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quinta-feira, 9 de junho de 2011

Rabindranath Tagore: As Coisas Transitórias



Chegará um silêncio absoluto,
e, então, a música será perfeita.
A vida inclinar-se-á ao poente
para afogar-se em sombras douradas.
O amor há-de ser chamado do seu jogo
para beber o sofrimento
e subir ao céu das lágrimas ...
Irmão, recorda isto, e alegra-te.

Apanhemos, no ar, as nossas flores,
não no-las arrebate o vento que passa.
Arde-nos o sangue e brilham nossos olhos
roubando beijos que murchariam
se os esquecêssemos.
É ânsia a nossa vida
e força o nosso desejo,
porque o tempo toca a finados.
Irmão, recorda isto, e alegra-te.

Não podemos, num momento, abraçar as coisas,
parti-las e atirá-las ao chão.
Passam rápidas as horas,
com os sonhos debaixo do manto.
A vida, infindável para o trabalho
e para o fastio,
dá-nos apenas um dia para o amor.
Irmão, recorda isto, e alegra-te.

Sabe-nos bem a beleza
porque a sua dança volúvel
é o ritmo das nossas vidas. Gostamos da sabedoria
porque não temos sempre de a acabar.
No eterno tudo está feito e concluído,
mas as flores da ilusão terrena
são eternamente frescas,
por causa da morte.
Irmão, recorda isto, e alegra-te.


Rabindranath Tagore (1861-1941)


sexta-feira, 20 de março de 2009

Rabindranath Tagore: 3 Poemas



Em 1913, o poeta indiano Rabindranath Tagore recebeu merecidamente o prêmio Nobel, o primeiro asiático a recebê-lo. Como poeta e escritor criou em quase todos os gêneros, além de ser também compositor e pintor. E foi homem sábio, coerente com suas crenças, tanto que recusou em protesto político o título de Sir que lhe oferecera a Coroa Britânica. O seu lirismo é belo, muito belo, como podemos ler nos três pequenos poemas que seguem. São poesias bastante conhecidas e citadas, mas é sempre bom relembrá-las. Curiosamente, a doçura e a melancolia de Tagore possuem muita semelhança com os grandes poetas chineses da Dinastia T’ang: Li Po e Tu Fu.

Flor-de-Lótus

No dia em que a flor de lótus desabrochou
A minha mente vagava, e eu não a percebi.
Minha cesta estava vazia e a flor ficou esquecida.
Somente agora e novamente, uma tristeza caiu sobre mim.
Acordei do meu sonho sentindo o doce rastro
De um perfume no vento sul.
Essa vaga doçura fez o meu coração doer de saudade.
Pareceu-me ser o sopro ardente no verão, 
procurando completar-se.
Eu não sabia então que a flor estava tão perto de mim
Que ela era minha, e que essa perfeita doçura
Tinha desabrochado no fundo do meu coração.

Se Não Falas

Se não falas, vou encher o meu coração
Com o teu silêncio, e agüentá-lo.
Ficarei quieto, esperando, como a noite
Em sua vigília estrelada,
Com a cabeça pacientemente inclinada.

A manhã certamente virá,
A escuridão se dissipará, e a tua voz
Se derramará em torrentes douradas por todo o céu.

Então as tuas palavras voarão
Em canções de cada ninho dos meus pássaros,
E as tuas melodias brotarão
Em flores por todos os recantos da minha floresta.

De “Gitanjali”

Deixa a cantilena, o cântico
e a recitação de contas de rosário!
A quem veneras neste recanto
solitário e escuro de um templo de portas fechadas?
Abre teus olhos e vê
que teu Deus não está diante de ti!
Ele está onde o agricultor está lavrando o chão duro
e onde o pedreiro está rachando pedras.
Ele está com eles no sol e na chuva,
e sua roupa está coberta de poeira.
Remove teu manto sagrado
e como Ele desce para o chão empoeirado!
Libertação? Onde se encontra essa libertação?
Nosso mestre assumiu pessoalmente com alegria
os vínculos da criação;
Ele está vinculado a nós para sempre.
Sai de tuas meditações
e deixa de lado tuas flores e o incenso!
Que mal há se tuas roupas ficam gastas e manchadas?
Encontra-o e fica com Ele na faina e no suor de tua face.


Rabindranath Tagore (1861-1941) 


Mandala Flor-de-Lotus
Direitos: Petramística. Desenho de Renata França