especial: hinos de Natal de sublime beleza, quase todos colhidos do folclore de diferentes nações, ora entoados pelas vozes celestiais do coro Cambridge Singers. 

Em 2012, Paz Profunda aos homens e às mulheres de boa vontade!

The Cambridge Singers
Soloists:
Nicholas Sears, tenor [5,16]
Ruth Holton, soprano [7]
Gerald Finley, baritone [9]

The City of London Sinfonia
John Rutter, conductor

1-In dulci jubilo (traditional) (3:20) 
2-Adam lay y bounden (1:12) 
3-Christmas Night (french traditional) (4:04)
4-Once, as I remember (italian traditional) (2:34)
5-A Spotless Rose (2:49)
6-In the Bleak Midwinter (4:40)
7-There is a Flower (4:08)
8-The Cherry Tree Carol (traditional) (1:55)
9-I Wonder as I Wander (american  traditional) (2:59)
10-Candlelight Carol (4:09)
11-O Tannenbaum (traditional) (2:02)
12-Tomorrow shall be my dancing day (english traditional) (1:59)
13-A Virgin Most Pure (english traditional) (2:44)
14-I Sing a Maiden (2:59)
15-Lute-book Lullaby (2:08)
16-The Three Kings (2:21)
17-Myn Lyking (2:41)
18-O Little One Sweet (3:18)
19-All my heart this night rejoices (2:18)
20-I Saw a Maiden (basque traditional) [arr. E. Pettman] (2:57)
21-Away in a Manger (2:18)
22-Nativity Carol (4:28)

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domingo, 18 de dezembro de 2011

Natal Barroco: D. Buxtehude, A. Corelli, G. Torelli, J.S. Bach, G.F. Handel



Adoração dos Pastores, óleo sobre tela
- Bartolomé Esteban Murillo -
(1617-1682)
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Diderik Buxtehude 
Cantata do Advento: In dulci jubilo
Cantata de Natal: Ihr lieben Christen

Archangelo Corelli
Concerto Grosso Op.6: no.8
“Fatto per la Notte de Natale” 

Giuseppe Torelli
Concerto Grosso Op.8: no.6
“Pastorale per il Santissimo Natale” 

Johann Sebastian Bach
Oratório de Natal (trechos) 

George Frideric Handel
O Messias (trechos) 

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BaroqueChristmas.zip


terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Chet Baker: Silent Nights. A Christmas Jazz Album




1. Silent Night (2:50)
2. The First Noel (2:06)
3. We Three Kings (2:27)
4. Hark! The Herald Angels Sing (2:01)
5. Nobody Knows the Trouble I've Seen (3:57)
6. Amazing Grace (3:36)
7. Come All Ye Faithful (4:28)
8. Joy to the World (2:40)
9. Amen (1:41)
10. It Came upon a Midnight Clear (1:57)
11. Swing Low, Sweet Chariot (3:24)
12. Silent Night (4:03)

Personnel:
Chet Baker - trumpet
Christopher Mason - alto sax
Mike Pellara - piano
Jim Singleton - bass
Johnny Vidacovich - drums


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domingo, 11 de dezembro de 2011

Handel: 'O Messias' - cond. Marriner, solistas: E.Ameling, A.Reynolds, P.Langridge e G.Howell



Compositores geniais escreveram belíssimos oratórios sobre o nascimento de Cristo, entre os quais Heinrich Schütz: “Weihnachtshistorie” (História da Natividade, 1660) e Johann Sebastian Bach: “Weihnachtsoratorium” (6 cantatas de 1734, entituladas ‘Oratório de Natal’), mas nenhum deles supera a beleza e a espontaneidade, a poesia pastoral das cordas e a intensidade dramática do coral com trumpetes do “Messiah” de Handel; escrito em apenas 24 dias, rapidamente, como se os querubins e os serafins ditassem-lhe em atmosfera etérea as melodias, a harmonia das árias e a polifonia dos coros. 

Semelhante ao crítico literário e historiador musical Otto Maria Carpeaux, eu também considero I know that my Redemeer liveth a mais bela prece já escrita em forma de música.

O sublime oratório de Handel foi criado em 1741 e apresentado em um teatro de Dublin, Irlanda, em 1742, para comemorar a Páscoa. Mas, desde então, as associações corais revivem-no em princípios de dezembro, período do Advento, quando se prepara para as festas do Natal. O oratório é dividido em 3 partes, cujos temas podem ser compreendidos assim: 1- Anunciação (a partir da profecia de Isaías) e Nascimento; 2- missão redentora da Paixão, e Ressurreição; e 3- Cântico de Ação de Graças. Sendo assim, o teor da primeira parte do oratório é que está relacionado ao Natal.

O Messias e a Música Aquática, de Handel; o Oratório de Natal e os Concertos de Brandenburgo, de Bach, as Quatro Estações e o Gloria, de Vivaldi; a Quinta Sinfonia e a Pastoral, de Beethoven; são exemplos de arte perfeita; e extremamente popularizadas com o passar dos anos, porque encantam leigos e eruditos de todas as raças, crenças e épocas. Essas peças já foram gravadas centenas e centenas de vezes, mas se mostrarmos disposição para ouvi-las com se fosse pela primeira vez, reencontraremos nelas a beleza e o arrebatamento, e entenderemos o motivo de serem tão populares.

Enquanto existir algum lume em nossa Civilização, essas grandes obras não serão esquecidas. 

 

MP3 Download 320 kbps - BAIXAR:
Elly Ameling, soprano
Anna Reynolds, alto
Philip Langridge, tenor
Gwynne Howell, bass
Academy and Chorus of St Martin-in-the-Fields
(Chorus Master: László Heltay)

Neville Marriner, conductor


quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Vivaldi: Laudate pueri Dominum, Stabat Mater e Motetos



Durante 38 anos, de 1703 a 1741, o grande Antonio Vivaldi trabalhou na Igreja de Santa Maria della Pietà, em Veneza, onde dirigia e instruía um orfanato de moças, o 'Ospedale', que era também um conservatório. Nesse período, demonstrou que era tão genial nas obras corais e vocais sacras quanto nos concertos orquestrais, que o tornaram famoso em toda a Europa. Dessa atividade, como compositor e regente da Pietà, surgiram mais de 30 obras corais, entre as quais o Gloria RV589, o Magnificat RV611 e os poderosos salmos para coro duplo e duas orquestras: o Dixit Dominus RV594 e o Beatur vir RV597 - estes últimos são corais de magistral estrutura e de inspiração sublime, dignos de Bach e Handel. Não podemos esquecer também do oratório Juditha Triumphans, de incontestável valor dramático.

Além das peças corais citadas, há inúmeras outras para voz solo e cordas que, nesta coletânea, compartilho com os amantes da música barroca.

A música de igreja de Vivaldi é ágil e virtuosística, assim como os concertos, e não há como negar que a voz solo tem semelhança com o violino; nem sempre é profunda, mas é de comovente beleza. Prestem atenção no Gloria da parte VII do Laudate pueri. Que maravilha!!!! É de tirar lágrimas até das pedras!

As sopranos Magda Kalmár, Emma Kirkby e Friederike Sailer estão simplesmente divinas, de arrepiar a pele, de comover a alma!!! E a contralto Margarethe Bence excedeu minhas expectativas. Para mim é a mais sentida e a mais profunda interpretação desse que é considerado por muitos o mais belo Stabat Mater já escrito.


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Vivaldi.Laudatepueri.zip


1-Laudate pueri Dominum (salmo)
2-In furore (moteto)
Magda Kalmár, soprano
Orquestra de Câmara Franz Liszt

Frigyes Sándor, regente


3-Nulla in mundo pax sincera (moteto)
Emma Kirkby, soprano 
Academia de Música Antiga Simon Preston, regente

4-O qui coeli terraeque serenitas (moteto)
Friederike Sailer, soprano
Stuttgart Pro Musica
Marcel Courad, regente


5-Stabat Mater (hino)
Margarethe Bence, contralto
Stuttgart Pro Musica

Marcel Courad, regente

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Antonio Vivaldi (1678-1741)


sábado, 12 de março de 2011

Mandú-Çarará: Roberto Tibiriçá rege Villa-Lobos na Venezuela


Novamente o brilhante maestro Roberto Tibiriçá nos proporciona valiosos momentos de satisfação artística. Sem qualquer dúvida, o alto nível de interpretação que Tibiriçá vem demonstrando o torna um dos maiores regentes brasileiros da atualidade. Em 2010, no IV Festival Villa-Lobos em Caracas, Venezuela, a sua presença foi um sucesso, quando apresentou, entre outras peças, a fantasia Momoprecoce, com Cristina Ortiz ao piano. 

E no último 30 de janeiro, na Sala Simón Bolívar, em Caracas, Roberto Tibiriçá regeu uma das grandes obras de nosso mestre Villa-Lobos. Nada menos do que o bailado-cantata Mandú-Çarará, para coro e orquestra, uma de minhas preferidas em toda a vasta produção villalobiana, e pouco gravada, injustamente, já que se encontra no mesmo nível de outros bailados como Amazonas e o Uirapurú

Eis a leitura do maestro Tibiriçá, realçando as melodias indígenas repletas de verve rítmica que tão bem caracterizam a obra! Recomendo muitíssimo o vídeo abaixo, gravado ao vivo com a Sinfónica de la Juventud Venezolana ‘Simon Bolívar’ e o Sistema Nacional de Coros FESNOJIV.



Villa-Lobos por Tibiriçá



Importantes obras de Villa-Lobos na regência de Roberto Tibiriçá, 
algumas gravações gentilmente cedidas pelo maestro a este blog:

Sinfonia No. 4 “A Vitória”, para orquestra (1919) [2011]
Choros No. 9, para orquestra (1929) [2010]
Mandú-Çarará, para coro e orquestra (1940) ** [2011]

Sinfónica de la Juventud Venezolana “Simon Bolívar”
Sistema Nacional de Coros FESNOJIV **
Roberto Tibiriçá, regente

Download MP3:
VillaLobos.Sinfonia4-Choros9-ManduCarara.Tibirica.zip

Momoprecoce, fantasia para piano e orquestra (1929) [2010]
Cristina Ortiz, piano
Sinfónica de la Juventud Venezolana “Simon Bolívar”


Bachianas Brasileiras No. 3, para piano e orquestra (1938)
Linda Bustani, piano
Orquestra Sinfônica Petrobrás Pró Música

Concerto para Piano e Orquestra No. 5 (1954) [1993]
Vera Astrachan, piano
OSESP: Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo

Roberto Tibiriçá, regente

Download MP3:


terça-feira, 8 de março de 2011

Renascença na Inglaterra: Música Instrumental de Byrd e Dowland


Esta postagem é para os amantes da música da Renascença. O virginal muselar e o alaúde utilizados nestas gravações foram construídos rigorosamente a partir de modelos do século XVI e início do século XVII.

E, evidentemente, destina-se também aos interessados em conhecer a música desse fascinante período, além da virtual oportunidade de ouvir dois excelentes instrumentistas: Davitt Moroney e Paul O'Dette.

Para quem não conhece, é importante dizer que William Byrd e John Dowland foram dois dos maiores compositores da Era Elizabetana, contemporâneos de William Shakespeare, o genial dramaturgo.

William Byrd foi exímio organista e genial compositor polifonista, cuja obra coral para a liturgia anglicana - services, anthems, etc - era ouvida com admiração na capela real. Mas, por ser católico, talvez as suas peças mais belas sejam as missas e os motetos, que escrevia para as capelas particulares de nobres ricos. John Dowland foi um menestrel: cantor e mestre do alaúde, famoso em toda a Europa. Suas canções eram as favoritas da corte de Elizabeth I, embora jamais tenha conseguido nessa mesma corte o tão almejado cargo de alaudista.

Byrd e Dowland também escreveram música instrumental de grande valor. A pavan era uma das mais nobres danças do século XVI, de ritmo binário e andamento moderado, quase sempre seguida por outra dança mais viva, a galliard. Essas peças atravessaram os séculos e chegaram até os nossos dias, incorporando-se ao repertório dos recitais, a partir da revitalização da música renascentista e barroca. Pela qualidade artística e pelo rigor arqueológico, a obra desses compositores continua viva entre nós, apesar dos quatro séculos que nos separam.


O virginal muselar é um instrumento da família do cravo, um avô do piano moderno, díriamos. Difere do cravo por ser menor e pela colocação do teclado: à direita, e mais frequentemente no meio da caixa, de forma que as cordas são beliscadas no centro, o que lhe dá uma sonoridade mais abafada e quente. No século XVIII o virginal já era anacrônico, devido à evolução de outros modelos do cravo dos quais originou o piano-forte.

O alaúde, descendente talvez de um antigo instrumento persa ou árabe, tem a caixa em forma de meia pera. O seu conjunto de cordas, ao ser dedilhado ou palhetado, expande-se em belos timbres. Foi muito utilizado durante mais de três séculos até cair no esquecimento.

Esses dois instrumentos soam-nos hoje com alguma estranheza. Dessa forma, o antigo torna-se moderno, é sensação nova diante de uma delicada beleza.



John Dowland (1563-1626) por Paul O’Dette


em Alaúde construído por Paul Thomson, Londres, 1984,
baseado em modelo Magno Tieffenbrucker, de 1550
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Download - Baixar:



William Byrd (1543-1623) por Davitt Moroney

em Virginal Muselar, construído por John Phillips,
1991, a partir de instrumento flamengo de 1679.

















Download - Baixar:Byrd.DavittMoroney.zip



sexta-feira, 20 de agosto de 2010

A Alma Brasileira de Villa-Lobos



Ainda que detectemos no autodidata Villa-Lobos a melodia de Puccini, e às vezes a atmosfera de Wagner, ou a técnica de orquestração de D’Indy, e até mesmo a maneira como Sibelius tratava a profundeza das florestas, que Villa assimilou e transformou ao seu próprio modo; ainda assim é preciso ter em vista que as grandes influências do músico na idade madura foram mesmo Debussy e Bach, e muito mais a harmonização de Ravel e o ritmo de Stravinsky; sem jamais esquecer a importância decisiva que foi o choro, música popular de alto nível, amada por Villa-Lobos desde a infância, e da qual assimilara a riqueza do contraponto e o colorido dos timbres. Nessa amálgama toda, Bach funciona mais como o mestre inspirador do que uma diretriz de estilo. Mesmo assim, nessa pluralidade de vozes, o grande Villa encontra a maneira própria de cantar, consegue destacar a sua voz como legítimo representante do Brasil no coral das nações.
 
Até hoje não é possível confirmar se todas as viagens relatadas pelo compositor foram verdadeiras, pois gostava de alimentar a lenda de que havia mapeado quase todos os estados do Brasil, o que é pouco provável. Talvez não tenha se aventurado pelo interior da floresta, como dizia. No entanto, conseguiu captar o mistério das densas matas, a flora e a fauna do Amazonas. Uma coisa é certa: Villa-Lobos era um intuitivo, bastava-lhe uma simples visita a um determinado lugar e já compreendia o folclore e os costumes da região, anotava a melodia e depois a transmutava na complexidade instrumental da orquestra ou nas diversas formações camerísticas. Quando ouvimos o Quarteto de Cordas No. 6 quase podemos tocar a umidade da selva escura; quando ouvimos o Choros No. 10 e os poemas sinfônicos que tratam da Amazônia, sentimos o canto do azulão e do uirapurú; nas Bachianas 3 e 4 é nítida a presença do pica-pau e da araponga. É só fecharmos os olhos, aguçarmos o ouvido para termos a certeza: Villa esteve lá, sentiu todos esses sons, mesmo que por alguns instantes. Ou talvez tenha sentido tudo somente na imaginação, com o ouvido e os olhos da alma? Todos sabem que é característica da arte essa magia, a de abolir o tempo e o espaço e transformar o imaginário em real.

Levando em conta esse dom de vivenciar os lugares, podemos compreender que Villa-Lobos é o Rio de Janeiro, é a Amazônia, é o sertão nordestino, é campo e cidade, é metrópole e aldeia, é quarteto de cordas e flauta indígena, é violoncelo erudito, maracá, chocalho e reco-reco, é choro e modinha trajando casaca nos palcos do mundo. Por meio de estruturas não convencionais e timbres ousados o compositor nos conta do gingado mole do caipira das roças mineira e paulista, do arguto capadócio carioca conversando nos botequins e jogando bilhar; mostra-nos os índios dançando nas tabas e o sacolejante trenzinho percorrendo planícies, colinas e vilarejos do interior. E, de repente, no meio de uma peça de sonoridade áspera surgem o folclore do nordeste, do centro-oeste, do sudeste, do norte e do sul, o som e as danças da terra: a embolada, o martelo, a catira, a quadrilha. Não é novidade afirmar que a música de Villa-Lobos é riquíssima, pois é reflexo da multifacetada cultura brasileira!

Não apenas no Choros No.5 deveria constar o subtítulo Alma Brasileira. Em Villa-Lobos transparece a todo instante a essência da alma de nosso povo: afável, ora dinâmica ora indolente. O compositor nos mostra, principalmente na terna melodia de algumas peças, a capacidade que o brasileiro tem de sorrir nas adversidades e de receber com afeto todos os povos da terra. Exemplos exatos são os Prelúdios para Violão.

É correto dizer que Villa-Lobos não é apenas o folclore; antes, é o Brasil em música. E mais: trata-se de música nacionalista que avançou fronteiras, tornando-se arte universal, respeitada em todos continentes. Continua moderna, porém comunicativa. Não se apóia em ruídos. Todos podem entendê-la; alguns, com um pouco de esforço, mas o resultado é sempre gratificante, porque, como disse Beethoven, certa vez: “é arte do coração para o coração.”


Foto: Pôr-do-sol no rio Amazonas.
(direitos de Juliano de Alencar Vasconcelos)


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Aqui, algumas das mais importantes e populares peças do grande Villa na interpretação maravilhosa da pianista Clara Sverner.

A peça que dá título ao CD, e ponto alto da gravação, é o Choros No. 5, com o subtítulo de Alma Brasileira, talvez a obra-prima do compositor no gênero. E prestem atenção no ritmo indolente que Clara Sverner consegue em A Lenda do Caboclo, e a maneira como capta a beleza da Valsa da Dor e a sutileza como interpreta a suíte impressionista A Prole do Bebê! Também digna de nota é a leitura da pianista nesta versão original da Bachianas Brasileiras No. 4. Mas, dentre todas, a minha preferida é Impressões Seresteiras. Como adoro essa peça que pertence ao famoso Ciclo Brasileiro!


Download MP3: Baixar




sexta-feira, 11 de junho de 2010

Stan Getz: Blue Skies


MP3 Download - Baixar: StanGetz.BlueSkies.1982.zip


Que beleza esse álbum de Stan Getz... ! Jazz luminoso para ser ouvido quando acordamos e olhamos extasiados o lindo dia pela janela.

Muitos de nós podemos sentir o céu - concha absorvida pelo azul que abriga pássaros e nuvens. E muitos são os que percebem a música, essa luz etérea que surge da alma, perpassa objetos, madeiras, orifícios dos instrumentos e chega até nós. Não é palpável, não possui substância; ainda assim é mais sólida do que o mundo. E milagrosamente nos preenche a existência. É nessa oportunidade que devemos agradecer a Deus o nosso dom de ver e ouvir.

Também é momento de lembrarmos daqueles que não podem compreender os milhares de matizes que cobrem bordas e frestas dos seres e das coisas. E no entanto entre eles há os que caminham firmes na aparente escuridão. Porque veem, embora não enxerguem.

Momento também de refletirmos sobre aqueles que não ouvem o dó maior ou as sutilezas dos sustenidos e bemóis. Pessoas que tiveram os ouvidos lacrados pelo silêncio, e talvez na quietude em que vivem possam perceber outras sonoridades, catedrais que ondulam no vento, música que não é ouvida por aqui, inalcansável para nós.




sexta-feira, 21 de maio de 2010

Ravi Shankar: Inside the Kremlin



Pandit Ravi Shankar, que no mês passado completou 90 anos, fez de tudo em música e continua fazendo: impressionante virtuose da cítara, compositor inspirado, porta-voz da música indiana, e muito mais.

Semelhante ao versátil poeta Rabindranath Tagore, Shankar também é indiano até as raízes da alma, o que não o impediu de criar uma arte acessível e compreendida pelo restante do mundo. Talvez não seja o mais autêntico, mas com certeza é um dos mais importantes compositores da Índia, pois ele mais do que ninguém estendeu pontes sobre o oceano que divide Oriente e Ocidente. Tem sido um missionário entre a cultura dos dois mundos.

Não houve outro que influenciou tanto e tão várias gerações como Ravi Shankar, desde o seu envolvimento com o guitarrista George Harrison, que o elegeu como guru musical. Entretanto, muito antes dos anos 60 e 70, antes da idealização de beatniks e hippies este admirável e incansável músico busca a dispersão dos horizontes, e cria suas obras com base nos elementos folclóricos, populares, eruditos e religiosos de seu vasto e antiquíssimo país, às vezes mesclando-os com o som de outros povos. Compõe as tradicionais ragas, talas e mantras para serem executadas na cítara, tablas, sarangi, bansuri e outros instrumentos típicos, e também utiliza a orquestra completa da música ocidental com as cordas, sopros e percussão.

Alguma autenticidade de seu próprio país acaba perdida nessa divulgação incessante, mas por outro lado desperta e conquista novos ouvintes. É preciso constatar ainda que Shankar já tocou e gravou com músicos e grupos dos mais variados genêros musicais: pop, rock, jazz e instrumentistas da música clássica antiga e moderna. E quando o compositor resolve facilitar, não se inibe até mesmo em misturar ragas e talas com canção pop para as pessoas cantarolarem nas ruas. Não obstante, a parte da obra realmente erudita do compositor é àspera e de difícil acesso.

Com o mesmo entusiasmo que o movimento hippie da década de 60 recebeu a música oriental de Shankar, hoje os idealistas da Nova Era reconhecem no grande citarista o precursor da fusão oriente-ocidente, que poderá ser a essência das artes e da música do século XXI: o cerebralismo a serviço da espiritualidade, o encontro ecumênico de todas crenças, a Unidade de todas as artes, porém sem a extinção da individualidade que faz com que cada pessoa e cada pensamento sejam únicos e ao mesmo tempo ligados pelos fios da teia Universal.

Ravi Shankar tem adquirido enorme respeito e prestígio ao longo de sua vida. Em 1988, a convite dos dirigentes da Rússia, foi o ilustre convidado em um concerto que encerrava o Festival Indiano, contando com mais de 140 músicos, ocasião em que foram executadas 7 peças, todas de autoria de Shankar, algumas com direito ao improviso como Bahu-Rang.

Esse evento pode ser confirmado neste álbum ao vivo, Inside the Kremlin, uma emocionante fusão da música indiana e do folclore russo, executados pelo grupo de Ravi Shankar e um conjunto da Rússia, acompanhados pela orquestra de Moscou e pelo coro do Ministério da Cultura da USSR. Uma apresentação única, mas graças ao registro em disco continua a nos presentear com sensações mágicas repetidas vezes.

Observem na peça Three Ragas in D minor a homenagem de Ravi Shankar a Rimsky-Korsakov, inserindo entre as ragas motivos russos e recriando na orquestração a mesma atmosfera de um dos movimentos de Sheherazade. E por que especificamente esse compositor russo? Porque ele também fundiu ocidente e oriente em algumas de suas principais obras.

Já a peça Bahu-Rang é legítima música clássica indiana, mas há momentos em que os mantras místicos da Índia soam simultaneamente com as danças campesinas eslavas, tocadas por cítaras e balalaikas. Enfim, uma oportunidade de ouvirmos dois países que sempre ofereceram um riquíssimo folclore ao mundo. Maravilhoso!



Download MP3 - Baixar: 
Shankar.InsideTheKremlin.Part1.zip 
Shankar.InsideTheKremlin.Part2.zip

terça-feira, 13 de abril de 2010

Ravel: Obra Completa para Piano Solo - Jean-Efflam Bavouzet


Ravel: Obra Completa para Piano Solo,
por Jean-Efflam Bavouzet
2 CDs - 2004 - 320 kbps

Volume 1:
Garpard de la Nuit
Jeux d’Eau
Sonatine
Miroirs

Volume 2:
Le Tombeau de Couperin
Prelude
Serenade Grotesque
A la Manière de... Borodin
A la Manière de... Chabrier
Menuet Antique
Menuet sur le Nom de Haydn
Valses Nobles et Sentimentales
Pavane pour une Infante Defunte

Download MP3 - Baixar:
Volume 1: Ravel.CompletePiano.Vol1.Bavouzet.zip
Volume 2: Ravel.CompletePiano.Vol2.Bavouzet.zip


quarta-feira, 31 de março de 2010

Debussy: Obra Completa para Piano Solo - Jean-Efflam Bavouzet


Debussy: Obra Completa para Piano Solo,
por Jean-Efflam Bavouzet
5 CDs - 2006-2009 - 160 kbps

Volume 1:
24 Prèludes
Les soirs illumines par l’ardeur du charbon
Volume 2:
Ballade Slave
Valse Romantique
Danse “Tarantelle Styrienne”
Images Oubliées
Estampes
Pour le Piano
Masques
L’Isle Joyeuse
D’un Cahier d’Esquisses
Volume 3:
Nocturne
Suite Bergamasque
Danse Bohemienne
Arabesques
Revêrie
Mazurka
Children’s Corner
Hommage a Haydn
Morceau de Concours
La Plus Que Lente
The Little Nigar
Page d’Album: Pièce pour le Vetement du Blesse
Berceuse Heroique
Elegie
Volume 4:
Images, Livre I
Images, Livre II
12 Études
Étude retrouvée

Volume 5:
Khamma (version for piano)
Jeux (version for piano)
La Boîte a Joujoux


Download MP3 - Baixar: 
Volume 1: Debussy.CompletePiano.Vol1.Bavouzet.zip
Volume 2:
Debussy.CompletePiano.Vol2.Bavouzet.zip
Volume 3:
Debussy.CompletePiano.Vol3.Bavouzet.zip
Volume 4:
Debussy.CompletePiano.Vol4.Bavouzet.zip
Volume 5: Debussy.CompletePiano.Vol5.Bavouzet.zip

terça-feira, 30 de março de 2010

Semana Santa - A Música da Renascença: Lassus, Palestrina e Victoria



As Lamentações, geralmente atribuídas ao profeta Jeremias, são cinco poemas elegíacos, talvez escritos no período da destruição de Jerusalém por Nabucodonosor, no século VI a.C. Comentam a triste condição de Israel: o templo em ruínas e a escravidão, porque o próprio povo tornara-se infiel à Aliança com Deus.

De forma que judeus e cristãos utilizam hoje as Lamentações de Jeremias em momentos litúrgicos de pesar, relembrando fatos de importância da História: os judeus, nos dias de jejum, sofrendo em memória da Jerusalém destruída; os cristãos, na Semana Santa, quando reconstituem a dor de Cristo no Horto das Oliveiras e no martírio do Calvário.

Lassus: Hieremiae prophetae Lamentationes
 Palestrina: Lamentationes Ieremiae prophetae
Victoria: Tenebrae Responsories


A profundidade dramática dessas três obras-primas continua mais viva do que nunca. São apresentadas frequentemente durante a Semana Santa nos mais variados templos cristãos. É música sublime, capaz de comover até as pedras. Não há outra definição mais exata.

De genialidade incontestável, Lassus, Palestrina e Victoria continuam os maiores compositores da Renascença (incluiria William Byrd nesta plêiade). Suas obras foram escritas há quase 500 anos , mas a beleza que há nelas vive, e exerce fascínio até os dias atuais. Pela elaboração artística e pelo conteúdo humano está no mesmo nível da música de Monteverdi, Bach, Handel, Haydn, Mozart e Beethoven.

Para este breve comentário, tomo de empréstimo as palavras do grande crítico literário Otto Maria Carpeaux, que também foi historiador musical. Escreveu apenas um livro sobre o assunto : Uma Nova História da Música, facilmente disponível em publicação popular da Ediouro. É um excelente e valioso "resumo" sobre a música do Ocidente, indispensável na estante dos estudiosos do tema.