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sexta-feira, 29 de novembro de 2013

Sensatez



‘Viver tudo que o presente nos oferece, como se não houvesse o amanhã’ é um pensamento perigoso, que impulsiona a atitudes irreversíveis, na maioria das vezes com amargas consequências. 

Nos leitos dos hospitais há muitas pessoas, prematuramente estropiadas, com os órgãos esfacelados: com a cabeça baixa, a maioria chora, arrepende-se das aventuras extravagantes dos dias da juventude. E isso também ocorre nas sarjetas e nos asilos. Pessoas que, levianamente, investiram tudo nos sonhos, hoje comem do pão alheio, são obrigadas a viver sob tetos que não lhes pertencem, dependentes que são da caridade de estranhos. 

É preciso romper amarras, voar e concretizar sonhos; é preciso viver com intensidade o presente que jamais se repete, porém nem tudo que queremos, podemos; e nem tudo que podemos, devemos fazer. 

Eis o lema, o leme e a bússola dos sensatos: Viver o presente com moderação, refletir sobre as lições do passado e preparar-se para as possibilidades do futuro.


sexta-feira, 13 de setembro de 2013

Nenhum Homem é uma Ilha



"Nenhum homem é uma ilha isolada", diz o belíssimo poema de John Donne.

Ninguém basta-se a si mesmo.

Poderíamos pensar dessa forma: é possível que haja uma teia singular que une todos os homens, ainda que indivíduos completamente diferentes? Há uma sincronia que nos entrelaça na mesma ideologia e na mesma jornada? A morte de um único homem diminuiria o tamanho do continente e seu isolamento tornaria menor a humanidade? Talvez sim, talvez não.

Ao homem também precisa existir o direito de se isolar, se assim for a sua vontade, com o objetivo de refletir, de se corrigir e de se ampliar interiormente. Aquele que encontrar a si mesmo estará apaziguado. Esse ato também é uma contribuição ao mundo.

Os grandes mestres, em determinada etapa da vida, isolaram-se: Buda sob a figueira, Jesus nos desertos. Isolaram-se para que o encontro fosse possível; para que, através da individualidade compreendida, a pluralidade fosse alcançada. A partir dessa compreensão tornaram-se prontos para acrescentar algo ao povo de onde vieram.  

O Ocidente vê a doação ao próximo como a mais bela forma de subjugar o ego através do amor altruísta. Já no Oriente, na Índia principalmente, compreende-se que 'santo' é aquele que consegue refrear os próprios desejos. Isolado, imerso nas matas mais insalubres, praticando a abstinência, evitando todas as sedes e as fomes que o desviem da rota da purificação, o indivíduo sai vitorioso na guerra contra a própria ignorância. Um homem assim é considerado quase 'deus', porque ao se iluminar, acrescenta um ponto de luz no Universo. 

Portanto em cada povo há um conceito de iluminação. Alguns compreendem que o homem não é e não deve ser uma ilha, que precisa de se unir ao continente; outros crêem que sim, que é necessário que se isole, que proceda assim para se compreender melhor.

Em verdade, não será o homem uma ilha? Todos homens, ilhas esparsas no oceano? Algumas, estreitas; outras, muito largas, tão vastas que podemos chamar de continentes? Mas não importa o tamanho das ilhas. O importante é que todas ilhas possuam pontes, que se comuniquem entre si, que se permitam a permuta de riquezas e o aprendizado mútuo. 

Concluo que nenhum de nós possui visão de águia. Cada um pensa e vê uma parte do mundo. Somando nossos olhos é possível enxergar um imenso panorama. A amizade, a solidariedade e o altruísmo são pontes que nos aproximam. Mas é necessário que a individualidade seja reverenciada, que o ensimesmamento seja livre, que seja respeitada a vontade de ir, de vir, de se retirar no momento desejado. Só assim, creio eu, cada homem em sua ilha interior será uno e ao mesmo tempo universal.   


Fotografia: Solitude, de Roberto Cambusano

domingo, 20 de janeiro de 2013

Não Há Fim











Como podemos notar, o mundo não chegou ao fim, pois não existe fim. Eis o que temos: metamorfoses e transmutações, em condições infinitas.

Sim, um dia, daqui alguns bilhões de anos, o sol vai esfriar, e vai apagar a sua luz, e todos os planetas deste sistema serão esferas de gelo ou pó cósmico de nebulosa. Isso é evidente e inevitável. 

Mas não nos preocupemos com as modificações naturais. Até isso acontecer, todos nós, os que habitamos este lugar, já estaremos há muito tempo em distantes galáxias prosseguindo a nossa evolução. Recorde: não somos apenas poeira de estrelas, somos muito mais: somos almas imortais. Diante disso, não existe fim. Mudamos apenas a localização de nosso Lar. 

Hoje temos a Terra, esta boa mãe que na forma física nos acolhe, e que merece a nossa mais profunda gratidão. E qual a maneira mais sábia de demonstrar esse respeito à Mãe Natureza, aqui e agora, senão cuidando bem de nossos irmãos do ar, da terra e da água? Todos dependem de todos, tudo está interligado a tudo. Ignorar essa verdade é antecipar as nossas metamorfoses, antes do momento certo. 


Credit Image: NASA astronaut photograph - ISS022-E-6674

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Não me curvo facilmente


Admiro o talento, a sensibilidade, a inteligência e o conhecimento de várias pessoas, e admiro muito os que persistem na bondade, porque desde que o mundo é mundo os bons quase sempre são recompensados com a ingratidão. Admiro-as, respeito-as pelo que conhecem e pelo que fazem, porém na maioria das vezes o meu corpo permanece em posição reta, não me curvo facilmente. Porque tenho visto só vaidade de vaidades, inclusive neste que ora reflete. O artista, o intelectual, o erudito só fazem porque precisam de platéia e aplausos, sonham em ver seus nomes nas placas e monumentos. E há muitos caridosos que ajudam só pela paz da consciência, ajudam a si mesmos.

Mas quando encontro alguém que possui inteligência e bondade nas mesmas proporções e todo bem que faz é pelo altruísmo que transcende, ou o talentoso genial que consegue ser humilde com sinceridade,  ou o bondoso que não perde o senso de justiça, e da mesma forma o justo que é equânime ao julgar - diante desses eu me curvo em profunda reverência. Em minha vida encontrei pouquíssimas pessoas assim. São raras.