sexta-feira, 7 de setembro de 2018

Brasil. Pátria amada




Brasil. Pátria amada,
ensolarada e festiva!
País alegre do carnaval e do futebol,
do samba, das praias
e das elegantes mulatas.
As nações recordam e choram
a tua decadência.

Onde está a música popular
de outrora,
rica e festejada?
os chorinhos, os maracatus,
as modinhas das cidades?
as modas, as catiras,
os causos das roças e vilarejos?
Miscigenadas,
superficializadas,
globalizadas.
Pixinguinha, Noel, Jobim e Catulo
silenciosos dormem.

Os pináculos de nossa cultura
sem descendentes choram.
Machado e Rosa,
Castro e Drummond,
Carlos e Villa,
Almeida e Portinari.

As florestas, abandonadas;
o ouro, roubado pelos eleitos;
cinza está o céu;
apagadas as estrelas.
Ordem e Progresso
são palavras e nada mais. 

Ai de ti, povo solidário, amável
- bestializado e escravizado
pela caterva sem escrúpulos!
Ah! Minha Pátria amada,
triste e ensolarada.




segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

As Longitudes


pequenas asas
camufladas na nuvem

mariposa
engendrada no azul

alamandas fictícias
na madeira branca

rútila manhã
em estáticos bambuzais

bambus sem música
que amanhã serão flautas

ah! estes longes desvanecidos
colinas arabescos emblemas

bosque
que se esgarça na névoa

Liturgia do Silêncio 



sábado, 14 de janeiro de 2017

Igor Stravinsky e Miles Davis: grandes inovadores da música



De certa forma, Miles Davis está para o Jazz assim como Stravinsky para a Música Clássica do século XX. Pela sede de pesquisa e descoberta de novos sons, ambos estiveram na vanguarda de quase todos os movimentos importantes da época em que viveram, cada qual em seu gênero. Desbravaram fronteiras e criaram vertentes que foram seguidas por inúmeros músicos.

No balé inicial O Pássaro de Fogo (1910), Stravinsky foi influenciado por Rimsky-Korsakov e Debussy, mas logo encontrou a individualidade em Petrushka (1911), que o levou em 1913 à sua obra-prima mais famosa que é a Sagração da Primavera, de indiscutível valor artístico e histórico, pois esse audacioso bailado alterou definitivamente o caminho da música. Contudo, não permaneceu muito tempo nesse estilo. Buscou outras formas: a música de cena A História do Soldado (1918), de gênero indefinido, uma curiosa pantomima, mescla de commedia dell’arte e circo mambembe - extremamente original, uma obra-prima absoluta, e As Bodas, de 1919, balé-cantata com inspiração no folclore russo. No princípio dos anos 20, Stravinsky perturba o mundo com outra metamorfose. Muda completamente a direção, buscando na arte musical antes de Bach e de Pergolesi o novo estilo. Daí surgem os balés Pulcinella (1920) e Apollon Musagéte (1928) e, em destaque, a obra-prima de câmara Octeto para Instrumentos de Sopros (1923). A esse estilo (re)inventado deram o nome de 'neoclassico' ou 'neobarroco', que permaneceu por mais de trinta anos como diretriz para muitos compositores. A partir da estética sugerida por ele, para tirar a música dos excessos do romantismo, o compositor renova-se a cada obra, transmutando os clássicos do passado através de sua própria linguagem. E na mesma década de 20, a partir de Handel, cria outra obra-prima: a ópera-oratório com texto em latim Oedipus Rex (1927). A austera Sinfonia dos Salmos (1930), outra peça de estrutura mista, entre sinfonia e cantata, é uma das melhores de Stravinsky; foi a primeira obra coral surgida de sua necessidade de renovação, além de artística, espiritual. Nos anos 40, após alguma investida sinfônica à maneira de Beethoven e Brahms, como podemos notar em sua Sinfonia em Dó (1940) e sobretudo na Sinfonia em 3 Movimentos (sinfonia-suíte!), de 1945,  o russo mais uma vez muda de pele: torna-se católico fervoroso e escreve a Missa (1947), uma das mais belas e sinceras do século XX. E, no final da vida, a partir da Cantata (1952) e do Canticum Sacrum (1955), o compositor novamente modifica o estilo, desta vez adotando a 'técnica dos 12 tons' de Schoenberg (via Webern). De forma que, na velhice, já muito distante do período inicial das danças pagãs, Stravinsky torna-se introspectivo. Desta vez, na música sacra, gênero onde se localiza a maioria das obras da última fase, e ainda hoje pouco conhecidas, o ‘eterno inovador’ segue até o final experimentando no dodecafonismo novas possibilidades sonoras.

Em termos de metamorfoses, não foi diferente o caminho de Miles Davis. Começou no Bepop, tocou no quinteto do grande Charlie Parker, mas em pouco tempo, no período de 1949-50, torna-se um dos criadores do Cool, uma nova maneira de se fazer jazz, através das sessões de Birth of the Cool. Em 1956, surgem registros grandiosos em uma série com o The Miles Davis Quintet, que é uma de minhas preferidas: Cookin’, Relaxin’, Steamin’ e Workin’. Fase rica que culminou no Kind of Blue, de 1959, um dos maiores e mais importantes álbuns gravados na história não só do jazz mas de toda a música ocidental. Nos anos 60, mais uma vez Miles Davis demonstra em suas experiências inquietude e sede por renovação estética: é responsável pela fusão jazz-rock, com o álbum duplo Bitches Brew, de 1969, outra grande obra do jazz e de toda a música instrumental, ainda hoje considerado belamente ácida e inovadora. No final da vida, aproximou-se do Funk, procurando novas fusões e inovações.

É curioso lembrar que ambos os músicos também experimentaram no campo um do outro. Stravinsky, no final da guerra de 1914, quando residiu na Suiça, demonstrou interesse por rag-time que utilizou em peças para piano e de câmara, entre elas o Rag-time para 11 instrumentos. Na década de 40, escreveu o Ebony Concerto, obra mais próxima do jazz propriamente dito. Por outro lado, Miles Davis, junto com o genial arranjador Gil Evans, buscaram na música clássica uma nova atmosfera criativa. Gravaram uma versão de Porgy & Bess do americano George Gershwin, e Sketches of Spain, com peças dos espanhóis Joaquín Rodrigo e Manuel de Falla que, interpretadas de maneira muito pessoal, adquiriram face diferente, mas não menos geniais. São álbuns já antológicos, considerados obras supremas pelos melômanos. Para mim, superior a esses dois trabalhos é o instigante Miles Ahead, também em parceria com Evans, o responsável pelos arranjos da big band. E é histórico: nesse álbum está The Maids of Cádiz, de Délibes, a primeira peça de música clássica gravada por Miles Davis.

Como homenagem a esses desbravadores de fronteiras, deixo aqui duas gravações. Já são obras conhecidas, de longa data, por todos os apaixonados pelos dois gêneros. Mas nem todas as pessoas tiveram a chance de ouvi-las. Por isso, aqui estão.

O balé Le Sacre du Printemps (A Sagração da Primavera). A curiosidade é que esta versão apresenta-se na regência do próprio Stravinsky. É o primeiro de 9 CDs de uma coleção remasterizada e lançada pela Sony em 1999, com gravações dos anos 60. É uma oportunidade de ouvir a maneira como o compositor interpretava a sua prima obra.

Download MP3 - Baixar  


E Kind of Blue, a obra-prima de Miles Davis e de seu grupo, gravada em apenas duas sessões.

Um dos inúmeros méritos de Miles Davis era a sábia escolha dos músicos que integravam os seus grupos. A formação abaixo passou para a história do jazz como ‘o sexteto que gravou Kind of Blues’. De uma coesão impressionante, admirável em todos os sentidos, daquele tipo de interação que acontece raríssimas vezes, o sexteto brilha. Não era pra menos, eis os músicos:

Miles Davis (trumpete) - Julian "Cannonball" Adderley (sax alto) - John Coltrane (sax tenor) -Wynton Kelly & Bill Evans (piano) - Paul Chambers (contrabaixo) - Jimmy Cobb (bateria)

Download MP3: Baixar  
MilesDavis.KindOfBlue1959.zip

 

quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

Unamuno - 'Pensamento'


“Mais vale o erro em que se crê do que a realidade em que não se crê; pois não é o erro, e sim a mentira, o que mata a alma.” – Miguel de Unamuno.

terça-feira, 1 de setembro de 2015

Kafka

 
- Não - disse o sacerdote. - Não é preciso considerar tudo como verdade, é preciso apenas considerá-lo necessário.

- Opinião desoladora - disse K. - A mentira se converte em ordem universal.


Esse diálogo devastador é o ápice do medo e da descrença de Kafka. Está no capítulo A Catedral de 'O Processo'.

Na verdade, o capítulo A Catedral não é simplesmente a chave, mas o ponto crucial onde se revelam a amargura e a desesperança de Joseph K. diante de todos os processos da vida e do mundo. Kafka pensava assim: a distância dos seres comuns para o Deus todo poderoso é infinita e inatingível, não existe o ponto de chegada.

Não é possível compreender o homem Kafka, lendo-o com olhos cristãos, porque a formação religiosa do tcheco era judaica. A problemática de 'O Processo' e de toda a obra de Kafka é religiosa. O ponto de partida e de regresso, antes de ser filosófico, é psicanalítico; nos dois aspectos o entendimento é como uma serpente correndo atrás da cauda. E é também metafísica a metáfora da culpa, e mais ainda: é esotérica. O que Hermes Trismegisto escreveu na 'Tábua de Esmeralda' aplica-se à cosmogonia kafkeana: "Assim como é em cima, é embaixo". O pai carnal de Kafka é a súmula e a extrapolação da severidade: como em um jogo de espelhos essa figura paterna torna-se o reflexo direto da visão divina no trono, sempre inatingível.

Se 'O Processo' é o eixo do conjunto da obra kafkeana, e 'A Metamorfose' a maneira como o autor se sentia diante do espelho: um inseto insignificante porque assim o pai o fez sentir desde menino, já 'O Castelo', o outro grande romance do escritor, é a nuance, o aceno, o vislumbre de que talvez pudesse ser aceito tanto pelo pai terreno como pelo pai celestial. Essa grande obra ficou inacabada, mas os amigos, a quem o autor comentou o final que nunca foi escrito, dizem que o personagem, após tantas lutas, por fim consegue a anuência de atingir o 'castelo'. Da mesma forma que o sacristão da catedral em 'O Processo' é o porteiro para este lugar abstrato, também a burocracia é o portal que impede o homem de chegar ao 'Castelo'. A metáfora é a mesma, embora na segunda há uma sutil luz de esperança.

Creio que também deve ser mencionado 'Um Artista da Fome', talvez o mais significativo conto do autor;  narrativa curta, artistica e estilisticamente perfeita, que está no mesmo nível das anteriores.

As quatro grandes obras que citei - dois romances, uma novela e um conto - são a voz máxima de Kafka enquanto artista criador, mas só é possível compreender o homem Kafka após a leitura de uma quinta obra, a 'Carta ao Pai', de alta importância biográfica. Essa "carta" gigante seria o acerto de contas com a tirania do homem que o educou, o correspondente neste plano material ao Deus Onipotente. Mas o terror diante do patriarca, tanto o celestial quanto o reflexo dele, o terreno, era de tal dimensão que o autor não teve coragem de entregar a carta. O pai de Kafka partiu desta vida sem saber do tamanho do esfacelamento que fez na personalidade do filho.

E, talvez por isso mesmo, não entregando a carta, não recebendo a anuência paterna, o escritor não teve coragem de terminar a narrativa de O Castelo. De forma que deixa a nós leitores a eterna dúvida: o agrimensor conseguiu ser aceito no castelo ou não?

No fundo, no fundo o que Kafka mais queria era ser amado pelo pai e dele obter um mínimo de atenção e concordância. Porém, se isso tivesse ocorrido não teríamos essas grandes obras de um autor cuja angústia é a súmula do século XX, a que mais representa a fragmentação do indivíduo por qualquer tipo de poder que oprime e destrói.

Em Kafka, como em todos os escritores herméticos, é preciso enxergar as metáforas abrangendo o todo, embora em cada símbolo esteja oculto o fio de Ariadne para que encontremos a saída do labirinto - metáfora que se enquadra em todos os 'nós' dos questionamentos existenciais.



domingo, 14 de dezembro de 2014

Walt Whitman: Canção de Mim Mesmo



Me elevo da lua .... me elevo da noite,
E percebo nesse lívido lampejo
os raios do sol do meio-dia refletidos,
E desemboco no que é estável 
e está no centro do maior ou menor rebento.

Aquela coisa em mim .... não sei o que é .... 
só sei que está em mim.

Cansado e suado .... calmo e fresco fica meu corpo;
Durmo ... durmo por muito tempo.

Não sei o que é .... não tem nome .... é uma palavra não dita,
Não figura em nenhum dicionário nem expressão nem símbolo.

Algo que gira acima de algo mais imenso que a Terra aonde giro,
Para ela a criação é o amigo cujo abraço me faz recordar.

Quem sabe diga mais alguma coisa .... 
Esquemas! Imploro a meus irmãos e irmãs.

Estão vendo isso Ó meus irmãos e irmãs?
Não é caos nem morte .... é forma e coesão e projeto .... 
é vida eterna .... é felicidade.

O passado e o presente definham .... já os enchi e esvaziei,
Passo a encher minha própria dobra do futuro.

Vocês que me escutam aí em cima! Você aí .... 
algum segredo para me contar?
Me encare enquanto assopro o discreto poente,
Seja sincero, ninguém está te ouvindo, 
só vou ficar mais um minuto.

Me contradigo?
Tudo bem, então .... me contradigo;
Sou vasto .... contenho multidões.

Me concentro nos que estão perto .... espero na porta.

Quem terminou o batente e vai jantar mais cedo?
Quem quer passear comigo?

Você vai falar antes que eu vá embora? 
Ou virá quando já for tarde demais?

O falcão pintado dá uma rasante sobre mim e me acusa .... 
reclama de minha conversa fiada, minha preguiça.

Também não sou facilmente amestrado ....
também não sou facilmente traduzível,
Solto meu urro bárbaro sobre os telhados do mundo.

A última nuvem do dia se demora por mim.

Lança minha semelhança após o resto, 
fiel como todas nos ermos sombrios,
Me incita para o vapor e para o crepúsculo.

Vou-me feito vento .... agito meus cabelos brancos 
contra o sol fugitivo,
Esparramo minha carne em redemoinhos 
e a deixo flutuar em retalhos rendados.

Me entrego à terra pra crescer da relva que amo,
Se me quiser de novo me procure sob a sola de suas botas.

Vai ser difícil você saber quem sou 
ou o que estou querendo dizer,
Mas mesmo assim vou dar saúde,
Vou filtrar e dar fibra a seu sangue.

Não me cruzando na primeira não desista,
Não me vendo num lugar procure em outro,
Em algum lugar eu paro e espero você.


(final do poema "Canção de Mim Mesmo",
em "As Folhas da Relva")