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quinta-feira, 2 de julho de 2009

Hermann Hesse: Poemas Escolhidos


"A cada chamado da vida o coração
deve estar pronto para a despedida e para
novo começo, com ânimo e sem lamúrias,
aberto sempre para novos compromissos.
Dentro de cada começar mora um encanto
que nos dá forças e nos ajuda a viver."


 Foto: ano de 1920. 
Hesse caminhando pela região da aldeia de Montagnola, 
no Ticino, época em que iniciava o romance Sidarta.



Comemora-se hoje o nascimento do grande escritor Hermann Hesse. Ano de 1877, em Calw, pequena cidade do estado de Württemberg, sul da Alemanha.

No início do século, Peter Camenzind (1904), primeiro romance do autor, fez grande sucesso na Alemanha, devido ao tom lírico da obra. O realismo e o excessivo naturalismo imperavam na época e saturavam pelo estilo seco. A narrativa de Hesse, evocando a atmosfera bucólica de montanhas e pequenas cidades, fez reviver um passado medieval e romântico, tão caro aos alemães. Foi uma novidade, o que resultou em fenômeno de vendas. Em 1906 publicou o segundo romance Sobre as Rodas. Este não repetiu o sucesso do primeiro. Em Peter Camenzind o personagem central era um poeta. Talvez por isso, pelo tema ter agradado tanto os leitores, escreveu mais dois romances sobre artistas: Gertrude (1910) ambientado no mundo da música, e Rosshalde (1914), sobre um pintor.  Dos três o último é o melhor realizado, enquanto obra de ficção, embora tenha nítidos traços autobiográficos. Na época Hesse vivia os mesmos problemas familiares. Criador e personagem, artistas bem sucedidos, porém fechados em si mesmo. Ambos perdem-se da esposa devido à incomunicabilidade humana. Diga-se de passagem, estas obras receberam o aplauso dos leitores e estabilizaram a vida financeira do autor.

A ficção neo-romântica de Hesse mudou radicalmente no confronto espiritual com a guerra de 1914. Com pseudônimo, em 1917, publicou Demien, que foi um marco para a geração do pós-guerra. E ainda hoje é visto como o mais significativo romance do movimento expressionista. Além do valor artístico e histórico, a obra é também considerada a maior contribuição de Hermann Hesse à literatura, pois nessa data foi introduzida pela primeira vez o tema da psicanálise, ciência surgida de Freud e ampliada por Jung. Em 1922 apareceu Sidarta, romance-poema, uma das obras mais amadas de Hesse, pela sabedoria oriental que soube tão bem adaptar aos problemas existenciais de cada um. Mas a maior contribuição do autor à literatura propriamente dita, e que o tornou conhecido no mundo todo, foi o sétimo romance O Lobo da Estepe, de 1927, obra experimental, considerada por muitos como obra-prima do mesmo valor de romances inovadores do período entre-guerras: Em Busca do Tempo Perdido de Proust; Ulisses de Joyce; O Processo de Kafka; A Montanha Mágica de Mann; Passeio ao Farol de Virginia Woolf, Os Moedeiros Falsos de Gide; O Som e a Fúria de Faulkner; e O Homem Sem Qualidades de Musil. Assim é O Lobo da Estepe: trata-se de obra completamente diferente das anteriores, tanto pelo tom seco e amargo, como pela técnica literária labiríntica. E chega a ser profética, pois antevê os horrores da segunda guerra, que eclodiria na década seguinte. Em 1930 é publicado Narciso e Goldmund, outro grande romance que também utiliza a psicanálise de maneira rica e profunda, além de vários recursos e temas de obras anteriores: transcorre em um passado distante, talvez medieval, e o personagem também é artista, um escultor.

Por fim, após 12 anos, em 1943 publica o nono romance O Jogo das Contas de Vidro, muito mais extenso do que todos os outros e muito mais elaborado. Desta vez, a história se passa em um país hipotético de um futuro distante. A obra é magistral, várias vezes comparada ao Wilhelm Meister de Goethe. Trata-se do último romance de Hesse. Ao menos, no campo da Ficção é o seu Testamento literário. O autor ainda viveu 20 anos após o lançamento. Publicou outros gêneros, mas nenhum outro romance.

Os leitores e a crítica se dividem, quando tentam destacar dentre esses nove romances o maior de Hermann Hesse. Metade diz que é O Lobo da Estepe; a outra, afirma categoricamente que é O Jogo das Contas de Vidro. Em verdade, é uma tarefa difícil. E não há necessidade de confronto, pois obra artística não é nenhum competidor almejando a primeira posição do pódio. Cada leitor escolhe aquela com a qual mais se identifica. Para mim, a maior obra de Hesse não é nenhuma das duas mencionadas. Escolho Sidarta, que tem sido, desde a adolescência, um de meus guias espirituais imprescindíveis. Sinto uma enorme gratidão pelo autor por ter escrito essa dádiva de sabedoria. Aprecio também, particularmente, a forma como foi escrito: não deixa de ser um romance, mas é sobretudo um poema em prosa; utiliza a cadência e a sonoridade sensual da poesia hindu, atingindo em alguns pontos a mística dos hinos védicos, tudo isso somado às características dos líricos alemães, Eichendorff e Mörike, que Hesse tanto amava.
 
No contexto, devemos ainda mencionar algumas narrativas curtas no gênero da ficção: as novelas Knulp (1915) e Viagem ao Oriente (1932), e os maravilhosos contos Na Velha Estalagem do Sol, Bela é a Juventude, Augusto e Encarnação Hindu; este último inserido em O Jogo das Contas de Vidro. Na área da não-ficção há os 3 ensaios de Olhar sobre o Caos (1923), tão admirados por T. S. Eliot, e os artigos pacifistas coletados em Sobre a Guerra e a Paz (1946), de valor histórico. E, por fim, recordo-me daquelas pequenas obras que Hesse publicou ao longo  da vida, contendo prosa intimista e versos ilustrados com suas próprias aquarelas expressionistas. Caminhada (1920) é um desses pequenos grandes livros, talvez o mais encantador, o mais amado pelos leitores da obra hessiana.

Hesse tornou-se famoso mundialmente como romancista. Contudo, e é fato curioso, apesar da importância da prosa de ficção, não foram os romances e sim a poesia que escreveu durante a vida toda, paralelamente à prosa, que lhe concedeu o grande Prêmio Nobel de Literatura. Os organizadores da Academia Sueca preferiram premiar o autor pelo livro As Poesias de 1942, que é o conjunto de todos os poemas escritos, desde 1898 até aquela data, porque reconheceram que a obra poética do autor alemão “é atemporal e sobreviverá à ficção”.

É opinião deles. A maioria dos críticos não concorda. Sem dúvida, a poesia de Hesse é muito bela e sensível, mas é a parte mais tradicional de sua obra. Seria um epígono se não tivesse personalidade. Salvo em algumas ocasiões, nos versos escritos durante as crises existenciais, toda a lírica hessiana é um eco do romantismo de meados do século anterior a ele. Nesse sentido, o autor é mesmo o legítimo herdeiro dos grandes poetas românticos do século XIX: Joseph Einchendorff e Edouard Mörike.

A poesia de Hermann Hesse é muito conhecida nos países de língua alemã. O autor, enquanto poeta, é considerado 'clássico' e seus versos fazem parte, há tempos, dos currículos escolares da Alemanha. No entanto, apenas alguns poemas aparecem com frequência em antologias européias e mundiais.

Como homenagem a esse grande escritor, que jamais será esquecido, tanto pela ficção quanto pela poesia, transcrevo aqui alguns de meus poemas preferidos. Em honra à sua memória, escolho a poesia, porque Hermann Hesse se considerava antes de tudo um poeta, um lírico alemão. Ele mesmo, na idade de 14 anos, disse: “Serei poeta ou nada.” E completou, na velhice: “Escrevo romances por ocasião; poeta sou, por vocação.” O grande Thomas Mann, que considero o maior escritor do século XX, amigo de Hesse, gostava de compará-lo a um 'rouxinol suábio' pela delicadeza musical de seus textos. Tinha toda a razão.

E, da mesma forma, somos imensamente gratos ao poeta brasileiro Geir Campos que traduziu esses versos, captando com mestria o ritmo e a essência lírica de Hesse.



Sorte

Enquanto vives perseguindo a sorte,
não estás pronto para ser feliz,
ainda que seja teu o que mais queres.

Enquanto te lamentas do perdido,
e tens metas e não te dás descanso,
não podes saber o valor da paz.

Só quando a todo anelo renuncias,
sem objetivos nem desejos mais,
e já não dás à sorte qualquer nome,

já a maré dos eventos não te atinge
o coração, e se acalma tua alma.

(em “No Caminho”, 1911)

Ramo em Flor

Para cá e para lá
sempre se inclina ao vento o ramo em flor,
para cima e para baixo
sempre meu coração vai feito uma criança
entre claros e nebulosos dias,
entre ambições e renúncias.
Até que as flores se espalham
e o ramo se enche de frutos,
até que o coração farto de infância
alcança a paz
e confessa: de muito agrado e não perdida
foi a inquieta jogada da vida.

(em “Música da Solidão”, 1915)

A Meu Irmão

Quando revemos nossa casa, agora,
andamos encantados pelos cômodos,
ficamos longo tempo no jardim
onde – meninos levados – brincávamos.

E de todos os outros esplendores
que pelo mundo afora conquistamos,
nenhum mais nos alegra nem agrada
quando o sino da igreja faz-se ouvir.

Calados repisamos velhas trilhas
cruzando o verde terreno da infância:
e elas no coração tornam-se vivas,
grandes e estranhas, como um belo conto.

Mas tudo o que estaria à nossa espera
já não há de ter mais o puro brilho
de outrora – quando, ainda rapazolas
no jardim caçávamos borboletas.

(em “Música da Solidão”, 1915)

A Noite

Rescende a flor na várzea,
longínqua flor da infância
que só de raro em raro ao sonhador
abre o velado cálice
e deixa ver – cópia do sol – seu interior.
Por cima das cordilheiras azuis
cega a noite vagueia
puxando sobre o seio a veste escura:
sorrindo esparze a esmo
sua dádiva – o sonho.
Curtidos pelo dia, em baixo dormem
os homens: têm os olhos
cheios de sonhos,
alguns viram o rosto suspirando
para as flores da infância
cujo aroma os atrai de leve na penumbra,
e ao severo chamado paternal do dia
confortados se alheiam.
Para o exausto, é um alívio
refugiar-se nos braços da mãe
que os cabelos do sonhador alisa
com mãos despreocupadas.
Somos crianças, logo nos fatiga o sol
- ainda que seja para nós destino e futuro sagrado –
e tombamos a cada anoitecer
pequeninos de novo no regaço da mãe,
balbuciamos palavras da infância,
palpamos o caminho do regresso às origens.
Também o pesquisador solitário
que para o vôo ao sol se propusera
vacila, também ele, à meia-noite
voltado para o ponto de partida longe.
E o que dorme, quando um pesadelo o desperta,
confusa a alma, pressente no escuro
a hesitante verdade:
toda corrida, para o sol ou para a noite,
conduz à morte, leva a novo nascimento,
dores que a alma receia.
Mas seguem todos o mesmo caminho:
todos morrem e tornam a nascer,
porque a eterna mãe
devolve-os eternamente ao dia.

(em “Poesias Escolhidas", 1921)

Sonhando Contigo

Às vezes quando me deito
e meus olhos se fecham,
com a chuva batendo na cornija
os seus dedos molhados,
tu vens a mim,
esguia corça hesitante,
dos territórios do sonho.
Então andamos ou nadamos ou voamos
por entre bosques, rios, bandos de animais,
estrelas e nuvens com tintas de arco-íris:
tu e eu, a caminho da terra de origem,
rodeados de mil formas e imagens do mundo,
ora na neve, ora ao fogo do sol,
ora afastados, ora muito juntos
e de mãos dadas.

Pela manhã o sono se dissipa,
afunda dentro de mim,
está em mim e já não é mais meu:
começo o dia calado, descontente e irritadiço,
porém algures continuamos a andar,
tu e eu, rodeados de coleções de imagens,
a interrogar-nos entre os encantos da vida
que nos embroma sem saber mentir.

(em “Consolo da Noite”, 1929)

Ao Poeta Indiano Bhartrihari

Igual a ti, ancestre e irmão, também vou eu
entre o espírito e o instinto, em zigue-zague:
hoje sábio, doido amanhã, hoje de todo
entregue a Deus, amanhã ao ardor da carne.
Com ambos os açoites vou me flagelando
em sangue os costados: volúpia e penitência
- monge ou estróina, pensador ou bestial.
A culpa do existir em mim pede perdão.
Hei de pagar pecados em ambos caminhos,
em ambos fogos ardendo me aniquilar.

Os que me veneravam ontem como santo,
hoje em mim vêem um perdido libertino;
os que comigo chafurdavam na sarjeta
ontem, hoje me vêem jejuar e orar;
e todos cospem de lado e fogem de mim
- o amante falso, sem decoro e dignidade.
Em minha coroa de espinhos eu também
trago, entre as rosas rubras, a flor do desdém.

Hipócrita palmilho um mundo de aparências,
malquisto por vós e por mim, para as crianças
um monstro – e sei que qualquer ação, vossa ou minha,
perante Deus pesa menos que o pó ao vento.
E sei mais: nesta senda inglória de pecado
me sopra o bafo de Deus e eu devo agüentá-lo,
devo abusar – cada vez mais culpado, no êxtase
do prazer ou na proscrição dos meus malfeitos.
Qual o sentido desta agitação, não sei:
com as imundas e perversas mãos esfrego
o pó e o sangue do meu rosto – e bem ou mal
este caminho hei de levar até o final.

(em “Consolo da Noite”, 1929)

No Castelo de Bremgarten

Quem um dia plantou os velhos castanheiros,
quem um dia bebeu a água a esguichar da fonte,
quem um dia dançou no salão enfeitado
- foram-se todos, esquecidos e enterrados.

Hoje é a nossa vez: para nós brilha o dia
e cantam para nós alegres passarinhos,
sentamo-nos à mesa e sob a luz das velas
brindamos ao dia que é para nós eterno.

Quando nos formos e estivermos esquecidos,
nas árvores altas ainda se há de escutar
o gorjeio do melro e o cântico do vento,
e lá em baixo entre as pedras o rio a espumar.

No vestíbulo, na hora do grito noturno
do pavão, hão de estar aqui outras pessoas:
falarão, louvarão a maravilha da hora,
embandeirados barcos estarão passando,
e o eterno presente há de rir como agora.

(em “Novas Poesias”, 1937)

Andares

Como emurchece toda flor, e toda idade
juvenil cede à senil – cada andar da vida
floresce, qual a sabedoria e a virtude,
a seu tempo, e não há de durar para sempre.

A cada chamado da vida o coração
deve estar pronto para a despedida e para
novo começo, com ânimo e sem lamúrias,
aberto sempre para novos compromissos.
Dentro de cada começar mora um encanto
que nos dá forças e nos ajuda a viver.

Devemos ir contentes, de um lugar a outro,
sem apegar-nos a nenhum como a uma pátria:
não nos quer atados, o espírito do mundo
- quer que cresçamos, subindo andar por andar.
Mal a um tipo de vida nos acomodamos
e habituamos, cerca-nos o abatimento.

Só quem se dispõe a partir e a ir em frente
pode escapar à rotina paralisante.
É bem possível que a hora da morte ainda
de novos planos ponha-nos na direção:
para nós, não tem fim o chamado da vida...
Saúda, pois, e despede-te, coração!

(em “Andares”, 1961)

Rabisco na Areia

Que encantamento e beleza
sejam brisa e calafrio,
que o delicioso e bom
tenha escassa duração
- fogo de artifício, flor,
nuvem, bolha de sabão,
riso de criança, olhar
de mulher no espelho, e tantas
outras coisas fabulosas
que, mal se descobrem, somem –
disso, com pena, sabemos.
Ao que é permanente e fixo
não queremos tanto bem:
gemas de gélido fogo,
ouros de pesado brilho,
por não falar nas estrelas
que tão altas não parecem
transitórias como nós
e não calam fundo na alma.
Não: parece que o melhor,
mais digno de amor, se inclina
para o fim, beirando a morte,
e o que mais encanta – notas
de música, que ao nascerem
já fogem, se desvanecem –
são brisas, são águas, caças
feridas de leve mágoa,
que nem pelo tempo de uma
batida de coração
deixam-se reter, prender.
Som após som, mal se tocam,
já se esvaem, vão-se embora.
Nosso coração assim
leal e fraternalmente
se entrega ao fugaz, ao vivo,
não ao seguro e durável.
Cansa-nos o permanente
- rochas, mundo estelar, jóias –
a nós, transmutantes, almas
de ar e bolhas de sabão,
cingidos ao tempo, efêmeros
a quem o orvalho na rosa,
o idílio de um passarinho,
o fim de um painel de nuvens,
fulgor de neve, arco-íris,
borboleta que esvoaça,
eco de riso que só
de passagem nos alcança,
pode valer uma festa
ou razão de dor. Amamos
o que é semelhante a nós,
e entendemos os rabiscos
que o vento deixa na areia.

(em “Andares”, 1961)


Foto acima, ano de 1920, Hesse caminhando na região da
aldeia de Montagnola, no Ticino, período em que escrevia
Sidarta.

Abaixo, em 1927, ano da publicação de O Lobo da Estepe.

















Hermann Hesse (1877-1962)

segunda-feira, 6 de abril de 2009

Hermann Hesse: Caminhada



Muitos escritores sofreram com a guerra. Hermann Hesse foi um deles. Em 1914 foi acusado de traidor da pátria porque escreveu um artigo pedindo aos concidadãos que abraçassem a paz. Foi um ato ingênuo, principalmente em um momento daqueles, quando todos os alemães estavam embuídos de glória nacional, orgulhosos pelo revide à ofensiva política que sofrera a nação. Por esse ato pacífico Hesse perdeu os amigos e o respeito da maioria dos leitores. Como se não bastasse, a esposa enlouqueceu e ele próprio enfrentou grave crise nervosa. Então, extremamente pobre e sem qualquer recurso para a sobrevivência em um país assolado pela depressão e inflação do pós-guerra, preferiu se exilar. Escolheu o sul da Suiça. Instalou-se na aldeia de Montagnola, próxima a Lugano. Naqueles anos teve momentos de fome, e na maioria das vezes alimentava-se apenas de macarrão branco. Depois, no período da segunda guerra, já cidadão suiço, acolheu judeus e vítimas da perseguição nazista. Por isso suas obras foram proibidas e queimadas em praça pública pelos adeptos de Hitler. De forma que, mesmo distante, continuou sofrendo agrúrias por problemas políticos.

Assim que passou toda a loucura bélica, e a sua antiga pátria havia perdido a guerra pela segunda vez, Hesse foi cumulado de condecorações, confessavam que ele estivera certo desde a primeira vez por defender a paz. Em 1946, a Alemanha ofereceu-lhe a premiação máxima a um literato: o Prêmio Goethe. No mesmo ano a Suécia concedeu-lhe o Prêmio Nobel. Mas Hermann Hesse já estava sábio o suficiente para não sentir grande entusiasmo diante de todas essas honrarias. Já havia aprendido muito sobre a insensatez humana, que hoje cospe e apedreja, amanhã abraça e estende louros. Aceitou os dois importantes prêmios somente pelo respeito que tinha pela literatura alemã, mas no fundo do íntimo compreendia que a única Pátria que havia conquistado era o Reino atemporal do Espírito, que existe na alma somente daqueles que se encontram consigo mesmo.

Em 1919, na viagem de despedida, deixando para trás as terras suiças de cultura alemã, rumo ao cantão do sul próximo à Itália, Hermann Hesse escreveu em seu caderno notas descritivas das paisagens e os pensamentos que lhe surgiam no percurso a pé pelos caminhos. Esse pequeno livro, publicado em 1920, com o título de Wanderung (Caminhada), é uma das obras de Hesse que mais amo. Dela retirei os três textos abaixo. São palavras sinceras e comoventes, ainda mais se lembrarmos que foram escritas por um homem que havia perdido de uma única vez a esposa, os amigos, o lar e a pátria. E nem por isso perdeu a fé.

O Desfiladeiro

O vento sopra nesse pequeno e corajoso caminho. Já não existem árvores ou arbustos, só o musgo e a rocha crescem aqui. Por aqui ninguém tem nada para procurar, ninguém tem propriedade. Aqui no alto, o camponês não tem nem feno, nem madeira. É o longínquo que atrai, a saudade que queima, foi ela que entre as rochas formou esse pequeno caminho, entre pântano e neve, levando para outros vales, outras casas, outras línguas e outra gente.

Bem no alto do desfiladeiro, eu paro. O caminho aqui desce para os dois lados, a água corre para ambos os lados e o que aqui em cima se une, palmo a palmo, leva seu rumo para dois mundos. Essa pequena poça, aqui junto do meu pé, corre para o norte. Sua água desce a longínquos, frios oceanos, mas logo ali, esse pequeno resto de neve vai pingando para o sul. Sua água, descendo pelas costas da Ligúria ou do Adriático, chega até o mar que se delimita com a África. Mas, na verdade todas as águas do mundo se encontram e é no úmido vôo de uma nuvem que o Ártico e o Nilo se fundem. A bela e antiga parábola santifica meu instante. Também a nós, viajantes, qualquer caminho conduz para casa.

Meu olhar ainda tem opção: tanto o norte, como o sul, lhe pertencem, a cinquenta passos, porém, só me restará aberto o sul. Como respira cheio de segredos, com seus vales azulados! Como é forte o bater do meu coração a ele me entregando! É o prenúncio de lagos e de jardins, e o olor de vinho e amêndoa sobe até aqui em cima. Antigo e santo mito de saudade e peregrinação a Roma!

Recordações da juventude ressoam em mim como o repicar de sinos em vales distantes: o extâse da primeira viagem ao sul, o inspirar inebriante do generoso ar dos jardins às margens dos lagos azulados, ao entardecer espreitar até a longínqua pátria através dos picos nevados das montanhas que empalideciam! A primeira prece defronte às santas colunas da antiguidade! A primeira e fabulosa visão do mar espumante batendo-se contra as rochas escuras!

O êxtase já não sinto, nem mais o desejo de mostrar a todos os meus entes queridos esse maravilhoso desconhecido e toda minha felicidade. Em meu coração não habita mais a primavera, já é verão. É diferente o tom da saudação do estranho que chega até a mim, em meu peito o seu eco ressoa bem mais baixinho. Já não jogo o meu chapéu para o alto, nem canto nenhuma canção, mas sorrio, não só com a boca, mas com a alma, com os olhos, com todo o meu ser e ofereço para essa terra, cujo perfume sobe até mim, sentimentos bem diversos dos de outrora, mais sensíveis, mais perspicazes e experientes, porém mais calmos e mais agradecidos. Hoje, tudo isso me pertence muito mais do que antes, chega a mim com muito maior riqueza e colorido. A minha saudade já não falsifica as cores do desconhecido, meus olhos se satisfazem com aquilo que ali está, pois já aprenderam a ver e o mundo ficou mais belo do que outrora.

Sim, o mundo está mais belo e eu estou só, mas não sofro em ser só. Não desejo nada diferente. Estou disposto a deixar-me assar pelo sol, estou ansioso em amadurecer. Estou pronto para a morte, pronto para renascer, pois o mundo ficou mais belo.

O Lago, a Árvore e a Montanha

Era uma vez um lago azul sobre o qual, céu azul adentro, erguia-se verde e amarela uma árvore na primavera e além das ondulantes montanhas o céu descansava quieto.

Um viajante estava sentado ao pé da árvore e pétalas amarelas caíam-lhe sobre os ombros. Ele estava cansado e fechara seus olhos, a árvore amarela cobria-o de sonhos.

O viajante retornara à infância, era de novo um menino que ouvia, atrás de sua casa, a mãe a cantar e fitava uma borboleta amarela esvoaçar docemente, era de um amarelo alegre contra aquele céu azul. Então, começou a correr atrás dela pelos prados, pelo riacho até o lago onde em seu vôo alto passou por sobre a límpida água. Aí o menino voou atrás dela com um flutuar leve, fácil, novo e feliz dentro daquele espaço azul. O sol brilhava em suas asas e ele sobre o lago, acima das montanhas continuava a voar atrás do amarelo. Lá no alto, pousado numa nuvem, estava Deus rodeado pelos anjos cantando. Um dos anjos lembrava muito sua mãe. Ele segurava um regador, inclinando-o sobre um canteiro de tulipas, para que todos pudessem beber. Foi para junto dele que o menino-anjo voou, abraçando-o.

O viajante esfregara os olhos fechando-os novamente. O menino-anjo trazia uma tulipa vermelha e prendeu-a sobre o busto da mãe, uma outra colocou em seus cabelos, então voaram todos, anjos, borboletas, animais, pássaros e peixes que lá estavam. Quem o menino chamasse para junto de si vinha voando até suas mãos e ficava pertencendo-lhe, deixando acarinhar-se, interrogar e ser mandado embora.

O viajante despertara e pensava nos anjos. Ouvia o leve murmúrio das folhas da árvore e a calma e quieta vida subir e descer em douradas correntes pelo seu caule. A montanha o fitava e lá coberto num manto marrom, debruçara-se Deus e cantava. Suas canções era possível ouvir por todo lado cristalino do algo, eram singelas, e em surdina misturavam-se ao leve som do correr da seiva da árvore, ao sangue que corria em seu coração, às correntes douradas que o sonho fazia correr pelo seu ser.

Então ele mesmo principiara a cantar, devagar, longamente. Sua canção não tinha arte, era como o próprio ar, como o bater de ondas, soava como o zumbido de uma abelha, mas era a resposta para o Deus distante que cantava, para a seiva que corria pela árvore e para a canção que corria em suas veias.

Longamente, o viajante ficou assim a cantarolar, como o som da campânula ao vento da primavera e do gafanhoto entoando sua música na grama. Talvez tenha cantado toda uma hora ou todo um ano. Cantava divinamente, com singeleza. Cantava a borboleta, a mãe, a tulipa, o lago, seu sangue e a seiva da árvore.

Quando, distraído, seguiu seu caminho pela quente terra adentro, aos poucos foi se lembrando de sua meta, de seu nome, que era uma terça-feira e que lá, do outro lado, o trem corria para Milão. Agora ele só ouvia ainda um cantar que chegava de longe, do outro lado do lago, era Deus que em seu manto marrom continuava a cantar, mas pouco a pouco o som foi-se perdendo do seu alcance.

Casa Vermelha

Casa vermelha! De seu pequeno jardim e vinhedo exala todo o sul dos Alpes. Muitas vezes já passei por ti e fizeste tremer essa ânsia de andarilho em meu ser fazendo que se lembrasse do seu oposto. Uma vez mais brinco com as velhas melodias: ter uma pátria, uma pequena casa num verde jardim, silêncio ao redor e mais além a pequena aldeia. No quartinho a minha cama olharia para o amanhecer, a minha própria cama, para o sul olharia a minha mesa e lá eu penduraria a pequena e antiga Virgem Santa que comprara em Brescia em outra viagem.

Como o dia que fica entre a noite e o amanhecer, assim entre o sonho por uma pátria e essa ânsia de viajante, transcorre a minha vida. Talvez um dia eu chegue até o ponto quando a viagem e a distância se encontrarão em minha alma e então levarei em mim as suas imagens sem ter que realizá-las. Também talvez chegue o dia em que possuirei pátria em mim, então não mais terei que namorar casinhas vermelhas e jardins. Ter uma pátria dentro de si mesmo!

Como seria então outra a vida! Ela teria um epicentro da qual emanariam todas as forças.

Dessa forma, porém, a minha vida não possui epicentro algum, esvoaça trêmula entre diversos pólos e contrapolos. Saudade de um lar aqui, saudade de estar a caminho lá, uma ânsia por solidão e retiro aqui, ânsia por amor e comunidade lá! Já fui colecionador de livros e quadros e já me desfiz de tudo. Já cultivei o vício e a volúpia que me levou à castidade e ao ascetismo, cônscio venerei a vida como matéria o que me fez descobri-la só como uma função e poder amá-la.

Bem, mas minha função não é transformar-me, isso é a função do milagre, quem porém o procurar, tentar atrai-lo para junto de si, tentar forçá-lo, desse ele só fugirá. O meu propósito é ficar flutuando entre muitas tensões contraditórias, mas estar pronto para quando o milagre chegar a mim. Meu propósito é estar sempre insatisfeito e sofrer inquietação.

Casa vermelha dentro desse jardim verdejante! Eu já te vivi, não devo desejar viver-te de novo. Já tive pátria uma vez, já construí uma casa, medi tetos e paredes e fiz os caminhos pelo jardim. As paredes enfeitei com os meus próprios quadros. Todo homem possui esse instinto, feliz sou eu de já ter podido viver isso! Muitos dos meus desejos já se realizaram em minha vida: queria ser poeta e consegui, quis possuir uma casa e construi uma, quis ter mulher e filhos e os tive, quis falar aos homens e impressioná-los e consegui, mas cada desejo, rapidamente, transformara-se em saturação e ficar enfastiado eu nunca suportei. Compor poemas ficou para mim suspeito, a minha casa me tolhia, nenhuma meta alcançada era uma meta, todo caminho era um desvio e todo descanso despertava uma nova nostalgia.

Ainda terei que trilhar muitos desvios e muitas satisfações me decepcionarão, mas algum dia tudo terá um sentido, pois é lá onde os contrastes se apagam que está o Nirvana, dentro de mim porém ainda brilham as amadas estrelas da saudade.

Hermann Hesse (1877-1962)

(Ilustração: aquarela de H. Hesse)


Para quem se interessar pelo livro completo
Baixar aqui: Hesse.Caminhada.zip





sexta-feira, 6 de março de 2009

Hermann Hesse: Lenda Chinesa


Este pequeno texto foi publicado em 1959, numa revista suiça, pelo grande escritor, poeta e pintor alemão Hermann Hesse. Não se sabe se é de autoria do próprio Hesse, ou uma tradução sua de algum original chinês, já que foi um apaixonado pela cultura oriental, transcrevendo e compilando aforismos e lendas ao longo da vida. É um texto interessante e divertido, que nos incentiva a refletir sobre a (in) exatidão do real e que todos os pontos de vista possuem a sua parte de verdade.

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Conta-se de Meng Hsie:

Quando ele soube que os jovens artistas procuravam ficar de cabeça para baixo, a fim de ter uma nova perspectiva das coisas, também Meng Hsie se submeteu imediatamente a esse exercício, e após tê-lo experimentado por algum tempo, disse a seus discípulos:

“De maneira nova e mais bonita o mundo se espelha em meus olhos, quando fico de cabeça para baixo.”

Isso se divulga e os renovadores entre os jovens artistas orgulharam-se bastante dessa confirmação, pelo velho mestre, de suas experiências. Sendo que ele era conhecido como bastante lacônico e educara seus discípulos mais por sua presença e seu exemplo que por ensinamentos, qualquer pronunciamento dele era levado em conta e divulgado.

E logo depois que aquelas palavras tinham encantado os renovadores, porém causado estranheza e até ira em muitos velhos, tornou-se público um outro de seus ditos. Ele se teria ultimamente, assim se contou, manifestado dessa maneira:

“Que bom que o homem tenha duas pernas! Estar de cabeça para baixo não é bom para a saúde e, quando se erguer aquele que estava de cabeça para baixo, o mundo se espelha duplamente lindo nos olhos do homem que está de pé.”

Essas palavras do mestre causaram escândalo tanto nos jovens de cabeça para baixo que se sentiram por ele traídos ou ironizados, como também aos mandarins.

“Hoje”, disseram os mandarins, “Meng Hsie afirma isso e amanhã o contrário. Mas é impossível que existam duas verdades. Assim, quem poderá ainda levar a sério o velho que se tornou insensato?”

Foi denunciado ao mestre como os renovadores e os mandarins dele falavam. Ele apenas riu.

E como os seus pediram dele uma explicação, ele disse:

“Existe a verdade, ó adolescentes, e essa não pode ser abalada. Verdade, porém, a saber, opiniões sobre a realidade, expressas por palavras, há inúmeras, e cada uma é tão certa quanto é errada.”

Apesar de todos os esforços envidados, os discípulos não conseguiram obter dele maiores explicações.