quarta-feira, 22 de julho de 2009

Paráfrase e Alegoria


Os Três Filhos Ingratos (conto-paráfrase)


1 Deus, após criar o mundo e todas as coisas, criou também o homem. Depois descansou, porque amassar, moldar, assoprar e dar vida ao barro não é tarefa para qualquer um.

2 Aconteceu que nesse momento de cochilo, Ele permitiu que o Diabo criasse a mulher, a mesma que induziu o homem a comer a maçã vermelha, descobrindo assim, ambos, o desejo para sempre e todo o sempre.

3 “Serás Deus”, disse o Diabo em formato de Serpente, e riu às largas, lançando esse gracejo burlesco, alimentando no primeiro casal a sua própria ambição de usurpador. E assim foi criada a verdadeira raça que rasteja.

4 Deus tomou ciência da traição de ambos e ficou irado ao observar os atos de sua obra. Chorou pelo homem. Assumiu o erro, pesaroso. Quanto à mulher, fechou um olho, porque não era criação diretamente sua.

5 Um pouco confuso, Deus sorriu no canto dos lábios, que é o modo dos inteligentes diante das futilidades das coisas: “Essa que aqui está é mais filha da Natureza do que minha. E vejo que o anjo rebelde, outrora filho predileto, fez mais uma de suas travessuras. E sendo essa mulher mais neta do que filha, e sendo todos partes de mim, todos os erros eu assumo. Mas é preciso ministrar um castigo provisório”.

6 E abaixou a cabeça, um pouco envergonhado, evitando olhar para cima, temendo o descaso do outro Deus, mais poderoso e que habita alturas mais inacessíveis. Porque não é de duvidar que, nessa hierarquia de Deuses, perdem-se de vista os patamares. Acima de um Deus sempre existe outro Deus mais lúcido e menos sujeito a falhas, sugerindo a nós, vermezinhos, a idéia de quão distantes estamos da redenção, e que nos consolemos uns aos outros nessa condição de sinuosa vertigem.

7 Foi assim que o Deus de nosso círculo celestial mais próximo teve que agir: expulsou a mulher e o homem do Paraíso, condenando-os a tirar do próprio suor a sobrevivência na Terra, deixando-lhes como diversão os prazeres da carne, bem como as delícias da procriação para terem a ilusão de serem pequeninos deuses.

8 Tu, Adão, que veio de um barro gelatinoso, sairás a trabalhar a argila e construirás cidades e retornarás à mesma poeira de que foram feito teus ossos e tua carne. Serás como aquela matéria grosseira, colado às pedras, mal acabado, almejando individualidade mais amena. Às vezes obtuso, às vezes brilhante, reinarás sobre os bichos da terra.

9 Eva, tu, composta de um pedaço de osso, mais resistente e mais refinada, serás o complemento. Onde falhar a praticidade de Adão, tu reinarás pela intuição nos assuntos da alma. Ainda assim estarás associada à matéria. Quando não estiveres rastejando em gemidos de parto, estarás cumprindo o ciclo da lua, limpando o sangue das pernas. Será tua paga pela curiosidade no episódio do jardim, por seres tão tola ao acreditares nos apelos da serpente astuta. E, Homem, tu, mais tolo ainda por não refletires, estarás obrigado por lei a amparar a tua mulher nos dias de fluxo. E aconselho-te que tenhas paciência! Senão os teus dias serão bem piores naquele inferno para onde ireis.

10 Ambos conhecereis o declínio da beleza. Chegará o tempo, Adão, que o teu vigor decrescerá a olhos vistos. Não coordenarás os teus passos. As tuas vistas ficarão turvas. E qualquer moleque de aldeia direcionará as tuas pernas para caminhos alheios à tua vontade. Eva, que vives a valorizar as delicadezas, tu, apesar da sedução do rosto belo e das carnes firmes e dos peitos erectos e das coxas roliças e do púbis ardente, um dia também enrugarás como um pergaminho e tornarás ao pó e nada mais!

11 Homem e Mulher criarão a vida a partir do fruto proibido, mil vezes remoído e triturado, a gotejar um sumo doce e amargo nos vales da Terra. Mas valerá a pena, pois conhecereis o gozo no cio em escandalosos uivos de felicidade. Serão rápidos, é bem verdade, mas vão compensar toda a arrastada dor da existência. Os chistes amorosos e o jogo das seduções não vos diferenciarão dos outros animais da terra. Haveis de cometer os mesmos desvarios e não sereis superiores aos símios, ou aos cães ou às porcas em cio. Rolareis na mesma lama, e perdereis o sentido da dignidade todas as vezes que o desejo correr em vosso sangue. Chegará o tempo em que o prazer não será suficiente para amenizar o desespero pela ausência de afeto. Os filhos de Adão não vão respeitar as filhas de Eva, fechando os olhos à necessidade que elas têm sobre as coisas do coração. E como vingança elas vão amordaçar as próprias entranhas para que eles não as penetrem totalmente. A estirpe de Adão haverá de pensar que possui o domínio, ouvirá uivos (simulados) mas, lá no fundo bem fundo, só haverá o ressentimento e posse nenhuma. O membro de Adão chegará apenas nas proximidades do coração de Eva. O abismo da solidão reinará sobre a alma humana. E nada mais.

12 De teu ventre, Eva, nascerão os filhos para que o vazio da existência te seja ilusoriamente preenchido. Abel e Caim, assim serão chamados os da progenitura. Na testa de um, desejoso da prática do bem, estará a marca da ingenuidade, do sorriso manso; o outro será astuto e desprovido de escrúpulos. E o restante da imensa prole será a dos indecisos que correm como o vento sem direção sob a liderança efêmera ora dos bons ora dos maus. Saiba desde já que de todas as maneiras os maus abaterão os bons. E a honestidade será motivo de riso. Nos malfeitores o arrependimento pouco durará, porque na terra do suor e das delícias pouca serventia há em ser bom. E os pais criarão os filhos para o mundo, e estes certamente vão dizer impropérios e vão se lançar às estradas. Porque desde muito cedo os filhos hão de rir dos conselhos e não vão respeitar as claras madeixas dos velhos, porque naturalmente nada hão de saber das armadilhas do mundo e do vinagre da vida. E quando estiverem aptos para a compreensão e retornarem ao lar para as saudações e gratidões já há muito tempo estarão os genitores irmanados com a poeira da terra.




13 Não queirais me indagar o motivo de tudo isso. Apenas vos digo que dou a prisão para que com o esforço do suor conquisteis a própria abundância. Por ele há de vir a libertação. O fruto que proibi e na curiosa comilança me desobedecestes é o conhecimento que só deveria chegar-vos no momento certo. Tu e ela roubaram o meu jardim, auxiliados por aquele que rasteja, o ambicioso maior. Sim, há inocência em vossos atos. Mas enxergardes, e coisas vistas são coisas conhecidas. Necessário é que arqueis com o peso desse antecipado conhecimento, colhido no impulso da inexperiência. Por isso, dou-vos a dor para que vos liberteis por vós mesmos. No fim de tudo, de todo conhecimento burlado, reinará a Vida. Eva, tu que roubaste a maçã, por muitos milhares de anos verterás o sangue que regará os nascimentos de onde surgirão civilizações. Serás chamada a Mãe da Vida, e por isso redimirás a ti e ao teu companheiro, Adão. E através desse teu ventre de Terra até mesmo o arcanjo rebelde encontrará o portal do retorno. Eva, o teu sangue será a redenção de todos os pecados gerados pela antecipação. Não me queirais mal, filhos e neta. Sou apenas Pai e Avô. E quando vos transformardes, vós e toda a Humanidade, em Deuses também, quando tereis encontrado a imagem da perfeição que almejo para vós, então, abrirei novamente as portas de meu Jardim.

14 O Supremo, por fim, dizendo tudo isso, de repente parou os gestos e ficou olhando o seu jardim. Talvez risse da exuberância de seus frutos proibidos. E não disse mais nada. Indicou a porta de saída aos dois filhos ingratos. Cansado de tudo, ergueu-se e foi empurrando também a Serpente e sua hoste para o abismo.

15 Desde então, o único conselheiro do homem e da mulher tem sido esse mesmo irônico Diabo, que às vezes se veste de misericordioso e cria religiões só para variar.


16 E Deus permaneceu triste, desamparado e sozinho em seu Paraíso. Os arcangélicos Miguel, Rafael e os outros, bem como os serafins e os querubins eram bons e eram justos, mas não podiam compreender a dor humana do Divino.


O Quarto Filho Ingrato (alegoria)
 
1 Então Deus resolveu criar um outro tipo de filho para fazer-lhe companhia.

2 “Serás masculino e feminino e essa será a única Imagem em cada lado do espelho! Como Espírito serás feito de excessiva inteligência e de exacerbados sentimentos. Revestido de sete cores, de sete sons, de sete palavras, serás profundamente conhecedor da beleza que existe tanto na luz como nas trevas.”

3 Mas esse novo filho cansou-se da companhia de Deus e quis fugir para conhecer a Terra, que é, como foi dito e repetido, exílio de dor e de delícias. Aqui ficou durante um tempo razoável e cansou-se também dos homens e de suas tolas vaidades e de suas estúpidas paixões.

4 E retornou ao Céu, pedindo humildemente a Deus: “Tanto o Céu como a Terra me aborrecem e ao mesmo tempo me fascinam. Quero liberdade para viver em ambos os lugares. E quero também uma diversão para preencher o tédio da existência: quero criar, ter a alegria da criação como o meu Pai tem.”

5 E Deus inclinou-se, e falou quase em sussurros, próximo ao ouvido do indeciso: “Filho ingrato! Dou-te o Céu e queres a Terra. Foges de mim para viver naquele antro e logo para cá retornas. Não queres nem um nem outro e ambos ao mesmo momento. E agora queres o dom da criação?”

6 E responde o filho: “Sim, meu Pai! Quero compreender a lactescência da Vida.”

7 “Queres imitar Deus?” – perguntou o Divino. “Mas nenhum ser imita o Criador impunemente. Queres criar? Pois bem, então criarás. Vais conhecer o dom da criação.”

8 Entusiasmado, responde o filho: “É o que mais quero. Nenhuma alegria pode ser mais profunda do que o ato da invenção. Estou disposto a pagar qualquer preço para ter esse dom a pulsar em todo o meu corpo, em minha mente e na totalidade de minha alma.”

9 E Deus, coçando a imensa e longa barba, sempre sorrindo e rindo pelo canto dos lábios, disse: “Sim, o terás. Serás sempre designado como ‘o escolhido, o artista’, como ‘aquele que tem o dom de ver e ouvir o que outros não podem’. És todo livre. Concedo-te a liberdade de escolha. Um poeta ? um pintor? um músico? Saibas que por onde caminharem os teus pés, hão de te chamar: ‘Ó mensageiro do Céu e da Terra!’. Entre raças e nações serás admirado, mas com inveja e medo. Lembra-te sempre: terás a admiração de quase todos mas nunca serás amado pelo dom que possuíres. Para os homens práticos serás no fundo apenas um desprezível doidivanas. E aqueles de cujos olhos lágrimas florescem diante da beleza oferecida, pelas costas tratar-te-ão de egocêntrico e arrogante. Olhar-te-ão com desconfiança, ainda que beijem as tuas mãos.”

10 E o Sereníssimo interrompeu aqui o colóquio, abaixou a cabeça cansada, olhou longamente a pele enrugada da mão, contemplou os dedos velhos, as falanges muito velhas, aqueles mesmos dedos com que compôs a poesia do firmamento e a música das esferas, os mesmos com que pintou a beleza dos mundos. E com aquele risinho amargo foi continuando:

11 “Sim, viverás o êxtase primordial! Mas também conhecerás a distância e o isolamento. Terás a chance, filho dileto, de compreender a solidão em que vive o teu Deus. E, assim, seremos companheiros na mesma alegria ...e na mesma dor.”


***


Ilustrações: pinturas e gravuras de William Blake (1757-1827)
The Ancient of Days (1794) - The Body of Abel funded by Adam and Eve (1825) - Urizen plays before the world he has forged (1790) - Elohim creating Adam (1795)

quinta-feira, 2 de julho de 2009

Hermann Hesse: Poemas Escolhidos


"A cada chamado da vida o coração
deve estar pronto para a despedida e para
novo começo, com ânimo e sem lamúrias,
aberto sempre para novos compromissos.
Dentro de cada começar mora um encanto
que nos dá forças e nos ajuda a viver."


 Foto: ano de 1920. 
Hesse caminhando pela região da aldeia de Montagnola, 
no Ticino, época em que iniciava o romance Sidarta.



Comemora-se hoje o nascimento do grande escritor Hermann Hesse. Ano de 1877, em Calw, pequena cidade do estado de Württemberg, sul da Alemanha.

No início do século, Peter Camenzind (1904), primeiro romance do autor, fez grande sucesso na Alemanha, devido ao tom lírico da obra. O realismo e o excessivo naturalismo imperavam na época e saturavam pelo estilo seco. A narrativa de Hesse, evocando a atmosfera bucólica de montanhas e pequenas cidades, fez reviver um passado medieval e romântico, tão caro aos alemães. Foi uma novidade, o que resultou em fenômeno de vendas. Em 1906 publicou o segundo romance Sobre as Rodas. Este não repetiu o sucesso do primeiro. Em Peter Camenzind o personagem central era um poeta. Talvez por isso, pelo tema ter agradado tanto os leitores, escreveu mais dois romances sobre artistas: Gertrude (1910) ambientado no mundo da música, e Rosshalde (1914), sobre um pintor.  Dos três o último é o melhor realizado, enquanto obra de ficção, embora tenha nítidos traços autobiográficos. Na época Hesse vivia os mesmos problemas familiares. Criador e personagem, artistas bem sucedidos, porém fechados em si mesmo. Ambos perdem-se da esposa devido à incomunicabilidade humana. Diga-se de passagem, estas obras receberam o aplauso dos leitores e estabilizaram a vida financeira do autor.

A ficção neo-romântica de Hesse mudou radicalmente no confronto espiritual com a guerra de 1914. Com pseudônimo, em 1917, publicou Demien, que foi um marco para a geração do pós-guerra. E ainda hoje é visto como o mais significativo romance do movimento expressionista. Além do valor artístico e histórico, a obra é também considerada a maior contribuição de Hermann Hesse à literatura, pois nessa data foi introduzida pela primeira vez o tema da psicanálise, ciência surgida de Freud e ampliada por Jung. Em 1922 apareceu Sidarta, romance-poema, uma das obras mais amadas de Hesse, pela sabedoria oriental que soube tão bem adaptar aos problemas existenciais de cada um. Mas a maior contribuição do autor à literatura propriamente dita, e que o tornou conhecido no mundo todo, foi o sétimo romance O Lobo da Estepe, de 1927, obra experimental, considerada por muitos como obra-prima do mesmo valor de romances inovadores do período entre-guerras: Em Busca do Tempo Perdido de Proust; Ulisses de Joyce; O Processo de Kafka; A Montanha Mágica de Mann; Passeio ao Farol de Virginia Woolf, Os Moedeiros Falsos de Gide; O Som e a Fúria de Faulkner; e O Homem Sem Qualidades de Musil. Assim é O Lobo da Estepe: trata-se de obra completamente diferente das anteriores, tanto pelo tom seco e amargo, como pela técnica literária labiríntica. E chega a ser profética, pois antevê os horrores da segunda guerra, que eclodiria na década seguinte. Em 1930 é publicado Narciso e Goldmund, outro grande romance que também utiliza a psicanálise de maneira rica e profunda, além de vários recursos e temas de obras anteriores: transcorre em um passado distante, talvez medieval, e o personagem também é artista, um escultor.

Por fim, após 12 anos, em 1943 publica o nono romance O Jogo das Contas de Vidro, muito mais extenso do que todos os outros e muito mais elaborado. Desta vez, a história se passa em um país hipotético de um futuro distante. A obra é magistral, várias vezes comparada ao Wilhelm Meister de Goethe. Trata-se do último romance de Hesse. Ao menos, no campo da Ficção é o seu Testamento literário. O autor ainda viveu 20 anos após o lançamento. Publicou outros gêneros, mas nenhum outro romance.

Os leitores e a crítica se dividem, quando tentam destacar dentre esses nove romances o maior de Hermann Hesse. Metade diz que é O Lobo da Estepe; a outra, afirma categoricamente que é O Jogo das Contas de Vidro. Em verdade, é uma tarefa difícil. E não há necessidade de confronto, pois obra artística não é nenhum competidor almejando a primeira posição do pódio. Cada leitor escolhe aquela com a qual mais se identifica. Para mim, a maior obra de Hesse não é nenhuma das duas mencionadas. Escolho Sidarta, que tem sido, desde a adolescência, um de meus guias espirituais imprescindíveis. Sinto uma enorme gratidão pelo autor por ter escrito essa dádiva de sabedoria. Aprecio também, particularmente, a forma como foi escrito: não deixa de ser um romance, mas é sobretudo um poema em prosa; utiliza a cadência e a sonoridade sensual da poesia hindu, atingindo em alguns pontos a mística dos hinos védicos, tudo isso somado às características dos líricos alemães, Eichendorff e Mörike, que Hesse tanto amava.
 
No contexto, devemos ainda mencionar algumas narrativas curtas no gênero da ficção: as novelas Knulp (1915) e Viagem ao Oriente (1932), e os maravilhosos contos Na Velha Estalagem do Sol, Bela é a Juventude, Augusto e Encarnação Hindu; este último inserido em O Jogo das Contas de Vidro. Na área da não-ficção há os 3 ensaios de Olhar sobre o Caos (1923), tão admirados por T. S. Eliot, e os artigos pacifistas coletados em Sobre a Guerra e a Paz (1946), de valor histórico. E, por fim, recordo-me daquelas pequenas obras que Hesse publicou ao longo  da vida, contendo prosa intimista e versos ilustrados com suas próprias aquarelas expressionistas. Caminhada (1920) é um desses pequenos grandes livros, talvez o mais encantador, o mais amado pelos leitores da obra hessiana.

Hesse tornou-se famoso mundialmente como romancista. Contudo, e é fato curioso, apesar da importância da prosa de ficção, não foram os romances e sim a poesia que escreveu durante a vida toda, paralelamente à prosa, que lhe concedeu o grande Prêmio Nobel de Literatura. Os organizadores da Academia Sueca preferiram premiar o autor pelo livro As Poesias de 1942, que é o conjunto de todos os poemas escritos, desde 1898 até aquela data, porque reconheceram que a obra poética do autor alemão “é atemporal e sobreviverá à ficção”.

É opinião deles. A maioria dos críticos não concorda. Sem dúvida, a poesia de Hesse é muito bela e sensível, mas é a parte mais tradicional de sua obra. Seria um epígono se não tivesse personalidade. Salvo em algumas ocasiões, nos versos escritos durante as crises existenciais, toda a lírica hessiana é um eco do romantismo de meados do século anterior a ele. Nesse sentido, o autor é mesmo o legítimo herdeiro dos grandes poetas românticos do século XIX: Joseph Einchendorff e Edouard Mörike.

A poesia de Hermann Hesse é muito conhecida nos países de língua alemã. O autor, enquanto poeta, é considerado 'clássico' e seus versos fazem parte, há tempos, dos currículos escolares da Alemanha. No entanto, apenas alguns poemas aparecem com frequência em antologias européias e mundiais.

Como homenagem a esse grande escritor, que jamais será esquecido, tanto pela ficção quanto pela poesia, transcrevo aqui alguns de meus poemas preferidos. Em honra à sua memória, escolho a poesia, porque Hermann Hesse se considerava antes de tudo um poeta, um lírico alemão. Ele mesmo, na idade de 14 anos, disse: “Serei poeta ou nada.” E completou, na velhice: “Escrevo romances por ocasião; poeta sou, por vocação.” O grande Thomas Mann, que considero o maior escritor do século XX, amigo de Hesse, gostava de compará-lo a um 'rouxinol suábio' pela delicadeza musical de seus textos. Tinha toda a razão.

E, da mesma forma, somos imensamente gratos ao poeta brasileiro Geir Campos que traduziu esses versos, captando com mestria o ritmo e a essência lírica de Hesse.



Sorte

Enquanto vives perseguindo a sorte,
não estás pronto para ser feliz,
ainda que seja teu o que mais queres.

Enquanto te lamentas do perdido,
e tens metas e não te dás descanso,
não podes saber o valor da paz.

Só quando a todo anelo renuncias,
sem objetivos nem desejos mais,
e já não dás à sorte qualquer nome,

já a maré dos eventos não te atinge
o coração, e se acalma tua alma.

(em “No Caminho”, 1911)

Ramo em Flor

Para cá e para lá
sempre se inclina ao vento o ramo em flor,
para cima e para baixo
sempre meu coração vai feito uma criança
entre claros e nebulosos dias,
entre ambições e renúncias.
Até que as flores se espalham
e o ramo se enche de frutos,
até que o coração farto de infância
alcança a paz
e confessa: de muito agrado e não perdida
foi a inquieta jogada da vida.

(em “Música da Solidão”, 1915)

A Meu Irmão

Quando revemos nossa casa, agora,
andamos encantados pelos cômodos,
ficamos longo tempo no jardim
onde – meninos levados – brincávamos.

E de todos os outros esplendores
que pelo mundo afora conquistamos,
nenhum mais nos alegra nem agrada
quando o sino da igreja faz-se ouvir.

Calados repisamos velhas trilhas
cruzando o verde terreno da infância:
e elas no coração tornam-se vivas,
grandes e estranhas, como um belo conto.

Mas tudo o que estaria à nossa espera
já não há de ter mais o puro brilho
de outrora – quando, ainda rapazolas
no jardim caçávamos borboletas.

(em “Música da Solidão”, 1915)

A Noite

Rescende a flor na várzea,
longínqua flor da infância
que só de raro em raro ao sonhador
abre o velado cálice
e deixa ver – cópia do sol – seu interior.
Por cima das cordilheiras azuis
cega a noite vagueia
puxando sobre o seio a veste escura:
sorrindo esparze a esmo
sua dádiva – o sonho.
Curtidos pelo dia, em baixo dormem
os homens: têm os olhos
cheios de sonhos,
alguns viram o rosto suspirando
para as flores da infância
cujo aroma os atrai de leve na penumbra,
e ao severo chamado paternal do dia
confortados se alheiam.
Para o exausto, é um alívio
refugiar-se nos braços da mãe
que os cabelos do sonhador alisa
com mãos despreocupadas.
Somos crianças, logo nos fatiga o sol
- ainda que seja para nós destino e futuro sagrado –
e tombamos a cada anoitecer
pequeninos de novo no regaço da mãe,
balbuciamos palavras da infância,
palpamos o caminho do regresso às origens.
Também o pesquisador solitário
que para o vôo ao sol se propusera
vacila, também ele, à meia-noite
voltado para o ponto de partida longe.
E o que dorme, quando um pesadelo o desperta,
confusa a alma, pressente no escuro
a hesitante verdade:
toda corrida, para o sol ou para a noite,
conduz à morte, leva a novo nascimento,
dores que a alma receia.
Mas seguem todos o mesmo caminho:
todos morrem e tornam a nascer,
porque a eterna mãe
devolve-os eternamente ao dia.

(em “Poesias Escolhidas", 1921)

Sonhando Contigo

Às vezes quando me deito
e meus olhos se fecham,
com a chuva batendo na cornija
os seus dedos molhados,
tu vens a mim,
esguia corça hesitante,
dos territórios do sonho.
Então andamos ou nadamos ou voamos
por entre bosques, rios, bandos de animais,
estrelas e nuvens com tintas de arco-íris:
tu e eu, a caminho da terra de origem,
rodeados de mil formas e imagens do mundo,
ora na neve, ora ao fogo do sol,
ora afastados, ora muito juntos
e de mãos dadas.

Pela manhã o sono se dissipa,
afunda dentro de mim,
está em mim e já não é mais meu:
começo o dia calado, descontente e irritadiço,
porém algures continuamos a andar,
tu e eu, rodeados de coleções de imagens,
a interrogar-nos entre os encantos da vida
que nos embroma sem saber mentir.

(em “Consolo da Noite”, 1929)

Ao Poeta Indiano Bhartrihari

Igual a ti, ancestre e irmão, também vou eu
entre o espírito e o instinto, em zigue-zague:
hoje sábio, doido amanhã, hoje de todo
entregue a Deus, amanhã ao ardor da carne.
Com ambos os açoites vou me flagelando
em sangue os costados: volúpia e penitência
- monge ou estróina, pensador ou bestial.
A culpa do existir em mim pede perdão.
Hei de pagar pecados em ambos caminhos,
em ambos fogos ardendo me aniquilar.

Os que me veneravam ontem como santo,
hoje em mim vêem um perdido libertino;
os que comigo chafurdavam na sarjeta
ontem, hoje me vêem jejuar e orar;
e todos cospem de lado e fogem de mim
- o amante falso, sem decoro e dignidade.
Em minha coroa de espinhos eu também
trago, entre as rosas rubras, a flor do desdém.

Hipócrita palmilho um mundo de aparências,
malquisto por vós e por mim, para as crianças
um monstro – e sei que qualquer ação, vossa ou minha,
perante Deus pesa menos que o pó ao vento.
E sei mais: nesta senda inglória de pecado
me sopra o bafo de Deus e eu devo agüentá-lo,
devo abusar – cada vez mais culpado, no êxtase
do prazer ou na proscrição dos meus malfeitos.
Qual o sentido desta agitação, não sei:
com as imundas e perversas mãos esfrego
o pó e o sangue do meu rosto – e bem ou mal
este caminho hei de levar até o final.

(em “Consolo da Noite”, 1929)

No Castelo de Bremgarten

Quem um dia plantou os velhos castanheiros,
quem um dia bebeu a água a esguichar da fonte,
quem um dia dançou no salão enfeitado
- foram-se todos, esquecidos e enterrados.

Hoje é a nossa vez: para nós brilha o dia
e cantam para nós alegres passarinhos,
sentamo-nos à mesa e sob a luz das velas
brindamos ao dia que é para nós eterno.

Quando nos formos e estivermos esquecidos,
nas árvores altas ainda se há de escutar
o gorjeio do melro e o cântico do vento,
e lá em baixo entre as pedras o rio a espumar.

No vestíbulo, na hora do grito noturno
do pavão, hão de estar aqui outras pessoas:
falarão, louvarão a maravilha da hora,
embandeirados barcos estarão passando,
e o eterno presente há de rir como agora.

(em “Novas Poesias”, 1937)

Andares

Como emurchece toda flor, e toda idade
juvenil cede à senil – cada andar da vida
floresce, qual a sabedoria e a virtude,
a seu tempo, e não há de durar para sempre.

A cada chamado da vida o coração
deve estar pronto para a despedida e para
novo começo, com ânimo e sem lamúrias,
aberto sempre para novos compromissos.
Dentro de cada começar mora um encanto
que nos dá forças e nos ajuda a viver.

Devemos ir contentes, de um lugar a outro,
sem apegar-nos a nenhum como a uma pátria:
não nos quer atados, o espírito do mundo
- quer que cresçamos, subindo andar por andar.
Mal a um tipo de vida nos acomodamos
e habituamos, cerca-nos o abatimento.

Só quem se dispõe a partir e a ir em frente
pode escapar à rotina paralisante.
É bem possível que a hora da morte ainda
de novos planos ponha-nos na direção:
para nós, não tem fim o chamado da vida...
Saúda, pois, e despede-te, coração!

(em “Andares”, 1961)

Rabisco na Areia

Que encantamento e beleza
sejam brisa e calafrio,
que o delicioso e bom
tenha escassa duração
- fogo de artifício, flor,
nuvem, bolha de sabão,
riso de criança, olhar
de mulher no espelho, e tantas
outras coisas fabulosas
que, mal se descobrem, somem –
disso, com pena, sabemos.
Ao que é permanente e fixo
não queremos tanto bem:
gemas de gélido fogo,
ouros de pesado brilho,
por não falar nas estrelas
que tão altas não parecem
transitórias como nós
e não calam fundo na alma.
Não: parece que o melhor,
mais digno de amor, se inclina
para o fim, beirando a morte,
e o que mais encanta – notas
de música, que ao nascerem
já fogem, se desvanecem –
são brisas, são águas, caças
feridas de leve mágoa,
que nem pelo tempo de uma
batida de coração
deixam-se reter, prender.
Som após som, mal se tocam,
já se esvaem, vão-se embora.
Nosso coração assim
leal e fraternalmente
se entrega ao fugaz, ao vivo,
não ao seguro e durável.
Cansa-nos o permanente
- rochas, mundo estelar, jóias –
a nós, transmutantes, almas
de ar e bolhas de sabão,
cingidos ao tempo, efêmeros
a quem o orvalho na rosa,
o idílio de um passarinho,
o fim de um painel de nuvens,
fulgor de neve, arco-íris,
borboleta que esvoaça,
eco de riso que só
de passagem nos alcança,
pode valer uma festa
ou razão de dor. Amamos
o que é semelhante a nós,
e entendemos os rabiscos
que o vento deixa na areia.

(em “Andares”, 1961)


Foto acima, ano de 1920, Hesse caminhando na região da
aldeia de Montagnola, no Ticino, período em que escrevia
Sidarta.

Abaixo, em 1927, ano da publicação de O Lobo da Estepe.

















Hermann Hesse (1877-1962)

terça-feira, 30 de junho de 2009

Canção Taoísta


Após o ciclone
o poeta fala às flores destroçadas:
“outro mundo há de existir
além deste pequeno jardim”.

Olhando a terra um filósofo chora:
“Ruínas, como sempre”.
E o outro filósofo consola: “Mas,
... veja como o céu ficou claro.”

Só Chuangtse o sábio
nada pensa nada diz
apenas toca a flauta de bambu
após o ciclone.



sábado, 27 de junho de 2009

Beethoven: o Arquiduque pelo Trio Brasileiro



Este é um de meus CDs preferidos. Ouço-o frequentemente. Primeiro, por ser uma das maiores obras de BEETHOVEN; segundo, pela interpretação exata do Trio Brasileiro (Gilberto Tinetti: piano, Erich Lehninger: violino e Watson Clis: violoncelo).

Dentre todas que já ouvi, esta elegante e maravilhosa leitura do TRIO BRASILEIRO é a que conseguiu captar com mais profundidade o espírito do mestre.

O Trio para Piano, Violino e Violoncelo em Mi bemol maior Op. 97, de 1811, é o último escrito por Beethoven para essa formação. Foi dedicado ao arquiduque Rodolfo, aluno, protetor paciente e amigo afetuoso do compositor. Essa é a razão do subtítulo “Archduke”, pelo qual é mais conhecida.

Obra perfeita e sublime, tanto em forma como em conteúdo, eleva-se a alturas espirituais como poucas antes e depois dela. Percebam a inexcedível beleza, desde os primeiros acordes do movimento inicial Allegro moderato, passando pelo Scherzo, ora ensolarado ora de júbilo contido, demorando-se um pouco mais na profunda reflexão de adeus do terceiro, o Andante cantabile, ma però com moto, para concluir sem interrupção no último Allegro moderato, de resignado agradecimento.

De resignação sim, pois a obra de 1811 é também histórica, data em que Beethoven despede-se de sua carreira de virtuose do piano. Foi a última que tocou em público. Improvisador impressionante, desde a adolescência, considerado um dos maiores pianistas da época, como relatam os documentos, Beethoven viu-se obrigado, aos 41 anos de idade, a se silenciar como intérprete, devido à surdez que o impedia de ouvir a própria execução.

Diante disso, é justo dizer: o Trio Arquiduque é o mais comovente adeus de um músico ao seu instrumento.


Download MP3: Baixar
Beethoven.TrioArchduke.TrioBrasileiro.zip



domingo, 7 de junho de 2009

No Fim do Arco-íris Há um Pote de Ouro




Há um pote de ouro no fim do arco-íris.

Eis o sentido de uma lenda que pode ser real dependendo de cada um. Mas só chegaremos até o pote após a compreensão das sete cores e de seu vasto significado:

O VERMELHO da necessária paixão que impulsiona e cria experiências novas, alimentadas pelo direito de sonhar. É a que possui menos energia espiritual, mas vem da matéria palpável, por isso condensa a força da terra, barro santo de onde surgimos para recriar possibilidades de reiventarmos o milagre da vida.

O LARANJA é o sol, ensinando-nos a manter um dos bens supremos: a saúde, que nos dá a chance de viver, de caminhar cada trecho do caminho. Sol que perpassa átomos e células, que nos incita a desenvolver asas, a sonhar com a absorção do brilho de auréolas.

O AMARELO da inteligência, herança do Criador em nós. Silenciosa chama sem combustão, que nos permite refletir, analisar, ponderar. Associada ao vermelho rubro da paixão, impulsiona e concede-nos a construção do real. A inteligência – luz antes da luz, energia criativa antes do verbo – pensamento que gradativamente se enriquece na vivência, transmutando-se em prudência e sensatez.

O VERDE da clorofila das matas, da renovação das naturais belezas, que nos alimenta e ensina que somos parte da terra, dela viemos e a ela retornaremos, eternos viandantes e aprendizes.

O AZUL da liberdade, cuja compreensão almejamos, mas que ainda não se tornou em voo ou em paz da consciência, e esta tem muitas maneiras individuais de ser conquistada.

O ANIL é a noite que guarda tantas estrelas. E fé: semente do dia a nascer, pois tudo pode se transformar no curto período de uma noite para outra manhã que nasce. O Anil, sendo noite que se transforma ou madrugada que chega, é luz insinuada, acena pela busca da verdade e do caminho que transcende.

O VIOLETA, que está do outro lado do arco, parece ser o oposto do vermelho. Em verdade é complemento e sequência. É o fogo que deixou de arder, é a substância consumada pela cinza, a metamorfose da ação para a contemplação. Anuncia e nos faz compreender tristezas inevitáveis, que nos conduzem ao aprofundamento do espírito, pois tudo é indispensável na vida: as alegrias são importantes, as tristezas são necessárias. É a cor de mais energia espiritual, pois dela vem a meditação sobre verdades eternas.

A insensatez é a ausência de todos os conhecimentos, é a escuridão da noite sem estrelas. É Maya, é Adam Belial.

O conhecimento da harmonia das cores, aplicado em nossa vida surge quando há LUZ captada no prisma, transformando-se no BRANCO da paz interior.

No fim do arco-íris há um pote. E esse pote com o tesouro dentro chama-se sabedoria, e é fato, só temos direito de encontrá-lo após vivenciarmos cada etapa da vida, profundamente bem vivida na dor e no riso.



(em "Sobre a Cinza e o Fogo: Pequenas Reflexões")




terça-feira, 2 de junho de 2009

do Dhammapada



 Certo dia, perguntaram
ao príncipe Siddharta Gautama, o Buddha:
- Tu és Deus ?

E ele disse: - Não.

- Mas tu és um anjo porque tu brilhas.

- Também não.

- E por que brilhas tanto ?

- Porque estou desperto, porque acordei do letargo.


(do Dhammapada)




sexta-feira, 29 de maio de 2009

No Palácio de Espelhos



é madrugada
a bailarina gira inebriada
no palácio de espelhos

em música
os fantasmas erguem-se
esguios

na imaginação:
todos: altos belos brancos
quase vivos

no centro do salão
um poeta opaco rodopia
trazendo o sol entre os dedos

a bailarina cansada
nada vê
fecha os olhos

e dorme




terça-feira, 12 de maio de 2009

Bach: Concertos de Brandenburgo, com The English Concert, dirigido por Trevor Pinnock




A Obra

Em 1721, quando BACH apresentou e dedicou esses Seis Concertos a Christian Ludwig, duque de Brandenburgo, não imaginava que logo em seguida eles seriam esquecidos e, após a morte do margrave, vendidos por uma pequena quantia, correspondente hoje a alguns ínfimos centavos. Imaginava muito menos que em 1850 esses concertos seriam exumados e publicados, e no século XX seriam considerados como uma das maiores obras musicais da história da humanidade. Em termos de música, não há o que dizer, é a perfeição absoluta.

Nas primeiras décadas do século XX, essas obras eram apresentadas por uma orquestra enorme, conforme o gosto estético do exagerado romantismo do entre séculos, o que não dava idéia da verdadeira concepção estética de Bach e do próprio estilo barroco. Foi assim que muitas pessoas daquela época conheceram esses Concertos de Brandenburgo. Eram de um Bach pesadão e arrastado.

A partir dos anos 20, quando o estilo neoclássico entrou em moda, muitos regentes jovens quiseram estudar as partituras originais das peças barrocas e clássicas, determinando o início da chamada ‘arqueologia musical’. Com rigor devolveram a verdadeira estética a essas obras, buscando no andamento correto e em cada instrumento a sonoridade de como era na época em que viviam os compositores. O aperfeiçoamento dessa leitura ampliava-se a cada tentativa de aproximação de seus respectivos estilos e escolas. Então foi possível ouvir Bach como realmente deveria ser: ágil, leve e ao mesmo tempo vertiginosamente complexo.

Há uma espantosa variedade na estrutura desses Seis Concertos. Até mesmo os ouvintes habituados com a Obra total de Bach surpreendem-se com a riqueza que há neles. Alguns pertencem ao legítimo concerto grosso, como os de Nos. 2, 4 e 5 em que o concertino (um ou mais instrumentos solistas) dialogam com o ripieno (as cordas). Os outros, Nos. 1, 3 e 6, são concertos sem solistas. Neste caso, são as partes que se alternam nos temas em diálogo, complementando-se como dois coros. Nos Concertos Nos. 3 e 6, por exemplo, os violinos “conversam” com os violas, ou como ocorre no Concerto No. 1, um grupo de cordas alterna-se com o de sopros. De fato, como Bach prescrevera, apenas esse primeiro Concerto deveria utilizar uma orquestra de médio porte; os outros cinco foram idealizados como concertos de câmara. E realmente ficam muito melhores nessa distribuição reduzida de instrumentos do que numa orquestra inteira que obscurece a agilidade e a clareza dos temas.

Bach era fascinado por números. Nos Concertos de Brandenburgo a concepção arquitetônica das formas demonstra isso. O No. 2 tem o formato triangular: um solista, o trumpete, situa-se no ápice; logo abaixo é apoiado por outros três (oboé, flauta-doce e violino), e como base aos quatro estão as cordas. Não se sabe o motivo de ser atribuído a ele o No. 2, pois deveria ser 3. A sua estrutura assemelha-se em tudo a uma pirâmide. Ao Concerto No. 3 Bach reservou a idéia do espelho múltiplo. É executado por três grupos de cordas, cada um formado por uma tríade: 3 violinos, 3 violas e 3 violoncelos. Sem contar o baixo contínuo que as apoia, as partes perfazem o número 9. Nos Concertos Nos. 4 e 5 os 3 instrumentos solistas se alternam com as cordas (2 e 2, 1 e 3 , 2 e 3, 3 e 2). E o Concerto No. 6 repete a estrutura do No. 3, sendo 3 partes de 2 instrumentos, formando o número 6. Em todos os concertos há esse fascinante jogo numerológico que todos podem observar. Cada um tem a oportunidade e o direito de tirar suas próprias conclusões matemáticas ou mesmo esotéricas. Pitágoras ia delirar com uma música assim.

Os estilos também são dos mais diversos: há o ritmo de concertos de mestres italianos como Corelli, Torelli, Albinoni e principalmente Vivaldi, mestre que Bach estudou muito; há os elementos franceses como as danças estilizadas de alguns movimentos ao gosto de Couperin. Já a utilização de instrumentos de sopro é nitidamente de preferência alemã. No sexto concerto foi utilizada a viola da gamba que na época já era antiquada, mas Bach quis prestar homenagem ao século XVII, como uma despedida ao passado, trazendo de volta os dias de glória desse instrumento com sua sonoridade única. Hoje esses instrumentos precursores das cordas atuais da orquestra também estão de volta, mais vivos do que nunca, o que podemos confirmar nas inúmeras gravações do regente espanhol Jordi Savall, que é um dos maiores violistas da gamba atuais.

Nesses Concertos de Brandenburgo, Bach, sem perder a individualidade, mesclou tudo que aprendera com os mestres anteriores e criou os mais versáteis concertos barrocos de que se tem notícia.

Quanto à atmosfera, esta dispensa comentários, é a música mais feliz, de maior beleza e luminosidade já escrita.

Os Intérpretes

Já ouvi excelentes versões e leituras destes concertos, mas a presente gravação do ENGLISH CONCERT, dirigido por TREVOR PINNOCK, supera todas. Aqui está a resposta para aqueles que reclamam de que todas flautas barrocas soam como canos de pia, ou de que todo violino do período possui sonoridade estridente. Nesta gravação do English Concert não há nada disso.

Michael Laird brilha, executando o trumpete natural no Concerto No. 2, um solo absurdamente difícil. O excelente violinista Simon Standage, tocando em instrumento do século XVIII, dá conta perfeitamente das vertigens virtuosísticas do Concerto No. 4. A flautista Lisa Beznosiuk supera-se a si mesma nesta gravação do Concerto No.5. E o que podemos falar do próprio Trevor Pinnock na direção e no solo dificílimo de cravo do mesmo Concerto No. 5? Está magnífico, assim como todo o The English Concert.

Arte Compartilhada

A vontade que dá é escrever páginas e páginas sobre esses Seis Concertos. Mas paro por aqui. Não tenho a pretensão de fatiar e detalhar esses diamantes de arte. Seria necessário um livro inteiro para comentá-los. E ainda assim seria pouco. Ou seja, a audição dessa música grandiosa por si só vale mais do que milhares de palavras.

Para quem se interessar, aqui está a recomendadíssima gravação: 2 CDs, cada um com 3 concertos. Não se esqueçam, porém, que uma vez apreciada a obra em mp3, recomendo que adquiram-na em alguma loja, pois o som do CD original é superior.


Download MP3 - Baixar:
CD1: Concertos de Brandenburgo Nrs 1, 2 e 3
Bach.BrandenburgCtos.123.Pinnock.zip
CD2: Concertos de Brandenburgo Nrs 4, 5 e 6




sábado, 9 de maio de 2009

Sobre o Benefício: De uma frase de Aristóteles



“Não há nada no mundo que envelheça tão depressa como o benefício”.

Quando, na quinta centúria antes da Era Cristã, Aristóteles, o filósofo de Atenas, proferiu essa sentença, certamente estava a abarcar a Humanidade como um todo. Apoiava-se em seu vasto saber, a partir de longos anos observando as ulcerações sociais, comuns em todas as épocas, constatando que o homem, em sua totalidade, retribuía com a ingratidão o bem recebido. Talvez tivesse razão, se nos fosse dado analisar a sociedade humana somente através da ótica das imperfeições e fraquezas, o que não pode ser verdade, porque sempre há um lado que contém as virtudes, ainda que em diminutas proporções.

No mesmo período da história, quando na Civilização Helênica reinou a mente analítica de Aristóteles, também viveu, na Ásia, um príncipe hindu, que abandonou família e riquezas para buscar o sentido da existência. Siddharta Gautama, o Buddha, Avatar do posterior Budismo, repetiu, no decorrer de sua vida muitas vezes a seguinte frase:

“Do charco nasce a flor-de-lótus”.

Sim, no lamaçal das intempéries humanas, na caótica desigualdade social, desde imemoráveis eras, viveram homens frágeis, indivíduos de personalidade esfacelada pelas injustiças, que nunca puderam recorrer ao amparo da riqueza, que não tiveram as oportunidades de se elevarem espiritualmente. A eles sempre restou a ingratidão por força de conviver com a desconfiança adquirida na velada escravatura da exploração do irmão pelo irmão.

Entretanto, em todos os períodos da história humana, em que a humanidade vive às vésperas do caos, surgem indivíduos que, emergindo mesmo da confusa época em que vivem, transcendem-na, demonstrando uma presença marcante em iluminação, imbatíveis na defesa da virtude e da consciência moral, atuando e contribuindo para a evolução espiritual dos irmãos em trevas. Não são muitos, é bem verdade, aqueles que compreendem a iluminação e tentam seguir um novo caminho. Mesmo assim, poucos que são, já conseguem alterar o ânimo do mundo.

A Aristóteles só podemos dar uma metade da razão. Não creio que o benefício seja totalmente esquecido, porque nem tudo pode ser perdido no coração dos homens.

Do charco sempre há de nascer uma flor-de-lótus, essa planta sagrada da renovação humana.


(em "Sobre a Cinza e o Fogo: Pequenas Reflexões")


quinta-feira, 7 de maio de 2009

Encontro



observe as tangerinas
- não adquirem doçura
no dia em que nascem

de primavera precisam
e de um verão também
- chuvas diagonais, luz!

o tempo só estende-se
retroage e avança - só
para amadurecer o coração

certo é: grandes encontros
pedem grandes preparações
para que feliz seja o dia


agosto de 2004



 Tangerine: copyright by Sergey Lavrentiev


terça-feira, 5 de maio de 2009

Bach, Handel e Scarlatti





O breve ensaio que se faz presente foi encomenda do amigo Edgard Brito – compositor, pianista e professor de história da música – com o objetivo de introduzir seus alunos do conservatório no fascinante mundo da música barroca. Que os mais experimentados no assunto me perdoem os momentos em que a paixão pela arte carrega-se de cores, sacrificando o estilo sóbrio da imparcialidade histórica.

***
O ano de 1685 é considerado uma dádiva para os amantes da música, principalmente da música barroca. Três gênios nasceram sob o auspicioso sol desse ano: Bach, Handel e Scarlatti (o Domenico).

Não é novidade alguma: Bach é um marco na história da Música. Como compositor foi pouco conhecido em vida. Nos anais da época, falava-se dele como um organista, o maior de todos. Hoje, através das partituras, sabemos que é a maior obra para órgão de que se tem notícia, e mais: a Obra de Bach, em sua totalidade, é a culminância do que a música erudita chegara até então. Até a morte, em 1750, Bach é a confluência de todos os estilos e técnicas dos períodos anteriores. É, de fato, a súmula da Música até aquela data!!! E, como importância artística, muitos dizem: é a maior de todos os tempos, perdendo em importância histórica apenas para a obra de Beethoven, já que esta delimitou todo um comportamento musical da humanidade; ultrapassando o campo da arte atingiu aspectos sociológicos e filosóficos, focalizando a individualidade do criador como o cerne da obra criada.

E também não é exagero o epíteto: Bach e Haendel, os dois maiores gênios alemães do século XVIII! Além destes, poderíamos citar Telemann, músico competentíssimo, mas na maioria das vezes apenas excelente ‘artesão’. Há Glück, grande na ópera. Há também Beethoven, mas, apesar de alemão, ainda não havia escrito as suas maiores obras-primas. E Haydn e Mozart eram austríacos.

Entretanto, apesar de ter nascido na Alemanha, Haendel viveu a maior parte da vida na Inglaterra. De corpo e alma, tornou-se cidadão inglês. Embora de conteúdo universal, a parte mais importante de sua obra coral, os oratórios, foi escrita no ‘espírito’ britânico. Acho justo designá-lo na grafia inglesa: Handel, o que farei a partir deste parágrafo.

Não é possível, em questões de profundidade, fazer comparações entre Bach e Handel. O primeiro, em tudo que compôs, é muito mais profundo do que o segundo. No entanto, Handel é mais brilhante, no sentido de nos arrebatar de imediato. Bach, de tão profundo que é, às vezes chega a nos deixar exaustos. Em Bach sentimos cargas e cargas de profunda emotividade religiosa e complexidade artística que nos exaurem. Em Handel há uma liberação natural do êxtase, do luminoso, do júbilo, que não nos exige concentração excessiva, excetuando, é claro, a maioria de seus oratórios, que muito nos pedem de atenção, devido ao dramatismo condensado.

Se Bach é a súmula da Música escrita até os meados do século XVIII, então, podemos dizer que Handel é, especificamente, a súmula do período Barroco. Quem quiser estudar o Barroco em suas linhas gerais, deve estudar a Obra de Handel, pois nela concentram-se todos os estilos em voga nos séculos XVII e XVIII, peculiares a cada país - o italiano, o francês, o alemão e o inglês. A Alemanha está nas obras sacras iniciais; a França dos Couperin está resumida nas suítes para cravo bem como nas suítes orquestrais; a Itália dos Scarlatti, nas óperas; nos concertos grossos concentram-se todas as tendências desde Stradella e Gregori, com ênfase em Corelli e Torelli, até os tardios Locatelli e Geminiani; a Inglaterra de Purcell é revivida nos anthems, masques e odes comemorativas.

E para iniciar o estudo de Handel, deve-se primeiramente tomar como ponto de referência a personalidade do homem e as tendências psicológicas do artista: Handel possuía natureza cosmopolita e tinha como objetivo a arte de espetáculos. É muito importante ter isso em mente. Ele não podia e nem queria fazer uma música excessivamente profunda como era a obra religiosa de Bach, concentrada no espaço das igrejas luteranas da época.

Deve-se iniciar o estudo de Handel pela sua Música de Cena, ou seja, a Ópera. O compositor voltou-se integralmente para o Oratório somente quando não foi mais possível se dedicar à sua expressão preferida, a música cantada em palco com cenário. Mas em Handel há pouquíssimas diferenças entre os dois gêneros vocais: o encenado e o não encenado.

Depois do gênero dramático, para compreendermos Handel, só mesmo estudando a outra característica fundamental de sua obra: a voz. Apesar da preferência pela expressão teatral, foi, devido à sua Música Vocal não encenada, principalmente os seus Oratórios, também verdadeiros dramas, que ele passou definitivamente para a História da Música. São os maiores e mais geniais já escritos, surgindo daí a necessidade de estudá-los minuciosamente. São tantos no catálogo que nos perdemos à primeira vista, mas os maiores continuam sendo estes: Saul, Sansão, Israel no Egito (diferente, com total prioridade aos coros, contendo poucos trechos de voz solista) e o monumental e mais elaborado de todos Judas Maccabeus. E, por fim, o Messias, ápice dentre todas as obras de Handel, principalmente pela sua característica mais sublime: a espontaneidade. Se tivesse escrito apenas esse oratório já lhe estaria assegurada a imortalidade. Há outros, como os referidos acima, que estão no mesmo nível, mas a fluência e o frescor dessa obra relatando a vida de Cristo com tanta ternura a distinguem de todas as outras. Nem as elaboradíssimas cantatas que formam o Oratório de Natal de Bach conseguem suplantar o Messias de Handel.

Handel, portanto, era artista essencialmente vocal. Quando escrevia música instrumental era com um pouco de má vontade, embora jamais tenha sido pequeno nesses gêneros. Os concertos para órgão eram bastante populares em sua época, porque Handel os executava antes da publicação como aberturas e interlúdios das óperas e de alguns oratórios. Os concertos grossos, a melhor parte de sua produção orquestral, juntamente com algumas suítes, são peças brilhantemente construídas sem, contudo, demonstrarem inovações. Da mesma forma são as obras para cravo e as obras de câmara. As Sonatas Op. 1 são obra didática, mas bem diferente das de Bach, que se dedicava conscientemente ao ensino, considerando-o como uma das funções mais importantes de sua vida. (É impressionante a sua dedicação na idade madura e, depois, na velhice, aos dois livros do Cravo Bem-Temperado). Handel, não. Dedicava-se ao ensino somente nas horas de folga, para atender pedidos de algum editor ou de nobres que lhe mostravam contentamento, sabendo dos filhos aprendendo com o mestre. Na maioria das vezes, compunha para os gêneros instrumentais mencionados mais para satisfazer os seus interesses financeiros, pois a venda de partituras de obras nessa área retornava-lhe dinheiro mais rápido.

Os hábitos do músico e do homem Bach eram, de certa forma, provincianos. Viveu toda a vida na Alemanha em um círculo espacial restrito: Eisenach e arredores, Weimar, Koethen, depois Leipzig. Já Handel, o grande Urso Branco, conforme os contemporâneos o chamavam, era homem inquieto que gostava de viajar: deixou presença na Alemanha, Itália e Inglaterra. Sentia-se um cidadão do mundo.

A devoção de Handel era o palco, a sua manifestação artística era a dramática, e o seu principal instrumento de expressão era a voz. Eis as características handelianas: cosmopolitismo, teatro, voz humana (em coro ou isolada). E Luminosidade.

O padre Vivaldi escreveu música maravilhosamente luminosa! Luminosos são os Concertos de Brandenburgo de Bach - a música mais feliz e perfeita que já se escreveu. Mas a luminosidade mais poderosa é a de Handel - aquela que nos arrebata, que nos hipnotiza e nos faz cantar junto.

No mesmo ano de 1685 em que na Alemanha nasciam Bach e Handel, também surgia em Nápoles, a 26 de outubro, o genial Domenico Scarlatti, filho de outro importante músico, o Alessandro. O pai, famosíssimo na Itália, inibiu o talento do filho durante muito tempo. Apesar de receber encomendas de missas para a Basílica de São Pedro em Roma e óperas para Veneza e Nápoles, as obras do compositor filho, principalmente aquelas da juventude, eram apagadas e comuns. A poderosa sombra paterna o perseguiu até o momento da libertação: ao morrer o pai, Domenico nasceu artisticamente. Começou a compor peças para cravo enquanto ensinava a princesa Maria Bárbara, primeiramente em Lisboa, depois Sevilla e Madrid, quando ela se tornou rainha de Espanha. Scarlatti acompanhou-a e, semelhante a Handel em relação a Inglaterra, o compositor napolitano adotou sinceramente a Espanha como segunda pátria. Essa terra ensolarada com a presença musical dos gitanos foi uma revolução em sua arte: somada à sua genialidade, tudo que viu e assimilou do país transformou-se em uma das mais ricas músicas de que se tem notícia. A Obra para Cravo de Domenico Scarlatti é de uma prodigiosa verve rítmica e de uma criatividade melódica tão inovadora que sempre há de nos espantar e maravilhar.

É sempre risível o ato de colocar obras e artistas em pódios como se fossem desportistas em competição, mas em alguns casos não há como evitar. Scarlatti é o maior compositor para cravo de toda a história da música. Nem mesmo a complexa inventividade de Bach consegue suplantá-lo. Não há como escolher as melhores entre as mais de 500 peças para esse instrumento que Scarlatti escreveu. Então não escolha! Ouça-as indiscriminadamente que o lucro será o mesmo, sem deixar de lado a lembrança: elas não foram compostas para serem executadas no piano, mas sim no cravo, onde elas brilham com a natural intenção do compositor. Tenho certeza de que se pudéssemos conhecer todas, perguntaríamos: por que ele não escreveu mais 500 obras assim? Guardada a diferença de gêneros, considero-as, pelo alto nível artístico, tão versáteis e magistrais quanto as cantatas de Bach.

Eu, por exemplo, e isso é ato individual, quando preciso de energia rítmica, dinamismo aos atos do cotidiano ouço Domenico Scarlatti, que me impulsiona e vitaliza. Nos momentos em que sinto vontade de compenetração para mergulhar nos interiores íntimos da fé, da reflexão ao êxtase dos mistérios, para empreender jornadas em busca do interelacionamento Criador e Ser criado, ouço Bach. Quando quero a expansão, o vôo através de livres panoramas sem filosofar sobre o motivo do céu ser azul e verdes serem as relvas, apenas sentir a presença do sublime e natural êxtase, ouço Handel.

Mas, a verdade é que não se resume a arte de tão grandes compositores em tão breves palavras. As analogias são imperfeitas da mesma forma que são inexatas as definições - jamais podem dar total idéia da individualidade de cada um, porque cada autor ou obra tem a sua voz própria e distinta. Além disso, cada ouvinte percebe as nuances de modo diverso.

A música de Johann Sebastian Bach, Georg Friedrich Handel e Giuseppe Domenico Scarlatti sempre há de nos levar a êxtases diferentes e renovados.

Algumas curiosidades históricas para terminar esta breve explanação:

Bach e Handel, os dois maiores gênios da era barroca nascidos na Alemanha, nunca se encontraram, embora tenham nascido com diferença de menos de um mês um do outro (o segundo a 23 de fevereiro, o primeiro a 21 de março), e em cidades cuja distância não ultrapassa os 150 km (Eisenach e Halle).

Bach sentia uma profunda admiração por Handel, que era muito mais famoso devido às óperas constantemente apresentadas em Londres e na Europa. Certa vez, Bach locomoveu-se até Halle para conhecer Handel, pois recebeu a notícia de que o Urso Branco procurava cantores para sua nova ópera, e aproveitava o tempo para visitar a mãe. Mas uma ironia do destino providenciou para que houvesse o desencontro. Ao chegar na cidade, Handel já havia partido de regresso à Inglaterra.

Por outro lado, Handel, quando de suas andanças pela Itália, tornou-se grande amigo de Domenico Scarlatti. Ambos eram jovens de 23 anos com a cabeça imersa em sonhos e ambições musicais. Em 1708, os dois compositores e virtuoses do teclado se conheceram em Veneza e juntos seguiram viagem para Roma. Nem imaginavam que iam registrar perenemente os respectivos nomes nos anais da história da música, e nem podiam imaginar que o destino os levaria para outros lugares, países que adotariam como pátria, onde morreriam distantes dos locais de origem: um, na Inglaterra; o outro, na Espanha. Embora não tivessem se encontrado de novo, a amizade durou a vida toda, através de cartas assíduas, permanecendo a mútua admiração.

Chegará o tempo em que não mais existirão as demarcações territoriais que distinguem uma terra chamada Inglaterra, ou Alemanha, ou Itália, Brasil ou EUA. Outros povos ali habitarão, com outros hábitos e denominações, com sentimento de pátria e idiomas irreconhecivelmente transformados. Porém, seja nos conglomerados urbanos, seja nos cantos mais remotos do planeta, se existirem pessoas capazes de ler e exercitar os escritos musicais deixados pelos mestres, além de outras gentes com sensibilidade e boa vontade o suficiente para soprar na cinza a brasa que a faz viver, então não estará perdida a Grande Música. As artes, entre elas a música, estas sim poderão sobreviver aos mesquinhos propósitos de todas guerras e impérios.