sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Lassus: Psalmi Davidis Poenitentiales





















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Psalmi Primus, Secundus, Tertius
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Psalmi Quartus, Quintus, Sextus, Septimus
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Covers
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Mergulho













Era dessas noites claras.
Círculos de espumas boiavam
nas águas de brancas nebulosas.

No alto da palmeira
o menino de corpo moreno
tecia uma tanga de ramos
apoiado no entrelaçado
das folhagens.

Observava o redemoinho de
faces, cabelos e lábios.
E as espumas - estrelas
brancas, pálidas, flutuantes,
algumas pontas submersas
nas ondas, cobriam o mar.

Observava a dança silenciosa
dos fantasmas sobre as águas.
Homens de barbas longas,
uniformes envelhecidos,
e mulheres de saias esvoaçantes,
em rodopios orgíacos.
Vinham à tona festejar a lua
e mais uma vez reclamar
os corpos consumidos.

De um lado, tremulando na brisa
o mastro, as velas, a bandeira.
Galeão espanhol
em ruínas.

O menino deixou cair
a tanga em movimentos espirais.
Saltou do alto dos ramos, em voo.
Mergulhou no oceano branco,
bebeu a enxurrada de rostos,
pressionou a guelra dos pulmões,
atravessou as tábuas soltas,
os peixes, as ossadas,
a grande flecha de lodo,
apanhou no fundo das águas
a ostra de pedrinhas coloridas
e voltou para a superfície
com os cabelos envoltos em algas.
Trazia no rosto
imagens aprisionadas
em mil semblantes do tempo,
dos destroços de uma
Civilização desconhecida.

(em Imagens, 1990, Editora Nova Safra, Belo Horizonte)

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Carlos Drummond de Andrade: Tributo a Chaplin


Chaplin em Luzes da Cidade, cena inesquecível

Drummond no ano da publicação do poema


Publicado em 1945, no volume A Rosa do Povo, este longo poema de Carlos Drummond de Andrade é um dos mais belos e comoventes tributos a Charles Chaplin, gênio inquestionável do Cinema.

De fato, quem poderia esquecer do ator Chaplin, que deu vida a Carlitos, o vagabundo generoso, um dos mais ricos personagens que a Sétima Arte já criou? Após ele, qual cineasta deixaria de render homenagem ao seu legado? Recordemos O Garoto, Em Busca do Ouro, O Circo, Tempos Modernos e o imprescindível Luzes da Cidade, que é a obra-prima absoluta. Em todos esses títulos, o diretor e roteirista Chaplin elaborou uma linguagem universal contendo toda gama de emoções e pensamentos, utilizando-se apenas de expressão fisionômica e gestos. Na verdade, "apenas" não é a palavra correta, pois Cinema é imagem e movimento. E, neste sentido, como não admirar o Chaplin coreógrafo? O compositor Debussy, outro gênio, crítico severo que não engolia qualquer coisa, ao encontrar com Chaplin, disse-lhe que os movimentos de Carlitos eram dança, ballet, pura arte de um bailarino nato. E quem deixaria de valorizar também o Chaplin compositor, que nos deixou belas trilhas, entre elas a inesquecível Luzes da Ribalta?


Sim, acredito que as homenagens, por mais mais vastas que sejam, ainda não alcançam com justiça esse artista multifacetado.

A sólida arte literária de Drummond nos encanta pela sinceridade e riqueza de metáforas. Lendo este poema, aqueles que conhecem a obra de Chaplin, o genial ator-cineasta, vão se emocionar com a viagem nostálgica, pois o poeta menciona trechos importantes de vários filmes.

Sem mais delongas, ei-lo:

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Voltaire: Os Dois Consolados


O grande filósofo Citófilo dizia certa vez a uma mulher desolada, e que tinha razões de sobra para isso:

“A rainha da Inglaterra, filha do grande Henrique IV, foi tão infeliz quanto a senhora: expulsaram-na de seus domínios: esteve prestes a naufragar numa tempestade; assistiu à morte de seu real esposo, no cadafalso.”

“Lamento-a” – disse a dama; e pôs-se a chorar seus próprios infortúnios.

“Mas lembre-se de Maria Stuart” – insistiu Citófilo. “Ela amava muito honestamente a um bravo músico que tinha uma bela voz de baixo. O marido matou-lhe o músico à vista dela; e depois a sua boa amiga e parenta , a Rainha Elizabeth, que se dizia virgem, mandou cortar-lhe o pescoço num cadafalso forrado de negro, depois de a ter conservado prisioneira durante dezoito anos.”

“Cruel destino” – respondeu a dama; e tornou a abismar-se na sua melancolia.

“E com certeza já ouviu falar” – continuou o consolador – “na bela Joana de Nápoles, aquela que foi presa e estrangulada?”

“Lembro-me confusamente” – respondeu a aflita senhora.

“Pois bem, devo então contar-lhe o que aconteceu a uma outra grande princesa, a quem ensinei filosofia. Tinha ela um namorado, como acontece a todas as grandes e belas princesas. Uma vez o pai entrou-lhe no quarto e ali surpreendeu o amante, que tinha as faces em brasa e cujo olhar fulgurava como um diamante; a dama estava também muito animada de cores. A cara do jovem desagradou de tal maneira ao pai, que este lhe aplicou o mais formidável bofetão de que há memória na sua província. O amante pegou um par de tenazes e rachou a cabeça do sogro, que só agora se está curando, e ainda tem as cicatrizes do ferimento. A amante, desesperada, saltou pela janela e destroncou o pé; de maneira que hoje coxeia visivelmente, embora tenha em compensação um corpo muito bonito. O amante foi condenado à morte por haver quebrado a cabeça de tão alto príncipe. Imagine o estado em que não estava a princesa quando levavam o amante para a forca. Visitei-a durante muito tempo, enquanto ela se achava na prisão: só me falava das suas desgraças.”

“Por que não quer então que eu pense nas minhas?” – retrucou a dama.

“É porque não deve” – replicou o filósofo. “Pois, havendo tantas e tão grandes damas com tamanhas desgraças, não lhe fica bem desesperar-se. Pense em Hécuba, pense em Níobe.”

“Ah !” – exclamou a dama. “Se eu tivesse vivido no tempo destas últimas, ou no de tantas belas princesas, e, para as consolar, lhes contasse o senhor as minhas desgraças, acha que elas lhe dariam ouvidos?”

No dia seguinte, o filósofo perdeu o seu filho único, e esteve a ponto de morrer de dor. A dama organizou então uma lista de todos os reis que haviam perdido os filhos e levou-a ao filósofo. Este a leu, achou-a bastante exata, e nem por isso chorou menos.

Três meses depois tornaram a encontrar-se, e muito se espantaram de achar-se mais alegres. E mandaram erigir uma bela estátua ao tempo, com a seguinte inscrição:

ÀQUELE QUE CONSOLA...




Voltaire
(pseudônimo de François-Marie Arouet)
(1694-1778)


domingo, 11 de outubro de 2009

Uma Reflexão Ecumênica


O homem tem vários direitos, inclusive o de permanecer na escuridão e na ignorância voluntária. Mas o homem que busca a luz do conhecimento também merece existir. Não devemos silenciar o filósofo, o poeta e os artistas. Não devemos sufocar a voz do estudioso e do homem de espírito. Deixemos que eles expressem opiniões, deixemos que distribuam suas pérolas àqueles que sentem necessidade delas.

A Busca do Esclarecimento


Aquele que busca o conhecimento intelectual e moral não é, em hipótese alguma, um homem imaculado que já descobriu o enigma da vida. Aquele que busca o conhecimento não está acima do bem e do mal. Ele apenas compreende que existe dentro de si uma natureza humana e uma natureza de Deus. Torna-se mais responsável do que os outros homens, pois a sua primeira missão íntima é compreender a natureza divina para poder esclarecer a sua natureza de homem. Aquele que recebe a dádiva do conhecimento é apenas um homem que sabe um pouco mais que o seu lado luminoso é o que está esclarecido, e que o lado sombrio é a sua dúvida, e também a sua ignorância dos desígnios de Deus. Aquele que obteve esse esclarecimento na mente e no coração, ainda que tenha muitas virtudes, sente uma grande vergonha pelo pequeno “pecado” que comete, e tenta se corrigir. Ele sabe que está incomensuravelmente distante da perfeição, mas sabe também que está dando mais um passo em sua busca da espiritualidade transcendental.

Quando falo em homem refiro-me à humanidade, representada pelos elementos masculinos e femininos: o Homem e a Mulher, que possuem valores idênticos e que se complementam.


Lembranças de História

Eu creio que é necessário perder a ingenuidade. Não podemos fechar os olhos para as múltiplas formas de conhecimento. Natureza, homens e livros podem nos transmitir o saber. Há sabedoria em muitas fontes. Cabe a nós buscá-la e descobri-la sob o véu das ramagens.


A Religião precisa de unir-se à Ciência e, da mesma maneira, a Ciência precisa dar as mãos à Religião, sendo a Filosofia a mediadora de ambas. Só assim o dogmatismo imperioso e o materialismo vazio podem ser extintos para que todos os homens cresçam em uma mesma fé consciente. É preciso intuir e também pensar. A fé cega é uma lástima. Quase sempre ela gera o fanatismo religioso, que é perigosíssimo. A História nos alerta para esse desequilíbrio. A sede de poder de alguns, aliada à ignorância das massas, já condenou à morte muitas pessoas inocentes e também homens santos e espiritualistas bem-intencionados.


Sentimo-nos um pouco assustados quando lemos e meditamos sobre as crônicas do Velho Testamento: guerra, violência e mais guerras em nome da grandeza de Deus. Como compreender isso? Depois, com o objetivo de seguir as boas-novas do Novo Testamento, as Cruzadas e a Inquisição exterminaram multidões em nome das palavras santas de Jesus. Como compreender isso? Os jesuítas batizaram os índios com água e fogo. Não posso ter entendimento sobre isso. E o mais triste: recentemente, na Irlanda, católicos e protestantes, irmãos nascidos de um mesmo Evangelho, disputando “de espada na mão” quem pode estar com a única verdade, matando-se uns aos outros, e esquecendo-se do profeta filósofo da Galiléia, que sempre pregava o perdão.

Nos tempos atuais, acompanhamos pelos noticiários as conseqüências da fé cega: pregadores enlouquecidos levando ao suicídio centenas e centenas de seguidores. Essas pessoas crédulas não viviam em aldeias dos confins do Paquistão; eram cidadãos do primeiro mundo: da Europa e dos Estados Unidos, viviam na Civilização “adiantada”, tinham olhos para ver e não viam. Sim, é muito necessário o conhecimento. Sem ele não há discernimento.

No decorrer da História, desde os sumérios até os dias atuais, o jogo do poder reveste-se de coroas e túnicas sacerdotais, e as massas são meros peões no tabuleiro de pequenos grupos dominantes.


Por outro lado, como poderíamos nos esquecer de tantos intelectuais e cientistas, alguns friamente assassinados; outros, humilhados vergonhosamente, apenas porque mostraram de outro ângulo as verdades dos profetas? Um deles, o físico Galileu Galilei foi obrigado a dizer que estava mais ou menos louco quando proclamou que a Terra não estava parada, que sim sim, em verdade ela se movia. Se ele não fosse amigo do papa, e mesmo assim, se não voltasse atrás e negasse o próprio enunciado científico, seria morto, com certeza. Até há pouco tempo o seu processo inquisitório estava pendente, esperando solução. Já o filósofo Giordano Bruno foi mais infeliz: foi mesmo jogado na fogueira. E só não cozinharam o astrônomo Copérnico porque ele havia morrido um pouco antes da publicação de seu tratado, no qual falava do movimento duplo dos planetas, que eles giram sim em torno do sol e que a terra é apenas um pequenino corpo no Universo. É fato, é história, é evidência.

Ora, essas foram agrúrias da Idade Média, hoje as coisas mudaram – muitos dirão. Mudaram sim, mas somente nas aparências, pois, ainda hoje, às portas de um novo milênio, a falta de discernimento e o fanatismo continuam, e muita gente gostaria de jogar na fogueira os livre-pensadores, incluindo entre eles, por incrível que pareça, aqueles que pregam o ecumenismo. Mas, como não é permitido nos dias de hoje sair por aí acendendo fogueiras com esse mau intuito, então, os inquisidores de tantas e diversas crenças humilham, ridicularizam e apontam com o dedo: oh, aquele ali não pensa como nós. Ironia à parte, eu confesso: tenho medo dessas distinções.


Muitos Caminhos e Muitas Verdades


Nenhum homem ou mulher, em juízo perfeito, pode aclamar-se dono de uma única verdade, já que muitos são os caminhos e inúmeras são as portas. Lembro-me de Jesus que disse: “Na Casa de meu Pai existem muitas moradas.” Todas as doutrinas que pregam a existência da alma e indicam como caminhos o Amor, a Justiça e a Caridade já estão de posse de verdades divinas. Toda doutrina possui a sua lei, e quase sempre ela é ministrada de maneira inflexível. Mas a lei está escrita na pedra. A pedra não é viva. Vivo é o coração do homem, que amplia o significado da lei conforme a evolução de seu espírito. Penso que, demorando ou não, o santo, o sacerdote, o intelectual, o homem comum porém virtuoso, e até mesmo o pária, o homem violento e o assassino, todos chegaremos a um mesmo lugar, ou seja, a um estágio espiritual semelhante. É só uma questão de tempo e de esclarecimento para todos chegarmos lá. Porque, no fundo, todos buscamos o mesmo Deus, apenas compreendido de maneiras diferentes. Então, por que todos nós, irmãos neste planeta de expiações e de crescimento espiritual, não podemos ser condescendentes uns com os outros, darmos as mãos e juntos tentarmos compreender as infinitas faces de Deus?

O autor desta reflexão só almeja a paz, não tem a pretensão de ser mestre de quem quer que seja, e muito menos profeta, se bem que não é muito difícil antever os acontecimentos nestes loucos e tumultuados tempos modernos. Não, longe disso. Antes ele prefere continuar na esperança de um dia ver todas as gentes, não em grupinhos, e sim como uma única irmandade no planeta, ajudando-se uns aos outros, com os olhos em direção ao Pai Celestial e com os lábios próximos ao coração da Mãe-Terra. Enquanto isso não acontece, a tão esperada confraternização, posso também, com o coração sincero e com a consciência límpida como o dia, fazer a minha oração fraterna:

Viva o Anjo Jesus, que foi humilde pela via cruci, como um cordeiro que se leva para o sacrifício! Dou vivas aos cristãos primitivos, puros no misticismo crístico: Viva o pescador Simão Pedro, a rocha angular; viva João, o teólogo e também Paulo de Tarso, o doutrinador ! E viva Francisco de Assis, o santo mais puro, que amou homens, pássaros e feras! E que vivam em paz, por eles, todos os cristãos de hoje: católicos, protestantes, ortodoxos e evangélicos, e mais ainda aqueles que enxergam, que amam e perdoam! Viva também Moisés que libertou, legislou e conduziu um grandioso povo sem pátria! Viva Salomão, o sábio que pediu mais sabedoria! Viva o legislador Rama, viva Krisna e toda a vastidão dos Vedas e do Hinduísmo! Viva Buda, o Anjo filósofo que também pregou Bondade, ampliando o Amor não só aos humanos mas a todos os seres vivos ! Que vivam as doutrinas filosóficas da China colhidas do sublime I-Ching e das palavras de Lao-tsé e Confúcio! Viva Maomé e vivam aqueles que compreendem o verdadeiro objetivo do Corão! Viva Kardec que compilou e viva Leon Denis que divulgou a doutrina consoladora! Que vivam os crentes lúcidos, as testemunhas de Jeová e todas as seitas independentes que desejam melhorar o homem! Viva a santa madre Teresa de Calcutá, que nos dias atuais é o símbolo máximo do altruísmo e amor pelos irmãos! Que vivam em plena Luz todas mulheres e homens de boa vontade! E que continuem vivendo também para os estudiosos a riqueza esotérica deixada pelo Egito, Grécia e Pérsia Antiga através das palavras de Hermes, Akhenaton, Orfeu, Pitágoras, Sócrates, Platão e Zaratrusta! Pois existe água viva em muitas fontes. Precisamos é apurar o paladar e abrir bastante os olhos e os ouvidos.


E livrai-nos, ó Deus de todas as raças, ó Deus de todas as crenças, livrai-nos do fanatismo!


Toda luz
é obra do Pai Eterno.
A ignorância do homem
é a sombra dessa luz.




(Publicado em 1995, inicialmente no Imprensa Livre de Muzambinho; depois no Avatar de Cuiabá e na Folha de Campinas, etc.)

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Johann Wolfgang von Goethe: 3 Canções


Canção de Mignon

Conheces a região do laranjal florido?
Ardem, na escura fronde, em brasa os pomos de ouro;
No céu azul perpassa a brisa num gemido...
A murta nem se move e nem palpita o louro...
Não a conheces tu? Pois lá... bem longe, além,
Quisera ir-me contigo, ó meu querido bem!

A casa, sabes tu? em luzes brilha toda,
E a sala e o quarto. O teto em colunas descansa.
Olham, como a dizer-me, as estátuas em roda:
- Que fizeram de ti, ó mísera criança!
Não a conheces tu? Pois lá... bem longe, além,
Quisera ir-me contigo, ó meu senhor, meu bem!

Conheces a montanha ao longe enevoada?
A alimária procura entre névoas a estrada...
Lá, a caverna escura onde o dragão habita,
E a rocha donde a prumo a água se precipita...
Não a conheces tu? Pois lá... bem longe, além,
Vamos, ó tu, meu pai e meu senhor, meu bem!

O Reencontro

ELE:
Por que estás hoje esquiva, ó minha doce amiga?
Concede um beijo a mais a estes lábios famintos...
A árvore hoje, como ontem, tem os ramos retintos
de flores que alimenta, sustém, renova e abriga.
Comparavas meu beijo às abelhas inquietas
que buscam sem cessar a flor dos seus amores,
sussurrando, a zumbir, nas moitas prediletas
o seu canto de gozo, hino ao perfume e às cores...
Ébrio de azul, de luz, perfume que bebeu,
o enxame sem descanso a faina continua...
Não há flores no chão, nenhuma planta nua...
Será que a Primavera só para nós morreu?

ELA:
Aperta-me ao teu peito! Ontem nos separamos!
E a saudade é mais suave do que todo desejo.
Sonha, querido amigo! A lembrança de um beijo
é mais doce que todos os beijos que trocamos...
A noite sem piedade veio nos separar.
Foi tão triste, à tardinha, o nosso adeus de ontem!
Que as Primaveras sempre para nós dois repontem
nas árvores, nas flores, nos frutos do pomar...

Anelo

Só aos sábios o revele,
Pois o vulgo zomba logo:
Quero louvar o vivente
Que aspira à morte no fogo.

Na noite – em que te geraram,
Em que geraste – sentiste,
Se calma a luz que alumiava,
Um desconforto bem triste.

Não sofres ficar nas trevas
Onde a sombra se condensa.
E te fascina o desejo
De comunhão mais intensa.

Não te detêm as distâncias,
Ó mariposa! e nas tardes,
Ávida de luz e chama,
Voas para a luz em que ardes.

"Morre e transmuda-te": enquanto
Não cumpres esse destino,
És sobre a terra sombria
Qual sombrio peregrino.


Johann Wolfgang von Goethe (1749-1832)


Tradução de
João Ribeiro (1) Roquette Pinto (2) Manuel Bandeira (3)

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Handel: Dettingen Te Deum & Anthem, com o Coro da Abadia de Westminster, dirigido por Simon Preston



HANDEL mudou-se definitivamente para Londres em 1717, quando assumiu o lugar de um dos maiores compositores nascidos na Inglaterra, Henry Purcell, que morrera cedo, em 1695, com apenas 36 anos. A partir de então, Handel, com sua poderosa e versátil inspiração, deu continuidade à obra de Purcell.

Além das odes comemorativas típicas da música britânica, revitalizou a música coral através de mais de 40 oratórios sacros e seculares, hoje famosíssimos. O músico alemão também contribuiu muito para a liturgia anglicana, compondo inúmeros anthems, que estruturou como cantatas, dentre os quais destacam-se os Chandos Anthems. E mais 5 Te Deum. O último deles, Dettingen Te Deum, é obra-prima absoluta.

Esta peça solene surgiu em 1743 para celebrar a vitória da Inglaterra e seus aliados contra o exército francês, que ocorrera em Dettingen, na Bavaria, sob o comando do rei George II e de lorde Stair. O grande hino composto por Handel foi encomendado para a festividade de agradecimento pela batalha ganha. Para a ocasião também foi apresentado outro hino, de proporções menores, mas não menos belo: o Dettingen Anthem. Dettingen Te Deum é uma das mais belas obras de Handel. Hoje é pouco lembrada pelo seu motivo original e sua relação com a história marcial britânica. Outrossim, essa imponente e vasta cantata, com árias e predominância do coro polifônico, foi adotada por várias nações como um hino de júbilo, que se celebra após o tormento e as aflições de qualquer guerra, física e espiritual. Semelhante a Ode an die Freude (Ode à Alegria) de Schiller-Beethoven, é um cântico de louvor à paz mundial.

___________

Choir of Westminster Abbey
Christopher Tipping, alto (Te Deum & Anthem)
Harry Christophers, tenor (Te Deum)
Stephen Varcoe, bass (Te Deum)
Michael Pearce, bass (Anthem)

The English Concert
Trevor Pinnock, organ

SIMON PRESTON, director

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quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Anotações atrás da Cortina (3)


onde estará Salomé
a dançar os rutilantes véus?
o sorriso branco os cílios azuis
as franjas de ébano
as coxas esguias o ventre arfante
onde estarão?

no palácio ainda ecoam
gemidos e lascívia dos festivos
ainda ecoam no palácio
a sofreguidão de Herodes
e os gritos mudos de João

cadê a súplica dos lábios quentes
da princesa dos desvarios?
que notícias me dão do calabouço
e das câmaras mortuárias?
e onde estará aquele
que engoliu o silêncio na hora sexta
antes da festa dos proscritos?

vive ainda Salomé
no contorno das sombras
no pátio rendado de tarântulas
a fitar os olhos ocos de João
na rútila do vento
no escárnio do riso
os gritos mudos de João

e dança... e dança...





terça-feira, 8 de setembro de 2009

Anotações atrás da Cortina (2)


Quando a luz incide na escuridão,
formas grotescas
revelam-se-nos
reais
e distantes da beleza,
que nos atemorizam
e com as quais temos que lutar
para compreendê-las
e talvez vencê-las.

É a luta com o Anjo,
da qual Jacó saiu ferido,
porém muito mais forte.



Anna Muylaert: Durval Discos



O surpreendente Durval Discos, talvez uma obra-prima do cinema nacional, foi a estréia em longa-metragem da roteirista e diretora Anna Muylaert.

Recebeu, merecidamente, no 30. Festival de Gramado de 2003 os principais prêmios: filme, direção, roteiro, fotografia, direção de arte e trilha sonora. Sem dúvida, uma obra como essa só pode engrandecer o Cinema Brasileiro, que nos últimos anos renasceu com brilho; nem todas as realizações alcançaram resultados positivos, mas várias merecem o elogio da crítica internacional.

Definir Durval Discos simplesmente como 'comédia negra', como alguns fazem, é ato absurdo e inconsequente, porque a obra é muito mais do que isso. Há sim em todo filme insinuações irônicas, há humor sarcástico, mas aos poucos a trama nos conduz a um sombrio labirinto que nos lembra a condição humana, a nossa incapacidade de conduzir o próprio destino. Assim como o disco de vinil, o lado A do filme é apenas a preparação para o que virá depois: o lado B, e este não é motivo de riso, é horror transformando-se em tragédia.


A atuação do elenco é de ótimo nível, com destaque para a atriz Etty Fraser. A fotografia de Jacob Solitrenick e a direção de arte de Ana Mara Abreu complementam-se de maneira admirável. Muito competente é a direção geral de Anna Muylaert, que também assina o roteiro. E este é o ponto alto do filme.

Solidamente estruturados, argumento e roteiro cinematográfico tomam de empréstimo o que há de melhor em literatura. A incessante andança dos personagens pela casa lembra Dostoievski; o desenrolar inusitado da trama remete-nos a Ibsen; mas o clima de ansiedade é kafkeano. Não é surrealismo como muitos interpretam, mas sim realismo fantástico. Os personagens – a velha e a criança – não encaram os acontecimentos como ocorrências oníricas, outrossim, como fatos reais e normais do cotidiano. Somente o dono da discoteca – um homem adulto, vivendo portanto fase intermediária, entre a infância e a velhice – se espanta com o desenrolar dos acontecimentos.

Apenas o desfecho me deixou um pouco insatisfeito. Poderia ser melhor concretizado, de uma maneira mais impactante. Mesmo assim está de acordo com uma das mais impressionantes frases do filme, talvez a chave da desesperança humana: “Agora é só esperar virar pó.”

Durval Discos não é uma obra otimista. Antes de qualquer coisa, é realista e verdadeira, apesar da estrutura e da atmosfera onírica.

(Ailton Rocha, resenha de 12-05-2005 à revista Câmara, Ação! de Campinas)

______________
Durval Discos
Direção e Roteiro: Anna Muylaer
Elenco: Ary França, Etty Fraser, Marisa Orth, Isabela Guasco, Letícia Sabatella

Produção: Sara Silveira e Maria Ionescu
Fotografia: Jacob Solitrenick
Direção de Arte: Ana Maria Abreu
Trilha Sonora: André Abujamra
Duração: 96 min.
Ano: 2002
País: Brasil

sábado, 29 de agosto de 2009

Esquecimento


não se morre só quando se fecham os olhos
ou cessam de respirar os pulmões

se existem muitas formas de morrer
também morre o coração - aos poucos

na omissão do aceno tão esperado
no cruel silêncio de alguém que amamos

morre-se um pouco a cada dia
pela ausência da palavra que nunca chega

morre-se como galhos que se esgarçam
tentando abraçar os contornos da tarde

morremos - parcelas inexatas – fielmente
no acúmulo do carinho mendigado

um dia emudece a essência da alma
extingue-se a esperança, antes tão farta

e do amor sobra apenas uma ponte retorcida
em cujas tábuas soltas o abismo vence


quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Fernando Pessoa: Prece


Senhor, que és o céu e a terra, que és a vida e a morte! O sol és tu e a lua és tu e o vento és tu! Tu és os nossos corpos e as nossas almas e o nosso amor és tu também. Onde nada está tu habitas e onde tudo está - (o teu templo) - eis o teu corpo.

Dá-me alma para te servir e alma para te amar. Dá-me vista para te ver sempre no céu e na terra, ouvidos para te ouvir no vento e no mar, e mãos para trabalhar em teu nome.

Torna-me puro como a água e alto como o céu. Que não haja lama nas estradas dos meus pensamentos nem folhas mortas nas lagoas dos meus propósitos. Faze com que eu saiba amar os outros como irmãos e servir-te como a um pai.

[...]

Minha vida seja digna da tua presença. Meu corpo seja digno da terra, tua cama. Minha alma possa aparecer diante de ti como um filho que volta ao lar.

Torna-me grande como o Sol, para que eu te possa adorar em mim; e torna-me puro como a lua, para que eu te possa rezar em mim; e torna-me claro como o dia para que eu te possa ver sempre em mim e rezar-te e adorar-te.

Senhor, protege-me e ampara-me. Dá-me que eu me sinta teu. Senhor, livra-me de mim.


(Em Obras em Prosa: O Eu Profundo, Ed. Nova Aguilar)

Fernando Pessoa (1888-1935)

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Este curto texto do grande poeta português Fernando Pessoa encontra-se espalhado pela Net. Repeti-lo aqui não seria necessário, mas o faço por admiração e tributo. A Prece é muito apreciada por leigos e especialistas, com razão, pois o conteúdo sincero e vasto que há nela vai muito além de credos pessoais ou de confrarias. Penso mesmo que deveria ser reconhecida como um elo entre as religiões para promover o verdadeiro Ecumenismo.

Teóricos da literatura, psicólogos, parapsicólogos, místicos e esotéricos, todos tentam explicar o fenômeno dos heteronômios em Fernando Pessoa. No entanto, esquecem que o próprio poeta escreveu longamente sobre o assunto, atribuindo vida própria aos inúmeros autores que co-escreveram a sua obra; segundo ele, não eram personagens mas sim entidades, tanto que discordava veemente de alguns, muito mais de Alberto Caieiro, como podemos notar nesse trecho de carta:

“(...) escrevi com sobressalto e repugnância o poema oitavo do ‘Guardador de Rebanhos’, com a sua blasfêmia infantil e o seu antiespiritualismo absoluto. Na minha pessoa própria, e aparentemente real, com que vivo social e objetivamente, nem uso da blasfêmia, nem sou antiespiritualista. Alberto Caieiro, porém, como eu o concebi, é assim: assim tem pois ele que escrever, quer eu queira, quer não, quer eu pense como ele ou não. (...)”Não é ilógico crer que os diversos autores que participaram da obra de Fernando Pessoa eram "pessoas" distintas. Apesar da discordância dos céticos, este é um caso nítido de mediunidade, da qual o poeta tinha consciência e, apoiado em sua erudição, explicava.

Pessoa era um esotérico, um iniciado que conhecia com profundidade as chaves secretas de várias fraternidades. Tinha na previsão da Astrologia, entre outras, uma espécie de condutora para os seus passos, associada à lucidez da lógica filosófica. Basta dizer que despertou o interesse de Aleister Crowley, o maior bruxo do século XX. Vários encontros ocorreram entre os dois.

Mas não tenho dúvida, diante da comparação dos estilos, que a Prece acima transcrita pertença a Fernando Pessoa, ele mesmo.

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Cícero Acaiaba: Fronteira do Reino


Refração

Há uma fronteira que não se deve transpor
fica entre a névoa e o reinado de aquário
sua porta é espelho convexo
quem olha pra trás vira estátua de pedra
quem olha pra frente
seu lúdico reflexo.
Os que ousaram espreitar as mãos
entre as frinchas fluidas
e tatearam o palpitante ossário
decifram o silêncio
dos suicidas.
Há uma fronteira
que divide o homem em partes iguais:
depois do primeiro passo
não poderá retroceder jamais.

Jardim Inefável

No muro, um simples traço. É só tocá-lo
e o jardim submerge por encanto.
Noite densa de luzes afogadas,
profundamente abismo em que se esconde

no próprio enigma. Do lado esquerdo,
um rio de asas trêmulas, fugindo
imóvel. À direita, estátuas olham

para o silêncio, onde germina o tempo.
E nada existe além do grande medo,
nem sequer a lembrança de uma estrela
boiando as sombras do jardim perdido.

O muro cada vez fica mais longe,
até que resta apenas o sussurro
das nuvens de outro céu amanhecendo.

Música Invisível

No fundo da alameda a água que lembra:
reflexos tão velhos esgarçados
e um pássaro no vôo interrompido.

A tarde sopra névoas de silêncio,
e tudo fica imóvel no jardim.
Apenas uma estátua quase morta
sorri, pra naufragar depois no sonho.

A sombra escorre calma na alameda,
subitamente o vento passa, o instante
das pétalas e folhas desfiarem
a surdina do eterno encantamento.

Mas os grilos, por mágica da noite,
começam a quebrar em sons de prata
o invisível espelho dessa música.

O Mito

Andei por tanto tempo à procura do mito,
entre escuros caminhos, e veredas frias.
Da frágil relva ao sólido granito
varando noites, viajando dias,

busquei a essência misteriosa do infinito.
Porém, por todo o reino, as órbitas vazias
das clareiras calavam como um grito,
cujo eco perdeu-se em longes serranias.

Exausto, dominando a custo meu cansaço,
estrelas a orvalharem todo o espaço,
achei o sono em doce alfombra.

E em sonho eu vi então, nitidamente,
o mito me fitando frente a frente
com seu rosto de sombra.

Espelho

O espelho sorve aos poucos outra imagem,
e deixa a sombra cega no seu ermo
de trastes cismativos, de roupagem
enrugada e poeira fria. O termo

da planície é o enigma da miragem:
olhos de estátua sob um sono enfermo,
e mãos caladas lendo a tatuagem
na areia da alma onde há fluir de aragem.

Espelho a dentro mil lembranças agem,
vozes esgueiram calmas, de repente
cabelos naufragando à luz inquieta.

O trêmulo reflexo da celagem
fere por fim interminavelmente
o coração numa invisível seta.

A Semente da Noite

Da semente da noite nasce o sono:
flor de lótus perfuma com silêncio
os olhos que morreram sem amor
e se orvalharam de névoa e escuridão.

Tristes esperam, juntos e sozinhos,
a luz da madrugada há um milênio,
e ouvem girar o mundo em derredor,
imóveis, esquecidos sob o chão.

Até o último gesto, apelo inútil,
talvez saudoso estigma de adeus,
secou nos ossos da vazia mão.

O tempo inexorável já transforma,
- e para sempre, asperamente fria –
em pedra o que antes era coração.

Solidão/Limite

Aqui é o teu limite: não prossigas.
Baste à tua volúpia o sonho raro
de tecer a distância. Ou a infância
aprisionar em castelos de areia.

A fronteira se perde em vago oceano,
e os veleiros de um mundo singram veias
de ácido e lodo. Fica no teu reino,
aqui é teu momento de repouso.

Não mais o medo desta solidão,
nem silvos de vinganças rastejantes:
talvez a morte de nascer apenas.

Ultrapassar a linha deste mapa
é o mesmo que gritar na pedra sem
que te responda o eco de ninguém.


(poemas e sonetos selecionados de
"Fronteira do Reino", 1988, Ed. João Scortecci)


Cícero Acaiaba (1925-2009)


quarta-feira, 29 de julho de 2009

Villa-Lobos: Choros No.6 por Roberto Tibiriçá




Este CD é maravilhoso! O que encanta e impressiona aqui é a excelência de Roberto Tibiriçá regendo o Choros No.6 de Villa-Lobos. Encarnou de tal forma o espírito do criador da obra que duvido existir outra interpretação que a supere. Toda vez que a ouço não consigo conter o entusiasmo e grito: Bravo!!!! Grande Villa-Lobos! Grande Roberto Tibiriçá e músicos da Orquestra Sinfônica Petrobras Pró Música! Sem qualquer dúvida, deram mais vida a essa obra-prima pertencente aos Choros, a mais importante série do maior compositor brasileiro.

O Trenzinho do Caipira, como todos sabem, faz parte da belíssima suíte 'Bachianas Brasileiras No.2'. Escrita em 1930, a peça com o título principal de 'Toccata' é uma pitoresca viagem pelas cidades do interior paulista sobre as rodas sacolejantes de uma maria-fumaça. Em seus tempos de Paris, Villa-Lobos ouviu a fantasia orquestral Pacific 231 de Arthur Honegger, e transpôs a ruidosa locomotiva de lá para as paisagens rurais daqui. Sem exagero nacionalista, a orquestração do Villa no Trenzinho do Caipira ficou muito mais bela e criativa e, pela comovente melodia, mostra muito mais calor humano.

O Choros No.6, que a antecede em quatro anos, é também um percurso de trem, mas desta vez pelo Rio de Janeiro, estado natal de Villa-Lobos. A viagem inicia na cidade do Rio com a festa do Carnaval; depois continua pelas pacatas cidades interioranas, relembrando valsas e modinhas de seresteiros em coretos e praças, costumes já nostálgicos; há também a evocação da natureza, sugere os rios e a vegetação da mata atlântica. O percurso termina da maneira como iniciou: na apoteose carnavalesca da avenida carioca. Trata-se de uma peça repleta de cores e ritmos, que nos deslumbra: é som, sabor e cheiro de um Brasil legítimo, cuja diversidade de paisagens e riqueza musical é motivo de orgulho. O fato da gravação ser ao vivo consegue mais ênfase a esse arrebatamento.

Já o Concerto para Piano e Orquestra em Formas Brasileiras, de Hekel Tavares, apesar de belo e rico em melodias folclóricas, não é uma peça tão sensacional quanto as de Villa-Lobos. Não há como camuflar essa constatação, o que não significa falta de qualidade da obra. É um concerto encantador, ainda mais sendo Arnaldo Cohen o pianista.

Os apreciadores da boa música precisam conhecer mais os nossos mestres clássicos, os antigos e os modernos. São muitos, mas cito alguns dos maiores, que criaram obras do mesmo nível dos grandes compositores europeus: Pe. José Maurício, Carlos Gomes, Henrique Oswald, Alberto Nepomuceno, Heitor Villa-Lobos, Francisco Mignone, Lorenzo Fernández, Camargo Guarnieri, César Guerra-Peixe e Cláudio Santoro.

Quem se sentir atraído por essa viagem, e resolver se aprofundar nas obras desses mestres, não se arrependerá.

Aqui, o belo CD com as obras de Villa-Lobos e Hekel Tavares, presente do maestro Tibiriçá a este blog e a todos que apreciam música de qualidade. 

Download MP3 320 kbps:
VillaLobos.HTavares.Tibirica.Cohen.zip




quarta-feira, 22 de julho de 2009

Paráfrase e Alegoria


Os Três Filhos Ingratos (conto-paráfrase)


1 Deus, após criar o mundo e todas as coisas, criou também o homem. Depois descansou, porque amassar, moldar, assoprar e dar vida ao barro não é tarefa para qualquer um.

2 Aconteceu que nesse momento de cochilo, Ele permitiu que o Diabo criasse a mulher, a mesma que induziu o homem a comer a maçã vermelha, descobrindo assim, ambos, o desejo para sempre e todo o sempre.

3 “Serás Deus”, disse o Diabo em formato de Serpente, e riu às largas, lançando esse gracejo burlesco, alimentando no primeiro casal a sua própria ambição de usurpador. E assim foi criada a verdadeira raça que rasteja.

4 Deus tomou ciência da traição de ambos e ficou irado ao observar os atos de sua obra. Chorou pelo homem. Assumiu o erro, pesaroso. Quanto à mulher, fechou um olho, porque não era criação diretamente sua.

5 Um pouco confuso, Deus sorriu no canto dos lábios, que é o modo dos inteligentes diante das futilidades das coisas: “Essa que aqui está é mais filha da Natureza do que minha. E vejo que o anjo rebelde, outrora filho predileto, fez mais uma de suas travessuras. E sendo essa mulher mais neta do que filha, e sendo todos partes de mim, todos os erros eu assumo. Mas é preciso ministrar um castigo provisório”.

6 E abaixou a cabeça, um pouco envergonhado, evitando olhar para cima, temendo o descaso do outro Deus, mais poderoso e que habita alturas mais inacessíveis. Porque não é de duvidar que, nessa hierarquia de Deuses, perdem-se de vista os patamares. Acima de um Deus sempre existe outro Deus mais lúcido e menos sujeito a falhas, sugerindo a nós, vermezinhos, a idéia de quão distantes estamos da redenção, e que nos consolemos uns aos outros nessa condição de sinuosa vertigem.

7 Foi assim que o Deus de nosso círculo celestial mais próximo teve que agir: expulsou a mulher e o homem do Paraíso, condenando-os a tirar do próprio suor a sobrevivência na Terra, deixando-lhes como diversão os prazeres da carne, bem como as delícias da procriação para terem a ilusão de serem pequeninos deuses.

8 Tu, Adão, que veio de um barro gelatinoso, sairás a trabalhar a argila e construirás cidades e retornarás à mesma poeira de que foram feito teus ossos e tua carne. Serás como aquela matéria grosseira, colado às pedras, mal acabado, almejando individualidade mais amena. Às vezes obtuso, às vezes brilhante, reinarás sobre os bichos da terra.

9 Eva, tu, composta de um pedaço de osso, mais resistente e mais refinada, serás o complemento. Onde falhar a praticidade de Adão, tu reinarás pela intuição nos assuntos da alma. Ainda assim estarás associada à matéria. Quando não estiveres rastejando em gemidos de parto, estarás cumprindo o ciclo da lua, limpando o sangue das pernas. Será tua paga pela curiosidade no episódio do jardim, por seres tão tola ao acreditares nos apelos da serpente astuta. E, Homem, tu, mais tolo ainda por não refletires, estarás obrigado por lei a amparar a tua mulher nos dias de fluxo. E aconselho-te que tenhas paciência! Senão os teus dias serão bem piores naquele inferno para onde ireis.

10 Ambos conhecereis o declínio da beleza. Chegará o tempo, Adão, que o teu vigor decrescerá a olhos vistos. Não coordenarás os teus passos. As tuas vistas ficarão turvas. E qualquer moleque de aldeia direcionará as tuas pernas para caminhos alheios à tua vontade. Eva, que vives a valorizar as delicadezas, tu, apesar da sedução do rosto belo e das carnes firmes e dos peitos erectos e das coxas roliças e do púbis ardente, um dia também enrugarás como um pergaminho e tornarás ao pó e nada mais!

11 Homem e Mulher criarão a vida a partir do fruto proibido, mil vezes remoído e triturado, a gotejar um sumo doce e amargo nos vales da Terra. Mas valerá a pena, pois conhecereis o gozo no cio em escandalosos uivos de felicidade. Serão rápidos, é bem verdade, mas vão compensar toda a arrastada dor da existência. Os chistes amorosos e o jogo das seduções não vos diferenciarão dos outros animais da terra. Haveis de cometer os mesmos desvarios e não sereis superiores aos símios, ou aos cães ou às porcas em cio. Rolareis na mesma lama, e perdereis o sentido da dignidade todas as vezes que o desejo correr em vosso sangue. Chegará o tempo em que o prazer não será suficiente para amenizar o desespero pela ausência de afeto. Os filhos de Adão não vão respeitar as filhas de Eva, fechando os olhos à necessidade que elas têm sobre as coisas do coração. E como vingança elas vão amordaçar as próprias entranhas para que eles não as penetrem totalmente. A estirpe de Adão haverá de pensar que possui o domínio, ouvirá uivos (simulados) mas, lá no fundo bem fundo, só haverá o ressentimento e posse nenhuma. O membro de Adão chegará apenas nas proximidades do coração de Eva. O abismo da solidão reinará sobre a alma humana. E nada mais.

12 De teu ventre, Eva, nascerão os filhos para que o vazio da existência te seja ilusoriamente preenchido. Abel e Caim, assim serão chamados os da progenitura. Na testa de um, desejoso da prática do bem, estará a marca da ingenuidade, do sorriso manso; o outro será astuto e desprovido de escrúpulos. E o restante da imensa prole será a dos indecisos que correm como o vento sem direção sob a liderança efêmera ora dos bons ora dos maus. Saiba desde já que de todas as maneiras os maus abaterão os bons. E a honestidade será motivo de riso. Nos malfeitores o arrependimento pouco durará, porque na terra do suor e das delícias pouca serventia há em ser bom. E os pais criarão os filhos para o mundo, e estes certamente vão dizer impropérios e vão se lançar às estradas. Porque desde muito cedo os filhos hão de rir dos conselhos e não vão respeitar as claras madeixas dos velhos, porque naturalmente nada hão de saber das armadilhas do mundo e do vinagre da vida. E quando estiverem aptos para a compreensão e retornarem ao lar para as saudações e gratidões já há muito tempo estarão os genitores irmanados com a poeira da terra.




13 Não queirais me indagar o motivo de tudo isso. Apenas vos digo que dou a prisão para que com o esforço do suor conquisteis a própria abundância. Por ele há de vir a libertação. O fruto que proibi e na curiosa comilança me desobedecestes é o conhecimento que só deveria chegar-vos no momento certo. Tu e ela roubaram o meu jardim, auxiliados por aquele que rasteja, o ambicioso maior. Sim, há inocência em vossos atos. Mas enxergardes, e coisas vistas são coisas conhecidas. Necessário é que arqueis com o peso desse antecipado conhecimento, colhido no impulso da inexperiência. Por isso, dou-vos a dor para que vos liberteis por vós mesmos. No fim de tudo, de todo conhecimento burlado, reinará a Vida. Eva, tu que roubaste a maçã, por muitos milhares de anos verterás o sangue que regará os nascimentos de onde surgirão civilizações. Serás chamada a Mãe da Vida, e por isso redimirás a ti e ao teu companheiro, Adão. E através desse teu ventre de Terra até mesmo o arcanjo rebelde encontrará o portal do retorno. Eva, o teu sangue será a redenção de todos os pecados gerados pela antecipação. Não me queirais mal, filhos e neta. Sou apenas Pai e Avô. E quando vos transformardes, vós e toda a Humanidade, em Deuses também, quando tereis encontrado a imagem da perfeição que almejo para vós, então, abrirei novamente as portas de meu Jardim.

14 O Supremo, por fim, dizendo tudo isso, de repente parou os gestos e ficou olhando o seu jardim. Talvez risse da exuberância de seus frutos proibidos. E não disse mais nada. Indicou a porta de saída aos dois filhos ingratos. Cansado de tudo, ergueu-se e foi empurrando também a Serpente e sua hoste para o abismo.

15 Desde então, o único conselheiro do homem e da mulher tem sido esse mesmo irônico Diabo, que às vezes se veste de misericordioso e cria religiões só para variar.


16 E Deus permaneceu triste, desamparado e sozinho em seu Paraíso. Os arcangélicos Miguel, Rafael e os outros, bem como os serafins e os querubins eram bons e eram justos, mas não podiam compreender a dor humana do Divino.


O Quarto Filho Ingrato (alegoria)
 
1 Então Deus resolveu criar um outro tipo de filho para fazer-lhe companhia.

2 “Serás masculino e feminino e essa será a única Imagem em cada lado do espelho! Como Espírito serás feito de excessiva inteligência e de exacerbados sentimentos. Revestido de sete cores, de sete sons, de sete palavras, serás profundamente conhecedor da beleza que existe tanto na luz como nas trevas.”

3 Mas esse novo filho cansou-se da companhia de Deus e quis fugir para conhecer a Terra, que é, como foi dito e repetido, exílio de dor e de delícias. Aqui ficou durante um tempo razoável e cansou-se também dos homens e de suas tolas vaidades e de suas estúpidas paixões.

4 E retornou ao Céu, pedindo humildemente a Deus: “Tanto o Céu como a Terra me aborrecem e ao mesmo tempo me fascinam. Quero liberdade para viver em ambos os lugares. E quero também uma diversão para preencher o tédio da existência: quero criar, ter a alegria da criação como o meu Pai tem.”

5 E Deus inclinou-se, e falou quase em sussurros, próximo ao ouvido do indeciso: “Filho ingrato! Dou-te o Céu e queres a Terra. Foges de mim para viver naquele antro e logo para cá retornas. Não queres nem um nem outro e ambos ao mesmo momento. E agora queres o dom da criação?”

6 E responde o filho: “Sim, meu Pai! Quero compreender a lactescência da Vida.”

7 “Queres imitar Deus?” – perguntou o Divino. “Mas nenhum ser imita o Criador impunemente. Queres criar? Pois bem, então criarás. Vais conhecer o dom da criação.”

8 Entusiasmado, responde o filho: “É o que mais quero. Nenhuma alegria pode ser mais profunda do que o ato da invenção. Estou disposto a pagar qualquer preço para ter esse dom a pulsar em todo o meu corpo, em minha mente e na totalidade de minha alma.”

9 E Deus, coçando a imensa e longa barba, sempre sorrindo e rindo pelo canto dos lábios, disse: “Sim, o terás. Serás sempre designado como ‘o escolhido, o artista’, como ‘aquele que tem o dom de ver e ouvir o que outros não podem’. És todo livre. Concedo-te a liberdade de escolha. Um poeta ? um pintor? um músico? Saibas que por onde caminharem os teus pés, hão de te chamar: ‘Ó mensageiro do Céu e da Terra!’. Entre raças e nações serás admirado, mas com inveja e medo. Lembra-te sempre: terás a admiração de quase todos mas nunca serás amado pelo dom que possuíres. Para os homens práticos serás no fundo apenas um desprezível doidivanas. E aqueles de cujos olhos lágrimas florescem diante da beleza oferecida, pelas costas tratar-te-ão de egocêntrico e arrogante. Olhar-te-ão com desconfiança, ainda que beijem as tuas mãos.”

10 E o Sereníssimo interrompeu aqui o colóquio, abaixou a cabeça cansada, olhou longamente a pele enrugada da mão, contemplou os dedos velhos, as falanges muito velhas, aqueles mesmos dedos com que compôs a poesia do firmamento e a música das esferas, os mesmos com que pintou a beleza dos mundos. E com aquele risinho amargo foi continuando:

11 “Sim, viverás o êxtase primordial! Mas também conhecerás a distância e o isolamento. Terás a chance, filho dileto, de compreender a solidão em que vive o teu Deus. E, assim, seremos companheiros na mesma alegria ...e na mesma dor.”


***


Ilustrações: pinturas e gravuras de William Blake (1757-1827)
The Ancient of Days (1794) - The Body of Abel funded by Adam and Eve (1825) - Urizen plays before the world he has forged (1790) - Elohim creating Adam (1795)

quinta-feira, 2 de julho de 2009

Hermann Hesse: Poemas Escolhidos


"A cada chamado da vida o coração
deve estar pronto para a despedida e para
novo começo, com ânimo e sem lamúrias,
aberto sempre para novos compromissos.
Dentro de cada começar mora um encanto
que nos dá forças e nos ajuda a viver."


 Foto: ano de 1920. 
Hesse caminhando pela região da aldeia de Montagnola, 
no Ticino, época em que iniciava o romance Sidarta.



Comemora-se hoje o nascimento do grande escritor Hermann Hesse. Ano de 1877, em Calw, pequena cidade do estado de Württemberg, sul da Alemanha.

No início do século, Peter Camenzind (1904), primeiro romance do autor, fez grande sucesso na Alemanha, devido ao tom lírico da obra. O realismo e o excessivo naturalismo imperavam na época e saturavam pelo estilo seco. A narrativa de Hesse, evocando a atmosfera bucólica de montanhas e pequenas cidades, fez reviver um passado medieval e romântico, tão caro aos alemães. Foi uma novidade, o que resultou em fenômeno de vendas. Em 1906 publicou o segundo romance Sobre as Rodas. Este não repetiu o sucesso do primeiro. Em Peter Camenzind o personagem central era um poeta. Talvez por isso, pelo tema ter agradado tanto os leitores, escreveu mais dois romances sobre artistas: Gertrude (1910) ambientado no mundo da música, e Rosshalde (1914), sobre um pintor.  Dos três o último é o melhor realizado, enquanto obra de ficção, embora tenha nítidos traços autobiográficos. Na época Hesse vivia os mesmos problemas familiares. Criador e personagem, artistas bem sucedidos, porém fechados em si mesmo. Ambos perdem-se da esposa devido à incomunicabilidade humana. Diga-se de passagem, estas obras receberam o aplauso dos leitores e estabilizaram a vida financeira do autor.

A ficção neo-romântica de Hesse mudou radicalmente no confronto espiritual com a guerra de 1914. Com pseudônimo, em 1917, publicou Demien, que foi um marco para a geração do pós-guerra. E ainda hoje é visto como o mais significativo romance do movimento expressionista. Além do valor artístico e histórico, a obra é também considerada a maior contribuição de Hermann Hesse à literatura, pois nessa data foi introduzida pela primeira vez o tema da psicanálise, ciência surgida de Freud e ampliada por Jung. Em 1922 apareceu Sidarta, romance-poema, uma das obras mais amadas de Hesse, pela sabedoria oriental que soube tão bem adaptar aos problemas existenciais de cada um. Mas a maior contribuição do autor à literatura propriamente dita, e que o tornou conhecido no mundo todo, foi o sétimo romance O Lobo da Estepe, de 1927, obra experimental, considerada por muitos como obra-prima do mesmo valor de romances inovadores do período entre-guerras: Em Busca do Tempo Perdido de Proust; Ulisses de Joyce; O Processo de Kafka; A Montanha Mágica de Mann; Passeio ao Farol de Virginia Woolf, Os Moedeiros Falsos de Gide; O Som e a Fúria de Faulkner; e O Homem Sem Qualidades de Musil. Assim é O Lobo da Estepe: trata-se de obra completamente diferente das anteriores, tanto pelo tom seco e amargo, como pela técnica literária labiríntica. E chega a ser profética, pois antevê os horrores da segunda guerra, que eclodiria na década seguinte. Em 1930 é publicado Narciso e Goldmund, outro grande romance que também utiliza a psicanálise de maneira rica e profunda, além de vários recursos e temas de obras anteriores: transcorre em um passado distante, talvez medieval, e o personagem também é artista, um escultor.

Por fim, após 12 anos, em 1943 publica o nono romance O Jogo das Contas de Vidro, muito mais extenso do que todos os outros e muito mais elaborado. Desta vez, a história se passa em um país hipotético de um futuro distante. A obra é magistral, várias vezes comparada ao Wilhelm Meister de Goethe. Trata-se do último romance de Hesse. Ao menos, no campo da Ficção é o seu Testamento literário. O autor ainda viveu 20 anos após o lançamento. Publicou outros gêneros, mas nenhum outro romance.

Os leitores e a crítica se dividem, quando tentam destacar dentre esses nove romances o maior de Hermann Hesse. Metade diz que é O Lobo da Estepe; a outra, afirma categoricamente que é O Jogo das Contas de Vidro. Em verdade, é uma tarefa difícil. E não há necessidade de confronto, pois obra artística não é nenhum competidor almejando a primeira posição do pódio. Cada leitor escolhe aquela com a qual mais se identifica. Para mim, a maior obra de Hesse não é nenhuma das duas mencionadas. Escolho Sidarta, que tem sido, desde a adolescência, um de meus guias espirituais imprescindíveis. Sinto uma enorme gratidão pelo autor por ter escrito essa dádiva de sabedoria. Aprecio também, particularmente, a forma como foi escrito: não deixa de ser um romance, mas é sobretudo um poema em prosa; utiliza a cadência e a sonoridade sensual da poesia hindu, atingindo em alguns pontos a mística dos hinos védicos, tudo isso somado às características dos líricos alemães, Eichendorff e Mörike, que Hesse tanto amava.
 
No contexto, devemos ainda mencionar algumas narrativas curtas no gênero da ficção: as novelas Knulp (1915) e Viagem ao Oriente (1932), e os maravilhosos contos Na Velha Estalagem do Sol, Bela é a Juventude, Augusto e Encarnação Hindu; este último inserido em O Jogo das Contas de Vidro. Na área da não-ficção há os 3 ensaios de Olhar sobre o Caos (1923), tão admirados por T. S. Eliot, e os artigos pacifistas coletados em Sobre a Guerra e a Paz (1946), de valor histórico. E, por fim, recordo-me daquelas pequenas obras que Hesse publicou ao longo  da vida, contendo prosa intimista e versos ilustrados com suas próprias aquarelas expressionistas. Caminhada (1920) é um desses pequenos grandes livros, talvez o mais encantador, o mais amado pelos leitores da obra hessiana.

Hesse tornou-se famoso mundialmente como romancista. Contudo, e é fato curioso, apesar da importância da prosa de ficção, não foram os romances e sim a poesia que escreveu durante a vida toda, paralelamente à prosa, que lhe concedeu o grande Prêmio Nobel de Literatura. Os organizadores da Academia Sueca preferiram premiar o autor pelo livro As Poesias de 1942, que é o conjunto de todos os poemas escritos, desde 1898 até aquela data, porque reconheceram que a obra poética do autor alemão “é atemporal e sobreviverá à ficção”.

É opinião deles. A maioria dos críticos não concorda. Sem dúvida, a poesia de Hesse é muito bela e sensível, mas é a parte mais tradicional de sua obra. Seria um epígono se não tivesse personalidade. Salvo em algumas ocasiões, nos versos escritos durante as crises existenciais, toda a lírica hessiana é um eco do romantismo de meados do século anterior a ele. Nesse sentido, o autor é mesmo o legítimo herdeiro dos grandes poetas românticos do século XIX: Joseph Einchendorff e Edouard Mörike.

A poesia de Hermann Hesse é muito conhecida nos países de língua alemã. O autor, enquanto poeta, é considerado 'clássico' e seus versos fazem parte, há tempos, dos currículos escolares da Alemanha. No entanto, apenas alguns poemas aparecem com frequência em antologias européias e mundiais.

Como homenagem a esse grande escritor, que jamais será esquecido, tanto pela ficção quanto pela poesia, transcrevo aqui alguns de meus poemas preferidos. Em honra à sua memória, escolho a poesia, porque Hermann Hesse se considerava antes de tudo um poeta, um lírico alemão. Ele mesmo, na idade de 14 anos, disse: “Serei poeta ou nada.” E completou, na velhice: “Escrevo romances por ocasião; poeta sou, por vocação.” O grande Thomas Mann, que considero o maior escritor do século XX, amigo de Hesse, gostava de compará-lo a um 'rouxinol suábio' pela delicadeza musical de seus textos. Tinha toda a razão.

E, da mesma forma, somos imensamente gratos ao poeta brasileiro Geir Campos que traduziu esses versos, captando com mestria o ritmo e a essência lírica de Hesse.



Sorte

Enquanto vives perseguindo a sorte,
não estás pronto para ser feliz,
ainda que seja teu o que mais queres.

Enquanto te lamentas do perdido,
e tens metas e não te dás descanso,
não podes saber o valor da paz.

Só quando a todo anelo renuncias,
sem objetivos nem desejos mais,
e já não dás à sorte qualquer nome,

já a maré dos eventos não te atinge
o coração, e se acalma tua alma.

(em “No Caminho”, 1911)

Ramo em Flor

Para cá e para lá
sempre se inclina ao vento o ramo em flor,
para cima e para baixo
sempre meu coração vai feito uma criança
entre claros e nebulosos dias,
entre ambições e renúncias.
Até que as flores se espalham
e o ramo se enche de frutos,
até que o coração farto de infância
alcança a paz
e confessa: de muito agrado e não perdida
foi a inquieta jogada da vida.

(em “Música da Solidão”, 1915)

A Meu Irmão

Quando revemos nossa casa, agora,
andamos encantados pelos cômodos,
ficamos longo tempo no jardim
onde – meninos levados – brincávamos.

E de todos os outros esplendores
que pelo mundo afora conquistamos,
nenhum mais nos alegra nem agrada
quando o sino da igreja faz-se ouvir.

Calados repisamos velhas trilhas
cruzando o verde terreno da infância:
e elas no coração tornam-se vivas,
grandes e estranhas, como um belo conto.

Mas tudo o que estaria à nossa espera
já não há de ter mais o puro brilho
de outrora – quando, ainda rapazolas
no jardim caçávamos borboletas.

(em “Música da Solidão”, 1915)

A Noite

Rescende a flor na várzea,
longínqua flor da infância
que só de raro em raro ao sonhador
abre o velado cálice
e deixa ver – cópia do sol – seu interior.
Por cima das cordilheiras azuis
cega a noite vagueia
puxando sobre o seio a veste escura:
sorrindo esparze a esmo
sua dádiva – o sonho.
Curtidos pelo dia, em baixo dormem
os homens: têm os olhos
cheios de sonhos,
alguns viram o rosto suspirando
para as flores da infância
cujo aroma os atrai de leve na penumbra,
e ao severo chamado paternal do dia
confortados se alheiam.
Para o exausto, é um alívio
refugiar-se nos braços da mãe
que os cabelos do sonhador alisa
com mãos despreocupadas.
Somos crianças, logo nos fatiga o sol
- ainda que seja para nós destino e futuro sagrado –
e tombamos a cada anoitecer
pequeninos de novo no regaço da mãe,
balbuciamos palavras da infância,
palpamos o caminho do regresso às origens.
Também o pesquisador solitário
que para o vôo ao sol se propusera
vacila, também ele, à meia-noite
voltado para o ponto de partida longe.
E o que dorme, quando um pesadelo o desperta,
confusa a alma, pressente no escuro
a hesitante verdade:
toda corrida, para o sol ou para a noite,
conduz à morte, leva a novo nascimento,
dores que a alma receia.
Mas seguem todos o mesmo caminho:
todos morrem e tornam a nascer,
porque a eterna mãe
devolve-os eternamente ao dia.

(em “Poesias Escolhidas", 1921)

Sonhando Contigo

Às vezes quando me deito
e meus olhos se fecham,
com a chuva batendo na cornija
os seus dedos molhados,
tu vens a mim,
esguia corça hesitante,
dos territórios do sonho.
Então andamos ou nadamos ou voamos
por entre bosques, rios, bandos de animais,
estrelas e nuvens com tintas de arco-íris:
tu e eu, a caminho da terra de origem,
rodeados de mil formas e imagens do mundo,
ora na neve, ora ao fogo do sol,
ora afastados, ora muito juntos
e de mãos dadas.

Pela manhã o sono se dissipa,
afunda dentro de mim,
está em mim e já não é mais meu:
começo o dia calado, descontente e irritadiço,
porém algures continuamos a andar,
tu e eu, rodeados de coleções de imagens,
a interrogar-nos entre os encantos da vida
que nos embroma sem saber mentir.

(em “Consolo da Noite”, 1929)

Ao Poeta Indiano Bhartrihari

Igual a ti, ancestre e irmão, também vou eu
entre o espírito e o instinto, em zigue-zague:
hoje sábio, doido amanhã, hoje de todo
entregue a Deus, amanhã ao ardor da carne.
Com ambos os açoites vou me flagelando
em sangue os costados: volúpia e penitência
- monge ou estróina, pensador ou bestial.
A culpa do existir em mim pede perdão.
Hei de pagar pecados em ambos caminhos,
em ambos fogos ardendo me aniquilar.

Os que me veneravam ontem como santo,
hoje em mim vêem um perdido libertino;
os que comigo chafurdavam na sarjeta
ontem, hoje me vêem jejuar e orar;
e todos cospem de lado e fogem de mim
- o amante falso, sem decoro e dignidade.
Em minha coroa de espinhos eu também
trago, entre as rosas rubras, a flor do desdém.

Hipócrita palmilho um mundo de aparências,
malquisto por vós e por mim, para as crianças
um monstro – e sei que qualquer ação, vossa ou minha,
perante Deus pesa menos que o pó ao vento.
E sei mais: nesta senda inglória de pecado
me sopra o bafo de Deus e eu devo agüentá-lo,
devo abusar – cada vez mais culpado, no êxtase
do prazer ou na proscrição dos meus malfeitos.
Qual o sentido desta agitação, não sei:
com as imundas e perversas mãos esfrego
o pó e o sangue do meu rosto – e bem ou mal
este caminho hei de levar até o final.

(em “Consolo da Noite”, 1929)

No Castelo de Bremgarten

Quem um dia plantou os velhos castanheiros,
quem um dia bebeu a água a esguichar da fonte,
quem um dia dançou no salão enfeitado
- foram-se todos, esquecidos e enterrados.

Hoje é a nossa vez: para nós brilha o dia
e cantam para nós alegres passarinhos,
sentamo-nos à mesa e sob a luz das velas
brindamos ao dia que é para nós eterno.

Quando nos formos e estivermos esquecidos,
nas árvores altas ainda se há de escutar
o gorjeio do melro e o cântico do vento,
e lá em baixo entre as pedras o rio a espumar.

No vestíbulo, na hora do grito noturno
do pavão, hão de estar aqui outras pessoas:
falarão, louvarão a maravilha da hora,
embandeirados barcos estarão passando,
e o eterno presente há de rir como agora.

(em “Novas Poesias”, 1937)

Andares

Como emurchece toda flor, e toda idade
juvenil cede à senil – cada andar da vida
floresce, qual a sabedoria e a virtude,
a seu tempo, e não há de durar para sempre.

A cada chamado da vida o coração
deve estar pronto para a despedida e para
novo começo, com ânimo e sem lamúrias,
aberto sempre para novos compromissos.
Dentro de cada começar mora um encanto
que nos dá forças e nos ajuda a viver.

Devemos ir contentes, de um lugar a outro,
sem apegar-nos a nenhum como a uma pátria:
não nos quer atados, o espírito do mundo
- quer que cresçamos, subindo andar por andar.
Mal a um tipo de vida nos acomodamos
e habituamos, cerca-nos o abatimento.

Só quem se dispõe a partir e a ir em frente
pode escapar à rotina paralisante.
É bem possível que a hora da morte ainda
de novos planos ponha-nos na direção:
para nós, não tem fim o chamado da vida...
Saúda, pois, e despede-te, coração!

(em “Andares”, 1961)

Rabisco na Areia

Que encantamento e beleza
sejam brisa e calafrio,
que o delicioso e bom
tenha escassa duração
- fogo de artifício, flor,
nuvem, bolha de sabão,
riso de criança, olhar
de mulher no espelho, e tantas
outras coisas fabulosas
que, mal se descobrem, somem –
disso, com pena, sabemos.
Ao que é permanente e fixo
não queremos tanto bem:
gemas de gélido fogo,
ouros de pesado brilho,
por não falar nas estrelas
que tão altas não parecem
transitórias como nós
e não calam fundo na alma.
Não: parece que o melhor,
mais digno de amor, se inclina
para o fim, beirando a morte,
e o que mais encanta – notas
de música, que ao nascerem
já fogem, se desvanecem –
são brisas, são águas, caças
feridas de leve mágoa,
que nem pelo tempo de uma
batida de coração
deixam-se reter, prender.
Som após som, mal se tocam,
já se esvaem, vão-se embora.
Nosso coração assim
leal e fraternalmente
se entrega ao fugaz, ao vivo,
não ao seguro e durável.
Cansa-nos o permanente
- rochas, mundo estelar, jóias –
a nós, transmutantes, almas
de ar e bolhas de sabão,
cingidos ao tempo, efêmeros
a quem o orvalho na rosa,
o idílio de um passarinho,
o fim de um painel de nuvens,
fulgor de neve, arco-íris,
borboleta que esvoaça,
eco de riso que só
de passagem nos alcança,
pode valer uma festa
ou razão de dor. Amamos
o que é semelhante a nós,
e entendemos os rabiscos
que o vento deixa na areia.

(em “Andares”, 1961)


Foto acima, ano de 1920, Hesse caminhando na região da
aldeia de Montagnola, no Ticino, período em que escrevia
Sidarta.

Abaixo, em 1927, ano da publicação de O Lobo da Estepe.

















Hermann Hesse (1877-1962)