quarta-feira, 13 de julho de 2011

Fernando Pessoa: Alguns Poemas



















FERNANDO PESSOA ELE MESMO

Quando Ela Passa

Quando eu me sento à janela
P’los vidros que a neve embaça
Vejo a doce imagem dela
Quando passa... passa... passa...

Lançou-me a mágoa seu véu:
Menos um ser neste mundo
E mais um anjo no céu.

Quando eu me sento à janela,
P’los vidros que a neve embaça
Julgo ver a imagem dela
Que já não passa... não passa...

(um dos primeiros poemas de Fernando Pessoa,
escrito aos 14 anos de idade: 5.5.1902)

__________

HÁ DOENÇAS piores que as doenças,
Há dores que não doem, nem na alma
Mas que são dolorosas mais que as outras.
Há angústias sonhadas mais reais
Que as que a vida nos traz, há sensações
Sentidas só com imaginá-las
Que são mais nossas do que a própria vida.
Há tanta cousa que, sem existir,
Existe, existe demoradamente,
E demoradamente é nossa e nós...
Por sobre o verde turvo do amplo rio
Os circunflexos brancos das gaivotas...
Por sobre a alma o adejar inútil
Do que não foi, nem pode ser, e é tudo.

Dá-me mais vinho, porque a vida é nada.

(um dos últimos poemas de Fernando Pessoa,
escrito 11 dias antes de sua morte: 19.11.1935)

__________
 
AUTOPSICOGRAFIA

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama o coração.
__________

ISTO

Dizem que finjo ou minto
Tudo que escrevo. Não.
Eu simplesmente sinto
Com a imaginação.
Não uso o coração.

Tudo o que sonho ou passo,
O que me falha ou finda,
É como que um terraço
Sobre outra coisa ainda.
Essa coisa é que é linda.

Por isso escrevo em meio
Do que não está ao pé,
Livre do meu enleio,
Sério do que não é.
Sentir? Sinta quem lê!
__________

TEUS OLHOS entristecem.
Nem ouves o que digo.
Dormem, sonham, esquecem...
Não me ouves, e prossigo.

Digo o que já, de triste,
Te disse tanta vez...
Creio que nunca o ouviste
De tão tua que és.

Olhas-me de repente
De um distante impreciso
Com um olhar ausente.
Começas um sorriso.

Continuo a falar.
Continuas ouvindo
O que estás a pensar,
Já quase não sorrindo.

Até que neste ocioso
Sumir da tarde fútil,
Se esfolha silencioso
O teu sorriso inútil.
__________

DOIS POEMAS ESOTÉRICOS

INICIAÇÃO

Dormes sob os ciprestes,
Pois não há sono no mundo.
.................................
O corpo é a sombra das vestes
Que encobrem teu ser profundo.

Vem a noite, que é a morte,
E a sombra acabou sem ser.
Vais na noite só recorte,
Igual a ti sem querer.

Mas na Estalagem do Assombro
Tiram-te os Anjos a capa:
Segues sem capa no ombro,
Com o pouco que te tapa.

Então Arcanjos da Estrada
Despem-te e deixam-te nu.
Não tens vestes, não tens nada:
Tens só teu corpo, que és tu.

Por fim, na funda Caverna,
Os Deuses despem-te mais.
Teu corpo cessa, alma externa,
Mas vês que são teus iguais.
.................................

A sombra das tuas vestes
Ficou entre nós na Sorte.
Não ‘stás morto, entre ciprestes.
.................................
Neófito, não há morte.

______

EROS E PSIQUE

Conta a lenda que dormia
Uma Princesa encantada
A quem só despertaria
Um Infante, que viria
De além do muro da estrada.

Ele tinha que, tentado,
Vencer o mal e o bem,
Antes que, já libertado,
Deixasse o caminho errado
Por o que à Princesa vem.

A Princesa Adormecida,
Se espera, dormindo espera.
Sonha em morte a sua vida,
E orna-lhe a fronte esquecida,
Verde, uma grinalda de hera.

Longe o Infante, esforçado,
Sem saber que intuito tem,
Rompe o caminho fadado.
Ele dela é ignorado.
Ela para ele é ninguém.

Mas cada um cumpre o Destino –
Ela dormindo encantada,
Ele buscando-a sem tino
Pelo processo divino
Que faz existir a estrada.

E, se bem que seja obscuro
Tudo pela estrada fora,
E falso, ele vem seguro,
E, vencendo estrada e muro,
Chega onde em sono ela mora.

E, inda tonto do que houvera,
À cabeça, em maresia,
Ergue a mão, e encontra hera,
E vê que ele mesmo era
A Princesa que dormia.
__________

ALBERTO CAIEIRO

de "O Guardador de Rebanhos"

Poema II

O meu olhar é nítido como um girassol.
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E de vez em quando olhando para trás...
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem...
Sei ter o pasmo essencial
Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras...
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do mundo...

Creio no mundo como num malmequer,
Porque o vejo. Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender...
O Mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo...

Eu não tenho filosofia: tenho sentidos...
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso,
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe por que ama, nem o que é amar...

Amar é a eterna inocência,
E a única inocência não pensar...
________

Poema III

Ao entardecer, debruçado pela janela,
E sabendo de soslaio que há campos em frente,
Leio até me arderem os olhos
O livro de Cesário Verde.

Que pena que tenho dele! Ele era um camponês
Que andava preso em liberdade pela cidade.
Mas o modo como olhava para as casas,
E o modo como reparava nas ruas,
E a maneira como dava pelas cousas,
É o de quem olha para árvores,
E de quem desce os olhos pela estrada
Por onde vai andando
E anda a reparar nas flores que há pelos campos...

Por isso ele tinha aquela grande tristeza
Que ele nunca disse bem que tinha,
Mas andava na cidade como quem anda no campo
E triste como esmagar flores em livros
E pôr plantas em jarro...
______

Poema VII

Da minha aldeia vejo quanto da terra
se pode ver no Universo...
Por isso a minha aldeia é tão grande
como outra terra qualquer
Porque eu sou do tamanho do que vejo
E não do tamanho da minha altura...

Nas cidades a vida é mais pequena
Que aqui na minha casa no cimo deste outeiro.
Na cidade as grandes casas fecham a vista à chave,
Escondem o horizonte,
empurram o nosso olhar para longe de todo o céu,
Tornam-nos pequenos porque nos tiram
o que os nossos olhos nos podem dar,
E tornam-nos pobres porque a nossa única riqueza é ver.
______

Poema XVI

Quem me dera que a minha vida fosse um carro de bois
Que vem a chiar, manhãzinha cedo, pela estrada,
E que para de onde veio volta depois
Quase à noitinha pela mesma estrada.

Eu não tinha que ter esperanças – tinha só que ter rodas...
A minha velhice não tinha rugas nem cabelo branco...
Quando eu já não servia, tiravam-me as rodas
E eu ficava virado e partido no fundo de um barranco.
__________

RICARDO REIS

UNS, COM OS OLHOS postos no passado,
Vêem o que não vêem; outros, fitos
Os mesmos olhos no futuro, vêem
O que não pode ver-se.

Por que tão longe ir pôr o que está perto –
A segurança nossa? Este é o dia,
Esta é a hora, este o momento, isto
É quem somos, e é tudo.

Perene flui a interminável hora
Que nos confessa nulos. No mesmo hausto
Em que vivemos, morreremos. Colhe
O dia, porque és ele.
______

NADA FICA de nada. Nada somos.
Um pouco ao sol e ao ar nos atrasamos
Da irrespirável treva que nos pese
Da humilde terra imposta,
Cadáveres adiados que procriam.

Leis feitas, estátuas vistas, odes findas –
Tudo tem cova sua. Se nós, carnes
A que um íntimo sol dá sangue, temos
Poente, por que não elas?
Somos contos contando contos, nada.
______

ANTES DE NÓS nos mesmos arvoredos
Passou o vento, quando havia vento,
E as folhas não falavam
De outro modo do que hoje.

Passamos e agitamo-nos debalde.
Não fazemos mais ruído no que existe
Do que as folhas das árvores
Ou os passos do vento

Tentemos pois com abandono assíduo
Entregar nosso esforço à Natureza
E não querer mais vida
Que a das árvores verdes.

Inutilmente parecemos grandes.
Salvo nós nada pelo mundo fora
Nos saúda a grandeza
Nem sem querer nos serve.

Se aqui, à beira-mar, o meu indício
Na areia o mar com ondas três o paga,
Que fará na alta praia
Em que o mar é o Tempo?
___________

ÁLVARO DE CAMPOS

CRUZOU POR MIM, veio ter comigo, numa Rua da Baixa
Aquele homem mal vestido,
pedinte por profissão que se lhe vê na cara,
Que simpatiza comigo e eu simpatizo com ele;
E reciprocamente, num gesto largo, transbordante,
dei-lhe tudo quanto tinha
(Exceto, naturalmente, o que estava na algibeira
onde trago mais dinheiro:
Não sou parvo nem romancista russo, aplicado,
E romantismo, sim, mas devagar...)

Sinto uma simpatia por essa gente toda,
Sobretudo quando não merece simpatia.
Sim, eu sou também vadio e pedinte,
E sou-o também por minha culpa.
Ser vadio e pedinte não é ser vadio e pedinte:
É estar ao lado da escala social,
É não ser adaptável às normas da vida,
Às normas reais ou sentimentais da vida –
Não ser Juiz do Supremo, empregado certo, prostituta,
Não ser pobre a valer, operário explorado,
Não ser doente de uma doença incurável,
Não ser sedento da justiça ou capitão de cavalaria,
Não ser, enfim, aquelas pessoas sociais dos novelistas
Que se fartam de letras porque têm razão para chorar lágrimas,
E se revoltam contra a vida social porque têm razão para isso supor.

Não: tudo menos ter razão!
Tudo menos importar-me com a humanidade!
Tudo menos ceder ao humanitarismo!
De que serve uma sensação se há uma razão exterior para ela?

Sim, ser vadio e pedinte, como eu sou,
Não é ser vadio e pedinte, o que é corrente:
É ser isolado na alma, e isso é que é ser vadio,
É ter pedir aos dias que passem, e nos deixem,
e isso é que é ser pedinte.

Tudo mais é estúpido como um Dostoievski ou um Gorki.
Tudo mais é ter fome ou não ter que vestir.
E, mesmo que isso aconteça, isso acontece a tanta gente
Que nem vale a pena ter pena da gente a quem isso acontece.

Sou vadio e pedinte a valer, isto é, no sentido translato,
E estou-me rebolando numa grande caridade por mim.
Coitado do Álvaro de Campos!
Tão isolado na vida! Tão deprimido nas sensações!
Coitado dele, enfiado na poltrona da sua melancolia!
Coitado dele, que com lágrimas (autênticas) nos olhos,
Deu hoje, num gesto largo, liberal e moscovita,
Tudo quanto tinha, na algibeira em que tinha pouco, àquele
Pobre que não era pobre, que tinha olhos tristes por profissão.

Coitado do Álvaro de Campos, com quem ninguém se importa!
Coitado dele que tem tanta pena de si mesmo!

E, sim, coitado dele!
Mais coitado dele que de muitos que são vadios e vadiam,
Que são pedintes e pedem,
Porque a alma humana é um abismo.

Eu é que sei. Coitado dele!
Que bom poder-me revoltar num comício dentro da minha alma!
Mas até nem parvo sou!
Nem tenho a defesa de poder ter opiniões sociais.
Não tenho, mesmo, defesa nenhuma: sou lúcido.

Não me queiram converter a convicção: sou lúcido.

Já disse: sou lúcido.
Nada de estéticas com coração: sou lúcido.
Merda! Sou lúcido.


Fernando Pessoa (1888-1935)




terça-feira, 5 de julho de 2011

Dimitri Cervo: compositor brasileiro


A música ‘erudita’ brasileira, ainda que obscura no próprio país, sempre se destacou no cenário mundial: com reconhecimento imediato na Europa (Carlos Gomes) e depois internacionalmente (Villa-Lobos, Guarnieri, Santoro). Desde então, gerações de ótimos músicos se sucedem, alguns inspirando-se no rico manancial de nosso folclore e no cancioneiro popular; outros, optando por diferentes correntes estéticas, que souberam utilizar com criatividade. São vários os talentosos compositores de vanguarda da década de 60 até os dias atuais, citando alguns: Gilberto Mendes, Edino Krieger, Breno Blauth, Marlos Nobre, Almeida Prado, Jorge Antunes, Ronaldo Miranda e, recentemente, Harry Crowl, cuja obra tem se destacado bastante no exterior.

Entretanto, apesar do aumento significativo dos festivais de música contemporânea, não é possível negar o fato: depois que os movimentos concretistas e eletrônicos ditaram as regras à música 'erudita', tornando-a extremamente hermética, o grande público afastou-se das salas de concerto. Mas já surgem no cenário 'erudito' vários compositores com uma linguagem acessível àqueles que não se identificam com o cerebralismo das composições seriais e concretas. Hoje, a música de concerto, reclusa após décadas em círculos intelectuais, abre-se com um aceno visando uma maior comunicabilidade com os ouvintes que, apesar de não terem conhecimento técnico, possuem sensibilidade suficiente para apreciar uma obra elaborada. A tendência é a tonalidade, com ocasional atmosfera dodecafônica, mesclada com técnicas politonais, e temática nacionalista ou cosmopolita. Todas as experimentações e acertos anteriores a serviço da arte contemporânea, sem radicalismo e sem 'eruditismo'. Esse será o caminho da música do século XXI, penso eu.

Dimitri Cervo, nascido em 1968, em Santa Maria (RS) faz parte dessa nova geração de compositores que incentiva as pessoas a um retorno à música de concerto. São merecidos os elogios que o compositor gaúcho vem recebendo, nacional e internacionalmente. Suas obras em diversos gêneros (sinfônico, câmara, piano solo, coral) já foram apresentadas em todos os estados brasileiros e seguem caminho pelos festivais de várias cidades mundo afora. Nota-se nele um nacionalismo de voz própria: o bom aproveitamento do folclore indígena e a maneira como usa a dinâmica da percussão e os acordes minimalistas. Pensando nos apreciadores da boa música brasileira contemporânea, compartilho aqui, através de alguns vídeos, uma pequena parte de sua obra:

Toronubá, nesta ótima versão para cordas, percussão e piano, não perde o ritmo contagiante, é uma das melhores peças de Dimitri Cervo. O quadro sinfônico Brasil Amazônico nos encanta como a sugestão de uma clareira na grande selva, a melodia nos recorda um pouco a alegria folclórica de algumas peças de Guarnieri e Breno Blauth. E bela, muito bela é a poesia encantatória e intimista do Tema para Filme I, aqui interpretado com sensibilidade pelo próprio compositor.

Existem ainda diversas obras de valor: o elaborado Concerto para Violão; o Concerto para 2 Flautas e Cordas, interessante releitura do barroco vivaldiano; a canção coral Renova-te, com texto baseado em Cecília Meireles, etc. Esta última será apresentada no próximo 16 de julho no 42. Festival de Campos de Jordão.

Para maiores informações sobre biografia, recitais e concertos:

Dimitri Cervo: Official Website





Toronubá op. 16 (Série Brasil 2000 no. 4)
Orquestra Sinfônica de Sergipe - ORSSE
Guilherme Mannis, regente


Brasil Amazônico op. 13 (Série Brasil 2000 no. 1)
Orquestra Sinfônica de Porto Alegre - OSPA
Isaac Karabtchevsky, regente


Tema para Filme I op. 23
Dimitri Cervo, piano
StudioClio, Porto Alegre - Brazil - UFRGS TV



Reflexões Musicais 2


É curioso notar: quase todos os inovadores sentem uma espécie de remorso após o radical avanço de fronteiras, e tentam retornar ao ponto inicial de sua formação, ou ao passado, às vezes remoto. Cito apenas alguns casos: Monteverdi, após o Orfeu e as Vésperas, escreveu uma missa no estilo renascentista. Algumas décadas mais tarde, Schütz, o pai do barroco alemão, concluiu a obra de sua vida com uma série de paixões escritas à maneira antiga. O último quarteto de cordas de Beethoven é quase um retorno ao classicismo haydniano. Ocorrera algo semelhante com Wagner depois de Tristão e Isolda: o inusitado cromatismo cedeu à claridade quase barroca de Os Mestres Cantores. Stravinsky, assim que deu ao mundo o paganismo da Sagração da Primavera, retornou ao passado em busca da voz límpida de Pergolese, de Bach e dos mestres anteriores a Bach, e no auge de seu neoclassicismo criou uma missa nos rigorosos moldes clássicos. E assim também Penderecki, talvez o mais representativo e genial criador da segunda metade do tumultuado século XX: nos limites da experimentação sonora, após a quase dissolução do que entendemos como música, de repente o compositor interrompeu o curso retornando a um estilo próximo a Brahms e Mahler. Um retrocesso, disse a crítica.

No entanto, sabemos que em tudo há um movimento de pêndulo. Quando o futuro cobre-se de neblina, o retorno ao passado é o caminho para a reflexão. Todo artista sabe: a arte que não comunica perde-se em si mesma.

Assim como toda manifestação cultural e artística, a música também evolui no contexto historico-sociologico. Após a polirritmia e todos os ismos do século XX, de todas as correntes experimentais - reflexos da fragmentação moderna da psique – politonalismo, dodecafonismo, serialismo, concretismo, abstracionismo, minimalismo, etc. a tendência do final do milênio é o sábio equilíbrio: uma expressão que aproveite todos os ensinamentos antigos e modernos associados à clareza de forma e ao hermetismo moderado. Enfim, criatividade aliada a uma linguagem mais comunicativa.

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Rabindranath Tagore: As Coisas Transitórias



Chegará um silêncio absoluto,
e, então, a música será perfeita.
A vida inclinar-se-á ao poente
para afogar-se em sombras douradas.
O amor há-de ser chamado do seu jogo
para beber o sofrimento
e subir ao céu das lágrimas ...
Irmão, recorda isto, e alegra-te.

Apanhemos, no ar, as nossas flores,
não no-las arrebate o vento que passa.
Arde-nos o sangue e brilham nossos olhos
roubando beijos que murchariam
se os esquecêssemos.
É ânsia a nossa vida
e força o nosso desejo,
porque o tempo toca a finados.
Irmão, recorda isto, e alegra-te.

Não podemos, num momento, abraçar as coisas,
parti-las e atirá-las ao chão.
Passam rápidas as horas,
com os sonhos debaixo do manto.
A vida, infindável para o trabalho
e para o fastio,
dá-nos apenas um dia para o amor.
Irmão, recorda isto, e alegra-te.

Sabe-nos bem a beleza
porque a sua dança volúvel
é o ritmo das nossas vidas. Gostamos da sabedoria
porque não temos sempre de a acabar.
No eterno tudo está feito e concluído,
mas as flores da ilusão terrena
são eternamente frescas,
por causa da morte.
Irmão, recorda isto, e alegra-te.


Rabindranath Tagore (1861-1941)


segunda-feira, 30 de maio de 2011

e.e. cummings - em algum lugar

















em algum lugar onde nunca estive, e felizmente aquém
de qualquer experiência, teus olhos guardam seu silêncio:
em teu gesto mais frágil há coisas que me envolvem
ou que não posso tocar porque estão muito próximas

teu olhar mais leve facilmente me descerra
embora eu me tenha fechado como dedos,
e me entreabres sempre, pétala por pétala, como a Primavera
(por toques habilidosos, misteriosamente) ante a primeira rosa

ou se teu desejo é me fechar, eu e
minha vida nos fecharemos formosa e rapidamente
como quando o coração desta flor imagina
que a neve — cuidadosamente — está caindo em toda a parte;

nada do que podemos perceber neste mundo se compara
ao poder de tua imensa fragilidade: cuja textura
me compromete com a cor de seus países
e me entrega para sempre a morte cada vez que respiro

(nada sei do que te faz tão poderosa
ao me mover; mas algo em mim compreende apenas
que a voz de teus olhos é mais profunda que todas as rosas)
ninguém, nem mesmo a chuva, tem as mãos assim tão pequenas.


e. e. cummings (1894-1962)


[tradução de Jorge Wanderley]

Imagem: Pierre-Auguste Renoir: Jardim

sábado, 19 de março de 2011

William E. Henley: "Invictus"


Este é o poema do britânico William E. Henley, de onde o sábio Nelson Mandela conseguiu forças para suportar as longas décadas de prisão na África do Sul.

O poema, hoje famosíssimo, foi muito bem utilizado no filme homônimo, dirigido em 2009 por Clint Eastwood.

Principalmente os versos finais sempre hão de ser um hino de superação diante dos revezes e dos desafios, momentos em que temos a chance de nos conectarmos com o Transcendente, com a Presença incogniscível, porém Viva, a partir da qual compreendemos a nossa grandeza, que nos ergue a cabeça, prontifica nossas asas para que prossigamos a planos mais elevados.

"Invictus"

Out of the night that covers me,
Black as the pit from pole to pole,
I thank whatever gods may be
For my unconquerable soul.

In the fell clutch of circumstance
I have not winced nor cried aloud.
Under the bludgeonings of chance
My head is bloody, but unbowed.

Beyond this place of wrath and tears
Looms but the Horror of the shade,
And yet the menace of the years
Finds and shall find me unafraid.

It matters not how strait the gate,
How charged with punishments the scroll,
I am the master of my fate:
I am the captain of my soul.

(escrito em 1875, publicado em Book of Verses, 1888)

William Ernest Henley (1849-1903)

__________

Na tentativa de traduzir esses versos, fiz o que pude para me aproximar do texto original, mas com alguma liberdade estética, visando a musicalidade de nosso idioma. Na transcrição, para que permanecessem o sentido do poema e o estilo do autor, não foi possível manter rima e métrica, infelizmente.

Da noite que me cobre,
Negra como um poço de polo a polo,
Agradeço os deuses, quaisquer que possam ser,
Por minha alma invencível.

Na garra cruel da circunstância
Eu não estremeci nem chorei alto.
Sob os golpes do acaso
Minha cabeça está em sangue, mas não abatida.

Além deste lugar de ira e lágrimas
Assoma o horror na sombra,
E ainda assim a ameaça dos anos
Me encontra e me encontrará sem medo.

Não importa quão estreito o portão,
Quão cheio de castigos o pergaminho.
Eu sou o mestre de meu destino:  
Eu sou o capitão de minha alma.



sábado, 12 de março de 2011

Mandú-Çarará: Roberto Tibiriçá rege Villa-Lobos na Venezuela


Novamente o brilhante maestro Roberto Tibiriçá nos proporciona valiosos momentos de satisfação artística. Sem qualquer dúvida, o alto nível de interpretação que Tibiriçá vem demonstrando o torna um dos maiores regentes brasileiros da atualidade. Em 2010, no IV Festival Villa-Lobos em Caracas, Venezuela, a sua presença foi um sucesso, quando apresentou, entre outras peças, a fantasia Momoprecoce, com Cristina Ortiz ao piano. 

E no último 30 de janeiro, na Sala Simón Bolívar, em Caracas, Roberto Tibiriçá regeu uma das grandes obras de nosso mestre Villa-Lobos. Nada menos do que o bailado-cantata Mandú-Çarará, para coro e orquestra, uma de minhas preferidas em toda a vasta produção villalobiana, e pouco gravada, injustamente, já que se encontra no mesmo nível de outros bailados como Amazonas e o Uirapurú

Eis a leitura do maestro Tibiriçá, realçando as melodias indígenas repletas de verve rítmica que tão bem caracterizam a obra! Recomendo muitíssimo o vídeo abaixo, gravado ao vivo com a Sinfónica de la Juventud Venezolana ‘Simon Bolívar’ e o Sistema Nacional de Coros FESNOJIV.



Villa-Lobos por Tibiriçá



Importantes obras de Villa-Lobos na regência de Roberto Tibiriçá, 
algumas gravações gentilmente cedidas pelo maestro a este blog:

Sinfonia No. 4 “A Vitória”, para orquestra (1919) [2011]
Choros No. 9, para orquestra (1929) [2010]
Mandú-Çarará, para coro e orquestra (1940) ** [2011]

Sinfónica de la Juventud Venezolana “Simon Bolívar”
Sistema Nacional de Coros FESNOJIV **
Roberto Tibiriçá, regente

Download MP3:
VillaLobos.Sinfonia4-Choros9-ManduCarara.Tibirica.zip

Momoprecoce, fantasia para piano e orquestra (1929) [2010]
Cristina Ortiz, piano
Sinfónica de la Juventud Venezolana “Simon Bolívar”


Bachianas Brasileiras No. 3, para piano e orquestra (1938)
Linda Bustani, piano
Orquestra Sinfônica Petrobrás Pró Música

Concerto para Piano e Orquestra No. 5 (1954) [1993]
Vera Astrachan, piano
OSESP: Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo

Roberto Tibiriçá, regente

Download MP3:


terça-feira, 8 de março de 2011

Renascença na Inglaterra: Música Instrumental de Byrd e Dowland


Esta postagem é para os amantes da música da Renascença. O virginal muselar e o alaúde utilizados nestas gravações foram construídos rigorosamente a partir de modelos do século XVI e início do século XVII.

E, evidentemente, destina-se também aos interessados em conhecer a música desse fascinante período, além da virtual oportunidade de ouvir dois excelentes instrumentistas: Davitt Moroney e Paul O'Dette.

Para quem não conhece, é importante dizer que William Byrd e John Dowland foram dois dos maiores compositores da Era Elizabetana, contemporâneos de William Shakespeare, o genial dramaturgo.

William Byrd foi exímio organista e genial compositor polifonista, cuja obra coral para a liturgia anglicana - services, anthems, etc - era ouvida com admiração na capela real. Mas, por ser católico, talvez as suas peças mais belas sejam as missas e os motetos, que escrevia para as capelas particulares de nobres ricos. John Dowland foi um menestrel: cantor e mestre do alaúde, famoso em toda a Europa. Suas canções eram as favoritas da corte de Elizabeth I, embora jamais tenha conseguido nessa mesma corte o tão almejado cargo de alaudista.

Byrd e Dowland também escreveram música instrumental de grande valor. A pavan era uma das mais nobres danças do século XVI, de ritmo binário e andamento moderado, quase sempre seguida por outra dança mais viva, a galliard. Essas peças atravessaram os séculos e chegaram até os nossos dias, incorporando-se ao repertório dos recitais, a partir da revitalização da música renascentista e barroca. Pela qualidade artística e pelo rigor arqueológico, a obra desses compositores continua viva entre nós, apesar dos quatro séculos que nos separam.


O virginal muselar é um instrumento da família do cravo, um avô do piano moderno, díriamos. Difere do cravo por ser menor e pela colocação do teclado: à direita, e mais frequentemente no meio da caixa, de forma que as cordas são beliscadas no centro, o que lhe dá uma sonoridade mais abafada e quente. No século XVIII o virginal já era anacrônico, devido à evolução de outros modelos do cravo dos quais originou o piano-forte.

O alaúde, descendente talvez de um antigo instrumento persa ou árabe, tem a caixa em forma de meia pera. O seu conjunto de cordas, ao ser dedilhado ou palhetado, expande-se em belos timbres. Foi muito utilizado durante mais de três séculos até cair no esquecimento.

Esses dois instrumentos soam-nos hoje com alguma estranheza. Dessa forma, o antigo torna-se moderno, é sensação nova diante de uma delicada beleza.



John Dowland (1563-1626) por Paul O’Dette


em Alaúde construído por Paul Thomson, Londres, 1984,
baseado em modelo Magno Tieffenbrucker, de 1550
.


















Download - Baixar:



William Byrd (1543-1623) por Davitt Moroney

em Virginal Muselar, construído por John Phillips,
1991, a partir de instrumento flamengo de 1679.

















Download - Baixar:Byrd.DavittMoroney.zip



terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Walt Whitman: 3 Poemas























Para muitos, Walt Whitman é o maior dos poetas norte-americanos. Alguns discordam, mas ninguém pode negar que Folhas de Relva é uma das obras que mais influenciaram a poesia moderna em quase todos os países. Eu me posiciono entre aqueles que sentiram, desde a primeira leitura, o impacto de Whitman, poderoso como uma tempestade que surge para abalar e purificar a atmosfera, anunciando tempos novos.

Os dois primeiros títulos, curtos e de suave lirismo, diferem do habitual estilo do autor, que preferia os poemas extensos e estruturados como odes sem rimas e métrica. O terceiro mostra toda a força do misticismo panteísta de Whitman.

Do Inquieto Oceano da Multidão

Do inquieto oceano da multidão veio a mim uma gota
[gentilmente suspirando: Eu te amo, há longo tempo
Fiz uma extensa caminhada apenas para te olhar, tocar-te,
Pois não podia morrer sem te olhar uma vez antes,
com o meu temor de perder-te depois.


Agora nos encontramos e olhamos, estamos salvos,
Retorne em paz ao oceano, meu amor,
Também sou parte do oceano, meu amor,
[não estamos assim tão separados,
Olhe a imensa curvatura, a coesão de tudo tão perfeito!
Quanto a mim e a você, separa-nos o mar irresistível
Levando-nos algum tempo afastados,
[embora não possa afastar-nos sempre:
Não fique impaciente – um breve espaço –
[e fique certa de que eu saúdo o ar,
[a terra e o oceano,
Todos os dias ao pôr-do-sol,
[por sua amada causa, meu amor.

Quando Analiso a Conquistada Fama

Quando analiso a conquistada fama dos heróis
e as vitórias dos grandes generais,
não sinto inveja desses generais
nem do presidente na presidência
nem do ricaço em sua vistosa mansão;
mas quando eu ouço falar
do entendimento fraterno entre dois amantes,
de como tudo se passou com eles,
de como juntos passaram a vida
através do perigo, do ódio, sem mudança
por longo e longo tempo atravessando
a juventude e a meia-idade e a velhice
sem titubeios, de como leais
e afeiçoados se mantiveram
aí então é que eu me ponho pensativo
e saio de perto às pressas
com a mais amarga inveja.

Na praia, sozinho, à noite

Na praia, sozinho, à noite,
Quando a velha mãe balança para a frente e para trás,
[entoando sua canção vigorosa,
Quando assisto à brilhante estrela que cintila,
[reflito sobre a chave dos universos e sobre o futuro.

Uma vasta similitude engrena todas as coisas,
Todas as esferas, as desenvolvidas, as mirradas, as pequenas,
[as grandes, os sóis, as luas, os planetas,
Todas as distâncias de lugares, não importando quão longínquos,
Todas as distâncias do tempo, todas as formas inanimadas,
Todas as almas, todos os corpos viventes embora tão diferentes,
[ou de mundos diferentes,
Todos os processos gasosos, aquáticos, vegetais, minerais,
[os peixes, as criaturas,
Todas as nações, cores, barbarismos, civilizações, línguas,
Todas as identidades que existiram ou possam existir
[neste globo ou em qualquer globo,
Todas as vidas e mortes, todo o passado, o presente, o futuro,
Essa vasta similitude os abarca, e sempre os abarcou,
E há de abarcá-los para sempre e solidamente envolvê-los e contê-los.

(de Folhas de Relva,
  livros: Filhos de Adão, Cálamo e À Deriva do Mar)

Walt Whitman (1819-1892)

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Cântico de Agradecimento


Adeus, Primavera!
Adeus, Outubro dos lírios e dos jasmins!
Outubro das rosas e das margaridas!
E lótus, miosótis, rododendros de terras distantes!

Sei que carrego comigo um pouco de tuas fragrâncias,
um pouco da dança febril, da embriaguez das cores,
do deslumbramento da primeira paixão,
das risadas que dei em teus jardins.

E tenho certeza que deixo um pouco de mim
nas tristes violetas que pendem de tuas hastes
no aceno de adeus,
um pouco de mim no teu chão de ilusões despetaladas.

Obrigado! Primavera,
pela coroa de avencas que trago hoje,
murcha entre os cabelos.
E só murchou porque um dia
me deste a oportunidade de tecê-la.

Agora é Verão.
Há um círculo de pedras ásperas no horizonte
e uma planície longa e vermelha para cultivar.
O dia cobre o chão rendado de cicatrizes.
A poesia tem um cheiro acre de suor.
E aconselha-me a continuar
a plantação das sementes na terra seca.

Passam os dias. Aprendo um novo sorriso.
Olho a aridez à minha volta, e canto:

Vinde a mim tangerinas e maçãs, peras e romãs!
Vinde a mim polpa e sumo das framboesas!
que já vejo invisíveis nestas valas que abro,
nestes cortes que guardam a vida.
Obrigado Sol, obrigado doce suor de Verão!

Aproveitemos a milagrosa inspiração do instante,
que não há de retornar, nunca mais!


Foto: a.rocha 2010

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Jorge Luis Borges: Ausência


Haverei de levantar a vasta vida
que ainda agora é teu espelho:
cada manhã haverei de reconstruí-la.
Desde que partiste
quantos lugares se tem tornado vãos
e sem sentido, iguais
às luzes no dia.
Tardes que foram nicho de tua imagem,
músicas em que sempre me aguardavas,
palavras daquele tempo,
eu terei que quebrá-las com minhas mãos.
Em que cavidade esconderei minha alma
para que não veja tua ausência
que como um sol terrível, sem ocaso,
brilha definitiva e sem piedade?
Tua ausência me rodeia
como a corda à garganta
o mar ao que se quebra.


Jorge Luís Borges (1899-1986)

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Carinho pelos Bichanos e Cães


Tenho a maior simpatia pelos cachorros. Não tenho dúvida de que eles herdarão o céu. Os cães possuem a suprema lealdade, pressentem e nos protegem da falsidade dos salteadores. Os misteriosos gatos não são diferentes: com carinho seletivo somente se aproximam quando sentem sinceridade; sabem das tramas e da má intenção dos vivos, e são os escudos dos donos diante das energias malignas, das forças invisíveis. Os egípcios e os gregos antigos sabiam muito bem disso.


Na literatura e na música, alguns nomes que tanto admiro também tinham paixão pelos bichanos e pelos cães.


Vejam só a cara de satisfação do escritor e poeta Hermann Hesse brincando com o gato de estimação.








































Já o escritor Guimarães Rosa e sua esposa Aracy juntos amavam tanto os gatos que um só não bastava.




































Até o sisudo compositor Vaughan Williams comparece aqui com o seu gatinho favorito Foxy, deveras aconchegado.























E alguns estimam tanto os seus cães que os conduzem para a fama. Na Baviera, em Gmund am Tegernsee, há uma estátua de Thomas Mann brincando com Bashan, o cão preferido. O grande escritor tanto o adorava que fez dele o personagem principal de um de seus livros. Senhor e Cão é um lindo conto. Recomendo-o a todos que gostam de histórias sobre animais. No Brasil foi publicado pela editora Record em uma coletânea de novelas e contos de Mann entitulada Os Famintos.























Imagens. Agradecimentos aos sites. Thanks...!!!

Your cat was delicious - http://yourcatwasdelicious.tumblr.com
Tertulia Bibliofila - http://tertuliabibliofila.blogspot.com
Roberta Rood - http://robertarood.wordpress.com

sábado, 4 de setembro de 2010

Cícero Acaiaba: 3 Elegias


Faltam-me as palavras para comentar um verso que seja dessas elegias do mestre Acaiaba. Diante da beleza dessas metáforas, recolho-me ao silêncio, com humildade e profunda admiração.

Elegia IX

Contemplou o dia murchando
recolhido em sua própria sombra,
e o que via na fímbria lívida das montanhas
era o pulsar da saudade. Ah, como se morre
com tantas nuvens ricas de sol, com tanto pássaro e no espaço
aberto de par em par até o horizonte,
com esse azul de pétala orvalhada!
Mas de repente as árvores ficam imóveis,
como um rio de branco sussurro espraia-se o rebanho,
e bem longe se ouve na capela
a gangorra dos sinos.
Tudo se resumia no silêncio
de uma estrela maior fincada na areia do céu.
A tarde morreu de manso,
tão de manso
o vento acende as luzes com um tênue sopro.

Elegia XX

Uma planície deserta
a sombra de teus olhos.
Mas esse é o teu mundo,
continua a ser o lugar da varanda
com o jarro das samambaias, a cintilação dos antúrios,
a suave ondulação da escada
para o pequeno tanque dos peixes transparentes.
Caramujos retorcidos
a brusca imobilidade de tuas mãos.
Mas aqui é o teu reino,
existes em sossego no recanto da sala,
e só a música do silêncio escorre as cortinas
na janela onde a tarde te hospeda.
Minúsculos casulos
dormem teus pés o remanso das praias remotas.
Mas prossegue teu jardim de mágicas,
o dócil vôo de teus pássaros, a mangueira,
o mesmo sol coado na peneira das árvores,
as formigas ceifando a relva, o cheiro úmido da terra,
a chuva que agora dessedenta teu corpo,
ah, teu corpo que é o mesmo e se esgarça como nuvem
lentamente lentamente
e vai sumindo num redemoinho de trevas.

Elegia XXXVIII

eu vim para dizer que não tivesse medo
bastava deitar-me com certa cautela
alisando as rugas da túnica inconsútil:
o essencial é apagar os duros ruídos
entrelaçando os dedos das mãos muito brancas.
eu vim protegido na réstia da sombra
para fechar seus grandes olhos tristes
ainda fixos na tarde através do Calvário
e desmanchar algumas pétalas de rosas
sobre os cabelos imensos.
eu vim para ensinar à boca cerrada
a nostalgia amarga do silêncio
e ao corpo embalando um rio de sono
o caminho em surdina no longe da infância.
eu vim como a hora fatal do relógio
que nunca se espera que chega tão cedo
e cravo suave o espinho do tempo
no corpo que morre – ah, puro segredo!



(de “A Última Elegia e 30 Noturnos de Minas”,
  Ed. Scortecci, 1987)

Cícero Acaiaba (1925-2009)


sexta-feira, 20 de agosto de 2010

A Alma Brasileira de Villa-Lobos



Ainda que detectemos no autodidata Villa-Lobos a melodia de Puccini, e às vezes a atmosfera de Wagner, ou a técnica de orquestração de D’Indy, e até mesmo a maneira como Sibelius tratava a profundeza das florestas, que Villa assimilou e transformou ao seu próprio modo; ainda assim é preciso ter em vista que as grandes influências do músico na idade madura foram mesmo Debussy e Bach, e muito mais a harmonização de Ravel e o ritmo de Stravinsky; sem jamais esquecer a importância decisiva que foi o choro, música popular de alto nível, amada por Villa-Lobos desde a infância, e da qual assimilara a riqueza do contraponto e o colorido dos timbres. Nessa amálgama toda, Bach funciona mais como o mestre inspirador do que uma diretriz de estilo. Mesmo assim, nessa pluralidade de vozes, o grande Villa encontra a maneira própria de cantar, consegue destacar a sua voz como legítimo representante do Brasil no coral das nações.
 
Até hoje não é possível confirmar se todas as viagens relatadas pelo compositor foram verdadeiras, pois gostava de alimentar a lenda de que havia mapeado quase todos os estados do Brasil, o que é pouco provável. Talvez não tenha se aventurado pelo interior da floresta, como dizia. No entanto, conseguiu captar o mistério das densas matas, a flora e a fauna do Amazonas. Uma coisa é certa: Villa-Lobos era um intuitivo, bastava-lhe uma simples visita a um determinado lugar e já compreendia o folclore e os costumes da região, anotava a melodia e depois a transmutava na complexidade instrumental da orquestra ou nas diversas formações camerísticas. Quando ouvimos o Quarteto de Cordas No. 6 quase podemos tocar a umidade da selva escura; quando ouvimos o Choros No. 10 e os poemas sinfônicos que tratam da Amazônia, sentimos o canto do azulão e do uirapurú; nas Bachianas 3 e 4 é nítida a presença do pica-pau e da araponga. É só fecharmos os olhos, aguçarmos o ouvido para termos a certeza: Villa esteve lá, sentiu todos esses sons, mesmo que por alguns instantes. Ou talvez tenha sentido tudo somente na imaginação, com o ouvido e os olhos da alma? Todos sabem que é característica da arte essa magia, a de abolir o tempo e o espaço e transformar o imaginário em real.

Levando em conta esse dom de vivenciar os lugares, podemos compreender que Villa-Lobos é o Rio de Janeiro, é a Amazônia, é o sertão nordestino, é campo e cidade, é metrópole e aldeia, é quarteto de cordas e flauta indígena, é violoncelo erudito, maracá, chocalho e reco-reco, é choro e modinha trajando casaca nos palcos do mundo. Por meio de estruturas não convencionais e timbres ousados o compositor nos conta do gingado mole do caipira das roças mineira e paulista, do arguto capadócio carioca conversando nos botequins e jogando bilhar; mostra-nos os índios dançando nas tabas e o sacolejante trenzinho percorrendo planícies, colinas e vilarejos do interior. E, de repente, no meio de uma peça de sonoridade áspera surgem o folclore do nordeste, do centro-oeste, do sudeste, do norte e do sul, o som e as danças da terra: a embolada, o martelo, a catira, a quadrilha. Não é novidade afirmar que a música de Villa-Lobos é riquíssima, pois é reflexo da multifacetada cultura brasileira!

Não apenas no Choros No.5 deveria constar o subtítulo Alma Brasileira. Em Villa-Lobos transparece a todo instante a essência da alma de nosso povo: afável, ora dinâmica ora indolente. O compositor nos mostra, principalmente na terna melodia de algumas peças, a capacidade que o brasileiro tem de sorrir nas adversidades e de receber com afeto todos os povos da terra. Exemplos exatos são os Prelúdios para Violão.

É correto dizer que Villa-Lobos não é apenas o folclore; antes, é o Brasil em música. E mais: trata-se de música nacionalista que avançou fronteiras, tornando-se arte universal, respeitada em todos continentes. Continua moderna, porém comunicativa. Não se apóia em ruídos. Todos podem entendê-la; alguns, com um pouco de esforço, mas o resultado é sempre gratificante, porque, como disse Beethoven, certa vez: “é arte do coração para o coração.”


Foto: Pôr-do-sol no rio Amazonas.
(direitos de Juliano de Alencar Vasconcelos)


..........

Aqui, algumas das mais importantes e populares peças do grande Villa na interpretação maravilhosa da pianista Clara Sverner.

A peça que dá título ao CD, e ponto alto da gravação, é o Choros No. 5, com o subtítulo de Alma Brasileira, talvez a obra-prima do compositor no gênero. E prestem atenção no ritmo indolente que Clara Sverner consegue em A Lenda do Caboclo, e a maneira como capta a beleza da Valsa da Dor e a sutileza como interpreta a suíte impressionista A Prole do Bebê! Também digna de nota é a leitura da pianista nesta versão original da Bachianas Brasileiras No. 4. Mas, dentre todas, a minha preferida é Impressões Seresteiras. Como adoro essa peça que pertence ao famoso Ciclo Brasileiro!


Download MP3: Baixar




domingo, 25 de julho de 2010

Canção


Através das lentes de meus óculos
tu aproximas suave como brisa,
como ondas na claridade da manhã.

Uma forma de gestos pontilhados -
és a essência diluída de nuvem,
brilho transformado em substância.

Às vezes fico guiando o meu batel
no oceano de solidão, e sigo, sigo,
seguindo vou a música de tua voz.

E só me resta a imaginária presença:
na taça vou bebendo o teu corpo,
a minha constante, doce embriaguez.

Assim eu vou: sozinho, sem âncora,
sem leme, sem velas, sem tripulação.
Somente tu, somente a tua lembrança.



(em Três Cadernos de Andarilho, Editora Alba, 1997)