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terça-feira, 1 de setembro de 2015

Kafka

 
- Não - disse o sacerdote. - Não é preciso considerar tudo como verdade, é preciso apenas considerá-lo necessário.

- Opinião desoladora - disse K. - A mentira se converte em ordem universal.


Esse diálogo devastador é o ápice do medo e da descrença de Kafka. Está no capítulo A Catedral de 'O Processo'.

Na verdade, o capítulo A Catedral não é simplesmente a chave, mas o ponto crucial onde se revelam a amargura e a desesperança de Joseph K. diante de todos os processos da vida e do mundo. Kafka pensava assim: a distância dos seres comuns para o Deus todo poderoso é infinita e inatingível, não existe o ponto de chegada.

Não é possível compreender o homem Kafka, lendo-o com olhos cristãos, porque a formação religiosa do tcheco era judaica. A problemática de 'O Processo' e de toda a obra de Kafka é religiosa. O ponto de partida e de regresso, antes de ser filosófico, é psicanalítico; nos dois aspectos o entendimento é como uma serpente correndo atrás da cauda. E é também metafísica a metáfora da culpa, e mais ainda: é esotérica. O que Hermes Trismegisto escreveu na 'Tábua de Esmeralda' aplica-se à cosmogonia kafkeana: "Assim como é em cima, é embaixo". O pai carnal de Kafka é a súmula e a extrapolação da severidade: como em um jogo de espelhos essa figura paterna torna-se o reflexo direto da visão divina no trono, sempre inatingível.

Se 'O Processo' é o eixo do conjunto da obra kafkeana, e 'A Metamorfose' a maneira como o autor se sentia diante do espelho: um inseto insignificante porque assim o pai o fez sentir desde menino, já 'O Castelo', o outro grande romance do escritor, é a nuance, o aceno, o vislumbre de que talvez pudesse ser aceito tanto pelo pai terreno como pelo pai celestial. Essa grande obra ficou inacabada, mas os amigos, a quem o autor comentou o final que nunca foi escrito, dizem que o personagem, após tantas lutas, por fim consegue a anuência de atingir o 'castelo'. Da mesma forma que o sacristão da catedral em 'O Processo' é o porteiro para este lugar abstrato, também a burocracia é o portal que impede o homem de chegar ao 'Castelo'. A metáfora é a mesma, embora na segunda há uma sutil luz de esperança.

Creio que também deve ser mencionado 'Um Artista da Fome', talvez o mais significativo conto do autor;  narrativa curta, artistica e estilisticamente perfeita, que está no mesmo nível das anteriores.

As quatro grandes obras que citei - dois romances, uma novela e um conto - são a voz máxima de Kafka enquanto artista criador, mas só é possível compreender o homem Kafka após a leitura de uma quinta obra, a 'Carta ao Pai', de alta importância biográfica. Essa "carta" gigante seria o acerto de contas com a tirania do homem que o educou, o correspondente neste plano material ao Deus Onipotente. Mas o terror diante do patriarca, tanto o celestial quanto o reflexo dele, o terreno, era de tal dimensão que o autor não teve coragem de entregar a carta. O pai de Kafka partiu desta vida sem saber do tamanho do esfacelamento que fez na personalidade do filho.

E, talvez por isso mesmo, não entregando a carta, não recebendo a anuência paterna, o escritor não teve coragem de terminar a narrativa de O Castelo. De forma que deixa a nós leitores a eterna dúvida: o agrimensor conseguiu ser aceito no castelo ou não?

No fundo, no fundo o que Kafka mais queria era ser amado pelo pai e dele obter um mínimo de atenção e concordância. Porém, se isso tivesse ocorrido não teríamos essas grandes obras de um autor cuja angústia é a súmula do século XX, a que mais representa a fragmentação do indivíduo por qualquer tipo de poder que oprime e destrói.

Em Kafka, como em todos os escritores herméticos, é preciso enxergar as metáforas abrangendo o todo, embora em cada símbolo esteja oculto o fio de Ariadne para que encontremos a saída do labirinto - metáfora que se enquadra em todos os 'nós' dos questionamentos existenciais.



domingo, 26 de maio de 2013

Pablo Neruda: O Grande Oceano - Enigmas (Peixe Encerrado no Vento)



Poucos poetas criaram metáforas tão mágicas como o chileno Pablo Neruda. Era mestre em (re)inventar o sentido das palavras. Nessa viagem nenhum dicionário pode ser útil, porque só mesmo a intuição pode decifrá-las. Por isso, quanto mais rica a mundividência, mais vasta a colheita.

Alguns críticos azedos enxergam mal a lírica de Neruda e acusam-na de sentimentalismo piegas; outros torcem o nariz dizendo que já é gasto e ineficiente o socialismo de seus versos. Ora, essas opiniões vêm de alguns cabeças de ovo, intelectuais sem sensibilidade, que não conseguem ver além da semântica ou da estrutura do texto. Para compreender a poesia é preciso muito mais do que um cérebro afiado. Concordo com Hermann Hesse que disse certa vez, ao ler uma crítica incompreensiva sobre Proust: “Quero mais é que cresçam musgos sob a língua desses críticos.”

O poema abaixo foi muito bem utilizado no filme “Ponto de Mutação”, da obra de Fritjof Capra. Não li o livro, mas vi o filme. É interessantíssmo! E o recomendo a todos: Um político, uma cientista e um poeta discutem problemas físicos e metafísicos, tentando encontrar um caminho para a salvação da Humanidade. No filme, no momento em que o político totalmente perdido não encontra um caminho para a preservação do planeta, no instante em que a cientista tenta encontrar uma solução em seus teoremas, e a física quântica timidamente tenta ajustar o ponteiro de sua bússola, então o escritor recita Neruda. A poesia surge talvez não para esclarecer, mas para nos consolar e sugerir humildade diante das dimensões labirínticas do Universo.

Grandes poetas sempre existiram e continuarão existindo, alguns mais geniais, outros menos, mas todos passam horas e horas lapidando o texto com o intuito de nos presentear com beleza estética e espiritualidade, seja ela doce para o nosso enlevo, seja amarga para nos alertar e nos incitar ao crescimento. Podemos comprar os seus livros, mas a riqueza que nos oferecem... jamais podemos pagá-la o suficiente.

Viva Neruda !

Enigmas


Me tendes perguntado que fia o crustáceo entre
as suas patas de ouro e vos respondo: O mar o sabe.
Me dizeis o que espera a ascídia em seu sino transparente?
Que espera? Eu vos digo, espera como vós, o tempo.
Me perguntais a quem alcança o abraço da alga Macrocustis?
Indagai-o, indagai-o a certa hora, em certo mar que eu conheço.

Sem dúvida me perguntareis pelo marfim maldito
do narval, para que eu vos responda
de que modo o unicórnio marinho agoniza arpoado.
Me perguntais talvez pelas plumas alcionárias que tremem
nas puras origens da maré astral?
E sobre a construção  cristalina do pólipo tereis
embaralhado, sem dúvida
uma pergunta a mais, debulhando-a agora?
Quereis saber a elétrica matéria das puas do fundo?
A armada estalactita que caminha se quebrando?
O anzol do peixe pescador, a música estendida
na profundidade como um fio na água?

Eu quero dizer-vos que isto o sabe o mar,
que a vida em suas arcas
é vasta como a areia, inumerável e pura
e entre as uvas sanguinárias o tempo poliu
a dureza duma pétala, a luz da medusa
e debulhou o ramo de suas fibras corais
de uma cornucópia de nácar infinito.

Eu não sou mais do que a rede vazia que mostra
olhos humanos, mortos naquelas trevas,
dedos acostumados ao triângulo, medidas
de um tímido hemisfério de laranja.

Andei como vós escarvando
a estrela interminável,
e na minha rede, à noite, acordei nu,
única presa, peixe encerrado no vento.


(de Canto Geral, parte XIV: O Grande Oceano)

Pablo Neruda (1904-1973)

[tradução de Paulo Mendes Campos, 
revista por Maria José de Queiroz]

quinta-feira, 2 de julho de 2009

Hermann Hesse: Poemas Escolhidos


"A cada chamado da vida o coração
deve estar pronto para a despedida e para
novo começo, com ânimo e sem lamúrias,
aberto sempre para novos compromissos.
Dentro de cada começar mora um encanto
que nos dá forças e nos ajuda a viver."


 Foto: ano de 1920. 
Hesse caminhando pela região da aldeia de Montagnola, 
no Ticino, época em que iniciava o romance Sidarta.



Comemora-se hoje o nascimento do grande escritor Hermann Hesse. Ano de 1877, em Calw, pequena cidade do estado de Württemberg, sul da Alemanha.

No início do século, Peter Camenzind (1904), primeiro romance do autor, fez grande sucesso na Alemanha, devido ao tom lírico da obra. O realismo e o excessivo naturalismo imperavam na época e saturavam pelo estilo seco. A narrativa de Hesse, evocando a atmosfera bucólica de montanhas e pequenas cidades, fez reviver um passado medieval e romântico, tão caro aos alemães. Foi uma novidade, o que resultou em fenômeno de vendas. Em 1906 publicou o segundo romance Sobre as Rodas. Este não repetiu o sucesso do primeiro. Em Peter Camenzind o personagem central era um poeta. Talvez por isso, pelo tema ter agradado tanto os leitores, escreveu mais dois romances sobre artistas: Gertrude (1910) ambientado no mundo da música, e Rosshalde (1914), sobre um pintor.  Dos três o último é o melhor realizado, enquanto obra de ficção, embora tenha nítidos traços autobiográficos. Na época Hesse vivia os mesmos problemas familiares. Criador e personagem, artistas bem sucedidos, porém fechados em si mesmo. Ambos perdem-se da esposa devido à incomunicabilidade humana. Diga-se de passagem, estas obras receberam o aplauso dos leitores e estabilizaram a vida financeira do autor.

A ficção neo-romântica de Hesse mudou radicalmente no confronto espiritual com a guerra de 1914. Com pseudônimo, em 1917, publicou Demien, que foi um marco para a geração do pós-guerra. E ainda hoje é visto como o mais significativo romance do movimento expressionista. Além do valor artístico e histórico, a obra é também considerada a maior contribuição de Hermann Hesse à literatura, pois nessa data foi introduzida pela primeira vez o tema da psicanálise, ciência surgida de Freud e ampliada por Jung. Em 1922 apareceu Sidarta, romance-poema, uma das obras mais amadas de Hesse, pela sabedoria oriental que soube tão bem adaptar aos problemas existenciais de cada um. Mas a maior contribuição do autor à literatura propriamente dita, e que o tornou conhecido no mundo todo, foi o sétimo romance O Lobo da Estepe, de 1927, obra experimental, considerada por muitos como obra-prima do mesmo valor de romances inovadores do período entre-guerras: Em Busca do Tempo Perdido de Proust; Ulisses de Joyce; O Processo de Kafka; A Montanha Mágica de Mann; Passeio ao Farol de Virginia Woolf, Os Moedeiros Falsos de Gide; O Som e a Fúria de Faulkner; e O Homem Sem Qualidades de Musil. Assim é O Lobo da Estepe: trata-se de obra completamente diferente das anteriores, tanto pelo tom seco e amargo, como pela técnica literária labiríntica. E chega a ser profética, pois antevê os horrores da segunda guerra, que eclodiria na década seguinte. Em 1930 é publicado Narciso e Goldmund, outro grande romance que também utiliza a psicanálise de maneira rica e profunda, além de vários recursos e temas de obras anteriores: transcorre em um passado distante, talvez medieval, e o personagem também é artista, um escultor.

Por fim, após 12 anos, em 1943 publica o nono romance O Jogo das Contas de Vidro, muito mais extenso do que todos os outros e muito mais elaborado. Desta vez, a história se passa em um país hipotético de um futuro distante. A obra é magistral, várias vezes comparada ao Wilhelm Meister de Goethe. Trata-se do último romance de Hesse. Ao menos, no campo da Ficção é o seu Testamento literário. O autor ainda viveu 20 anos após o lançamento. Publicou outros gêneros, mas nenhum outro romance.

Os leitores e a crítica se dividem, quando tentam destacar dentre esses nove romances o maior de Hermann Hesse. Metade diz que é O Lobo da Estepe; a outra, afirma categoricamente que é O Jogo das Contas de Vidro. Em verdade, é uma tarefa difícil. E não há necessidade de confronto, pois obra artística não é nenhum competidor almejando a primeira posição do pódio. Cada leitor escolhe aquela com a qual mais se identifica. Para mim, a maior obra de Hesse não é nenhuma das duas mencionadas. Escolho Sidarta, que tem sido, desde a adolescência, um de meus guias espirituais imprescindíveis. Sinto uma enorme gratidão pelo autor por ter escrito essa dádiva de sabedoria. Aprecio também, particularmente, a forma como foi escrito: não deixa de ser um romance, mas é sobretudo um poema em prosa; utiliza a cadência e a sonoridade sensual da poesia hindu, atingindo em alguns pontos a mística dos hinos védicos, tudo isso somado às características dos líricos alemães, Eichendorff e Mörike, que Hesse tanto amava.
 
No contexto, devemos ainda mencionar algumas narrativas curtas no gênero da ficção: as novelas Knulp (1915) e Viagem ao Oriente (1932), e os maravilhosos contos Na Velha Estalagem do Sol, Bela é a Juventude, Augusto e Encarnação Hindu; este último inserido em O Jogo das Contas de Vidro. Na área da não-ficção há os 3 ensaios de Olhar sobre o Caos (1923), tão admirados por T. S. Eliot, e os artigos pacifistas coletados em Sobre a Guerra e a Paz (1946), de valor histórico. E, por fim, recordo-me daquelas pequenas obras que Hesse publicou ao longo  da vida, contendo prosa intimista e versos ilustrados com suas próprias aquarelas expressionistas. Caminhada (1920) é um desses pequenos grandes livros, talvez o mais encantador, o mais amado pelos leitores da obra hessiana.

Hesse tornou-se famoso mundialmente como romancista. Contudo, e é fato curioso, apesar da importância da prosa de ficção, não foram os romances e sim a poesia que escreveu durante a vida toda, paralelamente à prosa, que lhe concedeu o grande Prêmio Nobel de Literatura. Os organizadores da Academia Sueca preferiram premiar o autor pelo livro As Poesias de 1942, que é o conjunto de todos os poemas escritos, desde 1898 até aquela data, porque reconheceram que a obra poética do autor alemão “é atemporal e sobreviverá à ficção”.

É opinião deles. A maioria dos críticos não concorda. Sem dúvida, a poesia de Hesse é muito bela e sensível, mas é a parte mais tradicional de sua obra. Seria um epígono se não tivesse personalidade. Salvo em algumas ocasiões, nos versos escritos durante as crises existenciais, toda a lírica hessiana é um eco do romantismo de meados do século anterior a ele. Nesse sentido, o autor é mesmo o legítimo herdeiro dos grandes poetas românticos do século XIX: Joseph Einchendorff e Edouard Mörike.

A poesia de Hermann Hesse é muito conhecida nos países de língua alemã. O autor, enquanto poeta, é considerado 'clássico' e seus versos fazem parte, há tempos, dos currículos escolares da Alemanha. No entanto, apenas alguns poemas aparecem com frequência em antologias européias e mundiais.

Como homenagem a esse grande escritor, que jamais será esquecido, tanto pela ficção quanto pela poesia, transcrevo aqui alguns de meus poemas preferidos. Em honra à sua memória, escolho a poesia, porque Hermann Hesse se considerava antes de tudo um poeta, um lírico alemão. Ele mesmo, na idade de 14 anos, disse: “Serei poeta ou nada.” E completou, na velhice: “Escrevo romances por ocasião; poeta sou, por vocação.” O grande Thomas Mann, que considero o maior escritor do século XX, amigo de Hesse, gostava de compará-lo a um 'rouxinol suábio' pela delicadeza musical de seus textos. Tinha toda a razão.

E, da mesma forma, somos imensamente gratos ao poeta brasileiro Geir Campos que traduziu esses versos, captando com mestria o ritmo e a essência lírica de Hesse.



Sorte

Enquanto vives perseguindo a sorte,
não estás pronto para ser feliz,
ainda que seja teu o que mais queres.

Enquanto te lamentas do perdido,
e tens metas e não te dás descanso,
não podes saber o valor da paz.

Só quando a todo anelo renuncias,
sem objetivos nem desejos mais,
e já não dás à sorte qualquer nome,

já a maré dos eventos não te atinge
o coração, e se acalma tua alma.

(em “No Caminho”, 1911)

Ramo em Flor

Para cá e para lá
sempre se inclina ao vento o ramo em flor,
para cima e para baixo
sempre meu coração vai feito uma criança
entre claros e nebulosos dias,
entre ambições e renúncias.
Até que as flores se espalham
e o ramo se enche de frutos,
até que o coração farto de infância
alcança a paz
e confessa: de muito agrado e não perdida
foi a inquieta jogada da vida.

(em “Música da Solidão”, 1915)

A Meu Irmão

Quando revemos nossa casa, agora,
andamos encantados pelos cômodos,
ficamos longo tempo no jardim
onde – meninos levados – brincávamos.

E de todos os outros esplendores
que pelo mundo afora conquistamos,
nenhum mais nos alegra nem agrada
quando o sino da igreja faz-se ouvir.

Calados repisamos velhas trilhas
cruzando o verde terreno da infância:
e elas no coração tornam-se vivas,
grandes e estranhas, como um belo conto.

Mas tudo o que estaria à nossa espera
já não há de ter mais o puro brilho
de outrora – quando, ainda rapazolas
no jardim caçávamos borboletas.

(em “Música da Solidão”, 1915)

A Noite

Rescende a flor na várzea,
longínqua flor da infância
que só de raro em raro ao sonhador
abre o velado cálice
e deixa ver – cópia do sol – seu interior.
Por cima das cordilheiras azuis
cega a noite vagueia
puxando sobre o seio a veste escura:
sorrindo esparze a esmo
sua dádiva – o sonho.
Curtidos pelo dia, em baixo dormem
os homens: têm os olhos
cheios de sonhos,
alguns viram o rosto suspirando
para as flores da infância
cujo aroma os atrai de leve na penumbra,
e ao severo chamado paternal do dia
confortados se alheiam.
Para o exausto, é um alívio
refugiar-se nos braços da mãe
que os cabelos do sonhador alisa
com mãos despreocupadas.
Somos crianças, logo nos fatiga o sol
- ainda que seja para nós destino e futuro sagrado –
e tombamos a cada anoitecer
pequeninos de novo no regaço da mãe,
balbuciamos palavras da infância,
palpamos o caminho do regresso às origens.
Também o pesquisador solitário
que para o vôo ao sol se propusera
vacila, também ele, à meia-noite
voltado para o ponto de partida longe.
E o que dorme, quando um pesadelo o desperta,
confusa a alma, pressente no escuro
a hesitante verdade:
toda corrida, para o sol ou para a noite,
conduz à morte, leva a novo nascimento,
dores que a alma receia.
Mas seguem todos o mesmo caminho:
todos morrem e tornam a nascer,
porque a eterna mãe
devolve-os eternamente ao dia.

(em “Poesias Escolhidas", 1921)

Sonhando Contigo

Às vezes quando me deito
e meus olhos se fecham,
com a chuva batendo na cornija
os seus dedos molhados,
tu vens a mim,
esguia corça hesitante,
dos territórios do sonho.
Então andamos ou nadamos ou voamos
por entre bosques, rios, bandos de animais,
estrelas e nuvens com tintas de arco-íris:
tu e eu, a caminho da terra de origem,
rodeados de mil formas e imagens do mundo,
ora na neve, ora ao fogo do sol,
ora afastados, ora muito juntos
e de mãos dadas.

Pela manhã o sono se dissipa,
afunda dentro de mim,
está em mim e já não é mais meu:
começo o dia calado, descontente e irritadiço,
porém algures continuamos a andar,
tu e eu, rodeados de coleções de imagens,
a interrogar-nos entre os encantos da vida
que nos embroma sem saber mentir.

(em “Consolo da Noite”, 1929)

Ao Poeta Indiano Bhartrihari

Igual a ti, ancestre e irmão, também vou eu
entre o espírito e o instinto, em zigue-zague:
hoje sábio, doido amanhã, hoje de todo
entregue a Deus, amanhã ao ardor da carne.
Com ambos os açoites vou me flagelando
em sangue os costados: volúpia e penitência
- monge ou estróina, pensador ou bestial.
A culpa do existir em mim pede perdão.
Hei de pagar pecados em ambos caminhos,
em ambos fogos ardendo me aniquilar.

Os que me veneravam ontem como santo,
hoje em mim vêem um perdido libertino;
os que comigo chafurdavam na sarjeta
ontem, hoje me vêem jejuar e orar;
e todos cospem de lado e fogem de mim
- o amante falso, sem decoro e dignidade.
Em minha coroa de espinhos eu também
trago, entre as rosas rubras, a flor do desdém.

Hipócrita palmilho um mundo de aparências,
malquisto por vós e por mim, para as crianças
um monstro – e sei que qualquer ação, vossa ou minha,
perante Deus pesa menos que o pó ao vento.
E sei mais: nesta senda inglória de pecado
me sopra o bafo de Deus e eu devo agüentá-lo,
devo abusar – cada vez mais culpado, no êxtase
do prazer ou na proscrição dos meus malfeitos.
Qual o sentido desta agitação, não sei:
com as imundas e perversas mãos esfrego
o pó e o sangue do meu rosto – e bem ou mal
este caminho hei de levar até o final.

(em “Consolo da Noite”, 1929)

No Castelo de Bremgarten

Quem um dia plantou os velhos castanheiros,
quem um dia bebeu a água a esguichar da fonte,
quem um dia dançou no salão enfeitado
- foram-se todos, esquecidos e enterrados.

Hoje é a nossa vez: para nós brilha o dia
e cantam para nós alegres passarinhos,
sentamo-nos à mesa e sob a luz das velas
brindamos ao dia que é para nós eterno.

Quando nos formos e estivermos esquecidos,
nas árvores altas ainda se há de escutar
o gorjeio do melro e o cântico do vento,
e lá em baixo entre as pedras o rio a espumar.

No vestíbulo, na hora do grito noturno
do pavão, hão de estar aqui outras pessoas:
falarão, louvarão a maravilha da hora,
embandeirados barcos estarão passando,
e o eterno presente há de rir como agora.

(em “Novas Poesias”, 1937)

Andares

Como emurchece toda flor, e toda idade
juvenil cede à senil – cada andar da vida
floresce, qual a sabedoria e a virtude,
a seu tempo, e não há de durar para sempre.

A cada chamado da vida o coração
deve estar pronto para a despedida e para
novo começo, com ânimo e sem lamúrias,
aberto sempre para novos compromissos.
Dentro de cada começar mora um encanto
que nos dá forças e nos ajuda a viver.

Devemos ir contentes, de um lugar a outro,
sem apegar-nos a nenhum como a uma pátria:
não nos quer atados, o espírito do mundo
- quer que cresçamos, subindo andar por andar.
Mal a um tipo de vida nos acomodamos
e habituamos, cerca-nos o abatimento.

Só quem se dispõe a partir e a ir em frente
pode escapar à rotina paralisante.
É bem possível que a hora da morte ainda
de novos planos ponha-nos na direção:
para nós, não tem fim o chamado da vida...
Saúda, pois, e despede-te, coração!

(em “Andares”, 1961)

Rabisco na Areia

Que encantamento e beleza
sejam brisa e calafrio,
que o delicioso e bom
tenha escassa duração
- fogo de artifício, flor,
nuvem, bolha de sabão,
riso de criança, olhar
de mulher no espelho, e tantas
outras coisas fabulosas
que, mal se descobrem, somem –
disso, com pena, sabemos.
Ao que é permanente e fixo
não queremos tanto bem:
gemas de gélido fogo,
ouros de pesado brilho,
por não falar nas estrelas
que tão altas não parecem
transitórias como nós
e não calam fundo na alma.
Não: parece que o melhor,
mais digno de amor, se inclina
para o fim, beirando a morte,
e o que mais encanta – notas
de música, que ao nascerem
já fogem, se desvanecem –
são brisas, são águas, caças
feridas de leve mágoa,
que nem pelo tempo de uma
batida de coração
deixam-se reter, prender.
Som após som, mal se tocam,
já se esvaem, vão-se embora.
Nosso coração assim
leal e fraternalmente
se entrega ao fugaz, ao vivo,
não ao seguro e durável.
Cansa-nos o permanente
- rochas, mundo estelar, jóias –
a nós, transmutantes, almas
de ar e bolhas de sabão,
cingidos ao tempo, efêmeros
a quem o orvalho na rosa,
o idílio de um passarinho,
o fim de um painel de nuvens,
fulgor de neve, arco-íris,
borboleta que esvoaça,
eco de riso que só
de passagem nos alcança,
pode valer uma festa
ou razão de dor. Amamos
o que é semelhante a nós,
e entendemos os rabiscos
que o vento deixa na areia.

(em “Andares”, 1961)


Foto acima, ano de 1920, Hesse caminhando na região da
aldeia de Montagnola, no Ticino, período em que escrevia
Sidarta.

Abaixo, em 1927, ano da publicação de O Lobo da Estepe.

















Hermann Hesse (1877-1962)

segunda-feira, 27 de abril de 2009

Shakespeare



Há alguns dias, li de um crítico a seguinte frase: Shakespeare é muito popular. Popular? Mas como? Com certeza, de nome ele é, e quanto às obras? Shakespeare é lido? Multidões vão ver as suas peças encenadas em seu habitat natural: o palco de teatro? Não creio.

As comédias de Shakespeare foram muito populares na sua época. Quanto a isso, não há dúvidas. E tal fato vem ocorrendo, mas em proporções menores, desde o período elisabetano, em que o dramaturgo viveu. Ao criar as suas peças neste gênero, utilizou temas e diálogos ao gosto do povo, artifício deveras arguto. Eram mencionados no texto assuntos do dia, chistes e trocadilhos, de fácil compreensão, muito mais para aquela época, a ponto de hoje nos fugir do entendimento o que significavam, se não os buscarmos nas fontes históricas. Shakespeare e o Teatro precisavam sobreviver. E para tanto a casa de espetáculos precisava de gente para assisti-lo. Principalmente as comédias ditas "italianas" são ricas em ingredientes populares, e As Alegres Comadres de Windsor utiliza o folclore que os ingleses conheciam bem de longa data; tinham o Falstaff assim como nós temos Malazarte, embora com características psicológicas diferentes. Tais peças estão entre as melhores do gênero: Os Dois Cavalheiros de Verona, Trabalhos de Amor Perdidos, Como Gostais, Noite de Reis, e a fantástica Sonho de uma Noite de Verão, que não é "italiana", mas é uma das melhores da primeira fase. Deliciosas e maravilhosas são essas comédias destinadas ao povo, o que não significa que eram simplórias. O jogo de palavras é de uma perspicácia sempre admirável, da mesma forma que o são os ditados populares em todos os cantos da terra. Enfim, são peças de conteúdo popular, mas de elaborada estrutura formal. Essas comédias ainda fazem sucesso no mundo todo, devido à habilidade do dramaturgo de recriar situações cômicas, e principalmente pelos inteligentes diálogos, que demonstram o jogo da sedução; do mesmo jeito que eram deliciosos na época, permanecem vívidos e atuais, de compreensão para todos, senão os chistes, ao menos a intenção dos pares que se escondem e aparecem, que açulam e se negam, alternando-se como gelo e fogo, com o objetivo de aguçarem o instinto de erotismo. E isso é entendido muito bem tanto naqueles como nestes tempos.

Não podemos chamar Shakespeare de ‘popular’ só por causa disso. Sabemos que o maior legado desse genial dramaturgo está nas tragédias e na última peça A Tempestade, que não é propriamente uma comédia, mas sim tragicomédia, ou ‘romance’, uma espécie que não se enquadra em gênero dramático algum; é uma fantasia, diríamos. Excetuando alguns intelectuais e homens de leitura, essas tragédias eram assistidas por um povo que não as compreendia; a platéia bocejava e ou ria em trechos onde não havia motivo para riso. Entediados, muitos erguiam-se e deixavam o lugar antes do final. Até hoje essas peças trágicas não se tornaram populares, mas sim popularizadas, mais pelo nome e pela trama do que pelo conteúdo literário. Todos conhecem Romeu e Julieta, a tragédia escrita na mocidade de Shakespeare; quase todos sabem da demência juvenil de Hamlet, da demência senil do Rei Lear, do ciumento Otelo, do invejoso Iago e da ambição desmesurada da esposa de Macbeth, principalmente através de versões cinematográficas. Quantos realmente assistiram essas obras encenadas no palco ou as conhecem pela leitura atenta? Na própria Inglaterra, Shakespeare é lido cada vez menos, os jovens fazem careta ao estudá-lo, da mesma maneira que a maioria aqui torce a boca ao estudar Machado de Assis. Há muita erudição nessas tragédias shakespereanas, muita complexidade psicológica e filosófica no texto frontal e nas entrelinhas; de linguagem difícil são os dramas históricos; a poesia do teatro de Shakespeare é sofisticada e de altíssimo nível.

Pelo fato de Shakespeare ter vindo de família de camponeses e não ter frequentado uma universidade não significa que ele não tenha estudado muito. O nosso Machado de Assis também veio de família humilde e chegou a um grau espantoso de erudição. É evidente que Shakespeare estudou os clássicos, quando jovem, vivendo em Stratford-upon-Avon, e em Londres, enquanto guardava cavalos em frente ao Teatro Real. Seguiu estudioso por toda vida. Foi um autodidata. Durante um bom tempo demonstrou em seus textos falhas e equívocos, provenientes de uma cultura cheia de lacuna, por isso mesmo mais livre e audaciosa, o que geralmente não ocorre a acadêmicos; por conhecerem demais textos já existentes, temem plagiá-los, inibindo a criação espontânea. Não é o caso de Shakespeare, que foi ousado justamente porque conhecia menos de técnica e gramática do que deveria. Errou no início, mas com o tempo se aperfeiçoou, sempre de maneira autodidata, descobrindo a própria linguagem, associando o conhecimento 'acadêmico' com as tentativas pessoais de (re)invenção artística. Foi mais original do que seus contemporâneos. Mas não encontramos falhas iniciais como as dele em Christophe Marlowe, por exemplo, que estudou em Cambridge, e foi grande dramaturgo, contemporâneo, amigo da mesma idade e precursor de Shakespeare. Entretanto, a única peça de Marlowe que continua atual e representada é a tragédia Doutor Fausto, a mesma que depois se tornou um modelo para Goethe.

Tomo como base o percurso dessa evolução a partir da leitura dos próprios textos iniciais do poeta-dramaturgo. Por isso, afirmo: Shakespeare estudou muito os modelos clássicos. A Comédia de Erros, primeira peça cômica do autor, foi escrita a partir de Plauto, o comediógrafo latino. De estrutura nitidamente acadêmica é a primeira trilogia de Henry VI. Acadêmicos são os poemas Vênus e Adônis e A Violação de Lucrécia. Sim, obras do início, mostram-se imperfeitas e sem personalidade definida, mas a partir daí todas as criações de Shakespeare mostram-se evolucionárias, uma transmutação dos modelos greco-romanos, seja na comédia re-criando a divertida e eterna guerra entre os sexos, seja nas tragédias utilizando tudo quanto há de mesquinhez, falhas de caráter e conturbados desvios psicológicos dos personagens: a dúvida existencial, a loucura juvenil e senil, o ciúme, a inveja, a ambição desmedida, ira e arrogância na usurpação do poder. Todas essas tramas refletem o ser humano, de ontem e de sempre; não perdem a atualidade, portanto. As peças de Shakespeare permanecem atuais, assim como as tragédias de Sófocles e Ésquilo, ou as comédias de Plauto e Terêncio.

Chamar Shakespeare de ‘popular’ só porque escreveu comédias populares é o mesmo que chamar assim Beethoven porque compôs o Septeto, tão popular em sua época. Tanto as comédias do dramaturgo como essa peça de câmara são obras de autores de vasto conhecimento que também criaram arte popular de alto nível.

Há também outro caso em pauta: essa confusão toda alegando que Shakespeare talvez nem tenha existido, surgiu a partir de uma teoria inconsistente, em que atribuem ao filósofo Francis Bacon, homem de espantosa erudição, a criação de toda a obra do dramaturgo. São especulações de historiadores incompreensivos. Se fosse verdade, não existiria nos textos iniciais do maior poeta inglês as falhas de técnica e o estilo titubeante, comum aos jovens tanto naquela como em todas as épocas. A evolução de Shakespeare foi de uma ascensão impressionante, porém gradativa, que somente ocorreu no mesmo nível na obra daquele outro gigante: Beethoven. O início da obra de ambos não dá idéia do que viriam a se tornar quando amadureceram as emoções e os pensamentos. Teorizar e duvidar que Shakespeare não é o autor das próprias obras não tem qualquer sentido lógico. Se ao músico Beethoven não é negada a realidade de sua evolução, pelos estudos das partituras, por que é recusada a Shakespeare a autenticidade de sua autoria, se há livre acesso aos escritos originais de suas peças, as mesmas que estão publicadas em todas as línguas, e nelas qualquer estudioso pode notar a escala ascendente de aprendizado?

As pessoas não entendem que um gênio não nasce pronto. Na verdade, é o dom trabalhado que se torna talento; na maioria das vezes, trabalhado com muito suor e dedicação. Em alguns raros casos, esse talento transforma-se em genialidade. A contestação de autoria dessas obras cheira-me à inveja, uma desmedida inveja, proporcional ao gênio que as criou. Ou seja, novamente os Iagos continuam querendo destruir os Otelos triunfantes.



sábado, 25 de abril de 2009

Cícero Acaiaba: Os Quatro Elementos



Nesta oportunidade, quando estamos de luto pela partida do colega e amigo Cícero Acaiaba, atendo alguns pedidos de pessoas que já têm contato com a sua obra e de outras que ainda não a conhecem, e deixo aqui alguns versos escolhidos. Creio que são inéditos em livro. O próprio autor me presenteou com eles, após ler alguns de meus ensaios sobre Alquimia.

Cícero era muito versátil. Escreveu textos para os mais variados gostos, desde o soneto tradicional com métrica e rima até os versos brancos de complexa riqueza rítmica, passando pela simplicidade lírica da poesia amorosa e também pelas obras de circunstância, que foram muitas. Criou e adaptou-se dentro dos estilos romântico ou parnasiano, simbolista e impressionista, experimentando a escrita subconsciente do surrealismo, e até mesmo as tentativas pictóricas do concretismo. No meio de toda essa versatilidade e ecletismo, encontramos temas surpreendentes. Raramente o nível cai, mas sabemos que nem tudo permanecerá. Aquela parte com temática mais hermética e simbólica, que dá margem a interpretações diversas, tem chance de agradar diferentes gerações, devido a atemporalidade de estilo. Quando afirmo que a poesia de Acaiaba é uma das mais consistentes, belas e profundas deste país, refiro-me principalmente à esse um quarto, ou, talvez , metade da totalidade de sua obra.

Não é apenas o elogio caloroso de alguém que com ele conviveu e teve a oportunidade de ler e reler esse lado mais complexo de sua personalidade. É simplesmente a constatação de estar diante de um valor literário atemporal. Se tivesse nascido em países mais dados à cultura, na Europa, por exemplo, Cícero estaria há muito tempo reconhecido internacionalmente, sem favor algum. O que me entristece é a condição de ostracismo que encontra a sua obra no Brasil, há várias décadas. Entretanto, isso não choca ninguém. Ultimamente, neste país, os verdadeiros talentos trabalham nos bastidores, porque o palco está tomado pelos medíocres.

Os quatro sonetos abaixo são uma mostra da melhor parte da poesia de Cícero Acaiaba: a que utiliza metáforas e símbolos. São sonetos “modernos”, porque não utilizam rimas e métricas, apesar de estruturados nos quatorze versos de quatro estrofes. No lugar da rima, a assonância e a aliteração; substituindo a métrica, o ritmo. A dificuldade técnica em construções assim aparenta ser menor, mas não é. A exata musicalidade das palavras compensa a ausência de rimas, e a variedade rítmica é muito mais criativa do que a metrificação matemática do tradicional soneto.

Cícero não era estudioso da ciência esotérica e da alquimia dos antigos, mas conseguiu intuitivamente nesses versos a síntese dos quatro elementos. Até parece que o próprio Paracelso soprou em seus ouvidos conhecimentos milenares. É fantástico! E mesmo assim, não há novidade alguma no fato. Sabemos que os poetas são e sempre foram as antenas da raça humana, captam do Inconsciente Coletivo mistérios insondáveis do passado do mesmo modo que enxergam o futuro nas brumas do tempo presente. Cícero, como grande poeta que foi e é, possuía essa sintonia com o Cosmos, trazendo de dimensões múltiplas o tema e a inspiração para sua criativa obra, mas com o mérito de trabalhar exaustivamente essa expressão.

Basta uma única leitura para sentir os versos abaixo como algo superior, de conteúdo profundo e vasto, exposto através da forma elegante da arte. Como não perceber neles o conteúdo e, sobretudo, a beleza?

Além da intrincada temática de muitos versos de Augusto dos Anjos, não conheço na literatura brasileira nada parecido com esses poemas, que agora deixo aqui para que outros também os apreciem, pois já são patrimônio cultural. Esses versos, que certa vez recebi como presente, não são apenas meus. Precisam pertencer, por natural direito, a todas pessoas sensíveis.

O FOGO

Do contato dos corpos, desse atrito
dos pólos positivo e negativo
brilha a faísca azul, e após a chama
em pétalas de fogo se recorta.

Línguas flamantes que absorvem tudo,
deixando para trás carvão e névoa,
sua misteriosa combustão
vem das células rubras da membrana.

Na semente se hiberna e ela o esconde;
ao simples toque mágico do vento
árvore crepitante reacende.

Com fome de si mesmo alastra rápido
os galhos longos, trêmulos, vorazes,
até ser cinza – congelado fogo.

A ÁGUA

No berço frágil, lento e alvo das nuvens
as camândulas de água dormem calmas.
Esperam só pela maturação
quando vão ser em chuva transformadas.

No céu da tarde a noite acena e flâmula
borda o silêncio com veludo negro.
Depois, desabrochando-se as estrelas,
delas o orvalho suavemente cai.

Na fonte pura espumas de murmúrios
espraiam-se na várzea, e humildes, dóceis,
sorvem os animais o fim do dia.

No coração que amou e está sozinho
o sentimento flui, e chega aos olhos
cristalizado em pérolas de lágrimas.

A TERRA

Terra de que foi feita a minha carne,
e que depois da morte a ela volta.
Que concebe a semente nas entranhas,
de onde nasce o dourado mar das searas.

Favo marrom e extenso das raízes,
crebra usina da seiva que alimenta.
Ergástulo de gemas preciosas,
real laboratório da alquimia.

Terra seca que a chuva desaltera,
fértil matriz das flores e dos frutos,
do húmus manancial inesgotável.

Na urna secreta corpos decompõem-se;
da miscigenação dos elementos
somente se liberta o azul das almas.

O AR

Existe sem se ver, para que existam
os seres do planeta. E invisível,
é doce respirá-lo, bom senti-lo,
semeando nos pulmões grãos transparentes.

Esponja tépida que lima o sangue
das impurezas todas, determina
o firme ritmo do coração
marcando nosso tempo neste mundo.

A substância do ar, o oxigênio,
que o vento leva pelo céu, por vastas
florestas, e montanhas, e desertos,

na água do mar, dos rios e dos pântanos,
alimenta também a fauna aquática:
ar – taça diáfana em que flui a vida.


Cícero Acaiaba (1925-2009)


quinta-feira, 23 de abril de 2009

Cícero Acaiaba. O mestre nos deixa



No último 20 de abril, faleceu Cícero Acaiaba, poeta-maior, com quem tive muita proximidade na década de 90 em Varginha. Mas não pude homenageá-lo pela última vez, pois estava em viagem e só abri meus e-mails dois dias após, quando li a notícia enviada pelo amigo e escritor Aníbal Albuquerque, que há alguns anos escreveu a elogiada tese de mestrado Um Passeio pela Obra de Cícero Acaiaba, Talento Esquecido.

Cícero ficou famoso nas décadas de 50 a 70 como autor de peças para a Rádio Nacional do Rio de Janeiro. Escreveu 130 novelas, que o tornaram campeão de audiência, junto com Janet Clair. Após esse período, foi redator do Caderno Literário da Imprensa Oficial em Belo Horizonte, retornando a Varginha, onde viveu o restante da vida. Escreveu 20 livros de poesia, publicou 10, além de 2 livros de contos, uma peça de teatro, inúmeras crônicas e a autobiografia Meu Pé Direito, em 5 volumes.

A literatura de Cícero engrandeceu o nome de Cambuquira, terra onde nasceu, e destacou Varginha, cidade onde viveu a maior parte de seus 85 anos de vida.

Como já disse várias vezes, Cícero Acaiaba não é apenas um dos maiores sonetistas do Brasil; com sincera convicção afirmo que pelo menos a metade de sua volumosa obra poética está entre o que de mais belo e sublime foi escrito neste país. Nos últimos anos, jamais obteve um maior destaque na mídia, apesar de bastante conhecido entre os literatos, entre os quais Rubem Fonseca, Lygia Fagundes Telles e Caio Porfirio Carneiro, que eram seus amigos particulares e admiradores.

A minha admiração pelo poeta é imensa. Em um período de 10 anos, fui o primeiro a ouvir os seus versos, contos, crônicas e trechos de autobiografia, que o autor lia para mim, com entusiasmo, às vezes pessoalmente, às vezes por telefone. Acompanhei de perto o momento da criação e a voz emocionada do grande poeta interpretando a si mesmo em uma grande quantidade de textos. Aprendi muito com ele. Se fosse para escolher um epíteto que mais pudesse caracterizá-lo seria este: o mestre da metáfora.

Em 1987, o último cartão que Carlos Drummond enviou antes de falecer foi para Cícero Acaiaba, dizendo: "... a sua poesia é a continuação da minha." Apesar de estilos completamente diferentes, a produção poética de Cícero está no mesmo nível da de Drummond, tanto em forma quanto em conteúdo, mas a riqueza de metáforas do varginhense é muito superior.

A obra poética mais conhecida de Cícero Acaiaba é Poemas Escritos na Névoa (1982-88). É excelente, mas não é tudo. Há uma outra, que há mais de uma década está entre meus livros de cabeceira. Trata-se de A Última Elegia e 30 Noturnos de Minas (1987), que considero um dos mais ricos e fascinantes livros de poesia já escritos em todas as literaturas de todos os tempos. Curioso é que ele, grande sonetista, escreveu sua maior obra em versos brancos, em um estilo meio impressionista, meio surrealista, rico em imagens e musicalidade. Nesta obra, é muito difícil de escolher os melhores poemas, de separá-los para uma antologia; são todos de uma beleza inesquecível. Penso que nunca o tema da morte foi tratado com tanta sublimação.

Agora, com a morte, tema sobre o qual tanto escreveu, Cícero Acaiaba torna-se também encantado. A mídia, que o rejeitou, talvez corra atrás de sua obra, que está dispersa em sebos ou mofando em prateleiras de leitores pouco entusiastas. A novela que ele escreveu para a Rede Globo, e esperou com tanta ilusão ver na telinha, o que nunca aconteceu, após tantas desculpas, talvez agora seja negociada. É a festança que tem direito aqueles que não estão mais entre os vivos, podendo o ausente ser chamado até de gênio, sem prejudicar a inveja alheia. Talentoso, porém morto. Mas tudo isso já não importa mais. Talvez a posteridade se encarregue de criticar ou elogiar, talvez providencie e teça louros à sua memória; talvez, não. Porém Cícero Acaiaba não precisa mais de se preocupar com reconhecimento algum.

Aqui fica a minha homenagem, através de seu próprio poema que dá título à obra que continuarei amando e admirando, profundamente: A Última Elegia e 30 Noturnos de Minas.

Obrigado, Cícero, pela riqueza, pelas pérolas de arte, pelos momentos espirituais de comovente beleza que nos deixou!


A ÚLTIMA ELEGIA


1

Eu não estarei aqui amanhã.
Haverá mais um ausente nesta mesa,
e na parede um retrato instantâneo.
No quarto, os móveis nos mesmos lugares,
as janelas com as cortinas lisas,
e uma cama para sempre arrumada
na esperança do hóspede.
Mas eu não estarei aqui amanhã,
nem depois nem nunca.
Talvez na casa ressoem meus passos
um certo tempo,
talvez se escute altas horas da noite
a respiração pausada,
as páginas velhas de um livro
ou o embaçado monólogo de insônia
que o relógio da sala acompanha.
Tudo irá desaparecer aos poucos,
o hábito voltará a tecer a rotina,
e aqui será de novo uma casa pacificada.

2

Sinto a antecipada amargura das coisas findas,
estranha saudade do quarto estreito, da estante de livros,
da escrivaninha onde latejava a semente dos poemas,
da janela que era a viagem para o mistério da noite.
Sinto a presença lúcida do espelho,
o jogo brusco de imagens em seu túnel de segredos,
sinto medo
de não reconhecer meu rosto na turva superfície.
E sinto um gosto,
uma longínqua e brumosa tarde,
a chuva garoando lenta ofuscando a cidade,
sinto um gosto de infância na tarde que chove.
Sinto depois os retratos
na parede do corredor penumbra,
um diante do outro como vagões de um trem
a caminho do tempo.
Sinto as vozes na sala,
mas distantes apagadas,
vozes nascidas dentro de um prisma.
Sinto passos na varanda,
cadeiras de vime modornando à sesta,
sinto a festa
de aniversários com a alegria cintilando nas taças,
sinto o frouxo silêncio
escorrido de lua nas vidraças, sinto
de súbito a impossibilidade de juntar minhas sombras,
meus pertences,
vingado por completo deste mundo, ilhado neste reino,
porque sou o esvaído, o inefável,
e porque hoje é sábado
e eu não serei amanhã o domingo.

3

Quem se lembrará de mim quando o relógio parar
entre a noite e a madrugada?
Talvez ainda desarmem o gesto
das mãos caladas,
modelem o corpo com flores vivas
para compor no pensamento
a última elegia.
Quem olhará na direção do meu dia
sabendo que, afinal, quebrou-se a âncora
e estou perfeito?
Qual deles plantará sobre meu peito
um lençol de relva,
qual dentre todos ficará sozinho
até a consumação dos séculos?
O céu é um deserto de nuvens
às vezes minando estrelas.
Morre o vento no vale das estátuas
e o cipreste vela.

4

Confinado no meu reino, entrelaçado de raízes,
no tépido sabor do húmus, maduro de sementes,
o castanho úmido da terra entre os cabelos,
ouvirei no vento as vozes passeando
ao rés do chão?
Quem será capaz de velar, insone, minha ausência?
Quem há de me chamar com o clarim
do silêncio?
Quem virá bater na porta deste cofre
de mármore?


Cícero Acaiaba (1925-2009)