quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Cântico de Agradecimento


Adeus, Primavera!
Adeus, Outubro dos lírios e dos jasmins!
Outubro das rosas e das margaridas!
E lótus, miosótis, rododendros de terras distantes!

Sei que carrego comigo um pouco de tuas fragrâncias,
um pouco da dança febril, da embriaguez das cores,
do deslumbramento da primeira paixão,
das risadas que dei em teus jardins.

E tenho certeza que deixo um pouco de mim
nas tristes violetas que pendem de tuas hastes
no aceno de adeus,
um pouco de mim no teu chão de ilusões despetaladas.

Obrigado! Primavera,
pela coroa de avencas que trago hoje,
murcha entre os cabelos.
E só murchou porque um dia
me deste a oportunidade de tecê-la.

Agora é Verão.
Há um círculo de pedras ásperas no horizonte
e uma planície longa e vermelha para cultivar.
O dia cobre o chão rendado de cicatrizes.
A poesia tem um cheiro acre de suor.
E aconselha-me a continuar
a plantação das sementes na terra seca.

Passam os dias. Aprendo um novo sorriso.
Olho a aridez à minha volta, e canto:

Vinde a mim tangerinas e maçãs, peras e romãs!
Vinde a mim polpa e sumo das framboesas!
que já vejo invisíveis nestas valas que abro,
nestes cortes que guardam a vida.
Obrigado Sol, obrigado doce suor de Verão!

Aproveitemos a milagrosa inspiração do instante,
que não há de retornar, nunca mais!


Foto: a.rocha 2010

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Jorge Luis Borges: Ausência


Haverei de levantar a vasta vida
que ainda agora é teu espelho:
cada manhã haverei de reconstruí-la.
Desde que partiste
quantos lugares se tem tornado vãos
e sem sentido, iguais
às luzes no dia.
Tardes que foram nicho de tua imagem,
músicas em que sempre me aguardavas,
palavras daquele tempo,
eu terei que quebrá-las com minhas mãos.
Em que cavidade esconderei minha alma
para que não veja tua ausência
que como um sol terrível, sem ocaso,
brilha definitiva e sem piedade?
Tua ausência me rodeia
como a corda à garganta
o mar ao que se quebra.


Jorge Luís Borges (1899-1986)

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Carinho pelos Bichanos e Cães


Tenho a maior simpatia pelos cachorros. Não tenho dúvida de que eles herdarão o céu. Os cães possuem a suprema lealdade, pressentem e nos protegem da falsidade dos salteadores. Os misteriosos gatos não são diferentes: com carinho seletivo somente se aproximam quando sentem sinceridade; sabem das tramas e da má intenção dos vivos, e são os escudos dos donos diante das energias malignas, das forças invisíveis. Os egípcios e os gregos antigos sabiam muito bem disso.


Na literatura e na música, alguns nomes que tanto admiro também tinham paixão pelos bichanos e pelos cães.


Vejam só a cara de satisfação do escritor e poeta Hermann Hesse brincando com o gato de estimação.








































Já o escritor Guimarães Rosa e sua esposa Aracy juntos amavam tanto os gatos que um só não bastava.




































Até o sisudo compositor Vaughan Williams comparece aqui com o seu gatinho favorito Foxy, deveras aconchegado.























E alguns estimam tanto os seus cães que os conduzem para a fama. Na Baviera, em Gmund am Tegernsee, há uma estátua de Thomas Mann brincando com Bashan, o cão preferido. O grande escritor tanto o adorava que fez dele o personagem principal de um de seus livros. Senhor e Cão é um lindo conto. Recomendo-o a todos que gostam de histórias sobre animais. No Brasil foi publicado pela editora Record em uma coletânea de novelas e contos de Mann entitulada Os Famintos.























Imagens. Agradecimentos aos sites. Thanks...!!!

Your cat was delicious - http://yourcatwasdelicious.tumblr.com
Tertulia Bibliofila - http://tertuliabibliofila.blogspot.com
Roberta Rood - http://robertarood.wordpress.com

sábado, 4 de setembro de 2010

Cícero Acaiaba: 3 Elegias


Faltam-me as palavras para comentar um verso que seja dessas elegias do mestre Acaiaba. Diante da beleza dessas metáforas, recolho-me ao silêncio, com humildade e profunda admiração.

Elegia IX

Contemplou o dia murchando
recolhido em sua própria sombra,
e o que via na fímbria lívida das montanhas
era o pulsar da saudade. Ah, como se morre
com tantas nuvens ricas de sol, com tanto pássaro e no espaço
aberto de par em par até o horizonte,
com esse azul de pétala orvalhada!
Mas de repente as árvores ficam imóveis,
como um rio de branco sussurro espraia-se o rebanho,
e bem longe se ouve na capela
a gangorra dos sinos.
Tudo se resumia no silêncio
de uma estrela maior fincada na areia do céu.
A tarde morreu de manso,
tão de manso
o vento acende as luzes com um tênue sopro.

Elegia XX

Uma planície deserta
a sombra de teus olhos.
Mas esse é o teu mundo,
continua a ser o lugar da varanda
com o jarro das samambaias, a cintilação dos antúrios,
a suave ondulação da escada
para o pequeno tanque dos peixes transparentes.
Caramujos retorcidos
a brusca imobilidade de tuas mãos.
Mas aqui é o teu reino,
existes em sossego no recanto da sala,
e só a música do silêncio escorre as cortinas
na janela onde a tarde te hospeda.
Minúsculos casulos
dormem teus pés o remanso das praias remotas.
Mas prossegue teu jardim de mágicas,
o dócil vôo de teus pássaros, a mangueira,
o mesmo sol coado na peneira das árvores,
as formigas ceifando a relva, o cheiro úmido da terra,
a chuva que agora dessedenta teu corpo,
ah, teu corpo que é o mesmo e se esgarça como nuvem
lentamente lentamente
e vai sumindo num redemoinho de trevas.

Elegia XXXVIII

eu vim para dizer que não tivesse medo
bastava deitar-me com certa cautela
alisando as rugas da túnica inconsútil:
o essencial é apagar os duros ruídos
entrelaçando os dedos das mãos muito brancas.
eu vim protegido na réstia da sombra
para fechar seus grandes olhos tristes
ainda fixos na tarde através do Calvário
e desmanchar algumas pétalas de rosas
sobre os cabelos imensos.
eu vim para ensinar à boca cerrada
a nostalgia amarga do silêncio
e ao corpo embalando um rio de sono
o caminho em surdina no longe da infância.
eu vim como a hora fatal do relógio
que nunca se espera que chega tão cedo
e cravo suave o espinho do tempo
no corpo que morre – ah, puro segredo!



(de “A Última Elegia e 30 Noturnos de Minas”,
  Ed. Scortecci, 1987)

Cícero Acaiaba (1925-2009)


sexta-feira, 20 de agosto de 2010

A Alma Brasileira de Villa-Lobos



Ainda que detectemos no autodidata Villa-Lobos a melodia de Puccini, e às vezes a atmosfera de Wagner, ou a técnica de orquestração de D’Indy, e até mesmo a maneira como Sibelius tratava a profundeza das florestas, que Villa assimilou e transformou ao seu próprio modo; ainda assim é preciso ter em vista que as grandes influências do músico na idade madura foram mesmo Debussy e Bach, e muito mais a harmonização de Ravel e o ritmo de Stravinsky; sem jamais esquecer a importância decisiva que foi o choro, música popular de alto nível, amada por Villa-Lobos desde a infância, e da qual assimilara a riqueza do contraponto e o colorido dos timbres. Nessa amálgama toda, Bach funciona mais como o mestre inspirador do que uma diretriz de estilo. Mesmo assim, nessa pluralidade de vozes, o grande Villa encontra a maneira própria de cantar, consegue destacar a sua voz como legítimo representante do Brasil no coral das nações.
 
Até hoje não é possível confirmar se todas as viagens relatadas pelo compositor foram verdadeiras, pois gostava de alimentar a lenda de que havia mapeado quase todos os estados do Brasil, o que é pouco provável. Talvez não tenha se aventurado pelo interior da floresta, como dizia. No entanto, conseguiu captar o mistério das densas matas, a flora e a fauna do Amazonas. Uma coisa é certa: Villa-Lobos era um intuitivo, bastava-lhe uma simples visita a um determinado lugar e já compreendia o folclore e os costumes da região, anotava a melodia e depois a transmutava na complexidade instrumental da orquestra ou nas diversas formações camerísticas. Quando ouvimos o Quarteto de Cordas No. 6 quase podemos tocar a umidade da selva escura; quando ouvimos o Choros No. 10 e os poemas sinfônicos que tratam da Amazônia, sentimos o canto do azulão e do uirapurú; nas Bachianas 3 e 4 é nítida a presença do pica-pau e da araponga. É só fecharmos os olhos, aguçarmos o ouvido para termos a certeza: Villa esteve lá, sentiu todos esses sons, mesmo que por alguns instantes. Ou talvez tenha sentido tudo somente na imaginação, com o ouvido e os olhos da alma? Todos sabem que é característica da arte essa magia, a de abolir o tempo e o espaço e transformar o imaginário em real.

Levando em conta esse dom de vivenciar os lugares, podemos compreender que Villa-Lobos é o Rio de Janeiro, é a Amazônia, é o sertão nordestino, é campo e cidade, é metrópole e aldeia, é quarteto de cordas e flauta indígena, é violoncelo erudito, maracá, chocalho e reco-reco, é choro e modinha trajando casaca nos palcos do mundo. Por meio de estruturas não convencionais e timbres ousados o compositor nos conta do gingado mole do caipira das roças mineira e paulista, do arguto capadócio carioca conversando nos botequins e jogando bilhar; mostra-nos os índios dançando nas tabas e o sacolejante trenzinho percorrendo planícies, colinas e vilarejos do interior. E, de repente, no meio de uma peça de sonoridade áspera surgem o folclore do nordeste, do centro-oeste, do sudeste, do norte e do sul, o som e as danças da terra: a embolada, o martelo, a catira, a quadrilha. Não é novidade afirmar que a música de Villa-Lobos é riquíssima, pois é reflexo da multifacetada cultura brasileira!

Não apenas no Choros No.5 deveria constar o subtítulo Alma Brasileira. Em Villa-Lobos transparece a todo instante a essência da alma de nosso povo: afável, ora dinâmica ora indolente. O compositor nos mostra, principalmente na terna melodia de algumas peças, a capacidade que o brasileiro tem de sorrir nas adversidades e de receber com afeto todos os povos da terra. Exemplos exatos são os Prelúdios para Violão.

É correto dizer que Villa-Lobos não é apenas o folclore; antes, é o Brasil em música. E mais: trata-se de música nacionalista que avançou fronteiras, tornando-se arte universal, respeitada em todos continentes. Continua moderna, porém comunicativa. Não se apóia em ruídos. Todos podem entendê-la; alguns, com um pouco de esforço, mas o resultado é sempre gratificante, porque, como disse Beethoven, certa vez: “é arte do coração para o coração.”


Foto: Pôr-do-sol no rio Amazonas.
(direitos de Juliano de Alencar Vasconcelos)


..........

Aqui, algumas das mais importantes e populares peças do grande Villa na interpretação maravilhosa da pianista Clara Sverner.

A peça que dá título ao CD, e ponto alto da gravação, é o Choros No. 5, com o subtítulo de Alma Brasileira, talvez a obra-prima do compositor no gênero. E prestem atenção no ritmo indolente que Clara Sverner consegue em A Lenda do Caboclo, e a maneira como capta a beleza da Valsa da Dor e a sutileza como interpreta a suíte impressionista A Prole do Bebê! Também digna de nota é a leitura da pianista nesta versão original da Bachianas Brasileiras No. 4. Mas, dentre todas, a minha preferida é Impressões Seresteiras. Como adoro essa peça que pertence ao famoso Ciclo Brasileiro!


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domingo, 25 de julho de 2010

Canção


Através das lentes de meus óculos
tu aproximas suave como brisa,
como ondas na claridade da manhã.

Uma forma de gestos pontilhados -
és a essência diluída de nuvem,
brilho transformado em substância.

Às vezes fico guiando o meu batel
no oceano de solidão, e sigo, sigo,
seguindo vou a música de tua voz.

E só me resta a imaginária presença:
na taça vou bebendo o teu corpo,
a minha constante, doce embriaguez.

Assim eu vou: sozinho, sem âncora,
sem leme, sem velas, sem tripulação.
Somente tu, somente a tua lembrança.



(em Três Cadernos de Andarilho, Editora Alba, 1997)

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Stan Getz: Blue Skies


MP3 Download - Baixar: StanGetz.BlueSkies.1982.zip


Que beleza esse álbum de Stan Getz... ! Jazz luminoso para ser ouvido quando acordamos e olhamos extasiados o lindo dia pela janela.

Muitos de nós podemos sentir o céu - concha absorvida pelo azul que abriga pássaros e nuvens. E muitos são os que percebem a música, essa luz etérea que surge da alma, perpassa objetos, madeiras, orifícios dos instrumentos e chega até nós. Não é palpável, não possui substância; ainda assim é mais sólida do que o mundo. E milagrosamente nos preenche a existência. É nessa oportunidade que devemos agradecer a Deus o nosso dom de ver e ouvir.

Também é momento de lembrarmos daqueles que não podem compreender os milhares de matizes que cobrem bordas e frestas dos seres e das coisas. E no entanto entre eles há os que caminham firmes na aparente escuridão. Porque veem, embora não enxerguem.

Momento também de refletirmos sobre aqueles que não ouvem o dó maior ou as sutilezas dos sustenidos e bemóis. Pessoas que tiveram os ouvidos lacrados pelo silêncio, e talvez na quietude em que vivem possam perceber outras sonoridades, catedrais que ondulam no vento, música que não é ouvida por aqui, inalcansável para nós.




sexta-feira, 21 de maio de 2010

Ravi Shankar: Inside the Kremlin



Pandit Ravi Shankar, que no mês passado completou 90 anos, fez de tudo em música e continua fazendo: impressionante virtuose da cítara, compositor inspirado, porta-voz da música indiana, e muito mais.

Semelhante ao versátil poeta Rabindranath Tagore, Shankar também é indiano até as raízes da alma, o que não o impediu de criar uma arte acessível e compreendida pelo restante do mundo. Talvez não seja o mais autêntico, mas com certeza é um dos mais importantes compositores da Índia, pois ele mais do que ninguém estendeu pontes sobre o oceano que divide Oriente e Ocidente. Tem sido um missionário entre a cultura dos dois mundos.

Não houve outro que influenciou tanto e tão várias gerações como Ravi Shankar, desde o seu envolvimento com o guitarrista George Harrison, que o elegeu como guru musical. Entretanto, muito antes dos anos 60 e 70, antes da idealização de beatniks e hippies este admirável e incansável músico busca a dispersão dos horizontes, e cria suas obras com base nos elementos folclóricos, populares, eruditos e religiosos de seu vasto e antiquíssimo país, às vezes mesclando-os com o som de outros povos. Compõe as tradicionais ragas, talas e mantras para serem executadas na cítara, tablas, sarangi, bansuri e outros instrumentos típicos, e também utiliza a orquestra completa da música ocidental com as cordas, sopros e percussão.

Alguma autenticidade de seu próprio país acaba perdida nessa divulgação incessante, mas por outro lado desperta e conquista novos ouvintes. É preciso constatar ainda que Shankar já tocou e gravou com músicos e grupos dos mais variados genêros musicais: pop, rock, jazz e instrumentistas da música clássica antiga e moderna. E quando o compositor resolve facilitar, não se inibe até mesmo em misturar ragas e talas com canção pop para as pessoas cantarolarem nas ruas. Não obstante, a parte da obra realmente erudita do compositor é àspera e de difícil acesso.

Com o mesmo entusiasmo que o movimento hippie da década de 60 recebeu a música oriental de Shankar, hoje os idealistas da Nova Era reconhecem no grande citarista o precursor da fusão oriente-ocidente, que poderá ser a essência das artes e da música do século XXI: o cerebralismo a serviço da espiritualidade, o encontro ecumênico de todas crenças, a Unidade de todas as artes, porém sem a extinção da individualidade que faz com que cada pessoa e cada pensamento sejam únicos e ao mesmo tempo ligados pelos fios da teia Universal.

Ravi Shankar tem adquirido enorme respeito e prestígio ao longo de sua vida. Em 1988, a convite dos dirigentes da Rússia, foi o ilustre convidado em um concerto que encerrava o Festival Indiano, contando com mais de 140 músicos, ocasião em que foram executadas 7 peças, todas de autoria de Shankar, algumas com direito ao improviso como Bahu-Rang.

Esse evento pode ser confirmado neste álbum ao vivo, Inside the Kremlin, uma emocionante fusão da música indiana e do folclore russo, executados pelo grupo de Ravi Shankar e um conjunto da Rússia, acompanhados pela orquestra de Moscou e pelo coro do Ministério da Cultura da USSR. Uma apresentação única, mas graças ao registro em disco continua a nos presentear com sensações mágicas repetidas vezes.

Observem na peça Three Ragas in D minor a homenagem de Ravi Shankar a Rimsky-Korsakov, inserindo entre as ragas motivos russos e recriando na orquestração a mesma atmosfera de um dos movimentos de Sheherazade. E por que especificamente esse compositor russo? Porque ele também fundiu ocidente e oriente em algumas de suas principais obras.

Já a peça Bahu-Rang é legítima música clássica indiana, mas há momentos em que os mantras místicos da Índia soam simultaneamente com as danças campesinas eslavas, tocadas por cítaras e balalaikas. Enfim, uma oportunidade de ouvirmos dois países que sempre ofereceram um riquíssimo folclore ao mundo. Maravilhoso!



Download MP3 - Baixar: 
Shankar.InsideTheKremlin.Part1.zip 
Shankar.InsideTheKremlin.Part2.zip

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Acalanto

(para V.)

Se na jornada perderes o ânimo
e como selva se escurecer o caminho,
e extinguir o lume a esperança,
não sintas medo da vida.
Lembra-te: em algum lugar
há alguém sempre pensando em ti.

Se me chamares e eu não ouvir,
acaso eu estiver imerso
no sono das distâncias,
deixa o recado no primeiro vão
de perobeira, nos limites da estrada,
ou sob uma pedra assinalada.
Algum anjo-viandante o trará até mim.

E eu te alcançarei, te trarei comigo
para que em meu coração
adormeças a alma cansada.
A minha choupana será teu abrigo.
De bálsamo se cobrirá o meu olhar.
Para ti guardei o riso, o amor -
pão que sacia todas as fomes.

Não te inquietes, não sintas medo.
Descansa! Durma, apenas durma.
Quando surgir o novo dia, e novamente
o sol dourar as sinuosas vias do destino,

eu cuidarei de ti.



Photo: © arocha, 2010
Sítio Nascente do Sol


terça-feira, 13 de abril de 2010

Ravel: Obra Completa para Piano Solo - Jean-Efflam Bavouzet


Ravel: Obra Completa para Piano Solo,
por Jean-Efflam Bavouzet
2 CDs - 2004 - 320 kbps

Volume 1:
Garpard de la Nuit
Jeux d’Eau
Sonatine
Miroirs

Volume 2:
Le Tombeau de Couperin
Prelude
Serenade Grotesque
A la Manière de... Borodin
A la Manière de... Chabrier
Menuet Antique
Menuet sur le Nom de Haydn
Valses Nobles et Sentimentales
Pavane pour une Infante Defunte

Download MP3 - Baixar:
Volume 1: Ravel.CompletePiano.Vol1.Bavouzet.zip
Volume 2: Ravel.CompletePiano.Vol2.Bavouzet.zip


quarta-feira, 31 de março de 2010

Debussy: Obra Completa para Piano Solo - Jean-Efflam Bavouzet


Debussy: Obra Completa para Piano Solo,
por Jean-Efflam Bavouzet
5 CDs - 2006-2009 - 160 kbps

Volume 1:
24 Prèludes
Les soirs illumines par l’ardeur du charbon
Volume 2:
Ballade Slave
Valse Romantique
Danse “Tarantelle Styrienne”
Images Oubliées
Estampes
Pour le Piano
Masques
L’Isle Joyeuse
D’un Cahier d’Esquisses
Volume 3:
Nocturne
Suite Bergamasque
Danse Bohemienne
Arabesques
Revêrie
Mazurka
Children’s Corner
Hommage a Haydn
Morceau de Concours
La Plus Que Lente
The Little Nigar
Page d’Album: Pièce pour le Vetement du Blesse
Berceuse Heroique
Elegie
Volume 4:
Images, Livre I
Images, Livre II
12 Études
Étude retrouvée

Volume 5:
Khamma (version for piano)
Jeux (version for piano)
La Boîte a Joujoux


Download MP3 - Baixar: 
Volume 1: Debussy.CompletePiano.Vol1.Bavouzet.zip
Volume 2:
Debussy.CompletePiano.Vol2.Bavouzet.zip
Volume 3:
Debussy.CompletePiano.Vol3.Bavouzet.zip
Volume 4:
Debussy.CompletePiano.Vol4.Bavouzet.zip
Volume 5: Debussy.CompletePiano.Vol5.Bavouzet.zip

terça-feira, 30 de março de 2010

Semana Santa - A Música da Renascença: Lassus, Palestrina e Victoria



As Lamentações, geralmente atribuídas ao profeta Jeremias, são cinco poemas elegíacos, talvez escritos no período da destruição de Jerusalém por Nabucodonosor, no século VI a.C. Comentam a triste condição de Israel: o templo em ruínas e a escravidão, porque o próprio povo tornara-se infiel à Aliança com Deus.

De forma que judeus e cristãos utilizam hoje as Lamentações de Jeremias em momentos litúrgicos de pesar, relembrando fatos de importância da História: os judeus, nos dias de jejum, sofrendo em memória da Jerusalém destruída; os cristãos, na Semana Santa, quando reconstituem a dor de Cristo no Horto das Oliveiras e no martírio do Calvário.

Lassus: Hieremiae prophetae Lamentationes
 Palestrina: Lamentationes Ieremiae prophetae
Victoria: Tenebrae Responsories


A profundidade dramática dessas três obras-primas continua mais viva do que nunca. São apresentadas frequentemente durante a Semana Santa nos mais variados templos cristãos. É música sublime, capaz de comover até as pedras. Não há outra definição mais exata.

De genialidade incontestável, Lassus, Palestrina e Victoria continuam os maiores compositores da Renascença (incluiria William Byrd nesta plêiade). Suas obras foram escritas há quase 500 anos , mas a beleza que há nelas vive, e exerce fascínio até os dias atuais. Pela elaboração artística e pelo conteúdo humano está no mesmo nível da música de Monteverdi, Bach, Handel, Haydn, Mozart e Beethoven.

Para este breve comentário, tomo de empréstimo as palavras do grande crítico literário Otto Maria Carpeaux, que também foi historiador musical. Escreveu apenas um livro sobre o assunto : Uma Nova História da Música, facilmente disponível em publicação popular da Ediouro. É um excelente e valioso "resumo" sobre a música do Ocidente, indispensável na estante dos estudiosos do tema.

segunda-feira, 22 de março de 2010

André Gide: Os Frutos da Terra


Sábias palavras de Gide, grande escritor francês, prêmio Nobel em 1947:

"Nathanael, que cada espera em ti não seja sequer um desejo mas simplesmente uma disposição para a acolhida. Espera tudo que vem a ti, mas não desejes senão o que vem a ti. Não desejes senão o que tens. Compreende que em cada momento do dia podes possuir Deus em sua totalidade. Que teu desejo seja amor, e que tua posse seja amorosa. Pois, o que é um desejo que não é eficaz?

Como! Nathanael, tu possuis Deus e não te aperceberas! Possuir Deus é vê-lo; mas não o olham. Em que volta de atalho viste Deus, Balaão, diante de quem se detinha o teu asno? É que o imaginavas diferente.

Nathanael, somente Deus não há como esperar. Esperar Deus, Nathanael, é não compreender que já o possuis. Não distingas Deus da felicidade e põe toda a tua felicidade no instante."

"Toda a tua fadiga cerebral, ó Nathanael, vem da diversidade de teus bens. Não sabes sequer qual deles preferes e não compreendes que o único bem é a vida. O menor instante da vida é mais forte do que a morte, e a nega. A morte não é senão a permissão de outras vidas para que tudo sem cessar se renove; a fim de que nenhuma forma de vida detenha isso mais tempo do que lhe é necessário para se dizer. Feliz é o instante em que tua palavra retine. Durante o resto do tempo escuta; mas quando falares, não escutes mais."

André Gide (1869-1951)

(de Os Frutos da Terra: parte 3 do Livro Primeiro, 1897)

E, aproveitando o tema, porém de outro ângulo, esta intrigante pintura do artista alemão Hans Happ:
Frutos da Terra.
 

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Bachman-Turner Overdrive - Not Fragile


Ah! saudades desse grupo canadense de Manitoba, que registrou muitos sucessos nos anos 70, com destaque para o álbum Not Fragile, de 1974. Os dois vocalistas principais, Randy Bachman, com timbre suave e C.F. Turner, com voz àspera e imponente; guitarrista o primeiro, baixista o segundo - eram os líderes. Daí o nome Bachman-Turner Overdrive, ou simplesmente BTO, que contava também com Blair Thornton na primeira guitarra e Robbie Bachman na bateria. O estilo era o hard rock, mas diferenciava dos demais grupos pela mistura de acompanhamento pesado e ritmo contagiante com solos melódicos.

Da esquerda para a direita:
Randy Bachman, Blair Thornton, Robbie Bachman e C. F. Turner

A canção mais famosa da banda está no vídeo abaixo para o deleite dos saudosistas. Ficou conhecida como o rock do gago. Se aqui nós temos o Noel Rosa que criou a divertida O Gago Apaixonado, lá eles têm, evidentemente levando em conta a diferença de gêneros, o Randy Bachman, cantando esta deliciosa You Aint Seen Nothing Yet.

http://www.youtube.com/watch?v=7miRCLeFSJo




E aqui em 320kpbs o Not Fragile, um dos melhores álbuns da banda:


Faixas:

1-Not Fragile (4:07)
(lead vocals: C.F. Turner)
2-Rock Is My Life, and This Is My Song (5:05)
(lead vocals: Randy Bachman)
3-Roll on Down the Highway (3:59)
(lead vocals: C.F. Turner)
4-You Ain’t Seen Nothing Yet (3:57)
(lead vocals: Randy Bachman)
5-Free Wheelin’ (instrumental) (3:47)
6-Sledgehammer (4:36)
(lead vocals: Bachman & Turner )
7-Blue Moanin’ (3:45)
(lead vocals: C.F. Turner)
8-Second Hand (3:23)
(lead vocals: Randy Bachman)
9-Givin’ It All Away (3:48)
(lead vocals: Bachman & Turner)

Download MP3 - Baixar BTO.NotFragile.zip


sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Tord Gustavsen Trio: The Ground


Imaginem um piano suave que jamais cai no melífluo, acompanhado por músicos de técnica sofisticada porém acessível a todos. Não é preciso ser um expert em jazz, basta ter sensibilidade musical. Então, aqui está. The Ground, um belíssimo álbum gravado em 2005 pelo trio norueguês contemporâneo, formado por Tord Gustavsen (piano), Harald Johnsen (contrabaixo) e Jarle Vespestad (bateria). Absorvam com tempo e profundidade esse estilo requintado dos nórdicos estruturado no jazz tradicional. Altamente recomendado.

Faixas:

1-Tears Transforming (5:40)
2-Being There (4:19)
3-Twins (4:59)
4-Curtains Aside (5:17)
5-Colours of Mercy (6:12)
6-Sentiment (5:37)
7-Kneeling Down (5:50)
8-Reach Out and Touch It (5:51)
9-Edges of Happiness (3:09)
10-Interlude (2:05)
11-Token of Tango (4:14)
12-The Ground (7:16)

Total: [1:00:29]

Download MP3 - Baixar TordGustavsen.TheGround.zip

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Em Busca de Eurídice


Retorna! Nereida bela do meio-dia!
Inesperadamente tomaste-me nos braços
naquele cair de tarde de setembro!
Fada em ninfa transmutada! Retorna!
Retorna os teus dedos mágicos!
Converte-me de novo ao deus Pã!
Devolve-me à doce selvageria
das primeiras estações dos tempos!

Teu beijo pode ser comoção cibernética!
Mas não tem a frieza de fios, tubos ou satélites!
Não é sem forma como as ondas de rádio!
Porque tua boca é vulcão que rasga a terra,
que desperta o fogo das entranhas!
Oh, braços de substância indecifrável!
Oh, alma de éter, corpo de fibras óticas!
Acorda-me novamente, retira-me do torpor,
reativa-me as células adormecidas!

Se tenho que vagar por corredores inexistentes,
se tenho que te buscar pelas salas do nada,
poupa-me, diga ao menos a direção, Eurídice!
desse território inefável ou reino das profundezas,
para que te busque de volta à palpável realidade!
Perco-me nesse inferno, nessa encruzilhada
de chips nos uivos de demônios virtuais.
Persigo-te no interior de uma máquina
que termina na vastidão das nebulosas.
Poupa-me desta mísera dimensão de mortal!

Onde capturar o teu rosto que não conheci?
Qual será teu nome, velada Eurídice, que estes lábios
abertos de espanto não puderam pronunciar?
Sei que só existe um véu separando nossos corpos.
Sei que em algum lugar distante há uma alma, há
dois olhos castanhos a comandarem esse mistério.
Teus olhos captam o reflexo de um rio que borbulha
neste silêncio imenso, absurdo, em que me deixaste.

Ninfa em fada transmutada!
Nereida bela da noite eterna!



quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Natal: Recordando Ictus



Durante determinado período do ano acontecem as festas natalinas. É muito bela essa revivificação da crença cristã. Quase sempre, porém, o seu propósito primordial fica esquecido.

Natal. O que representa essa comemoração que surgiu de um acontecimento que transformou a rota e o calendário de grande parte da Humanidade?

De escriba para escriba, de povo para povo, mil e mil vezes foram contadas a história, o mito e a lenda do Cristo. E mil vezes ainda será necessário repeti-las para que a essência não morra, é necessário que o nascimento inicie a cada ano para que a vida e o martírio sejam compreendidos e que a ressurreição se repita após os três dias de silêncio. Não é necessário ser católico ou cristão para compreender esta que é a mais maravilhosa lição de amor e de redenção de todos os tempos.

Recontemos a história para aqueles que a esqueceram:

Há pouco menos de 2000 anos uma voz clamava no deserto, exortando o povo: “Arrependei-vos, arrependei-vos.” Era João, o Batista, de alcunha Iocanã, que preparava o caminho para outro profeta maior, de asas mais vastas. Este tinha por nome Jesus, nascido em Belém, mas de família oriunda de Nazaré. Conforme consta nos apócrifos das cavernas do Mar Morto, era o sétimo filho do carpinteiro José, viúvo, e o primogênito de Maria, virgem essênica. Esse profeta maior, anunciado por Isaías e pelo próprio anjo Gabriel, havia sido gerado pelo Espírito Santo, e vinha com a impressionante missão de completar a Lei de Moisés, adaptando-a à mudança dos tempos. E mais ainda: sublimar todas as milenares doutrinas existentes antes dele. Sublimar como? Através do ensinamento e do ato do perdão, último estágio de aprendizado nesta Terra de vãs ilusões.

Conforme consta nos autos e testamentos dos Evangelistas, o Verbo se fez carne entre o povo humilde da Terra, no seio da família de um simples carpinteiro. E três magos do Oriente seguiram uma estrela cintilante, e vieram de muitas distâncias, sabendo que encontrariam um novo rei, diferente da opulência dos príncipes e dos soberanos. E os magos encontraram o menino e presentearam-no com ouro, mirra e incenso, e se inclinaram diante dele porque sabiam que naquele momento iniciava o Reinado do Peixe, o peixe que alimenta os que têm fome, o peixe que respira na água viva do Espírito. E esse seria o símbolo essencial dos primeiros cristãos.

Esse novo rei veio ensinar a humildade e a demonstrou em três momentos principais da existência: no nascimento, na vida e na morte – nascendo entre as palhas de uma rude manjedoura na gruta de Belém; depois, vivendo o medo em lágrimas no Getsemâni, e mesmo assim aceitando submisso a taça amarga do martírio, compreendendo a dificuldade e o peso de ser Homem com qualidades de Deus; e, enfim, morrendo - seguindo de cabeça baixa, humilde e triste, e ainda assim sereno, como um cordeirinho manso que é puro e que é levado para a matança do sacrifício final.

Historica e mitologicamente termina aqui a vida de um Homem que se deu em sacrifício para despertar outros homens para a humildade e o perdão, redimindo-os da cegueira e do egoísmo desvairado.

Mas, misticamente, acaso terminou a caminhada ao Calvário? Será preciso repetir a história, será preciso recriar o nascimento, será preciso reconstruir a cada ano no símbolo do Presépio o propósito do Nazareno? E nada mais? Até quando?

Desde 2000 anos essa voz clama aos desertos de nosso íntimo, exortando-nos ao amor ao próximo, à caridade, à solidariedade, à compaixão aos que sofrem. E após 2000 anos a humanidade continua se contorcendo em dor: sob o jugo das manipulações, na opressão dos fortes sobre os fracos, no acúmulo de posses materiais, na cruel competitividade econômica, na sexolatria, no entorpecimento dos sentidos e na eterna cegueira do coração.

Neste Natal, quando olharmos a pequenina imagem do Menino que sorri de braços abertos entre as palhas e entre os mansos animais, devemos vislumbrar nele o Homem, o adulto que em breve virá e que também ficará de braços abertos em um clamor silencioso, com a súplica humilde de quem sempre espera e aguarda uma mudança de comportamento de seus seguidores.

E no exato instante da repetição do nascimento, e com ele as bebidas e a comilança, os fogos coloridos no céu, e com eles os abraços eufóricos e os apertos de mão calorosos, é preciso que reflitamos: até quando faremos nascer o Menino para depois levá-lo ao sacrifício? Até quando vamos sacrificar esse Anjo do Pai Eterno para que a água viva continue a cobrir o pó da Terra?


Dezembro de 1999


Historiadores de renome e alguns estudiosos bíblicos dizem que os evangelhos foram forjados, que os pais de Jesus não viajaram, que não foram a Belém, que Jesus foi gerado e nasceu mesmo na aldeia de Nazaré, pois o único recenseamento da época, registrado oficialmente, ocorreu somente dez anos após o nascimento do menino galileu. A contagem era feita no próprio lugar onde habitavam os povos conquistados por Roma, mesmo porque jamais poderia existir uma contagem populacional em que as pessoas necessitassem de se locomover ao local de origem; em qualquer período da história seria economicamente inviável uma medida assim, sem qualquer lógica. Mas esse fato não importa tanto.

Muitos adeptos das tradições esotéricas e gnósticas afirmam que Jesus não morreu na cruz, que na verdade o seu corpo encontra-se enterrado em Srinagar, norte da Índia, onde padeceu os momentos finais devido aos ferimentos da crucificação. Dizem que todos os acontecimentos foram partes de um projeto grandioso, idealizado muito antes, com o objetivo de reconstruir o mito do Messias; que Maria, seu irmão José de Arimatéia e outros sábios da comunidade essênica ajudaram nesse plano para que se cumprisse a profecia de Isaías, elegendo Jesus como o salvador esperado. Esse, penso eu, também foi o argumento na estrada de Damasco que convenceu Paulo de Tarso a se tornar cristão e dar continuidade ao elevado projeto, não apenas o de subjugar Roma, mas de abrir caminhos mais iluminados para a Humanidade. Conforme essa leitura, nunca houve literalmente a ressurreição de corpo e espírito, um dos dogmas máximos do cristianismo, embora o símbolo seja verdadeiro, pois certo é que o Espírito como água que sacia e a idéia do corpo ressurrecto - pão que alimenta - continuaram vivos na doutrina.

Detalhes minuciosos do que poderia ter sido a história por trás da história não deveriam nos importar tanto. O que importa de verdade é o Verbo, a Palavra, a lição que o Mestre nos ensinou: os pensamentos e os atos sublimes de amor e perdão que Cristo trouxe para completar a doutrina de outros avatares do passado. Além das palavras santas o que importa é o exemplo que Jesus nos mostrou, indo para o patíbulo com humildade e muita coragem. E no silêncio da jornada nos dizia, conforme compreendo:

Não temam a morte. Ela não existe da maneira como vocês pensam. Há um Reino Espiritual muito mais vasto do que esses limites que os olhos alcançam. Todos somos peregrinos em direção à consciência da Luz, porque todos, desde sempre e todo o sempre, pertencemos fisicamente ao Átomo original que tudo abarca, e espiritualmente já somos Um com o Pai. E a única forma de homenagear o Pai é amando os irmãos. Mas façam o bem e sejam justos simplesmente pela alegria que o bem faz aos outros e a nós mesmos, não esperando recompensas, pois elas virão como acréscimo. O Amor por si só há de nos ensinar e iluminar. Não tenham medo!


Dezembro, 2009

sábado, 19 de dezembro de 2009

Saint-Saëns: Oratório de Natal


 
Os músicos alemães dos Secs. 17 e 18 criaram os mais grandiosos oratórios sobre o tema do Natal: Weihnachtshistorie (História da Natividade, 1660) de Heinrich Schütz, um dos primeiros que aborda o tema nesse gênero lírico-dramático, já é obra-prima; depois, Bach, com as seis magistrais cantatas que compõem o Oratório de Natal (1934); e, alguns anos depois, o mais belo oratório de todos, O Messias (1742) de Handel; após mais de dois séculos e meio continua sublime e irretocável.

Os franceses, embora não tenham deixado oratórios tão poderosos como os citados, também contribuíram com obras de valor. Basta lembrar de L’Enfance du Christ (A Infância de Cristo, 1854) de Berlioz. Ora dramático (o Sonho de Herodes), ora lírico (A Fuga para o Egito) é todo estruturado com coros de câmara e reduzido acompanhamento instrumental, que surpreende em um compositor que dava tanta ênfase à orquestração extravagante.

E não podemos esquecer do Oratório de Noël, que Saint-Saëns criou na espontaneidade de sua juventude, com apenas 23 anos. Obra modesta, porém rica em lirismo contemplativo, continua muito executada nas associações corais do mundo todo, merecidamente. Encanta, do início ao fim. Prestem atenção no trio Tecum principium para soprano, tenor e baixo, acompanhados pela harpa e órgão. Que maravilha!

Camille Saint-Saëns (1835-1921)


Oratorio de Noël, Op. 12 (1858) [39:38]

1-Prelude (Dans le style de Séb. Bach) (3:16)
2-Recit et Choeur: Et Pastores erant - Gloria (coro) (5:47)
3-Air: Expectants expectavi Dominum (soprano) (4:08)
4-Air et Choeur: Domine, ego credidi (tenor e coro) (4:01)
5-Duo: Benedictus qui venit (soprano e baixo) (4:03)
6-Choeur: Quare fremuerunt gentes (coro) (3:59)
7-Trio: Tecum principium (soprano, tenor e baixo) (4:23)
8-Quatour: Alleluja (soprano, soprano, contralto e baixo) (2:14)
9-Quintette et Choeur: Consurge, Filia Sion
(soprano, soprano, contralto, tenor, baixo e coro) (5:29)
10-Choeur: Tollite hostias (coro) (2:18)

Coro Bach e Orquestra Bach de Mainz
Verena Schweizer (soprano)
Edith Wiens (soprano)
Helena Jungwirth (contralto)
Friedreich Melzer (tenor)
Kurt Widmer (baixo)
Hans-Joachim Bartsch (orgão)
Barbara Biermann (harpa)
Diethard Hellmann (condutor)

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terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Pablo Neruda: Os Construtores das Estátuas


(...)

Tu me perguntarás se a estátua em que tantas
unhas e mãos, braços escuros fui gastando,
te reserva uma sílaba de cratera, um aroma
antigo, preservado por um signo de lava?

Não é assim, as estátuas são o que fomos, somos
nós, no nosso rosto que olhava as ondas,
nossa matéria às vezes interrompida, às vezes
continuada na pedra semelhante a nós.

(...)

Arranharás a terra até que nasça
a firmeza, até que caia a sombra na estrutura
como sobre uma abelha colossal que devora
o seu próprio mel perdido no tempo infinito.

Tuas mãos tocarão a pedra até lavrá-la
dando-lhe a energia solitária que possa
subsistir, sem se gastarem os nomes
que não existem,
e assim de uma vida a uma morte, amarrados
no tempo como uma única mão que ondula,
elevamos a torre calcinada que dorme.

(...)

Olhai-as hoje, tocai esta matéria, estes lábios
têm o mesmo idioma silencioso que dorme
em nossa morte, e esta cicatriz arenosa,
que o mar e o tempo como lobo lamberam,
eram parte de um rosto que não foi derrubado,
ponto de um ser, cacho que derrotou cinzas.

Assim nasceram, foram vidas que lavraram
sua própria cela dura, seu panal na pedra.
E este olhar tem mais areia que o tempo.
Mais silêncio que toda a morte em sua colmeia.

Foram o mel de um grave desígnio que habitava
a luz deslumbrante que hoje resvala na pedra.


(trechos de Os Construtores das Estátuas,
em Canto Geral, 1950)


Pablo Neruda (1904-1973)

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

NATAL com Vaughan Williams, Britten, Rodrigo, Villa-Lobos, Poulenc e Honegger


 
Grandes compositores eruditos do século XX dedicaram-se ao tema do Natal, principalmente na Inglaterra, onde a representação da Natividade no palco é tradição, através de masques, pageants e carols, expressões típicas dos britânicos.

Ralph Vaughan Williams (1872-1958), a essência da música inglesa de todo o século XX, amava o Natal e criou várias obras natalinas, entre as quais a longa cantata Hodie, além de On Christmas Night, masque inspirada na obra de Dickens. Não foi um acaso que também sua última obra tenha sido uma peça da Natividade The First Nowell. Mas de todas a que permanece mais bela e espontânea é a Fantasia on Christmas Carols, a primeira que compôs sobre o tema. Utiliza quatro carols que o próprio compositor redescobriu nas aldeias de Somerset, Herefordshire e Sussex e preservou como folclore. O resultado é um hino contagiante, uma peça belíssima, entoada por um barítono, simbolizando o pastor, e um coro. Nesta versão são acompanhados pelas cordas e órgão.

Benjamin Britten (1913-1976), outro britânico que também investigou o folclore, e paralelamente se tornou no país o maior compositor de óperas desde Purcell, escreveu na juventude diversas peças corais natalinas: Christ’Nativity, A Boy Was Born, e a mais admirável de todas A Ceremony of Carols sobre poemas de Gerard Bullett, escritos em inglês antigo. Cantado por um coro de meninos e solistas, acompanhados por harpa, o conjunto de carols transmite paz celestial de uma beleza que enternece.

O espanhol Joaquín Rodrigo (1900-1990) pesquisou muito o folclore da Espanha antiga, com especial enfoque no século XVIII, (re)criando-o com criatividade em suas obras. Daí surgiram deliciosas peças como estas duas canções com coro que pertencem ao 'Retablo de Navidad': Cantan por Belén pastores e A la Clavelina, com sons de flauta e ritmos que só Rodrigo consegue.

O brasileiro Villa-Lobos (1887-1959) deixou-nos um imenso catálogo com obras em quase todos os gêneros eruditos, e centenas de canções folclóricas, coletadas e harmonizadas, mas poucas sobre o tema natalino. Apesar de ser uma obra de circunstância, não poderíamos deixar de lado este belo e raramente gravado Canto do Natal, música de Villa-Lobos sobre poema de Manuel Bandeira.

Na França, país que também deixou belíssimas obras sobre o Natal, encontramos o grande compositor Francis Poulenc (1899-1963), que foi 'enfant terrible' na juventude e, após a perda dolorosa de um amigo, transformou-se totalmente a ponto de se converter ao catolicismo e compor algumas das mais sinceras obras sacras do século, entre as quais estes quatro motetos a capella de uma suavidade angelical, perfeitas gemas de otimismo cristão: Quatre Motets pour les Temps de Noël (com textos em latim): 1-O magnum mysterium, 2-Quem vidistis pastores, 3-Videntes stellam e 4-Hodie Christus natus est.

E, por fim, uma Cantata de Noël, das poucas no século XX com real elaboração erudita. Última obra do suiço Arthur Honegger (1892-1955), hábil no gênero oratório e em sinfonias complexas, a peça não foge do estilo denso do compositor. O libretto de César von Arx utiliza textos latinos como De Profundis e Laudate Dominum, canções folclóricas francesas e outras conhecidas no mundo todo como Estrela de Belém e Noite Feliz. A música inicia sombriamente: o coro feminino e o coro masculino crescendo alternados sugerem a tristeza do mundo imerso nas trevas. Após um longo e uníssono Amén, um coro de crianças anuncia a luminosidade da estrela que surge trazendo as boas-novas: o nascimento do menino-Rei. O final é um hino de exaltação à alegria. Trata-se de um desfecho digno, uma despedida comovente de Honegger. Talvez não seja a mais bela, mas sem dúvida é a obra mais elaborada e densa nesta coletânea.

Eis um conjunto de obras de compositores modernos e acessíveis, que criaram em linguagem inovadora, mas não adotaram o exagerado hermetismo que quase sempre impede a comunicação com o grande público. A compilação, da maneira como está aqui, não se encontra em lojas de disco. Agrupei as peças motivado pelo gosto particular, que agora compartilho pensando no evento cristão mais importante: o Natal, um tempo de alegria e agradecimento pelo Ser divino que habitou espiritual e fisicamente entre nós.

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Natal.VWilliamsBrittenVillaLobosetc.zip

Ralph Vaughan William
Fantasia on Christmas Carols (1912)
John Barrow (baritone)
Choir Guildford Cathedral – String Orchestra

Gavil Williams (organ)

Barry Rose (conductor)

Benjamin Britten
A Ceremony of Carols (1942)
Cambridge King’s College Choir

James Clark (tenor)Julian Godlee (treble)
Osian Ellis (harp)
Sir David Willcocks (conductor)


Joaquín Rodrigo
Retablo de Navidad nos. 1 e 8 (1952)
Raquel Lojendio, soprano [1]
Coro de la Comunidad de Madrid
Orquestra de la Comunidade de MadridJosé Ramún Encinar (direction)

Heitor Villa-Lobos
Canto de Natal (1945)
Coro da Rádio Ministério de Educação e Cultura
Isaac Karabitschevsky (regência)

Francis Poulenc
Quatre Motets pour le Tempos de Noël (1952)
Robert Shaw Festival Singers
Robert Shaw (director)


Arthur Honegger
Cantate de Noël (1953)
Camille Maurane, baryton
Choeur National de l’ORTF
Orchestre National de l’ORTF
Henriette Puig-Roget, orgue
Jean Martinon (direction)


 

sexta-feira, 27 de novembro de 2009