segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

As Longitudes


pequenas asas
camufladas na nuvem

mariposa
engendrada no azul

alamandas fictícias
na madeira branca

rútila manhã
em estáticos bambuzais

bambus sem música
que amanhã serão flautas

ah! estes longes desvanecidos
colinas arabescos emblemas

bosque
que se esgarça na névoa

Liturgia do Silêncio 



sábado, 14 de janeiro de 2017

Igor Stravinsky e Miles Davis: grandes inovadores da música



De certa forma, Miles Davis está para o Jazz assim como Stravinsky para a Música Clássica do século XX. Pela sede de pesquisa e descoberta de novos sons, ambos estiveram na vanguarda de quase todos os movimentos importantes da época em que viveram, cada qual em seu gênero. Desbravaram fronteiras e criaram vertentes que foram seguidas por inúmeros músicos.

No balé inicial O Pássaro de Fogo (1910), Stravinsky foi influenciado por Rimsky-Korsakov e Debussy, mas logo encontrou a individualidade em Petrushka (1911), que o levou em 1913 à sua obra-prima mais famosa que é a Sagração da Primavera, de indiscutível valor artístico e histórico, pois esse audacioso bailado alterou definitivamente o caminho da música. Contudo, não permaneceu muito tempo nesse estilo. Buscou outras formas: a música de cena A História do Soldado (1918), de gênero indefinido, uma curiosa pantomima, mescla de commedia dell’arte e circo mambembe - extremamente original, uma obra-prima absoluta, e As Bodas, de 1919, balé-cantata com inspiração no folclore russo. No princípio dos anos 20, Stravinsky perturba o mundo com outra metamorfose. Muda completamente a direção, buscando na arte musical antes de Bach e de Pergolesi o novo estilo. Daí surgem os balés Pulcinella (1920) e Apollon Musagéte (1928) e, em destaque, a obra-prima de câmara Octeto para Instrumentos de Sopros (1923). A esse estilo (re)inventado deram o nome de 'neoclassico' ou 'neobarroco', que permaneceu por mais de trinta anos como diretriz para muitos compositores. A partir da estética sugerida por ele, para tirar a música dos excessos do romantismo, o compositor renova-se a cada obra, transmutando os clássicos do passado através de sua própria linguagem. E na mesma década de 20, a partir de Handel, cria outra obra-prima: a ópera-oratório com texto em latim Oedipus Rex (1927). A austera Sinfonia dos Salmos (1930), outra peça de estrutura mista, entre sinfonia e cantata, é uma das melhores de Stravinsky; foi a primeira obra coral surgida de sua necessidade de renovação, além de artística, espiritual. Nos anos 40, após alguma investida sinfônica à maneira de Beethoven e Brahms, como podemos notar em sua Sinfonia em Dó (1940) e sobretudo na Sinfonia em 3 Movimentos (sinfonia-suíte!), de 1945,  o russo mais uma vez muda de pele: torna-se católico fervoroso e escreve a Missa (1947), uma das mais belas e sinceras do século XX. E, no final da vida, a partir da Cantata (1952) e do Canticum Sacrum (1955), o compositor novamente modifica o estilo, desta vez adotando a 'técnica dos 12 tons' de Schoenberg (via Webern). De forma que, na velhice, já muito distante do período inicial das danças pagãs, Stravinsky torna-se introspectivo. Desta vez, na música sacra, gênero onde se localiza a maioria das obras da última fase, e ainda hoje pouco conhecidas, o ‘eterno inovador’ segue até o final experimentando no dodecafonismo novas possibilidades sonoras.

Em termos de metamorfoses, não foi diferente o caminho de Miles Davis. Começou no Bepop, tocou no quinteto do grande Charlie Parker, mas em pouco tempo, no período de 1949-50, torna-se um dos criadores do Cool, uma nova maneira de se fazer jazz, através das sessões de Birth of the Cool. Em 1956, surgem registros grandiosos em uma série com o The Miles Davis Quintet, que é uma de minhas preferidas: Cookin’, Relaxin’, Steamin’ e Workin’. Fase rica que culminou no Kind of Blue, de 1959, um dos maiores e mais importantes álbuns gravados na história não só do jazz mas de toda a música ocidental. Nos anos 60, mais uma vez Miles Davis demonstra em suas experiências inquietude e sede por renovação estética: é responsável pela fusão jazz-rock, com o álbum duplo Bitches Brew, de 1969, outra grande obra do jazz e de toda a música instrumental, ainda hoje considerado belamente ácida e inovadora. No final da vida, aproximou-se do Funk, procurando novas fusões e inovações.

É curioso lembrar que ambos os músicos também experimentaram no campo um do outro. Stravinsky, no final da guerra de 1914, quando residiu na Suiça, demonstrou interesse por rag-time que utilizou em peças para piano e de câmara, entre elas o Rag-time para 11 instrumentos. Na década de 40, escreveu o Ebony Concerto, obra mais próxima do jazz propriamente dito. Por outro lado, Miles Davis, junto com o genial arranjador Gil Evans, buscaram na música clássica uma nova atmosfera criativa. Gravaram uma versão de Porgy & Bess do americano George Gershwin, e Sketches of Spain, com peças dos espanhóis Joaquín Rodrigo e Manuel de Falla que, interpretadas de maneira muito pessoal, adquiriram face diferente, mas não menos geniais. São álbuns já antológicos, considerados obras supremas pelos melômanos. Para mim, superior a esses dois trabalhos é o instigante Miles Ahead, também em parceria com Evans, o responsável pelos arranjos da big band. E é histórico: nesse álbum está The Maids of Cádiz, de Délibes, a primeira peça de música clássica gravada por Miles Davis.

Como homenagem a esses desbravadores de fronteiras, deixo aqui duas gravações. Já são obras conhecidas, de longa data, por todos os apaixonados pelos dois gêneros. Mas nem todas as pessoas tiveram a chance de ouvi-las. Por isso, aqui estão.

O balé Le Sacre du Printemps (A Sagração da Primavera). A curiosidade é que esta versão apresenta-se na regência do próprio Stravinsky. É o primeiro de 9 CDs de uma coleção remasterizada e lançada pela Sony em 1999, com gravações dos anos 60. É uma oportunidade de ouvir a maneira como o compositor interpretava a sua prima obra.

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E Kind of Blue, a obra-prima de Miles Davis e de seu grupo, gravada em apenas duas sessões.

Um dos inúmeros méritos de Miles Davis era a sábia escolha dos músicos que integravam os seus grupos. A formação abaixo passou para a história do jazz como ‘o sexteto que gravou Kind of Blues’. De uma coesão impressionante, admirável em todos os sentidos, daquele tipo de interação que acontece raríssimas vezes, o sexteto brilha. Não era pra menos, eis os músicos:

Miles Davis (trumpete) - Julian "Cannonball" Adderley (sax alto) - John Coltrane (sax tenor) -Wynton Kelly & Bill Evans (piano) - Paul Chambers (contrabaixo) - Jimmy Cobb (bateria)

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MilesDavis.KindOfBlue1959.zip

 

quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

Unamuno - 'Pensamento'


“Mais vale o erro em que se crê do que a realidade em que não se crê; pois não é o erro, e sim a mentira, o que mata a alma.” – Miguel de Unamuno.

terça-feira, 1 de setembro de 2015

Kafka

 
- Não - disse o sacerdote. - Não é preciso considerar tudo como verdade, é preciso apenas considerá-lo necessário.

- Opinião desoladora - disse K. - A mentira se converte em ordem universal.


Esse diálogo devastador é o ápice do medo e da descrença de Kafka. Está no capítulo A Catedral de 'O Processo'.

Na verdade, o capítulo A Catedral não é simplesmente a chave, mas o ponto crucial onde se revelam a amargura e a desesperança de Joseph K. diante de todos os processos da vida e do mundo. Kafka pensava assim: a distância dos seres comuns para o Deus todo poderoso é infinita e inatingível, não existe o ponto de chegada.

Não é possível compreender o homem Kafka, lendo-o com olhos cristãos, porque a formação religiosa do tcheco era judaica. A problemática de 'O Processo' e de toda a obra de Kafka é religiosa. O ponto de partida e de regresso, antes de ser filosófico, é psicanalítico; nos dois aspectos o entendimento é como uma serpente correndo atrás da cauda. E é também metafísica a metáfora da culpa, e mais ainda: é esotérica. O que Hermes Trismegisto escreveu na 'Tábua de Esmeralda' aplica-se à cosmogonia kafkeana: "Assim como é em cima, é embaixo". O pai carnal de Kafka é a súmula e a extrapolação da severidade: como em um jogo de espelhos essa figura paterna torna-se o reflexo direto da visão divina no trono, sempre inatingível.

Se 'O Processo' é o eixo do conjunto da obra kafkeana, e 'A Metamorfose' a maneira como o autor se sentia diante do espelho: um inseto insignificante porque assim o pai o fez sentir desde menino, já 'O Castelo', o outro grande romance do escritor, é a nuance, o aceno, o vislumbre de que talvez pudesse ser aceito tanto pelo pai terreno como pelo pai celestial. Essa grande obra ficou inacabada, mas os amigos, a quem o autor comentou o final que nunca foi escrito, dizem que o personagem, após tantas lutas, por fim consegue a anuência de atingir o 'castelo'. Da mesma forma que o sacristão da catedral em 'O Processo' é o porteiro para este lugar abstrato, também a burocracia é o portal que impede o homem de chegar ao 'Castelo'. A metáfora é a mesma, embora na segunda há uma sutil luz de esperança.

Creio que também deve ser mencionado 'Um Artista da Fome', talvez o mais significativo conto do autor;  narrativa curta, artistica e estilisticamente perfeita, que está no mesmo nível das anteriores.

As quatro grandes obras que citei - dois romances, uma novela e um conto - são a voz máxima de Kafka enquanto artista criador, mas só é possível compreender o homem Kafka após a leitura de uma quinta obra, a 'Carta ao Pai', de alta importância biográfica. Essa "carta" gigante seria o acerto de contas com a tirania do homem que o educou, o correspondente neste plano material ao Deus Onipotente. Mas o terror diante do patriarca, tanto o celestial quanto o reflexo dele, o terreno, era de tal dimensão que o autor não teve coragem de entregar a carta. O pai de Kafka partiu desta vida sem saber do tamanho do esfacelamento que fez na personalidade do filho.

E, talvez por isso mesmo, não entregando a carta, não recebendo a anuência paterna, o escritor não teve coragem de terminar a narrativa de O Castelo. De forma que deixa a nós leitores a eterna dúvida: o agrimensor conseguiu ser aceito no castelo ou não?

No fundo, no fundo o que Kafka mais queria era ser amado pelo pai e dele obter um mínimo de atenção e concordância. Porém, se isso tivesse ocorrido não teríamos essas grandes obras de um autor cuja angústia é a súmula do século XX, a que mais representa a fragmentação do indivíduo por qualquer tipo de poder que oprime e destrói.

Em Kafka, como em todos os escritores herméticos, é preciso enxergar as metáforas abrangendo o todo, embora em cada símbolo esteja oculto o fio de Ariadne para que encontremos a saída do labirinto - metáfora que se enquadra em todos os 'nós' dos questionamentos existenciais.



domingo, 14 de dezembro de 2014

Walt Whitman: Canção de Mim Mesmo



Me elevo da lua .... me elevo da noite,
E percebo nesse lívido lampejo
os raios do sol do meio-dia refletidos,
E desemboco no que é estável 
e está no centro do maior ou menor rebento.

Aquela coisa em mim .... não sei o que é .... 
só sei que está em mim.

Cansado e suado .... calmo e fresco fica meu corpo;
Durmo ... durmo por muito tempo.

Não sei o que é .... não tem nome .... é uma palavra não dita,
Não figura em nenhum dicionário nem expressão nem símbolo.

Algo que gira acima de algo mais imenso que a Terra aonde giro,
Para ela a criação é o amigo cujo abraço me faz recordar.

Quem sabe diga mais alguma coisa .... 
Esquemas! Imploro a meus irmãos e irmãs.

Estão vendo isso Ó meus irmãos e irmãs?
Não é caos nem morte .... é forma e coesão e projeto .... 
é vida eterna .... é felicidade.

O passado e o presente definham .... já os enchi e esvaziei,
Passo a encher minha própria dobra do futuro.

Vocês que me escutam aí em cima! Você aí .... 
algum segredo para me contar?
Me encare enquanto assopro o discreto poente,
Seja sincero, ninguém está te ouvindo, 
só vou ficar mais um minuto.

Me contradigo?
Tudo bem, então .... me contradigo;
Sou vasto .... contenho multidões.

Me concentro nos que estão perto .... espero na porta.

Quem terminou o batente e vai jantar mais cedo?
Quem quer passear comigo?

Você vai falar antes que eu vá embora? 
Ou virá quando já for tarde demais?

O falcão pintado dá uma rasante sobre mim e me acusa .... 
reclama de minha conversa fiada, minha preguiça.

Também não sou facilmente amestrado ....
também não sou facilmente traduzível,
Solto meu urro bárbaro sobre os telhados do mundo.

A última nuvem do dia se demora por mim.

Lança minha semelhança após o resto, 
fiel como todas nos ermos sombrios,
Me incita para o vapor e para o crepúsculo.

Vou-me feito vento .... agito meus cabelos brancos 
contra o sol fugitivo,
Esparramo minha carne em redemoinhos 
e a deixo flutuar em retalhos rendados.

Me entrego à terra pra crescer da relva que amo,
Se me quiser de novo me procure sob a sola de suas botas.

Vai ser difícil você saber quem sou 
ou o que estou querendo dizer,
Mas mesmo assim vou dar saúde,
Vou filtrar e dar fibra a seu sangue.

Não me cruzando na primeira não desista,
Não me vendo num lugar procure em outro,
Em algum lugar eu paro e espero você.


(final do poema "Canção de Mim Mesmo",
em "As Folhas da Relva")

quarta-feira, 5 de março de 2014

Villa-Lobos: 4 Bailados do Amazonas



Heitor Villa-Lobos nasceu no dia 5 de março de 1887 e faleceu em 17 de novembro de 1959, com a idade de 72 anos. Rio de Janeiro foi o seu berço e também o seu último leito. No percurso, uma vida inteira dedicada à música. De sua inspiração surgiram muito mais de duas mil obras em todos os gêneros: suítes orquestrais, sinfonias e concertos, peças para instrumento solo (piano e violão), quartetos de cordas e as mais inusitadas formações de câmara, centenas de canções para voz solo, corais; e como se não bastasse toda essa prolífica obra, ainda lhe restou tempo para compor alguns balés, óperas e trilhas para dois filmes. Hoje, após mais de 50 anos de sua morte, a arte musical de Villa-Lobos, gênio tupiniquim, permanece mais viva do que nunca, executada com entusiasmo nas mais importantes salas de recitais e concertos do mundo todo.

Essa denominação de 'gênio tupiniquim' é apenas uma saudável brincadeira, pois é bastante conhecida a indignação - uma indignação bem humorada, em tom de galhofa - que o próprio compositor demonstrava ao ser chamado de ''compositor brasileiro'', retrucando que ninguém se refere a Beethoven como músico alemão, ou Mozart, austríaco. Sim, entendemos... Então o qualifiquemos da forma como gostaria de ser chamado: Villa-Lobos, compositor nascido no Brasil, cujas obras foram criadas para a Humanidade, de qualquer tempo e de qualquer lugar. Enfim, Heitor Villa-Lobos, homem do Brasil, artista do mundo.

Na década de 40, nos EUA, quando Villa-Lobos foi considerado o maior compositor das três Américas, muita gente importante da música torceu o nariz, porém não havia exagero nessa elevação superlativa. Copland, o compositor mais querido dos americanos, embora discordasse de alguns pontos de vista estéticos de Villa-Lobos, o respeitava muito. No México, Manuel Maria Ponce e Carlos Chávez dedicavam-lhe reverência. O grande Ginastera da Argentina sempre demonstrou-lhe humilde gratidão. Isso só para citar nomes de peso da música erudita de outros países das Américas.

É difícil catalogar uma obra como a de Villa-Lobos, tão vasta como a própria selva amazônica, caudalosa como nossos rios, rica como a flora e a fauna de nossas florestas e campos, exoticamente melodiosa como o canto de nossos pássaros. Apesar de muitos defeitos, principalmente na orquestração excessiva, às vezes de exaustiva prolixidade, ou na falta de inspiração de várias obras de encomenda, ou da grande quantidade de coros cívicos e obras comemorativas de valor apenas para a ocasião, a inspiração de Villa é exuberante, sincera e de alta qualidade em pelo menos 50% da totalidade de sua criação.

Para avaliar a grandeza de Villa-Lobos, além das duas séries mais importantes: os Choros e as Bachianas Brasileiras, que já são obras-primas da música clássica moderna, bastaria mencionar a impressionante série de quartetos de cordas, 17 ao todo, e um inacabado, que escrevia quando morreu. É só lembrar que Hindemith compôs 7; Bartók, 6; Schoenberg, 4; Debussy, 1; Stravinsky, nenhum, para compreendermos a prolificidade villalobiana. Esse gênero difícil, pouco frequentado pela maioria dos compositores, foi o foco de atenção de Villa-Lobos em sua última década de vida, e vários desses quartetos permanecem como algumas de suas obras mais ricas. Quando a quantidade é citada, pensa-se que o número inibe o talento, mas não; diferente do que ocorrera com as sinfonias e vários concertos da última fase, a maioria escrita sob encomenda, e às vezes sem muita inspiração, os melhores desses quartetos de cordas foram criados pela necessidade do artista de dar voz a uma sensibilidade mais íntima.  

As sinfonias, em número de 12, mais as sinfonietas, não mostram o melhor de Villa-Lobos, com raras exceções, como a No. 6, de 1944, dita 'Sobre a Linha das Montanhas do Brasil', bela e interessantíssima em seu propósito criativo, ao seguir o gráfico da Serra dos Órgãos e torná-lo real em som; e talvez a No.10, a 'Sumé Pater Patrium' (1952), com texto do padre Anchieta. Mas esta é uma obra híbrida, mais um oratório do que sinfonia e, ainda assim, irregular; há momentos brilhantes e outros de uma inegável monotonia. O tema sacro não era o mais forte nem o mais sincero em Villa-Lobos, salvo quando podia contrapô-lo a um tema secular ou a uma crença diversa, como é o caso do grandioso e fascinante coro 'tupi' na Suíte No.4 de 'O Descobrimento do Brasil'.  

Já os 17 quartetos de cordas, ricos em profundidade, técnica, e sobretudo maturidade artística, hão de permanecer, e já bastariam para destacar Villa-Lobos como um dos maiores compositores, não somente das Américas, mas de todo século XX.

Com a devida justiça, Villa-Lobos, já é considerado pelos musicólogos de renome como um dos mais criativos compositores da história da música, e o mais significativo do continente latino-americano no sentido de englobar a música erudita, a folclórica (principalmente a ameríndia e a nordestina) e a popular (choros e modinhas do Rio de Janeiro, modas de viola do cancioneiro rural paulista e mineiro, etc.)

Há algumas décadas, afirmar com ênfase a genialidade de Villa-Lobos, seria motivo de riso para alguns críticos resistentes, mas hoje sabemos que de todos os lados do planeta aparecem gravações de obras do "índio de casaca", que seria do Brasil, se já não o fosse do mundo todo. Músicos admirados executam e proclamam a excelência dessas peças; ouvintes entusiastas divulgam-nas, realçando a emoção e a vida que há nessas criações. A frase inscrita na lápide de Villa-Lobos, a pedido do próprio: "Considero as minhas obras como cartas que escrevi à posteridade sem esperar resposta" não tem mais sentido, pois a posteridade já responde a essas "cartas" com júbilo e agradecimento.

De que maneira homenagear um grande compositor na data de seu nascimento, senão ouvi-lo com o mais respeitoso silêncio? Por isso, hoje, com a oportunidade de prestar minha reverência a um de meus compositores preferidos, escolhi quatro obras para ouvir. Todas têm em comum o fato de explorarem o tema da floresta amazônica, e pelo menos três delas foram escritas originariamente para a dança. A seleção é minha. Não existem como um todo em nenhum álbum gravado.


Amazonas (1917) poema sinfônico e bailado para orquestra. É a primeira obra-prima de Villa-Lobos. Utiliza melodias indígenas coletadas durante sua viagem ao norte do país. Mário de Andrade, que às vezes errava em seus comentários musicais, mas que também acertava, tinha toda a razão quando ouviu o bailado pela primeira vez e exclamou que ali irrompia o verdadeiro gênio de Villa. É uma música visceral e nos envolve desde o início com a presença do Amazonas, o rio mais imponente do planeta, e da paisagem selvagem da floresta que o circunda, cujo solo se oculta em cipós e ramagens escuras que se estendem cada vez mais ao alto pelas copas intrincadas das árvores. A peça musical é exata: a sensação é de claustrofobia. Um dinamismo de vida macro e microscópica nos toma a imaginação: ruídos, sussurros de animais e canto de aves exóticas re-inventados por uma orquestra experimental, introduzindo o violinofone (trompa+violino), instrumento inventado pelo Villa. Embora a orquestração em muitos trechos seja caótica, se comparada à límpida escrita neoclássica de Camargo Guarnieri, não deixa de ser original e ousada. Tanto que, anos depois, foi muito elogiada por Messiaen.

Uirapuru, o outro poema sinfônico e bailado para orquestra, escrito em 1917, apesar de menos comentado e menos famoso do que 'Amazonas', não é, de maneira alguma, inferior. Considero-o mais rico e imaginativo. Além de utilizar também temas aborígenes primitivos, colhidos por Roquete Pinto, Villa-Lobos constrói sobre a linha melódica do canto do pássaro Uirapuru uma arquitetura sonora mais do que admirável. Variando as três ou quatro notas da melodia da ave a música vai sendo exposta lentamente formando a estrutura orquestral, semelhante ao que fez Beethoven na 'Sinfonia No.5'. Em ambos os casos são pouquíssimas notas, células que vão se bipartindo e aumentando até surgir um tecido complexo.

O libreto foi escrito pelo compositor, adaptado das inúmeras narrativas dos indígenas e caboclos do Amazonas aos folcloristas: "...Conta uma lenda que a magia do canto noturno do Uirapuru era tão atraente, que as índias sumiam, durante a noite, à procura do mágico trovador das florestas brasileiras, porque as feiticeiras lhes haviam contado que o Uirapuru era o rei do amor e o mais belo cacique da Terra."

Mas há outras nuances da lenda... O Uirapuru é uma ave rara, mesmo na imensa variedade de pássaros amazonenses. E raro é também seu canto. Talvez não seja o mais belo, pois há o Sabiá Laranjeira com sua riqueza de timbres. Mas o do Uirapuru é um canto mágico, varia de ritmo e melodia, como uma improvisação. E nem é essa peculiaridade que o diferencia de outros, e sim a acentuada melancolia. Sendo um pássaro cuja espécie nunca foi numerosa, acredita-se que no tempo do acasalamento surge a dificuldade de encontrar a parceira. Então, quando se ouve no anoitecer ou no amanhecer a sua melodia triste, imagina-se que ele esteja chamando a companheira. E a floresta inteira para sentindo a solidão do Uirapuru. E, de fato, dizem que essa cantiga triste é precedida por um inquietante silêncio nas matas, que dura enquanto dura o seu canto. Essa versão da lenda é bem possível que seja uma invenção poética como metáfora da solidão do artista. E há lógica na comparação, pois os artistas são admirados pelo mais belo canto que possuem, mas pouco compreendidos quanto ao motivo que os impulsiona a emitir esse mesmo canto. São solitários mesmo ao lado daqueles que mais amam. Evidentemente, é rara a companheira que poderá ouvir esse chamado.

Mandú-Çarará (1939), cantata profana para coro misto, coro infantil e orquestra, que é também um bailado. Extraída de uma lenda amazônica colhida por Barbosa Rodrigues, é simplesmente outra obra-prima de Villa-Lobos que deveria ser mais conhecida e comentada. É a apoteose índia da dança.
 
Vasco Mariz em seu famoso livro sobre Villa nos conta sobre o conteúdo da lenda e da peça: "Abandonado na floresta pelo pai, por gostarem de 'Mandú-Çarará', a encarnação da dança, um casalzinho de irmãos depara subitamente com o Currupira, que procura atrair os dois para a sua cabana e comê-los. O autor conseguiu aqui uma feliz conjugação dos coros infantil e adulto, pintando de maneira expressiva a conversa de Currupira com as crianças, atemorizadas pelos gritos do monstro, em glissandi. Após um breve trecho orquestral, surge o tema do 'Mandú-Çarará', a princípio nos baixos e barítonos, para se estender a toda a massa coral com sonoridade empolgante. As crianças conseguem, enfim, enganar o Currupira e, após muitas peripécias, encontram a casa dos pais, onde já os aguarda o 'Mandú-Çarará' para dançar e brincar."

Choros No.10 (1925) para orquestra e coro, aqui é a única que não foi escrita diretamente para a dança. Alguns anos depois de sua composição original foi adaptada e coreografada para bailado, primeiro no Rio de Janeiro, depois em Paris por Serge Lifar, com o título de 'Jurupari'. Mesmo entre as mais fascinantes criações do mestre, essa obra merece um lugar de destaque. Trata-se, com certeza, da maior obra-prima de Villa-Lobos , e quanto à fama, só perde para a famosa 'Aria' de 'Bachianas Brasileiras No.5'. No entanto, existem várias obras do mestre que estão no mesmo nível em genialidade, força e beleza.

Novamente aqui, semelhante às três obras anteriores, a floresta amazônica, densa, imensa, misteriosa surge aos poucos no amanhecer. Ao contrário do bailado Amazonas, que é de tonalidades escuras, neste 'Choros No.10' Villa-Lobos supera-se a si mesmo na reconstituição da mata que desperta no lusco-fusco da aurora seguido pela claridade matinal. A flauta é a primeira a aparecer, sugerindo o canto do Azulão; depois, as flautas e as clarinetas soam como gorgeios e trinados de pássaros que vão unindo-se a ruídos de insetos que chiam e zunem. A fauna lentamente toma nuances e formas incitando-nos a sentir a flora luxuriante dos bosques e selvas. A metade da peça é orquestral. A partir daí aparece o coro; primeiro as vozes masculinas; depois as femininas com sons onomatopéicos em vocalises que aumentam de intensidade, pouco a pouco, mostrando o elemento humano, os indígenas que iniciam o dia em seu meio natural. O ritmo das vozes é sincronizado de tal maneira com os tambores e timbales que não é difícil enxergar a poderosa dança na taba: guerreiros e esposas saudando o sol. O êxtase de júbilo que vem a partir daí com a polifonia de vozes agudas e graves entrelaçando-se é o momento mais sublime e representativo da música erudita brasileira. A contagiante verve do coro associado aos instrumentos indígenas e sincronizados com a melodia quase selvagem de toda a peça, no final eclode na música "Yara" de Anacleto de Medeiros, que ao receber letra de Catulo da Paixão Cearense, tornou-se "Rasga Coração". Villa-Lobos fez isso, durante toda a vida: quis unir o folclore, o erudito e o popular. Mas somente no 'Choros No.10' ele o conseguiu da forma mais perfeita, sincera e grandiosa. 

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Amazonas
Czecho-Slovak Radio Symphonic Orchestra (Bratislava)
Roberto Duarte, conductor

Uirapurú
Stadium Symphonic Orchestra of New York
Leopold Stokowski, conductor

Mandu-Çarará
Sistema Nacional de Coros Sinfónicos
(Zulia, Tachira, Merida y Metropolitano)
Niños Cantores del Nucleo Los Teques
Sinfónica de la Juventud Venezolana "Simon Bolívar"
Roberto Tibiriçá, director 

Choros No. 10 "Rasga o Coração"
OSESP: Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo
Coro Sinfônico do Estado de São Paulo
John Neschling, regente