sexta-feira, 29 de maio de 2009
No Palácio de Espelhos
é madrugada
a bailarina gira inebriada
no palácio de espelhos
em música
os fantasmas erguem-se
esguios
na imaginação:
todos: altos belos brancos
quase vivos
no centro do salão
um poeta opaco rodopia
trazendo o sol entre os dedos
a bailarina cansada
nada vê
fecha os olhos
e dorme
terça-feira, 12 de maio de 2009
Bach: Concertos de Brandenburgo, com The English Concert, dirigido por Trevor Pinnock

A Obra
Em 1721, quando BACH apresentou e dedicou esses Seis Concertos a Christian Ludwig, duque de Brandenburgo, não imaginava que logo em seguida eles seriam esquecidos e, após a morte do margrave, vendidos por uma pequena quantia, correspondente hoje a alguns ínfimos centavos. Imaginava muito menos que em 1850 esses concertos seriam exumados e publicados, e no século XX seriam considerados como uma das maiores obras musicais da história da humanidade. Em termos de música, não há o que dizer, é a perfeição absoluta.
Nas primeiras décadas do século XX, essas obras eram apresentadas por uma orquestra enorme, conforme o gosto estético do exagerado romantismo do entre séculos, o que não dava idéia da verdadeira concepção estética de Bach e do próprio estilo barroco. Foi assim que muitas pessoas daquela época conheceram esses Concertos de Brandenburgo. Eram de um Bach pesadão e arrastado.
A partir dos anos 20, quando o estilo neoclássico entrou em moda, muitos regentes jovens quiseram estudar as partituras originais das peças barrocas e clássicas, determinando o início da chamada ‘arqueologia musical’. Com rigor devolveram a verdadeira estética a essas obras, buscando no andamento correto e em cada instrumento a sonoridade de como era na época em que viviam os compositores. O aperfeiçoamento dessa leitura ampliava-se a cada tentativa de aproximação de seus respectivos estilos e escolas. Então foi possível ouvir Bach como realmente deveria ser: ágil, leve e ao mesmo tempo vertiginosamente complexo.
Há uma espantosa variedade na estrutura desses Seis Concertos. Até mesmo os ouvintes habituados com a Obra total de Bach surpreendem-se com a riqueza que há neles. Alguns pertencem ao legítimo concerto grosso, como os de Nos. 2, 4 e 5 em que o concertino (um ou mais instrumentos solistas) dialogam com o ripieno (as cordas). Os outros, Nos. 1, 3 e 6, são concertos sem solistas. Neste caso, são as partes que se alternam nos temas em diálogo, complementando-se como dois coros. Nos Concertos Nos. 3 e 6, por exemplo, os violinos “conversam” com os violas, ou como ocorre no Concerto No. 1, um grupo de cordas alterna-se com o de sopros. De fato, como Bach prescrevera, apenas esse primeiro Concerto deveria utilizar uma orquestra de médio porte; os outros cinco foram idealizados como concertos de câmara. E realmente ficam muito melhores nessa distribuição reduzida de instrumentos do que numa orquestra inteira que obscurece a agilidade e a clareza dos temas.
Bach era fascinado por números. Nos Concertos de Brandenburgo a concepção arquitetônica das formas demonstra isso. O No. 2 tem o formato triangular: um solista, o trumpete, situa-se no ápice; logo abaixo é apoiado por outros três (oboé, flauta-doce e violino), e como base aos quatro estão as cordas. Não se sabe o motivo de ser atribuído a ele o No. 2, pois deveria ser 3. A sua estrutura assemelha-se em tudo a uma pirâmide. Ao Concerto No. 3 Bach reservou a idéia do espelho múltiplo. É executado por três grupos de cordas, cada um formado por uma tríade: 3 violinos, 3 violas e 3 violoncelos. Sem contar o baixo contínuo que as apoia, as partes perfazem o número 9. Nos Concertos Nos. 4 e 5 os 3 instrumentos solistas se alternam com as cordas (2 e 2, 1 e 3 , 2 e 3, 3 e 2). E o Concerto No. 6 repete a estrutura do No. 3, sendo 3 partes de 2 instrumentos, formando o número 6. Em todos os concertos há esse fascinante jogo numerológico que todos podem observar. Cada um tem a oportunidade e o direito de tirar suas próprias conclusões matemáticas ou mesmo esotéricas. Pitágoras ia delirar com uma música assim.
Os estilos também são dos mais diversos: há o ritmo de concertos de mestres italianos como Corelli, Torelli, Albinoni e principalmente Vivaldi, mestre que Bach estudou muito; há os elementos franceses como as danças estilizadas de alguns movimentos ao gosto de Couperin. Já a utilização de instrumentos de sopro é nitidamente de preferência alemã. No sexto concerto foi utilizada a viola da gamba que na época já era antiquada, mas Bach quis prestar homenagem ao século XVII, como uma despedida ao passado, trazendo de volta os dias de glória desse instrumento com sua sonoridade única. Hoje esses instrumentos precursores das cordas atuais da orquestra também estão de volta, mais vivos do que nunca, o que podemos confirmar nas inúmeras gravações do regente espanhol Jordi Savall, que é um dos maiores violistas da gamba atuais.
Nesses Concertos de Brandenburgo, Bach, sem perder a individualidade, mesclou tudo que aprendera com os mestres anteriores e criou os mais versáteis concertos barrocos de que se tem notícia.
Quanto à atmosfera, esta dispensa comentários, é a música mais feliz, de maior beleza e luminosidade já escrita.
Os Intérpretes
Já ouvi excelentes versões e leituras destes concertos, mas a presente gravação do ENGLISH CONCERT, dirigido por TREVOR PINNOCK, supera todas. Aqui está a resposta para aqueles que reclamam de que todas flautas barrocas soam como canos de pia, ou de que todo violino do período possui sonoridade estridente. Nesta gravação do English Concert não há nada disso.
Michael Laird brilha, executando o trumpete natural no Concerto No. 2, um solo absurdamente difícil. O excelente violinista Simon Standage, tocando em instrumento do século XVIII, dá conta perfeitamente das vertigens virtuosísticas do Concerto No. 4. A flautista Lisa Beznosiuk supera-se a si mesma nesta gravação do Concerto No.5. E o que podemos falar do próprio Trevor Pinnock na direção e no solo dificílimo de cravo do mesmo Concerto No. 5? Está magnífico, assim como todo o The English Concert.
Arte Compartilhada
A vontade que dá é escrever páginas e páginas sobre esses Seis Concertos. Mas paro por aqui. Não tenho a pretensão de fatiar e detalhar esses diamantes de arte. Seria necessário um livro inteiro para comentá-los. E ainda assim seria pouco. Ou seja, a audição dessa música grandiosa por si só vale mais do que milhares de palavras.
Para quem se interessar, aqui está a recomendadíssima gravação: 2 CDs, cada um com 3 concertos. Não se esqueçam, porém, que uma vez apreciada a obra em mp3, recomendo que adquiram-na em alguma loja, pois o som do CD original é superior.
Download MP3 - Baixar:
CD1: Concertos de Brandenburgo Nrs 1, 2 e 3
Bach.BrandenburgCtos.123.Pinnock.zip
sábado, 9 de maio de 2009
Sobre o Benefício: De uma frase de Aristóteles
“Não há nada no mundo que envelheça tão depressa como o benefício”.
Quando, na quinta centúria antes da Era Cristã, Aristóteles, o filósofo de Atenas, proferiu essa sentença, certamente estava a abarcar a Humanidade como um todo. Apoiava-se em seu vasto saber, a partir de longos anos observando as ulcerações sociais, comuns em todas as épocas, constatando que o homem, em sua totalidade, retribuía com a ingratidão o bem recebido. Talvez tivesse razão, se nos fosse dado analisar a sociedade humana somente através da ótica das imperfeições e fraquezas, o que não pode ser verdade, porque sempre há um lado que contém as virtudes, ainda que em diminutas proporções.
No mesmo período da história, quando na Civilização Helênica reinou a mente analítica de Aristóteles, também viveu, na Ásia, um príncipe hindu, que abandonou família e riquezas para buscar o sentido da existência. Siddharta Gautama, o Buddha, Avatar do posterior Budismo, repetiu, no decorrer de sua vida muitas vezes a seguinte frase:
“Do charco nasce a flor-de-lótus”.
Sim, no lamaçal das intempéries humanas, na caótica desigualdade social, desde imemoráveis eras, viveram homens frágeis, indivíduos de personalidade esfacelada pelas injustiças, que nunca puderam recorrer ao amparo da riqueza, que não tiveram as oportunidades de se elevarem espiritualmente. A eles sempre restou a ingratidão por força de conviver com a desconfiança adquirida na velada escravatura da exploração do irmão pelo irmão.
Entretanto, em todos os períodos da história humana, em que a humanidade vive às vésperas do caos, surgem indivíduos que, emergindo mesmo da confusa época em que vivem, transcendem-na, demonstrando uma presença marcante em iluminação, imbatíveis na defesa da virtude e da consciência moral, atuando e contribuindo para a evolução espiritual dos irmãos em trevas. Não são muitos, é bem verdade, aqueles que compreendem a iluminação e tentam seguir um novo caminho. Mesmo assim, poucos que são, já conseguem alterar o ânimo do mundo.
A Aristóteles só podemos dar uma metade da razão. Não creio que o benefício seja totalmente esquecido, porque nem tudo pode ser perdido no coração dos homens.
Do charco sempre há de nascer uma flor-de-lótus, essa planta sagrada da renovação humana.
Quando, na quinta centúria antes da Era Cristã, Aristóteles, o filósofo de Atenas, proferiu essa sentença, certamente estava a abarcar a Humanidade como um todo. Apoiava-se em seu vasto saber, a partir de longos anos observando as ulcerações sociais, comuns em todas as épocas, constatando que o homem, em sua totalidade, retribuía com a ingratidão o bem recebido. Talvez tivesse razão, se nos fosse dado analisar a sociedade humana somente através da ótica das imperfeições e fraquezas, o que não pode ser verdade, porque sempre há um lado que contém as virtudes, ainda que em diminutas proporções.
No mesmo período da história, quando na Civilização Helênica reinou a mente analítica de Aristóteles, também viveu, na Ásia, um príncipe hindu, que abandonou família e riquezas para buscar o sentido da existência. Siddharta Gautama, o Buddha, Avatar do posterior Budismo, repetiu, no decorrer de sua vida muitas vezes a seguinte frase:
“Do charco nasce a flor-de-lótus”.
Sim, no lamaçal das intempéries humanas, na caótica desigualdade social, desde imemoráveis eras, viveram homens frágeis, indivíduos de personalidade esfacelada pelas injustiças, que nunca puderam recorrer ao amparo da riqueza, que não tiveram as oportunidades de se elevarem espiritualmente. A eles sempre restou a ingratidão por força de conviver com a desconfiança adquirida na velada escravatura da exploração do irmão pelo irmão.
Entretanto, em todos os períodos da história humana, em que a humanidade vive às vésperas do caos, surgem indivíduos que, emergindo mesmo da confusa época em que vivem, transcendem-na, demonstrando uma presença marcante em iluminação, imbatíveis na defesa da virtude e da consciência moral, atuando e contribuindo para a evolução espiritual dos irmãos em trevas. Não são muitos, é bem verdade, aqueles que compreendem a iluminação e tentam seguir um novo caminho. Mesmo assim, poucos que são, já conseguem alterar o ânimo do mundo.
A Aristóteles só podemos dar uma metade da razão. Não creio que o benefício seja totalmente esquecido, porque nem tudo pode ser perdido no coração dos homens.
Do charco sempre há de nascer uma flor-de-lótus, essa planta sagrada da renovação humana.
(em "Sobre a Cinza e o Fogo: Pequenas Reflexões")
quinta-feira, 7 de maio de 2009
Encontro

observe as tangerinas
- não adquirem doçura
no dia em que nascem
de primavera precisam
e de um verão também
- chuvas diagonais, luz!
o tempo só estende-se
retroage e avança - só
para amadurecer o coração
certo é: grandes encontros
pedem grandes preparações
para que feliz seja o dia
agosto de 2004
Tangerine: copyright by Sergey Lavrentiev
- não adquirem doçura
no dia em que nascem
de primavera precisam
e de um verão também
- chuvas diagonais, luz!
o tempo só estende-se
retroage e avança - só
para amadurecer o coração
certo é: grandes encontros
pedem grandes preparações
para que feliz seja o dia
agosto de 2004
Tangerine: copyright by Sergey Lavrentiev
terça-feira, 5 de maio de 2009
Bach, Handel e Scarlatti


O breve ensaio que se faz presente foi encomenda do amigo Edgard Brito – compositor, pianista e professor de história da música – com o objetivo de introduzir seus alunos do conservatório no fascinante mundo da música barroca. Que os mais experimentados no assunto me perdoem os momentos em que a paixão pela arte carrega-se de cores, sacrificando o estilo sóbrio da imparcialidade histórica.
***
O ano de 1685 é considerado uma dádiva para os amantes da música, principalmente da música barroca. Três gênios nasceram sob o auspicioso sol desse ano: Bach, Handel e Scarlatti (o Domenico).
Não é novidade alguma: Bach é um marco na história da Música. Como compositor foi pouco conhecido em vida. Nos anais da época, falava-se dele como um organista, o maior de todos. Hoje, através das partituras, sabemos que é a maior obra para órgão de que se tem notícia, e mais: a Obra de Bach, em sua totalidade, é a culminância do que a música erudita chegara até então. Até a morte, em 1750, Bach é a confluência de todos os estilos e técnicas dos períodos anteriores. É, de fato, a súmula da Música até aquela data!!! E, como importância artística, muitos dizem: é a maior de todos os tempos, perdendo em importância histórica apenas para a obra de Beethoven, já que esta delimitou todo um comportamento musical da humanidade; ultrapassando o campo da arte atingiu aspectos sociológicos e filosóficos, focalizando a individualidade do criador como o cerne da obra criada.
E também não é exagero o epíteto: Bach e Haendel, os dois maiores gênios alemães do século XVIII! Além destes, poderíamos citar Telemann, músico competentíssimo, mas na maioria das vezes apenas excelente ‘artesão’. Há Glück, grande na ópera. Há também Beethoven, mas, apesar de alemão, ainda não havia escrito as suas maiores obras-primas. E Haydn e Mozart eram austríacos.
Entretanto, apesar de ter nascido na Alemanha, Haendel viveu a maior parte da vida na Inglaterra. De corpo e alma, tornou-se cidadão inglês. Embora de conteúdo universal, a parte mais importante de sua obra coral, os oratórios, foi escrita no ‘espírito’ britânico. Acho justo designá-lo na grafia inglesa: Handel, o que farei a partir deste parágrafo.
Não é possível, em questões de profundidade, fazer comparações entre Bach e Handel. O primeiro, em tudo que compôs, é muito mais profundo do que o segundo. No entanto, Handel é mais brilhante, no sentido de nos arrebatar de imediato. Bach, de tão profundo que é, às vezes chega a nos deixar exaustos. Em Bach sentimos cargas e cargas de profunda emotividade religiosa e complexidade artística que nos exaurem. Em Handel há uma liberação natural do êxtase, do luminoso, do júbilo, que não nos exige concentração excessiva, excetuando, é claro, a maioria de seus oratórios, que muito nos pedem de atenção, devido ao dramatismo condensado.
Se Bach é a súmula da Música escrita até os meados do século XVIII, então, podemos dizer que Handel é, especificamente, a súmula do período Barroco. Quem quiser estudar o Barroco em suas linhas gerais, deve estudar a Obra de Handel, pois nela concentram-se todos os estilos em voga nos séculos XVII e XVIII, peculiares a cada país - o italiano, o francês, o alemão e o inglês. A Alemanha está nas obras sacras iniciais; a França dos Couperin está resumida nas suítes para cravo bem como nas suítes orquestrais; a Itália dos Scarlatti, nas óperas; nos concertos grossos concentram-se todas as tendências desde Stradella e Gregori, com ênfase em Corelli e Torelli, até os tardios Locatelli e Geminiani; a Inglaterra de Purcell é revivida nos anthems, masques e odes comemorativas.
E para iniciar o estudo de Handel, deve-se primeiramente tomar como ponto de referência a personalidade do homem e as tendências psicológicas do artista: Handel possuía natureza cosmopolita e tinha como objetivo a arte de espetáculos. É muito importante ter isso em mente. Ele não podia e nem queria fazer uma música excessivamente profunda como era a obra religiosa de Bach, concentrada no espaço das igrejas luteranas da época.
Deve-se iniciar o estudo de Handel pela sua Música de Cena, ou seja, a Ópera. O compositor voltou-se integralmente para o Oratório somente quando não foi mais possível se dedicar à sua expressão preferida, a música cantada em palco com cenário. Mas em Handel há pouquíssimas diferenças entre os dois gêneros vocais: o encenado e o não encenado.
Depois do gênero dramático, para compreendermos Handel, só mesmo estudando a outra característica fundamental de sua obra: a voz. Apesar da preferência pela expressão teatral, foi, devido à sua Música Vocal não encenada, principalmente os seus Oratórios, também verdadeiros dramas, que ele passou definitivamente para a História da Música. São os maiores e mais geniais já escritos, surgindo daí a necessidade de estudá-los minuciosamente. São tantos no catálogo que nos perdemos à primeira vista, mas os maiores continuam sendo estes: Saul, Sansão, Israel no Egito (diferente, com total prioridade aos coros, contendo poucos trechos de voz solista) e o monumental e mais elaborado de todos Judas Maccabeus. E, por fim, o Messias, ápice dentre todas as obras de Handel, principalmente pela sua característica mais sublime: a espontaneidade. Se tivesse escrito apenas esse oratório já lhe estaria assegurada a imortalidade. Há outros, como os referidos acima, que estão no mesmo nível, mas a fluência e o frescor dessa obra relatando a vida de Cristo com tanta ternura a distinguem de todas as outras. Nem as elaboradíssimas cantatas que formam o Oratório de Natal de Bach conseguem suplantar o Messias de Handel.
Handel, portanto, era artista essencialmente vocal. Quando escrevia música instrumental era com um pouco de má vontade, embora jamais tenha sido pequeno nesses gêneros. Os concertos para órgão eram bastante populares em sua época, porque Handel os executava antes da publicação como aberturas e interlúdios das óperas e de alguns oratórios. Os concertos grossos, a melhor parte de sua produção orquestral, juntamente com algumas suítes, são peças brilhantemente construídas sem, contudo, demonstrarem inovações. Da mesma forma são as obras para cravo e as obras de câmara. As Sonatas Op. 1 são obra didática, mas bem diferente das de Bach, que se dedicava conscientemente ao ensino, considerando-o como uma das funções mais importantes de sua vida. (É impressionante a sua dedicação na idade madura e, depois, na velhice, aos dois livros do Cravo Bem-Temperado). Handel, não. Dedicava-se ao ensino somente nas horas de folga, para atender pedidos de algum editor ou de nobres que lhe mostravam contentamento, sabendo dos filhos aprendendo com o mestre. Na maioria das vezes, compunha para os gêneros instrumentais mencionados mais para satisfazer os seus interesses financeiros, pois a venda de partituras de obras nessa área retornava-lhe dinheiro mais rápido.
Os hábitos do músico e do homem Bach eram, de certa forma, provincianos. Viveu toda a vida na Alemanha em um círculo espacial restrito: Eisenach e arredores, Weimar, Koethen, depois Leipzig. Já Handel, o grande Urso Branco, conforme os contemporâneos o chamavam, era homem inquieto que gostava de viajar: deixou presença na Alemanha, Itália e Inglaterra. Sentia-se um cidadão do mundo.
A devoção de Handel era o palco, a sua manifestação artística era a dramática, e o seu principal instrumento de expressão era a voz. Eis as características handelianas: cosmopolitismo, teatro, voz humana (em coro ou isolada). E Luminosidade.
O padre Vivaldi escreveu música maravilhosamente luminosa! Luminosos são os Concertos de Brandenburgo de Bach - a música mais feliz e perfeita que já se escreveu. Mas a luminosidade mais poderosa é a de Handel - aquela que nos arrebata, que nos hipnotiza e nos faz cantar junto.
No mesmo ano de 1685 em que na Alemanha nasciam Bach e Handel, também surgia em Nápoles, a 26 de outubro, o genial Domenico Scarlatti, filho de outro importante músico, o Alessandro. O pai, famosíssimo na Itália, inibiu o talento do filho durante muito tempo. Apesar de receber encomendas de missas para a Basílica de São Pedro em Roma e óperas para Veneza e Nápoles, as obras do compositor filho, principalmente aquelas da juventude, eram apagadas e comuns. A poderosa sombra paterna o perseguiu até o momento da libertação: ao morrer o pai, Domenico nasceu artisticamente. Começou a compor peças para cravo enquanto ensinava a princesa Maria Bárbara, primeiramente em Lisboa, depois Sevilla e Madrid, quando ela se tornou rainha de Espanha. Scarlatti acompanhou-a e, semelhante a Handel em relação a Inglaterra, o compositor napolitano adotou sinceramente a Espanha como segunda pátria. Essa terra ensolarada com a presença musical dos gitanos foi uma revolução em sua arte: somada à sua genialidade, tudo que viu e assimilou do país transformou-se em uma das mais ricas músicas de que se tem notícia. A Obra para Cravo de Domenico Scarlatti é de uma prodigiosa verve rítmica e de uma criatividade melódica tão inovadora que sempre há de nos espantar e maravilhar.
É sempre risível o ato de colocar obras e artistas em pódios como se fossem desportistas em competição, mas em alguns casos não há como evitar. Scarlatti é o maior compositor para cravo de toda a história da música. Nem mesmo a complexa inventividade de Bach consegue suplantá-lo. Não há como escolher as melhores entre as mais de 500 peças para esse instrumento que Scarlatti escreveu. Então não escolha! Ouça-as indiscriminadamente que o lucro será o mesmo, sem deixar de lado a lembrança: elas não foram compostas para serem executadas no piano, mas sim no cravo, onde elas brilham com a natural intenção do compositor. Tenho certeza de que se pudéssemos conhecer todas, perguntaríamos: por que ele não escreveu mais 500 obras assim? Guardada a diferença de gêneros, considero-as, pelo alto nível artístico, tão versáteis e magistrais quanto as cantatas de Bach.
Eu, por exemplo, e isso é ato individual, quando preciso de energia rítmica, dinamismo aos atos do cotidiano ouço Domenico Scarlatti, que me impulsiona e vitaliza. Nos momentos em que sinto vontade de compenetração para mergulhar nos interiores íntimos da fé, da reflexão ao êxtase dos mistérios, para empreender jornadas em busca do interelacionamento Criador e Ser criado, ouço Bach. Quando quero a expansão, o vôo através de livres panoramas sem filosofar sobre o motivo do céu ser azul e verdes serem as relvas, apenas sentir a presença do sublime e natural êxtase, ouço Handel.
Mas, a verdade é que não se resume a arte de tão grandes compositores em tão breves palavras. As analogias são imperfeitas da mesma forma que são inexatas as definições - jamais podem dar total idéia da individualidade de cada um, porque cada autor ou obra tem a sua voz própria e distinta. Além disso, cada ouvinte percebe as nuances de modo diverso.
A música de Johann Sebastian Bach, Georg Friedrich Handel e Giuseppe Domenico Scarlatti sempre há de nos levar a êxtases diferentes e renovados.
Algumas curiosidades históricas para terminar esta breve explanação:
Bach e Handel, os dois maiores gênios da era barroca nascidos na Alemanha, nunca se encontraram, embora tenham nascido com diferença de menos de um mês um do outro (o segundo a 23 de fevereiro, o primeiro a 21 de março), e em cidades cuja distância não ultrapassa os 150 km (Eisenach e Halle).
Bach sentia uma profunda admiração por Handel, que era muito mais famoso devido às óperas constantemente apresentadas em Londres e na Europa. Certa vez, Bach locomoveu-se até Halle para conhecer Handel, pois recebeu a notícia de que o Urso Branco procurava cantores para sua nova ópera, e aproveitava o tempo para visitar a mãe. Mas uma ironia do destino providenciou para que houvesse o desencontro. Ao chegar na cidade, Handel já havia partido de regresso à Inglaterra.
Por outro lado, Handel, quando de suas andanças pela Itália, tornou-se grande amigo de Domenico Scarlatti. Ambos eram jovens de 23 anos com a cabeça imersa em sonhos e ambições musicais. Em 1708, os dois compositores e virtuoses do teclado se conheceram em Veneza e juntos seguiram viagem para Roma. Nem imaginavam que iam registrar perenemente os respectivos nomes nos anais da história da música, e nem podiam imaginar que o destino os levaria para outros lugares, países que adotariam como pátria, onde morreriam distantes dos locais de origem: um, na Inglaterra; o outro, na Espanha. Embora não tivessem se encontrado de novo, a amizade durou a vida toda, através de cartas assíduas, permanecendo a mútua admiração.
Chegará o tempo em que não mais existirão as demarcações territoriais que distinguem uma terra chamada Inglaterra, ou Alemanha, ou Itália, Brasil ou EUA. Outros povos ali habitarão, com outros hábitos e denominações, com sentimento de pátria e idiomas irreconhecivelmente transformados. Porém, seja nos conglomerados urbanos, seja nos cantos mais remotos do planeta, se existirem pessoas capazes de ler e exercitar os escritos musicais deixados pelos mestres, além de outras gentes com sensibilidade e boa vontade o suficiente para soprar na cinza a brasa que a faz viver, então não estará perdida a Grande Música. As artes, entre elas a música, estas sim poderão sobreviver aos mesquinhos propósitos de todas guerras e impérios.
Não é novidade alguma: Bach é um marco na história da Música. Como compositor foi pouco conhecido em vida. Nos anais da época, falava-se dele como um organista, o maior de todos. Hoje, através das partituras, sabemos que é a maior obra para órgão de que se tem notícia, e mais: a Obra de Bach, em sua totalidade, é a culminância do que a música erudita chegara até então. Até a morte, em 1750, Bach é a confluência de todos os estilos e técnicas dos períodos anteriores. É, de fato, a súmula da Música até aquela data!!! E, como importância artística, muitos dizem: é a maior de todos os tempos, perdendo em importância histórica apenas para a obra de Beethoven, já que esta delimitou todo um comportamento musical da humanidade; ultrapassando o campo da arte atingiu aspectos sociológicos e filosóficos, focalizando a individualidade do criador como o cerne da obra criada.
E também não é exagero o epíteto: Bach e Haendel, os dois maiores gênios alemães do século XVIII! Além destes, poderíamos citar Telemann, músico competentíssimo, mas na maioria das vezes apenas excelente ‘artesão’. Há Glück, grande na ópera. Há também Beethoven, mas, apesar de alemão, ainda não havia escrito as suas maiores obras-primas. E Haydn e Mozart eram austríacos.
Entretanto, apesar de ter nascido na Alemanha, Haendel viveu a maior parte da vida na Inglaterra. De corpo e alma, tornou-se cidadão inglês. Embora de conteúdo universal, a parte mais importante de sua obra coral, os oratórios, foi escrita no ‘espírito’ britânico. Acho justo designá-lo na grafia inglesa: Handel, o que farei a partir deste parágrafo.
Não é possível, em questões de profundidade, fazer comparações entre Bach e Handel. O primeiro, em tudo que compôs, é muito mais profundo do que o segundo. No entanto, Handel é mais brilhante, no sentido de nos arrebatar de imediato. Bach, de tão profundo que é, às vezes chega a nos deixar exaustos. Em Bach sentimos cargas e cargas de profunda emotividade religiosa e complexidade artística que nos exaurem. Em Handel há uma liberação natural do êxtase, do luminoso, do júbilo, que não nos exige concentração excessiva, excetuando, é claro, a maioria de seus oratórios, que muito nos pedem de atenção, devido ao dramatismo condensado.
Se Bach é a súmula da Música escrita até os meados do século XVIII, então, podemos dizer que Handel é, especificamente, a súmula do período Barroco. Quem quiser estudar o Barroco em suas linhas gerais, deve estudar a Obra de Handel, pois nela concentram-se todos os estilos em voga nos séculos XVII e XVIII, peculiares a cada país - o italiano, o francês, o alemão e o inglês. A Alemanha está nas obras sacras iniciais; a França dos Couperin está resumida nas suítes para cravo bem como nas suítes orquestrais; a Itália dos Scarlatti, nas óperas; nos concertos grossos concentram-se todas as tendências desde Stradella e Gregori, com ênfase em Corelli e Torelli, até os tardios Locatelli e Geminiani; a Inglaterra de Purcell é revivida nos anthems, masques e odes comemorativas.
E para iniciar o estudo de Handel, deve-se primeiramente tomar como ponto de referência a personalidade do homem e as tendências psicológicas do artista: Handel possuía natureza cosmopolita e tinha como objetivo a arte de espetáculos. É muito importante ter isso em mente. Ele não podia e nem queria fazer uma música excessivamente profunda como era a obra religiosa de Bach, concentrada no espaço das igrejas luteranas da época.
Deve-se iniciar o estudo de Handel pela sua Música de Cena, ou seja, a Ópera. O compositor voltou-se integralmente para o Oratório somente quando não foi mais possível se dedicar à sua expressão preferida, a música cantada em palco com cenário. Mas em Handel há pouquíssimas diferenças entre os dois gêneros vocais: o encenado e o não encenado.
Depois do gênero dramático, para compreendermos Handel, só mesmo estudando a outra característica fundamental de sua obra: a voz. Apesar da preferência pela expressão teatral, foi, devido à sua Música Vocal não encenada, principalmente os seus Oratórios, também verdadeiros dramas, que ele passou definitivamente para a História da Música. São os maiores e mais geniais já escritos, surgindo daí a necessidade de estudá-los minuciosamente. São tantos no catálogo que nos perdemos à primeira vista, mas os maiores continuam sendo estes: Saul, Sansão, Israel no Egito (diferente, com total prioridade aos coros, contendo poucos trechos de voz solista) e o monumental e mais elaborado de todos Judas Maccabeus. E, por fim, o Messias, ápice dentre todas as obras de Handel, principalmente pela sua característica mais sublime: a espontaneidade. Se tivesse escrito apenas esse oratório já lhe estaria assegurada a imortalidade. Há outros, como os referidos acima, que estão no mesmo nível, mas a fluência e o frescor dessa obra relatando a vida de Cristo com tanta ternura a distinguem de todas as outras. Nem as elaboradíssimas cantatas que formam o Oratório de Natal de Bach conseguem suplantar o Messias de Handel.
Handel, portanto, era artista essencialmente vocal. Quando escrevia música instrumental era com um pouco de má vontade, embora jamais tenha sido pequeno nesses gêneros. Os concertos para órgão eram bastante populares em sua época, porque Handel os executava antes da publicação como aberturas e interlúdios das óperas e de alguns oratórios. Os concertos grossos, a melhor parte de sua produção orquestral, juntamente com algumas suítes, são peças brilhantemente construídas sem, contudo, demonstrarem inovações. Da mesma forma são as obras para cravo e as obras de câmara. As Sonatas Op. 1 são obra didática, mas bem diferente das de Bach, que se dedicava conscientemente ao ensino, considerando-o como uma das funções mais importantes de sua vida. (É impressionante a sua dedicação na idade madura e, depois, na velhice, aos dois livros do Cravo Bem-Temperado). Handel, não. Dedicava-se ao ensino somente nas horas de folga, para atender pedidos de algum editor ou de nobres que lhe mostravam contentamento, sabendo dos filhos aprendendo com o mestre. Na maioria das vezes, compunha para os gêneros instrumentais mencionados mais para satisfazer os seus interesses financeiros, pois a venda de partituras de obras nessa área retornava-lhe dinheiro mais rápido.
Os hábitos do músico e do homem Bach eram, de certa forma, provincianos. Viveu toda a vida na Alemanha em um círculo espacial restrito: Eisenach e arredores, Weimar, Koethen, depois Leipzig. Já Handel, o grande Urso Branco, conforme os contemporâneos o chamavam, era homem inquieto que gostava de viajar: deixou presença na Alemanha, Itália e Inglaterra. Sentia-se um cidadão do mundo.
A devoção de Handel era o palco, a sua manifestação artística era a dramática, e o seu principal instrumento de expressão era a voz. Eis as características handelianas: cosmopolitismo, teatro, voz humana (em coro ou isolada). E Luminosidade.
O padre Vivaldi escreveu música maravilhosamente luminosa! Luminosos são os Concertos de Brandenburgo de Bach - a música mais feliz e perfeita que já se escreveu. Mas a luminosidade mais poderosa é a de Handel - aquela que nos arrebata, que nos hipnotiza e nos faz cantar junto.
No mesmo ano de 1685 em que na Alemanha nasciam Bach e Handel, também surgia em Nápoles, a 26 de outubro, o genial Domenico Scarlatti, filho de outro importante músico, o Alessandro. O pai, famosíssimo na Itália, inibiu o talento do filho durante muito tempo. Apesar de receber encomendas de missas para a Basílica de São Pedro em Roma e óperas para Veneza e Nápoles, as obras do compositor filho, principalmente aquelas da juventude, eram apagadas e comuns. A poderosa sombra paterna o perseguiu até o momento da libertação: ao morrer o pai, Domenico nasceu artisticamente. Começou a compor peças para cravo enquanto ensinava a princesa Maria Bárbara, primeiramente em Lisboa, depois Sevilla e Madrid, quando ela se tornou rainha de Espanha. Scarlatti acompanhou-a e, semelhante a Handel em relação a Inglaterra, o compositor napolitano adotou sinceramente a Espanha como segunda pátria. Essa terra ensolarada com a presença musical dos gitanos foi uma revolução em sua arte: somada à sua genialidade, tudo que viu e assimilou do país transformou-se em uma das mais ricas músicas de que se tem notícia. A Obra para Cravo de Domenico Scarlatti é de uma prodigiosa verve rítmica e de uma criatividade melódica tão inovadora que sempre há de nos espantar e maravilhar.
É sempre risível o ato de colocar obras e artistas em pódios como se fossem desportistas em competição, mas em alguns casos não há como evitar. Scarlatti é o maior compositor para cravo de toda a história da música. Nem mesmo a complexa inventividade de Bach consegue suplantá-lo. Não há como escolher as melhores entre as mais de 500 peças para esse instrumento que Scarlatti escreveu. Então não escolha! Ouça-as indiscriminadamente que o lucro será o mesmo, sem deixar de lado a lembrança: elas não foram compostas para serem executadas no piano, mas sim no cravo, onde elas brilham com a natural intenção do compositor. Tenho certeza de que se pudéssemos conhecer todas, perguntaríamos: por que ele não escreveu mais 500 obras assim? Guardada a diferença de gêneros, considero-as, pelo alto nível artístico, tão versáteis e magistrais quanto as cantatas de Bach.
Eu, por exemplo, e isso é ato individual, quando preciso de energia rítmica, dinamismo aos atos do cotidiano ouço Domenico Scarlatti, que me impulsiona e vitaliza. Nos momentos em que sinto vontade de compenetração para mergulhar nos interiores íntimos da fé, da reflexão ao êxtase dos mistérios, para empreender jornadas em busca do interelacionamento Criador e Ser criado, ouço Bach. Quando quero a expansão, o vôo através de livres panoramas sem filosofar sobre o motivo do céu ser azul e verdes serem as relvas, apenas sentir a presença do sublime e natural êxtase, ouço Handel.
Mas, a verdade é que não se resume a arte de tão grandes compositores em tão breves palavras. As analogias são imperfeitas da mesma forma que são inexatas as definições - jamais podem dar total idéia da individualidade de cada um, porque cada autor ou obra tem a sua voz própria e distinta. Além disso, cada ouvinte percebe as nuances de modo diverso.
A música de Johann Sebastian Bach, Georg Friedrich Handel e Giuseppe Domenico Scarlatti sempre há de nos levar a êxtases diferentes e renovados.
Algumas curiosidades históricas para terminar esta breve explanação:
Bach e Handel, os dois maiores gênios da era barroca nascidos na Alemanha, nunca se encontraram, embora tenham nascido com diferença de menos de um mês um do outro (o segundo a 23 de fevereiro, o primeiro a 21 de março), e em cidades cuja distância não ultrapassa os 150 km (Eisenach e Halle).
Bach sentia uma profunda admiração por Handel, que era muito mais famoso devido às óperas constantemente apresentadas em Londres e na Europa. Certa vez, Bach locomoveu-se até Halle para conhecer Handel, pois recebeu a notícia de que o Urso Branco procurava cantores para sua nova ópera, e aproveitava o tempo para visitar a mãe. Mas uma ironia do destino providenciou para que houvesse o desencontro. Ao chegar na cidade, Handel já havia partido de regresso à Inglaterra.
Por outro lado, Handel, quando de suas andanças pela Itália, tornou-se grande amigo de Domenico Scarlatti. Ambos eram jovens de 23 anos com a cabeça imersa em sonhos e ambições musicais. Em 1708, os dois compositores e virtuoses do teclado se conheceram em Veneza e juntos seguiram viagem para Roma. Nem imaginavam que iam registrar perenemente os respectivos nomes nos anais da história da música, e nem podiam imaginar que o destino os levaria para outros lugares, países que adotariam como pátria, onde morreriam distantes dos locais de origem: um, na Inglaterra; o outro, na Espanha. Embora não tivessem se encontrado de novo, a amizade durou a vida toda, através de cartas assíduas, permanecendo a mútua admiração.
Chegará o tempo em que não mais existirão as demarcações territoriais que distinguem uma terra chamada Inglaterra, ou Alemanha, ou Itália, Brasil ou EUA. Outros povos ali habitarão, com outros hábitos e denominações, com sentimento de pátria e idiomas irreconhecivelmente transformados. Porém, seja nos conglomerados urbanos, seja nos cantos mais remotos do planeta, se existirem pessoas capazes de ler e exercitar os escritos musicais deixados pelos mestres, além de outras gentes com sensibilidade e boa vontade o suficiente para soprar na cinza a brasa que a faz viver, então não estará perdida a Grande Música. As artes, entre elas a música, estas sim poderão sobreviver aos mesquinhos propósitos de todas guerras e impérios.
quarta-feira, 29 de abril de 2009
Canção de Outono
Poderá você, algum dia,
quando mirar o rosto no espelho,
ver junto de seus cabelos ao vento,
um pouco de minha face antiga?
um pouco de meu sorriso?
um pouco de minha vasta saudade?
Terá permanecido em suas retinas
um pouco de tudo?
Terá permanecido alguma sílaba
que não foi dispersa pela brisa?
alguma marca
que não foi obscurecida pela névoa?
Terá permanecido em você
um pouco da canção de meus olhos?
Teria permanecido a flutuar
no mar de sua memória
uma parte visível
de meu veleiro de nuvens?
segunda-feira, 27 de abril de 2009
Shakespeare
Há alguns dias, li de um crítico a seguinte frase: Shakespeare é muito popular. Popular? Mas como? Com certeza, de nome ele é, e quanto às obras? Shakespeare é lido? Multidões vão ver as suas peças encenadas em seu habitat natural: o palco de teatro? Não creio.
As comédias de Shakespeare foram muito populares na sua época. Quanto a isso, não há dúvidas. E tal fato vem ocorrendo, mas em proporções menores, desde o período elisabetano, em que o dramaturgo viveu. Ao criar as suas peças neste gênero, utilizou temas e diálogos ao gosto do povo, artifício deveras arguto. Eram mencionados no texto assuntos do dia, chistes e trocadilhos, de fácil compreensão, muito mais para aquela época, a ponto de hoje nos fugir do entendimento o que significavam, se não os buscarmos nas fontes históricas. Shakespeare e o Teatro precisavam sobreviver. E para tanto a casa de espetáculos precisava de gente para assisti-lo. Principalmente as comédias ditas "italianas" são ricas em ingredientes populares, e As Alegres Comadres de Windsor utiliza o folclore que os ingleses conheciam bem de longa data; tinham o Falstaff assim como nós temos Malazarte, embora com características psicológicas diferentes. Tais peças estão entre as melhores do gênero: Os Dois Cavalheiros de Verona, Trabalhos de Amor Perdidos, Como Gostais, Noite de Reis, e a fantástica Sonho de uma Noite de Verão, que não é "italiana", mas é uma das melhores da primeira fase. Deliciosas e maravilhosas são essas comédias destinadas ao povo, o que não significa que eram simplórias. O jogo de palavras é de uma perspicácia sempre admirável, da mesma forma que o são os ditados populares em todos os cantos da terra. Enfim, são peças de conteúdo popular, mas de elaborada estrutura formal. Essas comédias ainda fazem sucesso no mundo todo, devido à habilidade do dramaturgo de recriar situações cômicas, e principalmente pelos inteligentes diálogos, que demonstram o jogo da sedução; do mesmo jeito que eram deliciosos na época, permanecem vívidos e atuais, de compreensão para todos, senão os chistes, ao menos a intenção dos pares que se escondem e aparecem, que açulam e se negam, alternando-se como gelo e fogo, com o objetivo de aguçarem o instinto de erotismo. E isso é entendido muito bem tanto naqueles como nestes tempos.
As comédias de Shakespeare foram muito populares na sua época. Quanto a isso, não há dúvidas. E tal fato vem ocorrendo, mas em proporções menores, desde o período elisabetano, em que o dramaturgo viveu. Ao criar as suas peças neste gênero, utilizou temas e diálogos ao gosto do povo, artifício deveras arguto. Eram mencionados no texto assuntos do dia, chistes e trocadilhos, de fácil compreensão, muito mais para aquela época, a ponto de hoje nos fugir do entendimento o que significavam, se não os buscarmos nas fontes históricas. Shakespeare e o Teatro precisavam sobreviver. E para tanto a casa de espetáculos precisava de gente para assisti-lo. Principalmente as comédias ditas "italianas" são ricas em ingredientes populares, e As Alegres Comadres de Windsor utiliza o folclore que os ingleses conheciam bem de longa data; tinham o Falstaff assim como nós temos Malazarte, embora com características psicológicas diferentes. Tais peças estão entre as melhores do gênero: Os Dois Cavalheiros de Verona, Trabalhos de Amor Perdidos, Como Gostais, Noite de Reis, e a fantástica Sonho de uma Noite de Verão, que não é "italiana", mas é uma das melhores da primeira fase. Deliciosas e maravilhosas são essas comédias destinadas ao povo, o que não significa que eram simplórias. O jogo de palavras é de uma perspicácia sempre admirável, da mesma forma que o são os ditados populares em todos os cantos da terra. Enfim, são peças de conteúdo popular, mas de elaborada estrutura formal. Essas comédias ainda fazem sucesso no mundo todo, devido à habilidade do dramaturgo de recriar situações cômicas, e principalmente pelos inteligentes diálogos, que demonstram o jogo da sedução; do mesmo jeito que eram deliciosos na época, permanecem vívidos e atuais, de compreensão para todos, senão os chistes, ao menos a intenção dos pares que se escondem e aparecem, que açulam e se negam, alternando-se como gelo e fogo, com o objetivo de aguçarem o instinto de erotismo. E isso é entendido muito bem tanto naqueles como nestes tempos.
Não podemos chamar Shakespeare de ‘popular’ só por causa disso. Sabemos que o maior legado desse genial dramaturgo está nas tragédias e na última peça A Tempestade, que não é propriamente uma comédia, mas sim tragicomédia, ou ‘romance’, uma espécie que não se enquadra em gênero dramático algum; é uma fantasia, diríamos. Excetuando alguns intelectuais e homens de leitura, essas tragédias eram assistidas por um povo que não as compreendia; a platéia bocejava e ou ria em trechos onde não havia motivo para riso. Entediados, muitos erguiam-se e deixavam o lugar antes do final. Até hoje essas peças trágicas não se tornaram populares, mas sim popularizadas, mais pelo nome e pela trama do que pelo conteúdo literário. Todos conhecem Romeu e Julieta, a tragédia escrita na mocidade de Shakespeare; quase todos sabem da demência juvenil de Hamlet, da demência senil do Rei Lear, do ciumento Otelo, do invejoso Iago e da ambição desmesurada da esposa de Macbeth, principalmente através de versões cinematográficas. Quantos realmente assistiram essas obras encenadas no palco ou as conhecem pela leitura atenta? Na própria Inglaterra, Shakespeare é lido cada vez menos, os jovens fazem careta ao estudá-lo, da mesma maneira que a maioria aqui torce a boca ao estudar Machado de Assis. Há muita erudição nessas tragédias shakespereanas, muita complexidade psicológica e filosófica no texto frontal e nas entrelinhas; de linguagem difícil são os dramas históricos; a poesia do teatro de Shakespeare é sofisticada e de altíssimo nível.
Pelo fato de Shakespeare ter vindo de família de camponeses e não ter frequentado uma universidade não significa que ele não tenha estudado muito. O nosso Machado de Assis também veio de família humilde e chegou a um grau espantoso de erudição. É evidente que Shakespeare estudou os clássicos, quando jovem, vivendo em Stratford-upon-Avon, e em Londres, enquanto guardava cavalos em frente ao Teatro Real. Seguiu estudioso por toda vida. Foi um autodidata. Durante um bom tempo demonstrou em seus textos falhas e equívocos, provenientes de uma cultura cheia de lacuna, por isso mesmo mais livre e audaciosa, o que geralmente não ocorre a acadêmicos; por conhecerem demais textos já existentes, temem plagiá-los, inibindo a criação espontânea. Não é o caso de Shakespeare, que foi ousado justamente porque conhecia menos de técnica e gramática do que deveria. Errou no início, mas com o tempo se aperfeiçoou, sempre de maneira autodidata, descobrindo a própria linguagem, associando o conhecimento 'acadêmico' com as tentativas pessoais de (re)invenção artística. Foi mais original do que seus contemporâneos. Mas não encontramos falhas iniciais como as dele em Christophe Marlowe, por exemplo, que estudou em Cambridge, e foi grande dramaturgo, contemporâneo, amigo da mesma idade e precursor de Shakespeare. Entretanto, a única peça de Marlowe que continua atual e representada é a tragédia Doutor Fausto, a mesma que depois se tornou um modelo para Goethe.
Tomo como base o percurso dessa evolução a partir da leitura dos próprios textos iniciais do poeta-dramaturgo. Por isso, afirmo: Shakespeare estudou muito os modelos clássicos. A Comédia de Erros, primeira peça cômica do autor, foi escrita a partir de Plauto, o comediógrafo latino. De estrutura nitidamente acadêmica é a primeira trilogia de Henry VI. Acadêmicos são os poemas Vênus e Adônis e A Violação de Lucrécia. Sim, obras do início, mostram-se imperfeitas e sem personalidade definida, mas a partir daí todas as criações de Shakespeare mostram-se evolucionárias, uma transmutação dos modelos greco-romanos, seja na comédia re-criando a divertida e eterna guerra entre os sexos, seja nas tragédias utilizando tudo quanto há de mesquinhez, falhas de caráter e conturbados desvios psicológicos dos personagens: a dúvida existencial, a loucura juvenil e senil, o ciúme, a inveja, a ambição desmedida, ira e arrogância na usurpação do poder. Todas essas tramas refletem o ser humano, de ontem e de sempre; não perdem a atualidade, portanto. As peças de Shakespeare permanecem atuais, assim como as tragédias de Sófocles e Ésquilo, ou as comédias de Plauto e Terêncio.
Chamar Shakespeare de ‘popular’ só porque escreveu comédias populares é o mesmo que chamar assim Beethoven porque compôs o Septeto, tão popular em sua época. Tanto as comédias do dramaturgo como essa peça de câmara são obras de autores de vasto conhecimento que também criaram arte popular de alto nível.
Há também outro caso em pauta: essa confusão toda alegando que Shakespeare talvez nem tenha existido, surgiu a partir de uma teoria inconsistente, em que atribuem ao filósofo Francis Bacon, homem de espantosa erudição, a criação de toda a obra do dramaturgo. São especulações de historiadores incompreensivos. Se fosse verdade, não existiria nos textos iniciais do maior poeta inglês as falhas de técnica e o estilo titubeante, comum aos jovens tanto naquela como em todas as épocas. A evolução de Shakespeare foi de uma ascensão impressionante, porém gradativa, que somente ocorreu no mesmo nível na obra daquele outro gigante: Beethoven. O início da obra de ambos não dá idéia do que viriam a se tornar quando amadureceram as emoções e os pensamentos. Teorizar e duvidar que Shakespeare não é o autor das próprias obras não tem qualquer sentido lógico. Se ao músico Beethoven não é negada a realidade de sua evolução, pelos estudos das partituras, por que é recusada a Shakespeare a autenticidade de sua autoria, se há livre acesso aos escritos originais de suas peças, as mesmas que estão publicadas em todas as línguas, e nelas qualquer estudioso pode notar a escala ascendente de aprendizado?
As pessoas não entendem que um gênio não nasce pronto. Na verdade, é o dom trabalhado que se torna talento; na maioria das vezes, trabalhado com muito suor e dedicação. Em alguns raros casos, esse talento transforma-se em genialidade. A contestação de autoria dessas obras cheira-me à inveja, uma desmedida inveja, proporcional ao gênio que as criou. Ou seja, novamente os Iagos continuam querendo destruir os Otelos triunfantes.
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William Shakespeare
sábado, 25 de abril de 2009
Cícero Acaiaba: Os Quatro Elementos
Nesta oportunidade, quando estamos de luto pela partida do colega e amigo Cícero Acaiaba, atendo alguns pedidos de pessoas que já têm contato com a sua obra e de outras que ainda não a conhecem, e deixo aqui alguns versos escolhidos. Creio que são inéditos em livro. O próprio autor me presenteou com eles, após ler alguns de meus ensaios sobre Alquimia.
Cícero era muito versátil. Escreveu textos para os mais variados gostos, desde o soneto tradicional com métrica e rima até os versos brancos de complexa riqueza rítmica, passando pela simplicidade lírica da poesia amorosa e também pelas obras de circunstância, que foram muitas. Criou e adaptou-se dentro dos estilos romântico ou parnasiano, simbolista e impressionista, experimentando a escrita subconsciente do surrealismo, e até mesmo as tentativas pictóricas do concretismo. No meio de toda essa versatilidade e ecletismo, encontramos temas surpreendentes. Raramente o nível cai, mas sabemos que nem tudo permanecerá. Aquela parte com temática mais hermética e simbólica, que dá margem a interpretações diversas, tem chance de agradar diferentes gerações, devido a atemporalidade de estilo. Quando afirmo que a poesia de Acaiaba é uma das mais consistentes, belas e profundas deste país, refiro-me principalmente à esse um quarto, ou, talvez , metade da totalidade de sua obra.
Não é apenas o elogio caloroso de alguém que com ele conviveu e teve a oportunidade de ler e reler esse lado mais complexo de sua personalidade. É simplesmente a constatação de estar diante de um valor literário atemporal. Se tivesse nascido em países mais dados à cultura, na Europa, por exemplo, Cícero estaria há muito tempo reconhecido internacionalmente, sem favor algum. O que me entristece é a condição de ostracismo que encontra a sua obra no Brasil, há várias décadas. Entretanto, isso não choca ninguém. Ultimamente, neste país, os verdadeiros talentos trabalham nos bastidores, porque o palco está tomado pelos medíocres.
Os quatro sonetos abaixo são uma mostra da melhor parte da poesia de Cícero Acaiaba: a que utiliza metáforas e símbolos. São sonetos “modernos”, porque não utilizam rimas e métricas, apesar de estruturados nos quatorze versos de quatro estrofes. No lugar da rima, a assonância e a aliteração; substituindo a métrica, o ritmo. A dificuldade técnica em construções assim aparenta ser menor, mas não é. A exata musicalidade das palavras compensa a ausência de rimas, e a variedade rítmica é muito mais criativa do que a metrificação matemática do tradicional soneto.
Cícero não era estudioso da ciência esotérica e da alquimia dos antigos, mas conseguiu intuitivamente nesses versos a síntese dos quatro elementos. Até parece que o próprio Paracelso soprou em seus ouvidos conhecimentos milenares. É fantástico! E mesmo assim, não há novidade alguma no fato. Sabemos que os poetas são e sempre foram as antenas da raça humana, captam do Inconsciente Coletivo mistérios insondáveis do passado do mesmo modo que enxergam o futuro nas brumas do tempo presente. Cícero, como grande poeta que foi e é, possuía essa sintonia com o Cosmos, trazendo de dimensões múltiplas o tema e a inspiração para sua criativa obra, mas com o mérito de trabalhar exaustivamente essa expressão.
Basta uma única leitura para sentir os versos abaixo como algo superior, de conteúdo profundo e vasto, exposto através da forma elegante da arte. Como não perceber neles o conteúdo e, sobretudo, a beleza?
Além da intrincada temática de muitos versos de Augusto dos Anjos, não conheço na literatura brasileira nada parecido com esses poemas, que agora deixo aqui para que outros também os apreciem, pois já são patrimônio cultural. Esses versos, que certa vez recebi como presente, não são apenas meus. Precisam pertencer, por natural direito, a todas pessoas sensíveis.
O FOGO
Do contato dos corpos, desse atrito
dos pólos positivo e negativo
brilha a faísca azul, e após a chama
em pétalas de fogo se recorta.
Línguas flamantes que absorvem tudo,
deixando para trás carvão e névoa,
sua misteriosa combustão
vem das células rubras da membrana.
Na semente se hiberna e ela o esconde;
ao simples toque mágico do vento
árvore crepitante reacende.
Com fome de si mesmo alastra rápido
os galhos longos, trêmulos, vorazes,
até ser cinza – congelado fogo.
A ÁGUA
No berço frágil, lento e alvo das nuvens
as camândulas de água dormem calmas.
Esperam só pela maturação
quando vão ser em chuva transformadas.
No céu da tarde a noite acena e flâmula
borda o silêncio com veludo negro.
Depois, desabrochando-se as estrelas,
delas o orvalho suavemente cai.
Na fonte pura espumas de murmúrios
espraiam-se na várzea, e humildes, dóceis,
sorvem os animais o fim do dia.
No coração que amou e está sozinho
o sentimento flui, e chega aos olhos
cristalizado em pérolas de lágrimas.
No berço frágil, lento e alvo das nuvens
as camândulas de água dormem calmas.
Esperam só pela maturação
quando vão ser em chuva transformadas.
No céu da tarde a noite acena e flâmula
borda o silêncio com veludo negro.
Depois, desabrochando-se as estrelas,
delas o orvalho suavemente cai.
Na fonte pura espumas de murmúrios
espraiam-se na várzea, e humildes, dóceis,
sorvem os animais o fim do dia.
No coração que amou e está sozinho
o sentimento flui, e chega aos olhos
cristalizado em pérolas de lágrimas.
A TERRA
Terra de que foi feita a minha carne,
e que depois da morte a ela volta.
Que concebe a semente nas entranhas,
de onde nasce o dourado mar das searas.
Favo marrom e extenso das raízes,
crebra usina da seiva que alimenta.
Ergástulo de gemas preciosas,
real laboratório da alquimia.
Terra seca que a chuva desaltera,
fértil matriz das flores e dos frutos,
do húmus manancial inesgotável.
Na urna secreta corpos decompõem-se;
da miscigenação dos elementos
somente se liberta o azul das almas.
Terra de que foi feita a minha carne,
e que depois da morte a ela volta.
Que concebe a semente nas entranhas,
de onde nasce o dourado mar das searas.
Favo marrom e extenso das raízes,
crebra usina da seiva que alimenta.
Ergástulo de gemas preciosas,
real laboratório da alquimia.
Terra seca que a chuva desaltera,
fértil matriz das flores e dos frutos,
do húmus manancial inesgotável.
Na urna secreta corpos decompõem-se;
da miscigenação dos elementos
somente se liberta o azul das almas.
O AR
Existe sem se ver, para que existam
os seres do planeta. E invisível,
é doce respirá-lo, bom senti-lo,
semeando nos pulmões grãos transparentes.
Esponja tépida que lima o sangue
das impurezas todas, determina
o firme ritmo do coração
marcando nosso tempo neste mundo.
A substância do ar, o oxigênio,
que o vento leva pelo céu, por vastas
florestas, e montanhas, e desertos,
na água do mar, dos rios e dos pântanos,
alimenta também a fauna aquática:
ar – taça diáfana em que flui a vida.
Existe sem se ver, para que existam
os seres do planeta. E invisível,
é doce respirá-lo, bom senti-lo,
semeando nos pulmões grãos transparentes.
Esponja tépida que lima o sangue
das impurezas todas, determina
o firme ritmo do coração
marcando nosso tempo neste mundo.
A substância do ar, o oxigênio,
que o vento leva pelo céu, por vastas
florestas, e montanhas, e desertos,
na água do mar, dos rios e dos pântanos,
alimenta também a fauna aquática:
ar – taça diáfana em que flui a vida.
Cícero Acaiaba (1925-2009)
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Cícero Acaiaba
quinta-feira, 23 de abril de 2009
Cícero Acaiaba. O mestre nos deixa
No último 20 de abril, faleceu Cícero Acaiaba, poeta-maior, com quem tive muita proximidade na década de 90 em Varginha. Mas não pude homenageá-lo pela última vez, pois estava em viagem e só abri meus e-mails dois dias após, quando li a notícia enviada pelo amigo e escritor Aníbal Albuquerque, que há alguns anos escreveu a elogiada tese de mestrado Um Passeio pela Obra de Cícero Acaiaba, Talento Esquecido.
Cícero ficou famoso nas décadas de 50 a 70 como autor de peças para a Rádio Nacional do Rio de Janeiro. Escreveu 130 novelas, que o tornaram campeão de audiência, junto com Janet Clair. Após esse período, foi redator do Caderno Literário da Imprensa Oficial em Belo Horizonte, retornando a Varginha, onde viveu o restante da vida. Escreveu 20 livros de poesia, publicou 10, além de 2 livros de contos, uma peça de teatro, inúmeras crônicas e a autobiografia Meu Pé Direito, em 5 volumes.
A literatura de Cícero engrandeceu o nome de Cambuquira, terra onde nasceu, e destacou Varginha, cidade onde viveu a maior parte de seus 85 anos de vida.
Como já disse várias vezes, Cícero Acaiaba não é apenas um dos maiores sonetistas do Brasil; com sincera convicção afirmo que pelo menos a metade de sua volumosa obra poética está entre o que de mais belo e sublime foi escrito neste país. Nos últimos anos, jamais obteve um maior destaque na mídia, apesar de bastante conhecido entre os literatos, entre os quais Rubem Fonseca, Lygia Fagundes Telles e Caio Porfirio Carneiro, que eram seus amigos particulares e admiradores.
A minha admiração pelo poeta é imensa. Em um período de 10 anos, fui o primeiro a ouvir os seus versos, contos, crônicas e trechos de autobiografia, que o autor lia para mim, com entusiasmo, às vezes pessoalmente, às vezes por telefone. Acompanhei de perto o momento da criação e a voz emocionada do grande poeta interpretando a si mesmo em uma grande quantidade de textos. Aprendi muito com ele. Se fosse para escolher um epíteto que mais pudesse caracterizá-lo seria este: o mestre da metáfora.
Em 1987, o último cartão que Carlos Drummond enviou antes de falecer foi para Cícero Acaiaba, dizendo: "... a sua poesia é a continuação da minha." Apesar de estilos completamente diferentes, a produção poética de Cícero está no mesmo nível da de Drummond, tanto em forma quanto em conteúdo, mas a riqueza de metáforas do varginhense é muito superior.
A obra poética mais conhecida de Cícero Acaiaba é Poemas Escritos na Névoa (1982-88). É excelente, mas não é tudo. Há uma outra, que há mais de uma década está entre meus livros de cabeceira. Trata-se de A Última Elegia e 30 Noturnos de Minas (1987), que considero um dos mais ricos e fascinantes livros de poesia já escritos em todas as literaturas de todos os tempos. Curioso é que ele, grande sonetista, escreveu sua maior obra em versos brancos, em um estilo meio impressionista, meio surrealista, rico em imagens e musicalidade. Nesta obra, é muito difícil de escolher os melhores poemas, de separá-los para uma antologia; são todos de uma beleza inesquecível. Penso que nunca o tema da morte foi tratado com tanta sublimação.
Agora, com a morte, tema sobre o qual tanto escreveu, Cícero Acaiaba torna-se também encantado. A mídia, que o rejeitou, talvez corra atrás de sua obra, que está dispersa em sebos ou mofando em prateleiras de leitores pouco entusiastas. A novela que ele escreveu para a Rede Globo, e esperou com tanta ilusão ver na telinha, o que nunca aconteceu, após tantas desculpas, talvez agora seja negociada. É a festança que tem direito aqueles que não estão mais entre os vivos, podendo o ausente ser chamado até de gênio, sem prejudicar a inveja alheia. Talentoso, porém morto. Mas tudo isso já não importa mais. Talvez a posteridade se encarregue de criticar ou elogiar, talvez providencie e teça louros à sua memória; talvez, não. Porém Cícero Acaiaba não precisa mais de se preocupar com reconhecimento algum.
Aqui fica a minha homenagem, através de seu próprio poema que dá título à obra que continuarei amando e admirando, profundamente: A Última Elegia e 30 Noturnos de Minas.
Obrigado, Cícero, pela riqueza, pelas pérolas de arte, pelos momentos espirituais de comovente beleza que nos deixou!
A ÚLTIMA ELEGIA
1
Eu não estarei aqui amanhã.
Haverá mais um ausente nesta mesa,
e na parede um retrato instantâneo.
No quarto, os móveis nos mesmos lugares,
as janelas com as cortinas lisas,
e uma cama para sempre arrumada
na esperança do hóspede.
Mas eu não estarei aqui amanhã,
nem depois nem nunca.
Talvez na casa ressoem meus passos
um certo tempo,
talvez se escute altas horas da noite
a respiração pausada,
as páginas velhas de um livro
ou o embaçado monólogo de insônia
que o relógio da sala acompanha.
Tudo irá desaparecer aos poucos,
o hábito voltará a tecer a rotina,
e aqui será de novo uma casa pacificada.
2
Sinto a antecipada amargura das coisas findas,
estranha saudade do quarto estreito, da estante de livros,
da escrivaninha onde latejava a semente dos poemas,
da janela que era a viagem para o mistério da noite.
Sinto a presença lúcida do espelho,
o jogo brusco de imagens em seu túnel de segredos,
sinto medo
de não reconhecer meu rosto na turva superfície.
E sinto um gosto,
uma longínqua e brumosa tarde,
a chuva garoando lenta ofuscando a cidade,
sinto um gosto de infância na tarde que chove.
Sinto depois os retratos
na parede do corredor penumbra,
um diante do outro como vagões de um trem
a caminho do tempo.
Sinto as vozes na sala,
mas distantes apagadas,
vozes nascidas dentro de um prisma.
Sinto passos na varanda,
cadeiras de vime modornando à sesta,
sinto a festa
de aniversários com a alegria cintilando nas taças,
sinto o frouxo silêncio
escorrido de lua nas vidraças, sinto
de súbito a impossibilidade de juntar minhas sombras,
meus pertences,
vingado por completo deste mundo, ilhado neste reino,
porque sou o esvaído, o inefável,
e porque hoje é sábado
e eu não serei amanhã o domingo.
3
Quem se lembrará de mim quando o relógio parar
entre a noite e a madrugada?
Talvez ainda desarmem o gesto
das mãos caladas,
modelem o corpo com flores vivas
para compor no pensamento
a última elegia.
Quem olhará na direção do meu dia
sabendo que, afinal, quebrou-se a âncora
e estou perfeito?
Qual deles plantará sobre meu peito
um lençol de relva,
qual dentre todos ficará sozinho
até a consumação dos séculos?
O céu é um deserto de nuvens
às vezes minando estrelas.
Morre o vento no vale das estátuas
e o cipreste vela.
4
Confinado no meu reino, entrelaçado de raízes,
no tépido sabor do húmus, maduro de sementes,
o castanho úmido da terra entre os cabelos,
ouvirei no vento as vozes passeando
ao rés do chão?
Quem será capaz de velar, insone, minha ausência?
Quem há de me chamar com o clarim
do silêncio?
Quem virá bater na porta deste cofre
de mármore?
Eu não estarei aqui amanhã.
Haverá mais um ausente nesta mesa,
e na parede um retrato instantâneo.
No quarto, os móveis nos mesmos lugares,
as janelas com as cortinas lisas,
e uma cama para sempre arrumada
na esperança do hóspede.
Mas eu não estarei aqui amanhã,
nem depois nem nunca.
Talvez na casa ressoem meus passos
um certo tempo,
talvez se escute altas horas da noite
a respiração pausada,
as páginas velhas de um livro
ou o embaçado monólogo de insônia
que o relógio da sala acompanha.
Tudo irá desaparecer aos poucos,
o hábito voltará a tecer a rotina,
e aqui será de novo uma casa pacificada.
2
Sinto a antecipada amargura das coisas findas,
estranha saudade do quarto estreito, da estante de livros,
da escrivaninha onde latejava a semente dos poemas,
da janela que era a viagem para o mistério da noite.
Sinto a presença lúcida do espelho,
o jogo brusco de imagens em seu túnel de segredos,
sinto medo
de não reconhecer meu rosto na turva superfície.
E sinto um gosto,
uma longínqua e brumosa tarde,
a chuva garoando lenta ofuscando a cidade,
sinto um gosto de infância na tarde que chove.
Sinto depois os retratos
na parede do corredor penumbra,
um diante do outro como vagões de um trem
a caminho do tempo.
Sinto as vozes na sala,
mas distantes apagadas,
vozes nascidas dentro de um prisma.
Sinto passos na varanda,
cadeiras de vime modornando à sesta,
sinto a festa
de aniversários com a alegria cintilando nas taças,
sinto o frouxo silêncio
escorrido de lua nas vidraças, sinto
de súbito a impossibilidade de juntar minhas sombras,
meus pertences,
vingado por completo deste mundo, ilhado neste reino,
porque sou o esvaído, o inefável,
e porque hoje é sábado
e eu não serei amanhã o domingo.
3
Quem se lembrará de mim quando o relógio parar
entre a noite e a madrugada?
Talvez ainda desarmem o gesto
das mãos caladas,
modelem o corpo com flores vivas
para compor no pensamento
a última elegia.
Quem olhará na direção do meu dia
sabendo que, afinal, quebrou-se a âncora
e estou perfeito?
Qual deles plantará sobre meu peito
um lençol de relva,
qual dentre todos ficará sozinho
até a consumação dos séculos?
O céu é um deserto de nuvens
às vezes minando estrelas.
Morre o vento no vale das estátuas
e o cipreste vela.
4
Confinado no meu reino, entrelaçado de raízes,
no tépido sabor do húmus, maduro de sementes,
o castanho úmido da terra entre os cabelos,
ouvirei no vento as vozes passeando
ao rés do chão?
Quem será capaz de velar, insone, minha ausência?
Quem há de me chamar com o clarim
do silêncio?
Quem virá bater na porta deste cofre
de mármore?
Cícero Acaiaba (1925-2009)
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segunda-feira, 20 de abril de 2009
A Bacia
Os magos chegaram em silêncio. Não disseram uma só palavra. Vieram com suas túnicas pretas e na cabeça o chapéu cônico. Quatro deles seguraram os meus pés, um outro apertou o meu braço esquerdo, e mais um outro segurou o meu braço direito. O último deles agarrou firmemente a minha cabeça e o meu queixo. Nem precisava apertar tão forte, pois eu não pretendia mesmo gritar. Os magos foram carregando-me pela casa, em direção à porta dos fundos. Atravessaram a varanda e me levaram para o mato. O mato era muito longe. Tão distante de minha casa que a viagem durava muitos dias. Um pouco pelo ar, carregado nas costas dos magos, um pouco pela terra, arrastado por eles. Cheguei a um lugar ermo e solitário, desconhecido para mim. Fui solto no chão, como se solta um saco de batatas, desmerecidamente. Depois, eles sumiram. Permaneci no mesmo lugar. Nem me atrevi a tentar uma fuga. Os magos sabem de tudo. Eles sabem de coisas ocultas, sabem de tudo o que se passa no céu e na terra. Podem ler os pensamentos das pessoas. Por isso fiquei ali mesmo, deitado na grama, brincando com um raminho entre os dentes. Logo eles vieram. Reuniram-se à minha volta e declararam-me culpado. Um deles, o mais velho, leu a condenação em voz alta. E então, conduziram-me para um vale. Lá, eu fui jogado dentro de uma enorme e velha bacia oval. Dentro dela, boiavam centenas de fetos vivos e muitos embriões.
Foi assim que aconteceu...
Foi assim que aconteceu...
sábado, 18 de abril de 2009
Cântico ao Amigo
Como se diamante fosse,
na palma da mão entre os cinco dedos,
devemos guardar o amigo sincero,
protegê-lo das intempéries, cuidar dele
como a mais divina das dádivas.
Amigo não é apenas o moinho
que colhe as nossas tempestades,
não é aquele que tem ombros constantes só
para suportarem o peso de nossas dúvidas,
quando o crepúsculo tinge-se de rubro.
Mas também não é aquele que se lembra só
quando há banquetes e honrarias
junto à multidão pelos méritos efêmeros.
Amigo é aquele que acalenta nossas lágrimas
e também o que sorri com nossas conquistas,
nas horas em que ainda é possível sorrir.
Amigo, diga a ele, tenho-te aqui junto comigo,
velado por este grato coração, porque sei:
tu és a bússola e o abrigo sereno,
tu és as ramas que surgem após os vendavais,
tu és o porto e os velames da nau que chega,
tu és a voz e o silêncio da voz.
Estou aqui para te dizer: que sim,
tu resplandeces pelo caminho,
soerguendo a lanterna da compreensão,
muito além do lodaçal do mundo,
onde se alastram a mentira e a hipocrisia.
Tendo-te comigo, tenho a riqueza do tempo.
E tu, que ainda te alheias pelas tarefas diárias,
não te esqueças de que, em algum lugar,
o teu amigo, após a carta enviada,
contempla o horizonte, esperando notícias tuas,
como os mineiros soterrados no túnel
oram pela mão que liberta,
como na choupana o esquecido ancião
anseia pelo aceno da filha distante,
tão iguais a lírios e jasmins
que aguardam na brisa o pólen.
Dá ao amigo o riso e o amparo,
o descanso e a prece, o agradecimento
e as tuas melhores horas.
Fiquemos atentos, enquanto for tempo:
De nada adianta darmos valor às pessoas
depois de, dolorosa e irrecuperavelmente,
perdidas de nós. Pois quem perde um amigo,
perde dentro de si uma parte de si mesmo.
"Cuidemos de nossos jardins..."
- escreveu Voltaire em Candide.
Cuidemos, portanto, de nossos jardins...!
enquanto pulsa ainda pelas sendas do mundo,
no meio de nós, o coração do amigo.
quinta-feira, 16 de abril de 2009
Miguel Torga: Vicente
Miguel Torga é um dos maiores poetas portugueses do século XX, ao lado de Fernando Pessoa, Mário de Sá-Carneiro e José Régio. Além de grande poeta, Torga continua na firme posição de um dos maiores contistas de toda a história literária lusitana.
Adolfo Correia da Rocha, nome verdadeiro de Miguel Torga, nasceu em São Martinho da Anta, Trás-os-Montes, em 12 de agosto de 1907, e faleceu em Coimbra, em 17 de janeiro de 1995. Aos 13 anos, instalou-se na fazenda de um tio em Minas Gerais, Brasil. De volta a Portugal, aos 18 anos, estudou medicina em Coimbra e formou-se em 1933. Colaborou na revista Presença e esteve à frente de duas outras, Sinal e Manifesto.
Autor de uma obra poética vasta e profunda, encontrou no campo e nas aldeias portuguesas seu universo de poesia e de humanidade. Fez de sua pequena cidade uma província mítica, repleta de símbolos bíblicos.
Destacou-se também como biógrafo de si mesmo, através de uma linguagem exata e criativa, como se nota na série dos "Diários", em prosa e versos; e também no romance autobiográfico "A Criação do Mundo", de suma importância para compreensão do pensamento e do estilo do autor. O romance foi escrito no período de 1937 a 1981, publicado inicialmente em 5 livros separados e, em 1985, integralmente, destacando "O Quarto Dia da Criação do Mundo", cujas críticas ao regime franquista espanhol levaram-no à prisão em 1940.
“Vicente” é um de seus contos mais fascinantes, incluído na coletânea “Bichos”.
Vicente
Naquela tarde, à hora em que o céu se mostrava mais duro e mais sinistro, Vicente abriu as asas negras e partiu. Quarenta dias eram já decorridos desde que, integrado na leva dos escolhidos, dera entrada na Arca. Mas desde o primeiro instante que todos viram que no seu espírito não havia paz. Calado e carrancudo, andava de cá para lá numa agitação contínua, como se aquele grande navio onde o Senhor guardara a vida fosse um ultraje à criação. Em semelhante balbúrdia - lobos e cordeiros irmanados pelo mesmo destino - , apenas a sua figura negra e seca se mantinha inconformada com o procedimento de Deus. Numa indignação silenciosa, perguntava: - a que propósito estavam os animais metidos na confusa questão da torre de Babel? Que tinham que ver os bichos com as fornicações dos homens, que o Criador queria punir? Justos ou injustos, os altos desígnios que determinavam aquele dilúvio batiam de encontro a um sentimento fundo, de irreprimível repulsa. E, quanto mais inexorável se mostrava a prepotência, mais crescia a revolta de Vicente.
Quarenta dias, porém, a carne fraca o prendeu ali. Nem mesmo ele poderia dizer como descera do Líbano para o cais de embarque e, depois, na Arca, por tanto tempo recebera das mãos servis de Noé a ração quotidiana. Mas pudera vencer-se. Conseguira, enfim, superar o instinto da própria conservação, e abrir as asas de encontro à imensidão terrível do mar.
A insólita partida foi presenciada por grandes e pequenos num respeito calado e contido. Pasmados e deslumbrados, viram-no, temerário, de peito aberto, atravessar o primeiro muro de fogo com que Deus lhe quis impedir a fuga, sumir-se ao longe nos confins do espaço. Mas ninguém disse nada. O seu gesto foi naquele momento o símbolo da universal libertação. A consciência em protesto activo contra o arbítrio que dividia os seres em leitos e condenados.
Mas ainda no íntimo de todos aquele sabor de resgate, e já do alto, larga como um trovão, penetrante como um raio, terrível, a voz de Deus:
-Noé, onde está meu servo Vicente?
Bípedes e quadrúpedes ficaram petrificados. Sobre o tombadilho varrido de ilusões, desceu, pesada, uma mortalha de silêncio.
Novamente o Senhor paralisara as consciências e o instinto, e reduzia a uma pura passividade vegetativa o resíduo da matéria palpitante.
Noé, porém, era homem. E, como tal, aprestou as armas de defesa.
-Deve andar por aí... Vicente! Vicente! Que é do Vicente?!...
Nada.
-Vicente!... Ninguém o viu? Procurem-no!
Nem uma resposta. A criação inteira parecia muda.
-Vicente! Vicente! Em que sítio é que ele se meteu?
-Até que alguém, compadecido da mísera pequenez daquela natureza, pôs fim à comédia.
-Vicente fugiu...
-Fugiu?! Fugiu como?
-Fugiu... Voou...
Bagadas de suor frio alagaram as têmporas do desgraçado. De repente, bambearam-lhe as pernas e caiu redondo no chão.
Na luz pardacenta do céu houve um eclipse momentâneo. Pelas mãos invisíveis de quem comandava as fúrias, como que passou, rápido, um estremecimento de hesitação.
Mas a divina autoridade não podia continuar assim, indecisa, titubeante, à mercê da primeira subversão. O instante de perplexidade durou apenas um instante. Porque logo a voz de Deus ribombou de novo pelo céu imenso, numa severidade tonitruante.
-Noé, onde está o meu servo Vicente?
Acordado do desmaio poltrão, trêmulo e confuso, Noé tentou justificar-se.
-Senhor, o teu servo Vicente evadiu-se. A mim não me pesa a consciência de o ter ofendido, ou de lhe haver negado a ração devida. Ninguém o maltratou aqui. Foi a sua pura insubmissão que o levou... Mas perdoa-lhe, e perdoa-me também a mim... E salva-o, que, como tu mandaste, só o guardei a ele...
-Noé!...Noé!...
E a palavra de Deus, medonha, toou de novo pelo deserto infinito do firmamento. Depois, seguiu-se um silêncio mais terrível ainda. E, no vácuo em que tudo parecia mergulhado, ouvia-se, infantil, o choro desesperado do Patriarca, que tinha então seiscentos anos de idade.
Entretanto, suavemente, a Arca ia virando de rumo. E a seguir, como que guiada por um piloto encoberto, como que movida por uma força misteriosa, apressada e firme - ela que até ali vogara indecisa e morosa ao sabor das ondas - , dirigiu-se para o sítio onde quarenta dias antes eram os montes da Arménia.
Na consciência de todos a mesma angústia e a mesma interrogação. A que represálias recorreria agora o Senhor? Qual seria o fim daquela rebelião?
Horas e horas a Arca navegou assim, carregada de incertezas e terror. Iria Deus obrigar o corvo a regressar à barca? Iria sacrificá-lo, pura e simplesmente, para exemplo? Ou que iria fazer? E teria Vicente resistido à fúria do vendaval, à escuridão da noite e ao dilúvio sem fim? E, se vencera tudo, a que paragens arribara? Em que sítio do universo havia ainda um retalho de esperança?
Ninguém dava resposta às próprias perguntas. Os olhos cravaram-se na distância, os corações apertavam-se num sentimento de revolta impotente, e o tempo passava.
Subitamente, um lince de visão mais penetrante viu terra. A palavra, gritada a medo, por parecer ou miragem ou blasfémia, correu a Arca de lés a lés como um perfume. E toda aquela fauna desiludida e humilhada subiu acima, ao convés, no alvoroço grato e alentador de haver ainda chão firme neste pobre universo.
Terra! Desgraçadamente, a doçura do nome trazia em si um travor. Terra... Sim, existia ainda o ventre quente da mãe. Mas o filho? Mas Vicente, o legítimo fruto daquele seio?
Vicente, porém, vivia. À medida que a barca se aproximava, foi-se clarificando na lonjura a sua presença esguia, recortada no horizonte, linha severa que limitava um corpo, e era ao mesmo tempo um perfil de vontade.
Chegara! Conseguira vencer! E todos sentiram na alma a paz da humilhação vingada. Simplesmente, as águas cresciam sempre, e o pequeno outeiro, de segundo a segundo, ia diminuindo. Terra! Mas uma porção de tal modo exígua, que até os mais confiados a fixavam ansiosamente, como a defendê-la da voragem. A defendê-la e a defender Vicente, cuja sorte se ligara inteiramente ao telúrico destino. Ah, mas estavam "rotas as fontes do grande abismo e abertas as cataratas do céu" ! E homens e animais começaram a desesperar diante daquele submergir irremediável do último reduto da existência activa. Não, ninguém podia lutar contra a determinação de Deus. Era impossível resistir ao ímpeto dos elementos, comandados pela sua implacável tirania. Transida, a turba sem fé fitava o reduzido cume e o corvo pousado em cima. Palmo a palmo, o cabeço fora devorado. Restava dele apenas o topo, sobre o qual, negro, sereno, único representante do que era raiz plantada no seu justo meio, impávido, permanecia Vicente. Como um espectador impessoal, seguia a Arca que vinha subindo com a maré. Escolhera a liberdade, e aceitara desde esse momento todas as conseqüências da opção. Olhava a barca, sim, mas para encarar de frente a degradação que recusara.
Noé e o resto dos animais assistiam mudos àquele duelo entre Vicente e Deus. E no espírito claro ou brumoso de cada um, este dilema, apenas: ou se salvava o pedestal que sustinha Vicente, e o Senhor preservava a grandeza do instante genesíaco - a total autonomia da criatura em relação ao criador -, ou, submerso o ponto de apoio, morria Vicente, e o seu aniquilamento invalidava essa hora suprema. A significação da vida ligara-se indissoluvelmente ao acto de insubordinação. Porque ninguém mais dentro da Arca se sentia vivo. Sangue, respiração, seiva de seiva, era aquele corvo negro, molhado da cabeça aos pés, que, calma e obstinadamente, pousado na derradeira possibilidade de sobrevivência natural, desafiava a omnipotência.
Três vezes uma onda alta, num arranco de fim, lambeu as garras do corvo, mas três vezes recuou. A cada vaga, o coração frágil da Arca, dependente do coração resoluto de Vicente, estremeceu de terror. A morte temia a morte.
Mas em breve se tornou evidente que o Senhor ia ceder. Que nada podia contra àquela vontade inabalável de ser livre.
Que, para salvar a sua própria obra, fechava, melancolicamente, as comportas do céu.
Miguel Torga (1907-1995)
segunda-feira, 13 de abril de 2009
Cântico ao Tempo

Oh, tempo que flui eternamente!
Colibri que farfalha na efemeridade do pólen.
Garça que transcende a pureza do branco.
Galáxias que adormecem e depois nascem
segmentadas no coração do átomo.
E corredores - túneis imensuráveis de Trevas!
E nebulosas – caramujos retorcidos em Luz.
Pulmão de Brahma! Olhos fechados de Vishnu!
Shiva das intempéries e das renovações !
Oh, dia que flui eternamente!
Oh, tempo, tempo
que é cauda e narina, que é ramo e semente,
que é riso e suspiro, que é ponto e círculo -
absolve-me em tua imparcialidade de fronteiras!
absorve-me em tua ausência de cristais!
Colibri que farfalha na efemeridade do pólen.
Garça que transcende a pureza do branco.
Galáxias que adormecem e depois nascem
segmentadas no coração do átomo.
E corredores - túneis imensuráveis de Trevas!
E nebulosas – caramujos retorcidos em Luz.
Pulmão de Brahma! Olhos fechados de Vishnu!
Shiva das intempéries e das renovações !
Oh, dia que flui eternamente!
Oh, tempo, tempo
que é cauda e narina, que é ramo e semente,
que é riso e suspiro, que é ponto e círculo -
absolve-me em tua imparcialidade de fronteiras!
absorve-me em tua ausência de cristais!
(Constelação de Órion)
Image credit & copyright:
Martin Mutti, Astronomical Image Data Archive
Martin Mutti, Astronomical Image Data Archive
quarta-feira, 8 de abril de 2009
O Tempo não é Tridimensional
É preciso viver intensamente
o presente como se presente fosse,
pois é sabedoria segurar entre os dedos
o momento único, mas sempre com um olhar
no passado e o outro olhar no futuro.
O passado nunca passa. Continua em nós.
Somos o resultado dos dias que se foram.
Porém a parte decadente do que passou
está nas frustrações mantidas e revividas.
Edificante mesmo só a experiência adquirida.
O futuro não está totalmente no porvir.
A cada momento germina-se no presente
o futuro que ainda não aconteceu. A noite
é a semente do dia. E o dia guarda a semente
da noite. Na morte já existe a gestação da vida.
Ato precipitado é destruir o futuro
pela inconsciência do passado.
Agir como se não houvesse amanhã
é o mesmo que negar a verdade
do plantio que ontem ocorreu em nós.
Agir precipitadamente é remexer nos nós
do tempo, desatá-los antes da liberação,
é mastigar a semente como se fruto fosse.
É como lançar grãos em terras frias de geada.
Da esterilidade boas colheitas não podem surgir.
No entanto, burlar a verdade do tempo
é cegar-se ao giro da ampulheta que se volta
inúmeras vezes mas nunca de maneira igual.
É preciso lançar fora as espigas velhas do ontem,
e amar profundamente na semente o reinício da vida.
segunda-feira, 6 de abril de 2009
Hermann Hesse: Caminhada
Muitos escritores sofreram com a guerra. Hermann Hesse foi um deles. Em 1914 foi acusado de traidor da pátria porque escreveu um artigo pedindo aos concidadãos que abraçassem a paz. Foi um ato ingênuo, principalmente em um momento daqueles, quando todos os alemães estavam embuídos de glória nacional, orgulhosos pelo revide à ofensiva política que sofrera a nação. Por esse ato pacífico Hesse perdeu os amigos e o respeito da maioria dos leitores. Como se não bastasse, a esposa enlouqueceu e ele próprio enfrentou grave crise nervosa. Então, extremamente pobre e sem qualquer recurso para a sobrevivência em um país assolado pela depressão e inflação do pós-guerra, preferiu se exilar. Escolheu o sul da Suiça. Instalou-se na aldeia de Montagnola, próxima a Lugano. Naqueles anos teve momentos de fome, e na maioria das vezes alimentava-se apenas de macarrão branco. Depois, no período da segunda guerra, já cidadão suiço, acolheu judeus e vítimas da perseguição nazista. Por isso suas obras foram proibidas e queimadas em praça pública pelos adeptos de Hitler. De forma que, mesmo distante, continuou sofrendo agrúrias por problemas políticos.Assim que passou toda a loucura bélica, e a sua antiga pátria havia perdido a guerra pela segunda vez, Hesse foi cumulado de condecorações, confessavam que ele estivera certo desde a primeira vez por defender a paz. Em 1946, a Alemanha ofereceu-lhe a premiação máxima a um literato: o Prêmio Goethe. No mesmo ano a Suécia concedeu-lhe o Prêmio Nobel. Mas Hermann Hesse já estava sábio o suficiente para não sentir grande entusiasmo diante de todas essas honrarias. Já havia aprendido muito sobre a insensatez humana, que hoje cospe e apedreja, amanhã abraça e estende louros. Aceitou os dois importantes prêmios somente pelo respeito que tinha pela literatura alemã, mas no fundo do íntimo compreendia que a única Pátria que havia conquistado era o Reino atemporal do Espírito, que existe na alma somente daqueles que se encontram consigo mesmo.
Em 1919, na viagem de despedida, deixando para trás as terras suiças de cultura alemã, rumo ao cantão do sul próximo à Itália, Hermann Hesse escreveu em seu caderno notas descritivas das paisagens e os pensamentos que lhe surgiam no percurso a pé pelos caminhos. Esse pequeno livro, publicado em 1920, com o título de Wanderung (Caminhada), é uma das obras de Hesse que mais amo. Dela retirei os três textos abaixo. São palavras sinceras e comoventes, ainda mais se lembrarmos que foram escritas por um homem que havia perdido de uma única vez a esposa, os amigos, o lar e a pátria. E nem por isso perdeu a fé.
O Desfiladeiro
O vento sopra nesse pequeno e corajoso caminho. Já não existem árvores ou arbustos, só o musgo e a rocha crescem aqui. Por aqui ninguém tem nada para procurar, ninguém tem propriedade. Aqui no alto, o camponês não tem nem feno, nem madeira. É o longínquo que atrai, a saudade que queima, foi ela que entre as rochas formou esse pequeno caminho, entre pântano e neve, levando para outros vales, outras casas, outras línguas e outra gente.
Bem no alto do desfiladeiro, eu paro. O caminho aqui desce para os dois lados, a água corre para ambos os lados e o que aqui em cima se une, palmo a palmo, leva seu rumo para dois mundos. Essa pequena poça, aqui junto do meu pé, corre para o norte. Sua água desce a longínquos, frios oceanos, mas logo ali, esse pequeno resto de neve vai pingando para o sul. Sua água, descendo pelas costas da Ligúria ou do Adriático, chega até o mar que se delimita com a África. Mas, na verdade todas as águas do mundo se encontram e é no úmido vôo de uma nuvem que o Ártico e o Nilo se fundem. A bela e antiga parábola santifica meu instante. Também a nós, viajantes, qualquer caminho conduz para casa.
Meu olhar ainda tem opção: tanto o norte, como o sul, lhe pertencem, a cinquenta passos, porém, só me restará aberto o sul. Como respira cheio de segredos, com seus vales azulados! Como é forte o bater do meu coração a ele me entregando! É o prenúncio de lagos e de jardins, e o olor de vinho e amêndoa sobe até aqui em cima. Antigo e santo mito de saudade e peregrinação a Roma!
Recordações da juventude ressoam em mim como o repicar de sinos em vales distantes: o extâse da primeira viagem ao sul, o inspirar inebriante do generoso ar dos jardins às margens dos lagos azulados, ao entardecer espreitar até a longínqua pátria através dos picos nevados das montanhas que empalideciam! A primeira prece defronte às santas colunas da antiguidade! A primeira e fabulosa visão do mar espumante batendo-se contra as rochas escuras!
O êxtase já não sinto, nem mais o desejo de mostrar a todos os meus entes queridos esse maravilhoso desconhecido e toda minha felicidade. Em meu coração não habita mais a primavera, já é verão. É diferente o tom da saudação do estranho que chega até a mim, em meu peito o seu eco ressoa bem mais baixinho. Já não jogo o meu chapéu para o alto, nem canto nenhuma canção, mas sorrio, não só com a boca, mas com a alma, com os olhos, com todo o meu ser e ofereço para essa terra, cujo perfume sobe até mim, sentimentos bem diversos dos de outrora, mais sensíveis, mais perspicazes e experientes, porém mais calmos e mais agradecidos. Hoje, tudo isso me pertence muito mais do que antes, chega a mim com muito maior riqueza e colorido. A minha saudade já não falsifica as cores do desconhecido, meus olhos se satisfazem com aquilo que ali está, pois já aprenderam a ver e o mundo ficou mais belo do que outrora.
Sim, o mundo está mais belo e eu estou só, mas não sofro em ser só. Não desejo nada diferente. Estou disposto a deixar-me assar pelo sol, estou ansioso em amadurecer. Estou pronto para a morte, pronto para renascer, pois o mundo ficou mais belo.
O Lago, a Árvore e a Montanha
Era uma vez um lago azul sobre o qual, céu azul adentro, erguia-se verde e amarela uma árvore na primavera e além das ondulantes montanhas o céu descansava quieto.
Um viajante estava sentado ao pé da árvore e pétalas amarelas caíam-lhe sobre os ombros. Ele estava cansado e fechara seus olhos, a árvore amarela cobria-o de sonhos.
O viajante retornara à infância, era de novo um menino que ouvia, atrás de sua casa, a mãe a cantar e fitava uma borboleta amarela esvoaçar docemente, era de um amarelo alegre contra aquele céu azul. Então, começou a correr atrás dela pelos prados, pelo riacho até o lago onde em seu vôo alto passou por sobre a límpida água. Aí o menino voou atrás dela com um flutuar leve, fácil, novo e feliz dentro daquele espaço azul. O sol brilhava em suas asas e ele sobre o lago, acima das montanhas continuava a voar atrás do amarelo. Lá no alto, pousado numa nuvem, estava Deus rodeado pelos anjos cantando. Um dos anjos lembrava muito sua mãe. Ele segurava um regador, inclinando-o sobre um canteiro de tulipas, para que todos pudessem beber. Foi para junto dele que o menino-anjo voou, abraçando-o.
O viajante esfregara os olhos fechando-os novamente. O menino-anjo trazia uma tulipa vermelha e prendeu-a sobre o busto da mãe, uma outra colocou em seus cabelos, então voaram todos, anjos, borboletas, animais, pássaros e peixes que lá estavam. Quem o menino chamasse para junto de si vinha voando até suas mãos e ficava pertencendo-lhe, deixando acarinhar-se, interrogar e ser mandado embora.
O viajante despertara e pensava nos anjos. Ouvia o leve murmúrio das folhas da árvore e a calma e quieta vida subir e descer em douradas correntes pelo seu caule. A montanha o fitava e lá coberto num manto marrom, debruçara-se Deus e cantava. Suas canções era possível ouvir por todo lado cristalino do algo, eram singelas, e em surdina misturavam-se ao leve som do correr da seiva da árvore, ao sangue que corria em seu coração, às correntes douradas que o sonho fazia correr pelo seu ser.
Então ele mesmo principiara a cantar, devagar, longamente. Sua canção não tinha arte, era como o próprio ar, como o bater de ondas, soava como o zumbido de uma abelha, mas era a resposta para o Deus distante que cantava, para a seiva que corria pela árvore e para a canção que corria em suas veias.
Longamente, o viajante ficou assim a cantarolar, como o som da campânula ao vento da primavera e do gafanhoto entoando sua música na grama. Talvez tenha cantado toda uma hora ou todo um ano. Cantava divinamente, com singeleza. Cantava a borboleta, a mãe, a tulipa, o lago, seu sangue e a seiva da árvore.
Quando, distraído, seguiu seu caminho pela quente terra adentro, aos poucos foi se lembrando de sua meta, de seu nome, que era uma terça-feira e que lá, do outro lado, o trem corria para Milão. Agora ele só ouvia ainda um cantar que chegava de longe, do outro lado do lago, era Deus que em seu manto marrom continuava a cantar, mas pouco a pouco o som foi-se perdendo do seu alcance.
Casa Vermelha
Casa vermelha! De seu pequeno jardim e vinhedo exala todo o sul dos Alpes. Muitas vezes já passei por ti e fizeste tremer essa ânsia de andarilho em meu ser fazendo que se lembrasse do seu oposto. Uma vez mais brinco com as velhas melodias: ter uma pátria, uma pequena casa num verde jardim, silêncio ao redor e mais além a pequena aldeia. No quartinho a minha cama olharia para o amanhecer, a minha própria cama, para o sul olharia a minha mesa e lá eu penduraria a pequena e antiga Virgem Santa que comprara em Brescia em outra viagem.
Como o dia que fica entre a noite e o amanhecer, assim entre o sonho por uma pátria e essa ânsia de viajante, transcorre a minha vida. Talvez um dia eu chegue até o ponto quando a viagem e a distância se encontrarão em minha alma e então levarei em mim as suas imagens sem ter que realizá-las. Também talvez chegue o dia em que possuirei pátria em mim, então não mais terei que namorar casinhas vermelhas e jardins. Ter uma pátria dentro de si mesmo!
Como seria então outra a vida! Ela teria um epicentro da qual emanariam todas as forças.
Dessa forma, porém, a minha vida não possui epicentro algum, esvoaça trêmula entre diversos pólos e contrapolos. Saudade de um lar aqui, saudade de estar a caminho lá, uma ânsia por solidão e retiro aqui, ânsia por amor e comunidade lá! Já fui colecionador de livros e quadros e já me desfiz de tudo. Já cultivei o vício e a volúpia que me levou à castidade e ao ascetismo, cônscio venerei a vida como matéria o que me fez descobri-la só como uma função e poder amá-la.
Bem, mas minha função não é transformar-me, isso é a função do milagre, quem porém o procurar, tentar atrai-lo para junto de si, tentar forçá-lo, desse ele só fugirá. O meu propósito é ficar flutuando entre muitas tensões contraditórias, mas estar pronto para quando o milagre chegar a mim. Meu propósito é estar sempre insatisfeito e sofrer inquietação.
Casa vermelha dentro desse jardim verdejante! Eu já te vivi, não devo desejar viver-te de novo. Já tive pátria uma vez, já construí uma casa, medi tetos e paredes e fiz os caminhos pelo jardim. As paredes enfeitei com os meus próprios quadros. Todo homem possui esse instinto, feliz sou eu de já ter podido viver isso! Muitos dos meus desejos já se realizaram em minha vida: queria ser poeta e consegui, quis possuir uma casa e construi uma, quis ter mulher e filhos e os tive, quis falar aos homens e impressioná-los e consegui, mas cada desejo, rapidamente, transformara-se em saturação e ficar enfastiado eu nunca suportei. Compor poemas ficou para mim suspeito, a minha casa me tolhia, nenhuma meta alcançada era uma meta, todo caminho era um desvio e todo descanso despertava uma nova nostalgia.
Ainda terei que trilhar muitos desvios e muitas satisfações me decepcionarão, mas algum dia tudo terá um sentido, pois é lá onde os contrastes se apagam que está o Nirvana, dentro de mim porém ainda brilham as amadas estrelas da saudade.
Hermann Hesse (1877-1962)
(Ilustração: aquarela de H. Hesse)
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