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sexta-feira, 7 de setembro de 2018

Brasil. Pátria amada




Brasil. Pátria amada,
ensolarada e festiva!
País alegre do carnaval e do futebol,
do samba, das praias
e das elegantes mulatas.
As nações recordam e choram
a tua decadência.

Onde está a música popular
de outrora,
rica e festejada?
os chorinhos, os maracatus,
as modinhas das cidades?
as modas, as catiras,
os causos das roças e vilarejos?
Miscigenadas,
superficializadas,
globalizadas.
Pixinguinha, Noel, Jobim e Catulo
silenciosos dormem.

Os pináculos de nossa cultura
sem descendentes choram.
Machado e Rosa,
Castro e Drummond,
Carlos e Villa,
Almeida e Portinari.

As florestas, abandonadas;
o ouro, roubado pelos eleitos;
cinza está o céu;
apagadas as estrelas.
Ordem e Progresso
são palavras e nada mais. 

Ai de ti, povo solidário, amável
- bestializado e escravizado
pela caterva sem escrúpulos!
Ah! Minha Pátria amada,
triste e ensolarada.




segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

As Longitudes


pequenas asas
camufladas na nuvem

mariposa
engendrada no azul

alamandas fictícias
na madeira branca

rútila manhã
em estáticos bambuzais

bambus sem música
que amanhã serão flautas

ah! estes longes desvanecidos
colinas arabescos emblemas

bosque
que se esgarça na névoa

Liturgia do Silêncio 



segunda-feira, 3 de março de 2014

Conto Oriental


Ah, branca ave,
branca e bela no cativeiro,
como podes tu cantar ainda?
se o horizonte é mistério
e a tua espera é eterna
e tanto voas mas só
no sonho interrompido?

De que é feita essa melodia
triste como os caniços
onde o vento sopra e sopra
e depois vira rumo e te deixa
vazia - flauta que soluça?
Esse cantar que amo?
para mim apenas
é que amo assim?

Liberta a ave!
disse-me, um dia, o sábio hindu,
com ternura.
Ama-a, ama-a sempre,
mas lá na natural morada,
nas nuvens distantes,
feliz na própria canção de viver.
Momentos há - disse-me ele -
que o maior amor
é libertar o que mais se ama.

Numa noite a meditar à lua clara,
do velho brâmane
a refletir o bom conselho,
compreendi, por fim.
E no outro dia - era primavera,
mas as flores não sorriam -
ouviu-se na gaiola dourada
a portinhola que se abria.
Silenciosas - as palavras.
Sorri, apenas sorri
para a avezinha tímida -
a mesma que me trazia o sol
todas as manhãs:

Voa, ser que amo,
voa livre, segue em paz
para o teu Azul!






Image from Mindrolling Jetsün Khandro Rinpoche
http://www.khandrorinpoche.org/featured-quote/

terça-feira, 26 de novembro de 2013

O Imutável Devir



Perpétua e mutável elipse
movimento cíclico 
que vai que volta
que vai que volta

Sempre o mesmo Nunca igual
Tudo retorna Tudo se repete
em múltiplas variantes

E no exato momento
há a incidência da Luz
na Crisálida pronta para voar



Imagem:
Centro da galáxia NGC 254 na constelação de Piscis. 
90 milhões de anos-luz da Terra. 
Galáxia antiquíssima, berçário de estrelas.
[Captada pelo Telescópio Espacial Hubble da NASA]

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Anotações atrás da Cortina (4)


o velho palhaço sai de cena
para retocar o sorriso
para secar a umidade dos olhos
a ‘furtiva lagrima’

por que? por que? o Silêncio grita
o espetáculo tem que continuar?
as crianças têm sede de risos?
será que muito além do picadeiro
há uma filhinha que agoniza?
sussurros dos netos não-nascidos?
Sim - mas as crianças nada sabem

a vida em suas entranhas
guarda as ranhuras do abismo
e o breu da noite é uma rede
à espreita do último salto

o que parece ser, não é
e o que é, jamais será

desvala o riso
pelo friso do camarim
leito seco de um rio
que gargalha...

viver não é uma opção
viver é uma ordem



domingo, 1 de setembro de 2013

Reflexão



Como é que se molda o barro
e como é que se lhe dá consistência

sem evitar a dor pela lâmina do cinzel
ou a queimadura pelo cozimento no fogo?

                                              

segunda-feira, 17 de junho de 2013

Praça Paulistana



A multidão solitária - as ordenadas gentes
caminham silentes para lugar nenhum.
Há eco nas pedras, em cada passo o medo.

Alarido, o triturado silêncio, a Babel moderna.
Criaturas à espreita de feriados, vitrines, ou
trigo - rindo nos circos ou na arena morrendo.
                                   
Até quando? marionetes de âmbar e ébano,
indo manipuladas pela ironia de líderes,
essas promessas que jamais se realizam.

E pessoas vaidosas colocam nas urnas o voto.
Nos bastidores os escolhidos trocam risadas:
-Povo não governa. -Democracia é doce ilusão.
                                   
Na capital paulista há uma praça chamada Luz.
Por ela, dia-a-dia, muitos passam apressados,
e não olham o busto de Giuseppe Garibaldi.

Nele ninguém mais lê uma antiga inscrição,
para o povo escrita: “Sociale Giustiza”.
Nítida, mas apagada, no tempo esquecida.


[1983-2013]


segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Amanhecer nas Serras de Minas


Atendendo a alguns pedidos, posto a pequena imagem 
que aparece no canto direito da página, desde o início deste blog. 
Para ampliá-la um pouco mais é só clicar sobre ela.
 

A Paisagem de Minha Janela

Chega um tempo em que o andarilho
descalça as botinas e medita:

É muito bom viajar em peregrinação
pelas belezas do mundo.
ó castelos, catedrais e capelinhas!
ó planícies verdes, ó lagos ao luar, 
ó picos brancos na distância azul!
Como são belos!

Melhor ainda é ter uma choupana para voltar.
Mais do que as vastas riquezas alheias
vale a minha janela, por onde avisto
as paisagens pátrias.
Há momentos, e não são poucos,
que a alma inteira cabe
em um minúsculo retângulo diante dos olhos.

Quando cessa a sede de horizontes,
como é bom ter uma varanda para sonhar
e um pequeno jardim para plantar!


domingo, 2 de dezembro de 2012

Elegia ao Azul da Aurora


se não voltares nunca mais

e estes olhos cansados se fecharem
retendo na íris a fímbria da luz

e esta mão pequena se recolher
como um caramujo retorcido

e cairem na relva estes braços
- último portal da presença...

sim, eu sei... no azul de tua aurora
não lembrarás de mim

mas ficarão à tua espera uma casa
com as janelas para o poente

e um jardim vazio
aguardando as rosas brancas

ou talvez, pela eternidade,
os nossos olhos tristes

sem memória


março-2006


















 




photo: justin k. blackburn

sábado, 24 de novembro de 2012

Círculo em Espiral


Ainda é manhã. A neblina
cobre parte do caminho
na escarpa de urzes.

À medida que o sol se levanta,
dissipam-se as réstias da água
condensada pelo mistério da noite.

O que antes era só gesto na névoa,
ciranda do incogniscível,
bailado de corpo em sombra,
jogo de luz a esconder semblantes,
aos poucos toma contorno.

Todas as formas tomarão
o sentido da verdade
que há de nos emocionar, um dia,
pela compreensão dos planos divinos
no centro da espiral constante.


domingo, 16 de setembro de 2012

Cântico da Chegada

















Se, em horas noturnas, sentires o hálito
de brumas, diáfano e leve sobre o corpo,
saibas que sou eu que me faço presente.

Venho de longas distâncias, nas urzes do ar,
frágil luz ao sabor do vento e das dimensões,
alma alada adoecida de saudade dos olhos teus.

E aproximo, deito-me, abraçado juntinho a ti.
Desperta ! Venho trazendo um lírio do campo;
de azul é meu olhar nesta lágrima interrompida,

pois no riso, ah! neste riso que te trago, amor,
há a alegria em que sonhas o aroma da aurora.


quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Há uma Mancha Cinza no Horizonte


A desolação nos campos é grande
e entristece quem vem das cidades.
Há uma mancha cinza no horizonte
e um som de asas rondando as plantações.
Talvez gafanhotos. Talvez moscas venenosas.
Não. É bem provável que seja uma nuvem apenas.

As espigas de milho, mirradas,
pendem, umas aqui outras ali,
poucas, bem poucas, diante dos olhos.
Os camponeses sentem algo mais além da fome.
Os canarinhos entoam melodias tristes.

O rádio anuncia as últimas notícias:

“Os mísseis estão preparados.
Os exércitos estão reunidos
no lugar chamado Armagedom.”

O camponês ainda se levanta, olha o tempo:
Não vai chover.
Apanha algumas espigas de grãos esparsos
e leva-as para o moinho. Depois colhe
alguns tomates de um vermelho pálido
e leva-os para a sua senhora que prepara a refeição.

As crianças estão sentadas
no degrau da varanda (todas juntas)
olhando o espantalho.

O espantalho está de braços abertos,
amarrado em cruz no arame farpado da cerca.
Alguns corvos assentam sobre o seu chapéu.
Muito velho está o paletó branco,
sovado pelo tempo, pelo bico das aves negras.
No seu rosto de abóbora: dois olhos vazios,
parecem olhar tudo ao redor.
E o sorriso, aberto a canivete,
cortado sobre as estrias da redonda abóbora,
não é patético. É um riso irônico, de dor.
Tem uma face humana, de homem, se formando
por baixo dos restos e das lascas
da máscara de espantalho.

A mulher mostra o rosto na janela
e grita para as crianças:

“Está pronto o almoço.”

E o rádio anuncia:
“Está consumado.”


(de “Ilcha – Lamentações na Ilha de Patmos”)

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

O que sou o que somos




Se perguntar o que sou, direi:
um pensador que não perdeu o rumo dos sonhos.
Mas se eu perguntar a mim quem sou, saberei?

Se ainda giram e circulam galáxias e átomos,
nebulosas fulgem e estrelas surgem,
se células renascem
como açucena no pó das searas,
é porque há no aparente caos uma réstia de luz;
é porque não se cansou ainda de ter esperanças
Aquele que inventa os elementos,
delineia no barro as formas
e concede individualidade às criaturas.

Sim, Dante tinha razão:
É o Amor que conduz todos os sóis,
implode o núcleo das esferas,
movimenta círculos, elipses e Big Bangs,
abre buracos negros e incendeia as supernovas.
É o Amor que efetiva trespasses e metamorfoses,
e em cada um o pulsar inesgotável das efemérides.

Somos grãos de areia, é certo,
mas também damos à ampulheta
o motivo em seu movimento infinito.
Regozijemo-nos! portanto.
Fazemos parte do milagre da vida.

Se perguntarem: Quem és?
Diga: não sei quem sou, mas sei deste item –
neste sangue corre o elemento dos vulcões
e minha carne é centelha de nebulosas.
Sou feito do mesmo brilho e da mesma matéria
de que são feitas as estrelas que surgem e passam.

Fica, enfim, a Alma, síntese e âmago do Criativo.
Mera semente. Somente. E Tudo.



Imagem:
Nebulosa de Helix da Constelação de Aquarius
[Copyright: Hubblesite.org]

domingo, 25 de setembro de 2011

Inscrição para minha Lápide


Se algum dia eu tiver uma,
peço aos amigos que inscrevam
palavras em minha lápide:
algum verso colhido de meu riso,
da dor ou da resignação. Não importa!
Mas quero o meu sorriso presente
na derradeira hora da benção
para que todos cantem comigo.

E se,
nos tempos a virem, nada tiver de meu
que compre uma lápide bela e vã,
e tiver que adormecer a cabeça
sob a sombra úmida de um canteiro,
peço-vos que guardem no coração
a minha mais pura lembrança.

E que o corpo seja húmus para a terra,
o meu coração seja vida para as flores,
e que o nome retorne ao que era:
palavra nas águas, brisa nas árvores.

Que todos os meus andrajos da vida
sejam devolvidos à mesma terra
de que foram feitos. Porque a alma,
esta eu devolvo pessoalmente

A Deus.



Ailton Rocha

domingo, 4 de setembro de 2011

Anotações atrás da Cortina (1)


Amor e Pensamento
conduziram a vontade
que elegeu a palavra
que fez surgir a ordem:

Faça-se a Luz!
E a Luz se fez.

O primeiro homem foi moldado e cozido
em poeira, água e fogo;
ao lhe ser insuflado o hálito,
foi dito: Viva! E ele viveu.

E quando homem e mulher erraram,
os Elohim disseram-lhes: Vivam;
com suor e agrúrias, mas vivam!
E eles viveram e colheram ciência.

Porque Luz e Vida andam juntas.
É preciso absorvê-las e cumpri-las.
E isso é bom. 


terça-feira, 23 de agosto de 2011

Infância























Verdelentos bosques em círculos
atrás o riacho: espelho de águas

depois: uma planície de margaridas
- mais infinita –

eucaliptos: sombras de mel
nuvens: Ó brisas de março!

eu: menino, abria os braços
com asas no olhar

canários rolinhas curiós
nos finos filamentos dos galhos

periquitos maritacas em revoada
eram folhas verdes no céu

na igrejinha o sino tocava
- tão longe –

de tão longe chamava
os meninos pra casa

sobre a folhagem da perobeira
o sol bocejava cansado e feliz

e hoje tudo é quietude:
tão breve silêncio
para tão longa saudade.


(agosto-1991)


Óleo sobre Tela:
Enfants dans le Pâturage (Paul Gauguin, 1884)