sexta-feira, 21 de maio de 2010

Ravi Shankar: Inside the Kremlin



Pandit Ravi Shankar, que no mês passado completou 90 anos, fez de tudo em música e continua fazendo: impressionante virtuose da cítara, compositor inspirado, porta-voz da música indiana, e muito mais.

Semelhante ao versátil poeta Rabindranath Tagore, Shankar também é indiano até as raízes da alma, o que não o impediu de criar uma arte acessível e compreendida pelo restante do mundo. Talvez não seja o mais autêntico, mas com certeza é um dos mais importantes compositores da Índia, pois ele mais do que ninguém estendeu pontes sobre o oceano que divide Oriente e Ocidente. Tem sido um missionário entre a cultura dos dois mundos.

Não houve outro que influenciou tanto e tão várias gerações como Ravi Shankar, desde o seu envolvimento com o guitarrista George Harrison, que o elegeu como guru musical. Entretanto, muito antes dos anos 60 e 70, antes da idealização de beatniks e hippies este admirável e incansável músico busca a dispersão dos horizontes, e cria suas obras com base nos elementos folclóricos, populares, eruditos e religiosos de seu vasto e antiquíssimo país, às vezes mesclando-os com o som de outros povos. Compõe as tradicionais ragas, talas e mantras para serem executadas na cítara, tablas, sarangi, bansuri e outros instrumentos típicos, e também utiliza a orquestra completa da música ocidental com as cordas, sopros e percussão.

Alguma autenticidade de seu próprio país acaba perdida nessa divulgação incessante, mas por outro lado desperta e conquista novos ouvintes. É preciso constatar ainda que Shankar já tocou e gravou com músicos e grupos dos mais variados genêros musicais: pop, rock, jazz e instrumentistas da música clássica antiga e moderna. E quando o compositor resolve facilitar, não se inibe até mesmo em misturar ragas e talas com canção pop para as pessoas cantarolarem nas ruas. Não obstante, a parte da obra realmente erudita do compositor é àspera e de difícil acesso.

Com o mesmo entusiasmo que o movimento hippie da década de 60 recebeu a música oriental de Shankar, hoje os idealistas da Nova Era reconhecem no grande citarista o precursor da fusão oriente-ocidente, que poderá ser a essência das artes e da música do século XXI: o cerebralismo a serviço da espiritualidade, o encontro ecumênico de todas crenças, a Unidade de todas as artes, porém sem a extinção da individualidade que faz com que cada pessoa e cada pensamento sejam únicos e ao mesmo tempo ligados pelos fios da teia Universal.

Ravi Shankar tem adquirido enorme respeito e prestígio ao longo de sua vida. Em 1988, a convite dos dirigentes da Rússia, foi o ilustre convidado em um concerto que encerrava o Festival Indiano, contando com mais de 140 músicos, ocasião em que foram executadas 7 peças, todas de autoria de Shankar, algumas com direito ao improviso como Bahu-Rang.

Esse evento pode ser confirmado neste álbum ao vivo, Inside the Kremlin, uma emocionante fusão da música indiana e do folclore russo, executados pelo grupo de Ravi Shankar e um conjunto da Rússia, acompanhados pela orquestra de Moscou e pelo coro do Ministério da Cultura da USSR. Uma apresentação única, mas graças ao registro em disco continua a nos presentear com sensações mágicas repetidas vezes.

Observem na peça Three Ragas in D minor a homenagem de Ravi Shankar a Rimsky-Korsakov, inserindo entre as ragas motivos russos e recriando na orquestração a mesma atmosfera de um dos movimentos de Sheherazade. E por que especificamente esse compositor russo? Porque ele também fundiu ocidente e oriente em algumas de suas principais obras.

Já a peça Bahu-Rang é legítima música clássica indiana, mas há momentos em que os mantras místicos da Índia soam simultaneamente com as danças campesinas eslavas, tocadas por cítaras e balalaikas. Enfim, uma oportunidade de ouvirmos dois países que sempre ofereceram um riquíssimo folclore ao mundo. Maravilhoso!



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Shankar.InsideTheKremlin.Part1.zip 
Shankar.InsideTheKremlin.Part2.zip

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Acalanto

(para V.)

Se na jornada perderes o ânimo
e como selva se escurecer o caminho,
e extinguir o lume a esperança,
não sintas medo da vida.
Lembra-te: em algum lugar
há alguém sempre pensando em ti.

Se me chamares e eu não ouvir,
acaso eu estiver imerso
no sono das distâncias,
deixa o recado no primeiro vão
de perobeira, nos limites da estrada,
ou sob uma pedra assinalada.
Algum anjo-viandante o trará até mim.

E eu te alcançarei, te trarei comigo
para que em meu coração
adormeças a alma cansada.
A minha choupana será teu abrigo.
De bálsamo se cobrirá o meu olhar.
Para ti guardei o riso, o amor -
pão que sacia todas as fomes.

Não te inquietes, não sintas medo.
Descansa! Durma, apenas durma.
Quando surgir o novo dia, e novamente
o sol dourar as sinuosas vias do destino,

eu cuidarei de ti.



Photo: © arocha, 2010
Sítio Nascente do Sol


terça-feira, 13 de abril de 2010

Ravel: Obra Completa para Piano Solo - Jean-Efflam Bavouzet


Ravel: Obra Completa para Piano Solo,
por Jean-Efflam Bavouzet
2 CDs - 2004 - 320 kbps

Volume 1:
Garpard de la Nuit
Jeux d’Eau
Sonatine
Miroirs

Volume 2:
Le Tombeau de Couperin
Prelude
Serenade Grotesque
A la Manière de... Borodin
A la Manière de... Chabrier
Menuet Antique
Menuet sur le Nom de Haydn
Valses Nobles et Sentimentales
Pavane pour une Infante Defunte

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Volume 1: Ravel.CompletePiano.Vol1.Bavouzet.zip
Volume 2: Ravel.CompletePiano.Vol2.Bavouzet.zip


quarta-feira, 31 de março de 2010

Debussy: Obra Completa para Piano Solo - Jean-Efflam Bavouzet


Debussy: Obra Completa para Piano Solo,
por Jean-Efflam Bavouzet
5 CDs - 2006-2009 - 160 kbps

Volume 1:
24 Prèludes
Les soirs illumines par l’ardeur du charbon
Volume 2:
Ballade Slave
Valse Romantique
Danse “Tarantelle Styrienne”
Images Oubliées
Estampes
Pour le Piano
Masques
L’Isle Joyeuse
D’un Cahier d’Esquisses
Volume 3:
Nocturne
Suite Bergamasque
Danse Bohemienne
Arabesques
Revêrie
Mazurka
Children’s Corner
Hommage a Haydn
Morceau de Concours
La Plus Que Lente
The Little Nigar
Page d’Album: Pièce pour le Vetement du Blesse
Berceuse Heroique
Elegie
Volume 4:
Images, Livre I
Images, Livre II
12 Études
Étude retrouvée

Volume 5:
Khamma (version for piano)
Jeux (version for piano)
La Boîte a Joujoux


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Volume 1: Debussy.CompletePiano.Vol1.Bavouzet.zip
Volume 2:
Debussy.CompletePiano.Vol2.Bavouzet.zip
Volume 3:
Debussy.CompletePiano.Vol3.Bavouzet.zip
Volume 4:
Debussy.CompletePiano.Vol4.Bavouzet.zip
Volume 5: Debussy.CompletePiano.Vol5.Bavouzet.zip

terça-feira, 30 de março de 2010

Semana Santa - A Música da Renascença: Lassus, Palestrina e Victoria



As Lamentações, geralmente atribuídas ao profeta Jeremias, são cinco poemas elegíacos, talvez escritos no período da destruição de Jerusalém por Nabucodonosor, no século VI a.C. Comentam a triste condição de Israel: o templo em ruínas e a escravidão, porque o próprio povo tornara-se infiel à Aliança com Deus.

De forma que judeus e cristãos utilizam hoje as Lamentações de Jeremias em momentos litúrgicos de pesar, relembrando fatos de importância da História: os judeus, nos dias de jejum, sofrendo em memória da Jerusalém destruída; os cristãos, na Semana Santa, quando reconstituem a dor de Cristo no Horto das Oliveiras e no martírio do Calvário.

Lassus: Hieremiae prophetae Lamentationes
 Palestrina: Lamentationes Ieremiae prophetae
Victoria: Tenebrae Responsories


A profundidade dramática dessas três obras-primas continua mais viva do que nunca. São apresentadas frequentemente durante a Semana Santa nos mais variados templos cristãos. É música sublime, capaz de comover até as pedras. Não há outra definição mais exata.

De genialidade incontestável, Lassus, Palestrina e Victoria continuam os maiores compositores da Renascença (incluiria William Byrd nesta plêiade). Suas obras foram escritas há quase 500 anos , mas a beleza que há nelas vive, e exerce fascínio até os dias atuais. Pela elaboração artística e pelo conteúdo humano está no mesmo nível da música de Monteverdi, Bach, Handel, Haydn, Mozart e Beethoven.

Para este breve comentário, tomo de empréstimo as palavras do grande crítico literário Otto Maria Carpeaux, que também foi historiador musical. Escreveu apenas um livro sobre o assunto : Uma Nova História da Música, facilmente disponível em publicação popular da Ediouro. É um excelente e valioso "resumo" sobre a música do Ocidente, indispensável na estante dos estudiosos do tema.

segunda-feira, 22 de março de 2010

André Gide: Os Frutos da Terra


Sábias palavras de Gide, grande escritor francês, prêmio Nobel em 1947:

"Nathanael, que cada espera em ti não seja sequer um desejo mas simplesmente uma disposição para a acolhida. Espera tudo que vem a ti, mas não desejes senão o que vem a ti. Não desejes senão o que tens. Compreende que em cada momento do dia podes possuir Deus em sua totalidade. Que teu desejo seja amor, e que tua posse seja amorosa. Pois, o que é um desejo que não é eficaz?

Como! Nathanael, tu possuis Deus e não te aperceberas! Possuir Deus é vê-lo; mas não o olham. Em que volta de atalho viste Deus, Balaão, diante de quem se detinha o teu asno? É que o imaginavas diferente.

Nathanael, somente Deus não há como esperar. Esperar Deus, Nathanael, é não compreender que já o possuis. Não distingas Deus da felicidade e põe toda a tua felicidade no instante."

"Toda a tua fadiga cerebral, ó Nathanael, vem da diversidade de teus bens. Não sabes sequer qual deles preferes e não compreendes que o único bem é a vida. O menor instante da vida é mais forte do que a morte, e a nega. A morte não é senão a permissão de outras vidas para que tudo sem cessar se renove; a fim de que nenhuma forma de vida detenha isso mais tempo do que lhe é necessário para se dizer. Feliz é o instante em que tua palavra retine. Durante o resto do tempo escuta; mas quando falares, não escutes mais."

André Gide (1869-1951)

(de Os Frutos da Terra: parte 3 do Livro Primeiro, 1897)

E, aproveitando o tema, porém de outro ângulo, esta intrigante pintura do artista alemão Hans Happ:
Frutos da Terra.
 

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Bachman-Turner Overdrive - Not Fragile


Ah! saudades desse grupo canadense de Manitoba, que registrou muitos sucessos nos anos 70, com destaque para o álbum Not Fragile, de 1974. Os dois vocalistas principais, Randy Bachman, com timbre suave e C.F. Turner, com voz àspera e imponente; guitarrista o primeiro, baixista o segundo - eram os líderes. Daí o nome Bachman-Turner Overdrive, ou simplesmente BTO, que contava também com Blair Thornton na primeira guitarra e Robbie Bachman na bateria. O estilo era o hard rock, mas diferenciava dos demais grupos pela mistura de acompanhamento pesado e ritmo contagiante com solos melódicos.

Da esquerda para a direita:
Randy Bachman, Blair Thornton, Robbie Bachman e C. F. Turner

A canção mais famosa da banda está no vídeo abaixo para o deleite dos saudosistas. Ficou conhecida como o rock do gago. Se aqui nós temos o Noel Rosa que criou a divertida O Gago Apaixonado, lá eles têm, evidentemente levando em conta a diferença de gêneros, o Randy Bachman, cantando esta deliciosa You Aint Seen Nothing Yet.

http://www.youtube.com/watch?v=7miRCLeFSJo




E aqui em 320kpbs o Not Fragile, um dos melhores álbuns da banda:


Faixas:

1-Not Fragile (4:07)
(lead vocals: C.F. Turner)
2-Rock Is My Life, and This Is My Song (5:05)
(lead vocals: Randy Bachman)
3-Roll on Down the Highway (3:59)
(lead vocals: C.F. Turner)
4-You Ain’t Seen Nothing Yet (3:57)
(lead vocals: Randy Bachman)
5-Free Wheelin’ (instrumental) (3:47)
6-Sledgehammer (4:36)
(lead vocals: Bachman & Turner )
7-Blue Moanin’ (3:45)
(lead vocals: C.F. Turner)
8-Second Hand (3:23)
(lead vocals: Randy Bachman)
9-Givin’ It All Away (3:48)
(lead vocals: Bachman & Turner)

Download MP3 - Baixar BTO.NotFragile.zip


sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Tord Gustavsen Trio: The Ground


Imaginem um piano suave que jamais cai no melífluo, acompanhado por músicos de técnica sofisticada porém acessível a todos. Não é preciso ser um expert em jazz, basta ter sensibilidade musical. Então, aqui está. The Ground, um belíssimo álbum gravado em 2005 pelo trio norueguês contemporâneo, formado por Tord Gustavsen (piano), Harald Johnsen (contrabaixo) e Jarle Vespestad (bateria). Absorvam com tempo e profundidade esse estilo requintado dos nórdicos estruturado no jazz tradicional. Altamente recomendado.

Faixas:

1-Tears Transforming (5:40)
2-Being There (4:19)
3-Twins (4:59)
4-Curtains Aside (5:17)
5-Colours of Mercy (6:12)
6-Sentiment (5:37)
7-Kneeling Down (5:50)
8-Reach Out and Touch It (5:51)
9-Edges of Happiness (3:09)
10-Interlude (2:05)
11-Token of Tango (4:14)
12-The Ground (7:16)

Total: [1:00:29]

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terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Em Busca de Eurídice


Retorna! Nereida bela do meio-dia!
Inesperadamente tomaste-me nos braços
naquele cair de tarde de setembro!
Fada em ninfa transmutada! Retorna!
Retorna os teus dedos mágicos!
Converte-me de novo ao deus Pã!
Devolve-me à doce selvageria
das primeiras estações dos tempos!

Teu beijo pode ser comoção cibernética!
Mas não tem a frieza de fios, tubos ou satélites!
Não é sem forma como as ondas de rádio!
Porque tua boca é vulcão que rasga a terra,
que desperta o fogo das entranhas!
Oh, braços de substância indecifrável!
Oh, alma de éter, corpo de fibras óticas!
Acorda-me novamente, retira-me do torpor,
reativa-me as células adormecidas!

Se tenho que vagar por corredores inexistentes,
se tenho que te buscar pelas salas do nada,
poupa-me, diga ao menos a direção, Eurídice!
desse território inefável ou reino das profundezas,
para que te busque de volta à palpável realidade!
Perco-me nesse inferno, nessa encruzilhada
de chips nos uivos de demônios virtuais.
Persigo-te no interior de uma máquina
que termina na vastidão das nebulosas.
Poupa-me desta mísera dimensão de mortal!

Onde capturar o teu rosto que não conheci?
Qual será teu nome, velada Eurídice, que estes lábios
abertos de espanto não puderam pronunciar?
Sei que só existe um véu separando nossos corpos.
Sei que em algum lugar distante há uma alma, há
dois olhos castanhos a comandarem esse mistério.
Teus olhos captam o reflexo de um rio que borbulha
neste silêncio imenso, absurdo, em que me deixaste.

Ninfa em fada transmutada!
Nereida bela da noite eterna!



quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Natal: Recordando Ictus



Durante determinado período do ano acontecem as festas natalinas. É muito bela essa revivificação da crença cristã. Quase sempre, porém, o seu propósito primordial fica esquecido.

Natal. O que representa essa comemoração que surgiu de um acontecimento que transformou a rota e o calendário de grande parte da Humanidade?

De escriba para escriba, de povo para povo, mil e mil vezes foram contadas a história, o mito e a lenda do Cristo. E mil vezes ainda será necessário repeti-las para que a essência não morra, é necessário que o nascimento inicie a cada ano para que a vida e o martírio sejam compreendidos e que a ressurreição se repita após os três dias de silêncio. Não é necessário ser católico ou cristão para compreender esta que é a mais maravilhosa lição de amor e de redenção de todos os tempos.

Recontemos a história para aqueles que a esqueceram:

Há pouco menos de 2000 anos uma voz clamava no deserto, exortando o povo: “Arrependei-vos, arrependei-vos.” Era João, o Batista, de alcunha Iocanã, que preparava o caminho para outro profeta maior, de asas mais vastas. Este tinha por nome Jesus, nascido em Belém, mas de família oriunda de Nazaré. Conforme consta nos apócrifos das cavernas do Mar Morto, era o sétimo filho do carpinteiro José, viúvo, e o primogênito de Maria, virgem essênica. Esse profeta maior, anunciado por Isaías e pelo próprio anjo Gabriel, havia sido gerado pelo Espírito Santo, e vinha com a impressionante missão de completar a Lei de Moisés, adaptando-a à mudança dos tempos. E mais ainda: sublimar todas as milenares doutrinas existentes antes dele. Sublimar como? Através do ensinamento e do ato do perdão, último estágio de aprendizado nesta Terra de vãs ilusões.

Conforme consta nos autos e testamentos dos Evangelistas, o Verbo se fez carne entre o povo humilde da Terra, no seio da família de um simples carpinteiro. E três magos do Oriente seguiram uma estrela cintilante, e vieram de muitas distâncias, sabendo que encontrariam um novo rei, diferente da opulência dos príncipes e dos soberanos. E os magos encontraram o menino e presentearam-no com ouro, mirra e incenso, e se inclinaram diante dele porque sabiam que naquele momento iniciava o Reinado do Peixe, o peixe que alimenta os que têm fome, o peixe que respira na água viva do Espírito. E esse seria o símbolo essencial dos primeiros cristãos.

Esse novo rei veio ensinar a humildade e a demonstrou em três momentos principais da existência: no nascimento, na vida e na morte – nascendo entre as palhas de uma rude manjedoura na gruta de Belém; depois, vivendo o medo em lágrimas no Getsemâni, e mesmo assim aceitando submisso a taça amarga do martírio, compreendendo a dificuldade e o peso de ser Homem com qualidades de Deus; e, enfim, morrendo - seguindo de cabeça baixa, humilde e triste, e ainda assim sereno, como um cordeirinho manso que é puro e que é levado para a matança do sacrifício final.

Historica e mitologicamente termina aqui a vida de um Homem que se deu em sacrifício para despertar outros homens para a humildade e o perdão, redimindo-os da cegueira e do egoísmo desvairado.

Mas, misticamente, acaso terminou a caminhada ao Calvário? Será preciso repetir a história, será preciso recriar o nascimento, será preciso reconstruir a cada ano no símbolo do Presépio o propósito do Nazareno? E nada mais? Até quando?

Desde 2000 anos essa voz clama aos desertos de nosso íntimo, exortando-nos ao amor ao próximo, à caridade, à solidariedade, à compaixão aos que sofrem. E após 2000 anos a humanidade continua se contorcendo em dor: sob o jugo das manipulações, na opressão dos fortes sobre os fracos, no acúmulo de posses materiais, na cruel competitividade econômica, na sexolatria, no entorpecimento dos sentidos e na eterna cegueira do coração.

Neste Natal, quando olharmos a pequenina imagem do Menino que sorri de braços abertos entre as palhas e entre os mansos animais, devemos vislumbrar nele o Homem, o adulto que em breve virá e que também ficará de braços abertos em um clamor silencioso, com a súplica humilde de quem sempre espera e aguarda uma mudança de comportamento de seus seguidores.

E no exato instante da repetição do nascimento, e com ele as bebidas e a comilança, os fogos coloridos no céu, e com eles os abraços eufóricos e os apertos de mão calorosos, é preciso que reflitamos: até quando faremos nascer o Menino para depois levá-lo ao sacrifício? Até quando vamos sacrificar esse Anjo do Pai Eterno para que a água viva continue a cobrir o pó da Terra?


Dezembro de 1999


Historiadores de renome e alguns estudiosos bíblicos dizem que os evangelhos foram forjados, que os pais de Jesus não viajaram, que não foram a Belém, que Jesus foi gerado e nasceu mesmo na aldeia de Nazaré, pois o único recenseamento da época, registrado oficialmente, ocorreu somente dez anos após o nascimento do menino galileu. A contagem era feita no próprio lugar onde habitavam os povos conquistados por Roma, mesmo porque jamais poderia existir uma contagem populacional em que as pessoas necessitassem de se locomover ao local de origem; em qualquer período da história seria economicamente inviável uma medida assim, sem qualquer lógica. Mas esse fato não importa tanto.

Muitos adeptos das tradições esotéricas e gnósticas afirmam que Jesus não morreu na cruz, que na verdade o seu corpo encontra-se enterrado em Srinagar, norte da Índia, onde padeceu os momentos finais devido aos ferimentos da crucificação. Dizem que todos os acontecimentos foram partes de um projeto grandioso, idealizado muito antes, com o objetivo de reconstruir o mito do Messias; que Maria, seu irmão José de Arimatéia e outros sábios da comunidade essênica ajudaram nesse plano para que se cumprisse a profecia de Isaías, elegendo Jesus como o salvador esperado. Esse, penso eu, também foi o argumento na estrada de Damasco que convenceu Paulo de Tarso a se tornar cristão e dar continuidade ao elevado projeto, não apenas o de subjugar Roma, mas de abrir caminhos mais iluminados para a Humanidade. Conforme essa leitura, nunca houve literalmente a ressurreição de corpo e espírito, um dos dogmas máximos do cristianismo, embora o símbolo seja verdadeiro, pois certo é que o Espírito como água que sacia e a idéia do corpo ressurrecto - pão que alimenta - continuaram vivos na doutrina.

Detalhes minuciosos do que poderia ter sido a história por trás da história não deveriam nos importar tanto. O que importa de verdade é o Verbo, a Palavra, a lição que o Mestre nos ensinou: os pensamentos e os atos sublimes de amor e perdão que Cristo trouxe para completar a doutrina de outros avatares do passado. Além das palavras santas o que importa é o exemplo que Jesus nos mostrou, indo para o patíbulo com humildade e muita coragem. E no silêncio da jornada nos dizia, conforme compreendo:

Não temam a morte. Ela não existe da maneira como vocês pensam. Há um Reino Espiritual muito mais vasto do que esses limites que os olhos alcançam. Todos somos peregrinos em direção à consciência da Luz, porque todos, desde sempre e todo o sempre, pertencemos fisicamente ao Átomo original que tudo abarca, e espiritualmente já somos Um com o Pai. E a única forma de homenagear o Pai é amando os irmãos. Mas façam o bem e sejam justos simplesmente pela alegria que o bem faz aos outros e a nós mesmos, não esperando recompensas, pois elas virão como acréscimo. O Amor por si só há de nos ensinar e iluminar. Não tenham medo!


Dezembro, 2009

sábado, 19 de dezembro de 2009

Saint-Saëns: Oratório de Natal


 
Os músicos alemães dos Secs. 17 e 18 criaram os mais grandiosos oratórios sobre o tema do Natal: Weihnachtshistorie (História da Natividade, 1660) de Heinrich Schütz, um dos primeiros que aborda o tema nesse gênero lírico-dramático, já é obra-prima; depois, Bach, com as seis magistrais cantatas que compõem o Oratório de Natal (1934); e, alguns anos depois, o mais belo oratório de todos, O Messias (1742) de Handel; após mais de dois séculos e meio continua sublime e irretocável.

Os franceses, embora não tenham deixado oratórios tão poderosos como os citados, também contribuíram com obras de valor. Basta lembrar de L’Enfance du Christ (A Infância de Cristo, 1854) de Berlioz. Ora dramático (o Sonho de Herodes), ora lírico (A Fuga para o Egito) é todo estruturado com coros de câmara e reduzido acompanhamento instrumental, que surpreende em um compositor que dava tanta ênfase à orquestração extravagante.

E não podemos esquecer do Oratório de Noël, que Saint-Saëns criou na espontaneidade de sua juventude, com apenas 23 anos. Obra modesta, porém rica em lirismo contemplativo, continua muito executada nas associações corais do mundo todo, merecidamente. Encanta, do início ao fim. Prestem atenção no trio Tecum principium para soprano, tenor e baixo, acompanhados pela harpa e órgão. Que maravilha!

Camille Saint-Saëns (1835-1921)


Oratorio de Noël, Op. 12 (1858) [39:38]

1-Prelude (Dans le style de Séb. Bach) (3:16)
2-Recit et Choeur: Et Pastores erant - Gloria (coro) (5:47)
3-Air: Expectants expectavi Dominum (soprano) (4:08)
4-Air et Choeur: Domine, ego credidi (tenor e coro) (4:01)
5-Duo: Benedictus qui venit (soprano e baixo) (4:03)
6-Choeur: Quare fremuerunt gentes (coro) (3:59)
7-Trio: Tecum principium (soprano, tenor e baixo) (4:23)
8-Quatour: Alleluja (soprano, soprano, contralto e baixo) (2:14)
9-Quintette et Choeur: Consurge, Filia Sion
(soprano, soprano, contralto, tenor, baixo e coro) (5:29)
10-Choeur: Tollite hostias (coro) (2:18)

Coro Bach e Orquestra Bach de Mainz
Verena Schweizer (soprano)
Edith Wiens (soprano)
Helena Jungwirth (contralto)
Friedreich Melzer (tenor)
Kurt Widmer (baixo)
Hans-Joachim Bartsch (orgão)
Barbara Biermann (harpa)
Diethard Hellmann (condutor)

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terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Pablo Neruda: Os Construtores das Estátuas


(...)

Tu me perguntarás se a estátua em que tantas
unhas e mãos, braços escuros fui gastando,
te reserva uma sílaba de cratera, um aroma
antigo, preservado por um signo de lava?

Não é assim, as estátuas são o que fomos, somos
nós, no nosso rosto que olhava as ondas,
nossa matéria às vezes interrompida, às vezes
continuada na pedra semelhante a nós.

(...)

Arranharás a terra até que nasça
a firmeza, até que caia a sombra na estrutura
como sobre uma abelha colossal que devora
o seu próprio mel perdido no tempo infinito.

Tuas mãos tocarão a pedra até lavrá-la
dando-lhe a energia solitária que possa
subsistir, sem se gastarem os nomes
que não existem,
e assim de uma vida a uma morte, amarrados
no tempo como uma única mão que ondula,
elevamos a torre calcinada que dorme.

(...)

Olhai-as hoje, tocai esta matéria, estes lábios
têm o mesmo idioma silencioso que dorme
em nossa morte, e esta cicatriz arenosa,
que o mar e o tempo como lobo lamberam,
eram parte de um rosto que não foi derrubado,
ponto de um ser, cacho que derrotou cinzas.

Assim nasceram, foram vidas que lavraram
sua própria cela dura, seu panal na pedra.
E este olhar tem mais areia que o tempo.
Mais silêncio que toda a morte em sua colmeia.

Foram o mel de um grave desígnio que habitava
a luz deslumbrante que hoje resvala na pedra.


(trechos de Os Construtores das Estátuas,
em Canto Geral, 1950)


Pablo Neruda (1904-1973)

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

NATAL com Vaughan Williams, Britten, Rodrigo, Villa-Lobos, Poulenc e Honegger


 
Grandes compositores eruditos do século XX dedicaram-se ao tema do Natal, principalmente na Inglaterra, onde a representação da Natividade no palco é tradição, através de masques, pageants e carols, expressões típicas dos britânicos.

Ralph Vaughan Williams (1872-1958), a essência da música inglesa de todo o século XX, amava o Natal e criou várias obras natalinas, entre as quais a longa cantata Hodie, além de On Christmas Night, masque inspirada na obra de Dickens. Não foi um acaso que também sua última obra tenha sido uma peça da Natividade The First Nowell. Mas de todas a que permanece mais bela e espontânea é a Fantasia on Christmas Carols, a primeira que compôs sobre o tema. Utiliza quatro carols que o próprio compositor redescobriu nas aldeias de Somerset, Herefordshire e Sussex e preservou como folclore. O resultado é um hino contagiante, uma peça belíssima, entoada por um barítono, simbolizando o pastor, e um coro. Nesta versão são acompanhados pelas cordas e órgão.

Benjamin Britten (1913-1976), outro britânico que também investigou o folclore, e paralelamente se tornou no país o maior compositor de óperas desde Purcell, escreveu na juventude diversas peças corais natalinas: Christ’Nativity, A Boy Was Born, e a mais admirável de todas A Ceremony of Carols sobre poemas de Gerard Bullett, escritos em inglês antigo. Cantado por um coro de meninos e solistas, acompanhados por harpa, o conjunto de carols transmite paz celestial de uma beleza que enternece.

O espanhol Joaquín Rodrigo (1900-1990) pesquisou muito o folclore da Espanha antiga, com especial enfoque no século XVIII, (re)criando-o com criatividade em suas obras. Daí surgiram deliciosas peças como estas duas canções com coro que pertencem ao 'Retablo de Navidad': Cantan por Belén pastores e A la Clavelina, com sons de flauta e ritmos que só Rodrigo consegue.

O brasileiro Villa-Lobos (1887-1959) deixou-nos um imenso catálogo com obras em quase todos os gêneros eruditos, e centenas de canções folclóricas, coletadas e harmonizadas, mas poucas sobre o tema natalino. Apesar de ser uma obra de circunstância, não poderíamos deixar de lado este belo e raramente gravado Canto do Natal, música de Villa-Lobos sobre poema de Manuel Bandeira.

Na França, país que também deixou belíssimas obras sobre o Natal, encontramos o grande compositor Francis Poulenc (1899-1963), que foi 'enfant terrible' na juventude e, após a perda dolorosa de um amigo, transformou-se totalmente a ponto de se converter ao catolicismo e compor algumas das mais sinceras obras sacras do século, entre as quais estes quatro motetos a capella de uma suavidade angelical, perfeitas gemas de otimismo cristão: Quatre Motets pour les Temps de Noël (com textos em latim): 1-O magnum mysterium, 2-Quem vidistis pastores, 3-Videntes stellam e 4-Hodie Christus natus est.

E, por fim, uma Cantata de Noël, das poucas no século XX com real elaboração erudita. Última obra do suiço Arthur Honegger (1892-1955), hábil no gênero oratório e em sinfonias complexas, a peça não foge do estilo denso do compositor. O libretto de César von Arx utiliza textos latinos como De Profundis e Laudate Dominum, canções folclóricas francesas e outras conhecidas no mundo todo como Estrela de Belém e Noite Feliz. A música inicia sombriamente: o coro feminino e o coro masculino crescendo alternados sugerem a tristeza do mundo imerso nas trevas. Após um longo e uníssono Amén, um coro de crianças anuncia a luminosidade da estrela que surge trazendo as boas-novas: o nascimento do menino-Rei. O final é um hino de exaltação à alegria. Trata-se de um desfecho digno, uma despedida comovente de Honegger. Talvez não seja a mais bela, mas sem dúvida é a obra mais elaborada e densa nesta coletânea.

Eis um conjunto de obras de compositores modernos e acessíveis, que criaram em linguagem inovadora, mas não adotaram o exagerado hermetismo que quase sempre impede a comunicação com o grande público. A compilação, da maneira como está aqui, não se encontra em lojas de disco. Agrupei as peças motivado pelo gosto particular, que agora compartilho pensando no evento cristão mais importante: o Natal, um tempo de alegria e agradecimento pelo Ser divino que habitou espiritual e fisicamente entre nós.

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Natal.VWilliamsBrittenVillaLobosetc.zip

Ralph Vaughan William
Fantasia on Christmas Carols (1912)
John Barrow (baritone)
Choir Guildford Cathedral – String Orchestra

Gavil Williams (organ)

Barry Rose (conductor)

Benjamin Britten
A Ceremony of Carols (1942)
Cambridge King’s College Choir

James Clark (tenor)Julian Godlee (treble)
Osian Ellis (harp)
Sir David Willcocks (conductor)


Joaquín Rodrigo
Retablo de Navidad nos. 1 e 8 (1952)
Raquel Lojendio, soprano [1]
Coro de la Comunidad de Madrid
Orquestra de la Comunidade de MadridJosé Ramún Encinar (direction)

Heitor Villa-Lobos
Canto de Natal (1945)
Coro da Rádio Ministério de Educação e Cultura
Isaac Karabitschevsky (regência)

Francis Poulenc
Quatre Motets pour le Tempos de Noël (1952)
Robert Shaw Festival Singers
Robert Shaw (director)


Arthur Honegger
Cantate de Noël (1953)
Camille Maurane, baryton
Choeur National de l’ORTF
Orchestre National de l’ORTF
Henriette Puig-Roget, orgue
Jean Martinon (direction)


 

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Lassus: Psalmi Davidis Poenitentiales





















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Psalmi Primus, Secundus, Tertius
CD1.PsalmiDavidispoenitentiales.Herreweghe.rar

Psalmi Quartus, Quintus, Sextus, Septimus
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Covers
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Mergulho













Era dessas noites claras.
Círculos de espumas boiavam
nas águas de brancas nebulosas.

No alto da palmeira
o menino de corpo moreno
tecia uma tanga de ramos
apoiado no entrelaçado
das folhagens.

Observava o redemoinho de
faces, cabelos e lábios.
E as espumas - estrelas
brancas, pálidas, flutuantes,
algumas pontas submersas
nas ondas, cobriam o mar.

Observava a dança silenciosa
dos fantasmas sobre as águas.
Homens de barbas longas,
uniformes envelhecidos,
e mulheres de saias esvoaçantes,
em rodopios orgíacos.
Vinham à tona festejar a lua
e mais uma vez reclamar
os corpos consumidos.

De um lado, tremulando na brisa
o mastro, as velas, a bandeira.
Galeão espanhol
em ruínas.

O menino deixou cair
a tanga em movimentos espirais.
Saltou do alto dos ramos, em voo.
Mergulhou no oceano branco,
bebeu a enxurrada de rostos,
pressionou a guelra dos pulmões,
atravessou as tábuas soltas,
os peixes, as ossadas,
a grande flecha de lodo,
apanhou no fundo das águas
a ostra de pedrinhas coloridas
e voltou para a superfície
com os cabelos envoltos em algas.
Trazia no rosto
imagens aprisionadas
em mil semblantes do tempo,
dos destroços de uma
Civilização desconhecida.

(em Imagens, 1990, Editora Nova Safra, Belo Horizonte)

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Carlos Drummond de Andrade: Tributo a Chaplin


Chaplin em Luzes da Cidade, cena inesquecível

Drummond no ano da publicação do poema


Publicado em 1945, no volume A Rosa do Povo, este longo poema de Carlos Drummond de Andrade é um dos mais belos e comoventes tributos a Charles Chaplin, gênio inquestionável do Cinema.

De fato, quem poderia esquecer do ator Chaplin, que deu vida a Carlitos, o vagabundo generoso, um dos mais ricos personagens que a Sétima Arte já criou? Após ele, qual cineasta deixaria de render homenagem ao seu legado? Recordemos O Garoto, Em Busca do Ouro, O Circo, Tempos Modernos e o imprescindível Luzes da Cidade, que é a obra-prima absoluta. Em todos esses títulos, o diretor e roteirista Chaplin elaborou uma linguagem universal contendo toda gama de emoções e pensamentos, utilizando-se apenas de expressão fisionômica e gestos. Na verdade, "apenas" não é a palavra correta, pois Cinema é imagem e movimento. E, neste sentido, como não admirar o Chaplin coreógrafo? O compositor Debussy, outro gênio, crítico severo que não engolia qualquer coisa, ao encontrar com Chaplin, disse-lhe que os movimentos de Carlitos eram dança, ballet, pura arte de um bailarino nato. E quem deixaria de valorizar também o Chaplin compositor, que nos deixou belas trilhas, entre elas a inesquecível Luzes da Ribalta?


Sim, acredito que as homenagens, por mais mais vastas que sejam, ainda não alcançam com justiça esse artista multifacetado.

A sólida arte literária de Drummond nos encanta pela sinceridade e riqueza de metáforas. Lendo este poema, aqueles que conhecem a obra de Chaplin, o genial ator-cineasta, vão se emocionar com a viagem nostálgica, pois o poeta menciona trechos importantes de vários filmes.

Sem mais delongas, ei-lo:

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Voltaire: Os Dois Consolados


O grande filósofo Citófilo dizia certa vez a uma mulher desolada, e que tinha razões de sobra para isso:

“A rainha da Inglaterra, filha do grande Henrique IV, foi tão infeliz quanto a senhora: expulsaram-na de seus domínios: esteve prestes a naufragar numa tempestade; assistiu à morte de seu real esposo, no cadafalso.”

“Lamento-a” – disse a dama; e pôs-se a chorar seus próprios infortúnios.

“Mas lembre-se de Maria Stuart” – insistiu Citófilo. “Ela amava muito honestamente a um bravo músico que tinha uma bela voz de baixo. O marido matou-lhe o músico à vista dela; e depois a sua boa amiga e parenta , a Rainha Elizabeth, que se dizia virgem, mandou cortar-lhe o pescoço num cadafalso forrado de negro, depois de a ter conservado prisioneira durante dezoito anos.”

“Cruel destino” – respondeu a dama; e tornou a abismar-se na sua melancolia.

“E com certeza já ouviu falar” – continuou o consolador – “na bela Joana de Nápoles, aquela que foi presa e estrangulada?”

“Lembro-me confusamente” – respondeu a aflita senhora.

“Pois bem, devo então contar-lhe o que aconteceu a uma outra grande princesa, a quem ensinei filosofia. Tinha ela um namorado, como acontece a todas as grandes e belas princesas. Uma vez o pai entrou-lhe no quarto e ali surpreendeu o amante, que tinha as faces em brasa e cujo olhar fulgurava como um diamante; a dama estava também muito animada de cores. A cara do jovem desagradou de tal maneira ao pai, que este lhe aplicou o mais formidável bofetão de que há memória na sua província. O amante pegou um par de tenazes e rachou a cabeça do sogro, que só agora se está curando, e ainda tem as cicatrizes do ferimento. A amante, desesperada, saltou pela janela e destroncou o pé; de maneira que hoje coxeia visivelmente, embora tenha em compensação um corpo muito bonito. O amante foi condenado à morte por haver quebrado a cabeça de tão alto príncipe. Imagine o estado em que não estava a princesa quando levavam o amante para a forca. Visitei-a durante muito tempo, enquanto ela se achava na prisão: só me falava das suas desgraças.”

“Por que não quer então que eu pense nas minhas?” – retrucou a dama.

“É porque não deve” – replicou o filósofo. “Pois, havendo tantas e tão grandes damas com tamanhas desgraças, não lhe fica bem desesperar-se. Pense em Hécuba, pense em Níobe.”

“Ah !” – exclamou a dama. “Se eu tivesse vivido no tempo destas últimas, ou no de tantas belas princesas, e, para as consolar, lhes contasse o senhor as minhas desgraças, acha que elas lhe dariam ouvidos?”

No dia seguinte, o filósofo perdeu o seu filho único, e esteve a ponto de morrer de dor. A dama organizou então uma lista de todos os reis que haviam perdido os filhos e levou-a ao filósofo. Este a leu, achou-a bastante exata, e nem por isso chorou menos.

Três meses depois tornaram a encontrar-se, e muito se espantaram de achar-se mais alegres. E mandaram erigir uma bela estátua ao tempo, com a seguinte inscrição:

ÀQUELE QUE CONSOLA...




Voltaire
(pseudônimo de François-Marie Arouet)
(1694-1778)


domingo, 11 de outubro de 2009

Uma Reflexão Ecumênica


O homem tem vários direitos, inclusive o de permanecer na escuridão e na ignorância voluntária. Mas o homem que busca a luz do conhecimento também merece existir. Não devemos silenciar o filósofo, o poeta e os artistas. Não devemos sufocar a voz do estudioso e do homem de espírito. Deixemos que eles expressem opiniões, deixemos que distribuam suas pérolas àqueles que sentem necessidade delas.

A Busca do Esclarecimento


Aquele que busca o conhecimento intelectual e moral não é, em hipótese alguma, um homem imaculado que já descobriu o enigma da vida. Aquele que busca o conhecimento não está acima do bem e do mal. Ele apenas compreende que existe dentro de si uma natureza humana e uma natureza de Deus. Torna-se mais responsável do que os outros homens, pois a sua primeira missão íntima é compreender a natureza divina para poder esclarecer a sua natureza de homem. Aquele que recebe a dádiva do conhecimento é apenas um homem que sabe um pouco mais que o seu lado luminoso é o que está esclarecido, e que o lado sombrio é a sua dúvida, e também a sua ignorância dos desígnios de Deus. Aquele que obteve esse esclarecimento na mente e no coração, ainda que tenha muitas virtudes, sente uma grande vergonha pelo pequeno “pecado” que comete, e tenta se corrigir. Ele sabe que está incomensuravelmente distante da perfeição, mas sabe também que está dando mais um passo em sua busca da espiritualidade transcendental.

Quando falo em homem refiro-me à humanidade, representada pelos elementos masculinos e femininos: o Homem e a Mulher, que possuem valores idênticos e que se complementam.


Lembranças de História

Eu creio que é necessário perder a ingenuidade. Não podemos fechar os olhos para as múltiplas formas de conhecimento. Natureza, homens e livros podem nos transmitir o saber. Há sabedoria em muitas fontes. Cabe a nós buscá-la e descobri-la sob o véu das ramagens.


A Religião precisa de unir-se à Ciência e, da mesma maneira, a Ciência precisa dar as mãos à Religião, sendo a Filosofia a mediadora de ambas. Só assim o dogmatismo imperioso e o materialismo vazio podem ser extintos para que todos os homens cresçam em uma mesma fé consciente. É preciso intuir e também pensar. A fé cega é uma lástima. Quase sempre ela gera o fanatismo religioso, que é perigosíssimo. A História nos alerta para esse desequilíbrio. A sede de poder de alguns, aliada à ignorância das massas, já condenou à morte muitas pessoas inocentes e também homens santos e espiritualistas bem-intencionados.


Sentimo-nos um pouco assustados quando lemos e meditamos sobre as crônicas do Velho Testamento: guerra, violência e mais guerras em nome da grandeza de Deus. Como compreender isso? Depois, com o objetivo de seguir as boas-novas do Novo Testamento, as Cruzadas e a Inquisição exterminaram multidões em nome das palavras santas de Jesus. Como compreender isso? Os jesuítas batizaram os índios com água e fogo. Não posso ter entendimento sobre isso. E o mais triste: recentemente, na Irlanda, católicos e protestantes, irmãos nascidos de um mesmo Evangelho, disputando “de espada na mão” quem pode estar com a única verdade, matando-se uns aos outros, e esquecendo-se do profeta filósofo da Galiléia, que sempre pregava o perdão.

Nos tempos atuais, acompanhamos pelos noticiários as conseqüências da fé cega: pregadores enlouquecidos levando ao suicídio centenas e centenas de seguidores. Essas pessoas crédulas não viviam em aldeias dos confins do Paquistão; eram cidadãos do primeiro mundo: da Europa e dos Estados Unidos, viviam na Civilização “adiantada”, tinham olhos para ver e não viam. Sim, é muito necessário o conhecimento. Sem ele não há discernimento.

No decorrer da História, desde os sumérios até os dias atuais, o jogo do poder reveste-se de coroas e túnicas sacerdotais, e as massas são meros peões no tabuleiro de pequenos grupos dominantes.


Por outro lado, como poderíamos nos esquecer de tantos intelectuais e cientistas, alguns friamente assassinados; outros, humilhados vergonhosamente, apenas porque mostraram de outro ângulo as verdades dos profetas? Um deles, o físico Galileu Galilei foi obrigado a dizer que estava mais ou menos louco quando proclamou que a Terra não estava parada, que sim sim, em verdade ela se movia. Se ele não fosse amigo do papa, e mesmo assim, se não voltasse atrás e negasse o próprio enunciado científico, seria morto, com certeza. Até há pouco tempo o seu processo inquisitório estava pendente, esperando solução. Já o filósofo Giordano Bruno foi mais infeliz: foi mesmo jogado na fogueira. E só não cozinharam o astrônomo Copérnico porque ele havia morrido um pouco antes da publicação de seu tratado, no qual falava do movimento duplo dos planetas, que eles giram sim em torno do sol e que a terra é apenas um pequenino corpo no Universo. É fato, é história, é evidência.

Ora, essas foram agrúrias da Idade Média, hoje as coisas mudaram – muitos dirão. Mudaram sim, mas somente nas aparências, pois, ainda hoje, às portas de um novo milênio, a falta de discernimento e o fanatismo continuam, e muita gente gostaria de jogar na fogueira os livre-pensadores, incluindo entre eles, por incrível que pareça, aqueles que pregam o ecumenismo. Mas, como não é permitido nos dias de hoje sair por aí acendendo fogueiras com esse mau intuito, então, os inquisidores de tantas e diversas crenças humilham, ridicularizam e apontam com o dedo: oh, aquele ali não pensa como nós. Ironia à parte, eu confesso: tenho medo dessas distinções.


Muitos Caminhos e Muitas Verdades


Nenhum homem ou mulher, em juízo perfeito, pode aclamar-se dono de uma única verdade, já que muitos são os caminhos e inúmeras são as portas. Lembro-me de Jesus que disse: “Na Casa de meu Pai existem muitas moradas.” Todas as doutrinas que pregam a existência da alma e indicam como caminhos o Amor, a Justiça e a Caridade já estão de posse de verdades divinas. Toda doutrina possui a sua lei, e quase sempre ela é ministrada de maneira inflexível. Mas a lei está escrita na pedra. A pedra não é viva. Vivo é o coração do homem, que amplia o significado da lei conforme a evolução de seu espírito. Penso que, demorando ou não, o santo, o sacerdote, o intelectual, o homem comum porém virtuoso, e até mesmo o pária, o homem violento e o assassino, todos chegaremos a um mesmo lugar, ou seja, a um estágio espiritual semelhante. É só uma questão de tempo e de esclarecimento para todos chegarmos lá. Porque, no fundo, todos buscamos o mesmo Deus, apenas compreendido de maneiras diferentes. Então, por que todos nós, irmãos neste planeta de expiações e de crescimento espiritual, não podemos ser condescendentes uns com os outros, darmos as mãos e juntos tentarmos compreender as infinitas faces de Deus?

O autor desta reflexão só almeja a paz, não tem a pretensão de ser mestre de quem quer que seja, e muito menos profeta, se bem que não é muito difícil antever os acontecimentos nestes loucos e tumultuados tempos modernos. Não, longe disso. Antes ele prefere continuar na esperança de um dia ver todas as gentes, não em grupinhos, e sim como uma única irmandade no planeta, ajudando-se uns aos outros, com os olhos em direção ao Pai Celestial e com os lábios próximos ao coração da Mãe-Terra. Enquanto isso não acontece, a tão esperada confraternização, posso também, com o coração sincero e com a consciência límpida como o dia, fazer a minha oração fraterna:

Viva o Anjo Jesus, que foi humilde pela via cruci, como um cordeiro que se leva para o sacrifício! Dou vivas aos cristãos primitivos, puros no misticismo crístico: Viva o pescador Simão Pedro, a rocha angular; viva João, o teólogo e também Paulo de Tarso, o doutrinador ! E viva Francisco de Assis, o santo mais puro, que amou homens, pássaros e feras! E que vivam em paz, por eles, todos os cristãos de hoje: católicos, protestantes, ortodoxos e evangélicos, e mais ainda aqueles que enxergam, que amam e perdoam! Viva também Moisés que libertou, legislou e conduziu um grandioso povo sem pátria! Viva Salomão, o sábio que pediu mais sabedoria! Viva o legislador Rama, viva Krisna e toda a vastidão dos Vedas e do Hinduísmo! Viva Buda, o Anjo filósofo que também pregou Bondade, ampliando o Amor não só aos humanos mas a todos os seres vivos ! Que vivam as doutrinas filosóficas da China colhidas do sublime I-Ching e das palavras de Lao-tsé e Confúcio! Viva Maomé e vivam aqueles que compreendem o verdadeiro objetivo do Corão! Viva Kardec que compilou e viva Leon Denis que divulgou a doutrina consoladora! Que vivam os crentes lúcidos, as testemunhas de Jeová e todas as seitas independentes que desejam melhorar o homem! Viva a santa madre Teresa de Calcutá, que nos dias atuais é o símbolo máximo do altruísmo e amor pelos irmãos! Que vivam em plena Luz todas mulheres e homens de boa vontade! E que continuem vivendo também para os estudiosos a riqueza esotérica deixada pelo Egito, Grécia e Pérsia Antiga através das palavras de Hermes, Akhenaton, Orfeu, Pitágoras, Sócrates, Platão e Zaratrusta! Pois existe água viva em muitas fontes. Precisamos é apurar o paladar e abrir bastante os olhos e os ouvidos.


E livrai-nos, ó Deus de todas as raças, ó Deus de todas as crenças, livrai-nos do fanatismo!


Toda luz
é obra do Pai Eterno.
A ignorância do homem
é a sombra dessa luz.




(Publicado em 1995, inicialmente no Imprensa Livre de Muzambinho; depois no Avatar de Cuiabá e na Folha de Campinas, etc.)

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Johann Wolfgang von Goethe: 3 Canções


Canção de Mignon

Conheces a região do laranjal florido?
Ardem, na escura fronde, em brasa os pomos de ouro;
No céu azul perpassa a brisa num gemido...
A murta nem se move e nem palpita o louro...
Não a conheces tu? Pois lá... bem longe, além,
Quisera ir-me contigo, ó meu querido bem!

A casa, sabes tu? em luzes brilha toda,
E a sala e o quarto. O teto em colunas descansa.
Olham, como a dizer-me, as estátuas em roda:
- Que fizeram de ti, ó mísera criança!
Não a conheces tu? Pois lá... bem longe, além,
Quisera ir-me contigo, ó meu senhor, meu bem!

Conheces a montanha ao longe enevoada?
A alimária procura entre névoas a estrada...
Lá, a caverna escura onde o dragão habita,
E a rocha donde a prumo a água se precipita...
Não a conheces tu? Pois lá... bem longe, além,
Vamos, ó tu, meu pai e meu senhor, meu bem!

O Reencontro

ELE:
Por que estás hoje esquiva, ó minha doce amiga?
Concede um beijo a mais a estes lábios famintos...
A árvore hoje, como ontem, tem os ramos retintos
de flores que alimenta, sustém, renova e abriga.
Comparavas meu beijo às abelhas inquietas
que buscam sem cessar a flor dos seus amores,
sussurrando, a zumbir, nas moitas prediletas
o seu canto de gozo, hino ao perfume e às cores...
Ébrio de azul, de luz, perfume que bebeu,
o enxame sem descanso a faina continua...
Não há flores no chão, nenhuma planta nua...
Será que a Primavera só para nós morreu?

ELA:
Aperta-me ao teu peito! Ontem nos separamos!
E a saudade é mais suave do que todo desejo.
Sonha, querido amigo! A lembrança de um beijo
é mais doce que todos os beijos que trocamos...
A noite sem piedade veio nos separar.
Foi tão triste, à tardinha, o nosso adeus de ontem!
Que as Primaveras sempre para nós dois repontem
nas árvores, nas flores, nos frutos do pomar...

Anelo

Só aos sábios o revele,
Pois o vulgo zomba logo:
Quero louvar o vivente
Que aspira à morte no fogo.

Na noite – em que te geraram,
Em que geraste – sentiste,
Se calma a luz que alumiava,
Um desconforto bem triste.

Não sofres ficar nas trevas
Onde a sombra se condensa.
E te fascina o desejo
De comunhão mais intensa.

Não te detêm as distâncias,
Ó mariposa! e nas tardes,
Ávida de luz e chama,
Voas para a luz em que ardes.

"Morre e transmuda-te": enquanto
Não cumpres esse destino,
És sobre a terra sombria
Qual sombrio peregrino.


Johann Wolfgang von Goethe (1749-1832)


Tradução de
João Ribeiro (1) Roquette Pinto (2) Manuel Bandeira (3)