sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Christmas Night: Carols of the Nativity


Aos amigos que visitam Palavra e Melodia, deixo este presente especial: hinos de Natal de sublime beleza, quase todos colhidos do folclore de diferentes nações, ora entoados pelas vozes celestiais do coro Cambridge Singers. 

Em 2012, Paz Profunda aos homens e às mulheres de boa vontade!

The Cambridge Singers
Soloists:
Nicholas Sears, tenor [5,16]
Ruth Holton, soprano [7]
Gerald Finley, baritone [9]

The City of London Sinfonia
John Rutter, conductor

1-In dulci jubilo (traditional) (3:20) 
2-Adam lay y bounden (1:12) 
3-Christmas Night (french traditional) (4:04)
4-Once, as I remember (italian traditional) (2:34)
5-A Spotless Rose (2:49)
6-In the Bleak Midwinter (4:40)
7-There is a Flower (4:08)
8-The Cherry Tree Carol (traditional) (1:55)
9-I Wonder as I Wander (american  traditional) (2:59)
10-Candlelight Carol (4:09)
11-O Tannenbaum (traditional) (2:02)
12-Tomorrow shall be my dancing day (english traditional) (1:59)
13-A Virgin Most Pure (english traditional) (2:44)
14-I Sing a Maiden (2:59)
15-Lute-book Lullaby (2:08)
16-The Three Kings (2:21)
17-Myn Lyking (2:41)
18-O Little One Sweet (3:18)
19-All my heart this night rejoices (2:18)
20-I Saw a Maiden (basque traditional) [arr. E. Pettman] (2:57)
21-Away in a Manger (2:18)
22-Nativity Carol (4:28)

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domingo, 18 de dezembro de 2011

Natal Barroco: D. Buxtehude, A. Corelli, G. Torelli, J.S. Bach, G.F. Handel



Adoração dos Pastores, óleo sobre tela
- Bartolomé Esteban Murillo -
(1617-1682)
_

Diderik Buxtehude 
Cantata do Advento: In dulci jubilo
Cantata de Natal: Ihr lieben Christen

Archangelo Corelli
Concerto Grosso Op.6: no.8
“Fatto per la Notte de Natale” 

Giuseppe Torelli
Concerto Grosso Op.8: no.6
“Pastorale per il Santissimo Natale” 

Johann Sebastian Bach
Oratório de Natal (trechos) 

George Frideric Handel
O Messias (trechos) 

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BaroqueChristmas.zip


terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Chet Baker: Silent Nights. A Christmas Jazz Album




1. Silent Night (2:50)
2. The First Noel (2:06)
3. We Three Kings (2:27)
4. Hark! The Herald Angels Sing (2:01)
5. Nobody Knows the Trouble I've Seen (3:57)
6. Amazing Grace (3:36)
7. Come All Ye Faithful (4:28)
8. Joy to the World (2:40)
9. Amen (1:41)
10. It Came upon a Midnight Clear (1:57)
11. Swing Low, Sweet Chariot (3:24)
12. Silent Night (4:03)

Personnel:
Chet Baker - trumpet
Christopher Mason - alto sax
Mike Pellara - piano
Jim Singleton - bass
Johnny Vidacovich - drums


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domingo, 11 de dezembro de 2011

Handel: 'O Messias' - cond. Marriner, solistas: E.Ameling, A.Reynolds, P.Langridge e G.Howell



Compositores geniais escreveram belíssimos oratórios sobre o nascimento de Cristo, entre os quais Heinrich Schütz: “Weihnachtshistorie” (História da Natividade, 1660) e Johann Sebastian Bach: “Weihnachtsoratorium” (6 cantatas de 1734, entituladas ‘Oratório de Natal’), mas nenhum deles supera a beleza e a espontaneidade, a poesia pastoral das cordas e a intensidade dramática do coral com trumpetes do “Messiah” de Handel; escrito em apenas 24 dias, rapidamente, como se os querubins e os serafins ditassem-lhe em atmosfera etérea as melodias, a harmonia das árias e a polifonia dos coros. 

Semelhante ao crítico literário e historiador musical Otto Maria Carpeaux, eu também considero I know that my Redemeer liveth a mais bela prece já escrita em forma de música.

O sublime oratório de Handel foi criado em 1741 e apresentado em um teatro de Dublin, Irlanda, em 1742, para comemorar a Páscoa. Mas, desde então, as associações corais revivem-no em princípios de dezembro, período do Advento, quando se prepara para as festas do Natal. O oratório é dividido em 3 partes, cujos temas podem ser compreendidos assim: 1- Anunciação (a partir da profecia de Isaías) e Nascimento; 2- missão redentora da Paixão, e Ressurreição; e 3- Cântico de Ação de Graças. Sendo assim, o teor da primeira parte do oratório é que está relacionado ao Natal.

O Messias e a Música Aquática, de Handel; o Oratório de Natal e os Concertos de Brandenburgo, de Bach, as Quatro Estações e o Gloria, de Vivaldi; a Quinta Sinfonia e a Pastoral, de Beethoven; são exemplos de arte perfeita; e extremamente popularizadas com o passar dos anos, porque encantam leigos e eruditos de todas as raças, crenças e épocas. Essas peças já foram gravadas centenas e centenas de vezes, mas se mostrarmos disposição para ouvi-las com se fosse pela primeira vez, reencontraremos nelas a beleza e o arrebatamento, e entenderemos o motivo de serem tão populares.

Enquanto existir algum lume em nossa Civilização, essas grandes obras não serão esquecidas. 

 

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Elly Ameling, soprano
Anna Reynolds, alto
Philip Langridge, tenor
Gwynne Howell, bass
Academy and Chorus of St Martin-in-the-Fields
(Chorus Master: László Heltay)

Neville Marriner, conductor


sábado, 26 de novembro de 2011

Sobre o Perdão


O perdão continua sendo um ideal a ser alcançado. Falo do perdão verdadeiro, sem hipocrisia. É um estágio evolutivo que a humanidade ainda não alcançou, com exceção de alguns poucos seres, almas velhas que por aqui passaram incontáveis vezes; e em cada vez, já compreendem a fraqueza humana, e adquirem forças para perdoar. Fora esses casos, nós e a maioria dos que ainda somos humanos, no sentido vasto da palavra, temos que galgar degraus, sendo o primeiro deles evitar todo tipo de vingança, ainda que vivenciemos intimamente o momento de raiva diante das ofensas. O outro passo é trabalhar essa raiva em nós com lucidez, e fazer o possível para que não seja transformada em vibrações de ódio direcionadas para a pessoa que nos magoa. Creio que não desejar o mal já seja um ato benigno que algum dia pode nos levar ao perdão de fato. E é melhor aceitar o fato de que a tristeza e a magoa são uma realidade em nós do que fingir um grau de evolução espiritual que ainda não alcançamos.


Talvez, por isso é que Salomão, homem rico que tudo tinha, só pediu a Deus uma bênção: a sabedoria. Estando de posse dessa graça, adquire-se saúde e paz, compreende-se a fé e o amor com justiça. Mas até mesmo Salomão equivocou-se, pois sabedoria não é um presente que se ganha simplesmente. Na verdade, é uma riqueza que se conquista com o tempo, através de reflexões e ponderações. De tal forma a sabedoria é uma dádiva conquistada que vamos compreendendo que ela não é sinônimo exato de velhice. Nem todos os velhos são sábios. A idade não é contada pelos anos simplesmente vividos, mas sim pelos momentos de reflexão pelos quais as lições são assimiladas, tornando-nos pessoas melhores.

O que podemos pedir a Deus senão a lucidez para estarmos atentos aos sinais e às oportunidades para que esse aprendizado nos leve à sabedoria? Sabedoria e capacidade de perdão são conquistas. Quando sentimos ódio temos que aceitá-lo como tal, e com lucidez entendermos que a ofensa e a humilhação nos acarretam no mínimo uma grande tristeza. É uma reação natural e humana. O que fizermos desse sentimento é que se torna responsabilidade nossa. Se o estendemos por anos a fio, desejando o mal a quem nos feriu, é causa e efeito que somente nós podemos modificar.

Em resumo, ainda que compreendemos em nós por enquanto, com realismo e humildade, a incapacidade de perdoar, podemos também ter a alegria de que já conseguimos não desejar o mal ao ofensor. É um auspicioso degrau na escalada ao ideal do perdão puro.


quinta-feira, 17 de novembro de 2011

O que sou o que somos




Se perguntar o que sou, direi:
um pensador que não perdeu o rumo dos sonhos.
Mas se eu perguntar a mim quem sou, saberei?

Se ainda giram e circulam galáxias e átomos,
nebulosas fulgem e estrelas surgem,
se células renascem
como açucena no pó das searas,
é porque há no aparente caos uma réstia de luz;
é porque não se cansou ainda de ter esperanças
Aquele que inventa os elementos,
delineia no barro as formas
e concede individualidade às criaturas.

Sim, Dante tinha razão:
É o Amor que conduz todos os sóis,
implode o núcleo das esferas,
movimenta círculos, elipses e Big Bangs,
abre buracos negros e incendeia as supernovas.
É o Amor que efetiva trespasses e metamorfoses,
e em cada um o pulsar inesgotável das efemérides.

Somos grãos de areia, é certo,
mas também damos à ampulheta
o motivo em seu movimento infinito.
Regozijemo-nos! portanto.
Fazemos parte do milagre da vida.

Se perguntarem: Quem és?
Diga: não sei quem sou, mas sei deste item –
neste sangue corre o elemento dos vulcões
e minha carne é centelha de nebulosas.
Sou feito do mesmo brilho e da mesma matéria
de que são feitas as estrelas que surgem e passam.

Fica, enfim, a Alma, síntese e âmago do Criativo.
Mera semente. Somente. E Tudo.



Imagem:
Nebulosa de Helix da Constelação de Aquarius
[Copyright: Hubblesite.org]

domingo, 9 de outubro de 2011

Sobre a Verdade


Se é que realmente aconteceu, um dos trechos mais interessantes do Novo Testamento é quando Pilatos pergunta: "Que é a verdade?".

Quem pode dizer com exatidão o que foi, o que é, e o que será?

As Religiões surgem de experiências individuais que se tornam em crenças coletivas amparadas por dogmas. Ora, o mito é a base da religião, e mitos são construídos por sociedades organizadas e quase sempre tendenciosas.

Assim também a História: múltiplas são as testemunhas oculares e diversos os ângulos dos fatos observados que, posteriormente, são relatados por historiadores que podem se confundir ou, pressionados, vendem-se ao poder vigente. Por isso, no decorrer do tempo, tantos vilões e heróis, ora um ora outro, são execrados ou inocentados.

As Ciências também não possuem a palavra final, pois lidam com verdades provisórias; o que hoje é entusiástico enunciado, amanhã pode ser motivo de riso. Recorde que o nosso planeta já foi estático, recorde que a terra como centro do universo já foi idéia convicta e certa.

A Filosofia, que tende a dissecar a verdade, apoia-se em premissas, que podem ser equivocadas, dependendo da tendência unilateral do pensador. Pensar com sabedoria é dádiva de poucos. No Oriente, consideram sábios aqueles que dançam em torno de um objeto para vislumbrá-lo de todos os lados.

Restam-nos as Artes, e estas não querem provar verdade alguma; pelo contrário, com os véus do mistério obscurecem-na entre a nitidez e a névoa. As Artes são as únicas que aceitam humildemente a incerteza que há na vida e nas coisas do mundo: de que tudo pode ser e pode não ser.

Evidentemente que não estou a desmerecer a conquista das ciências, ou o esclarecimento da história, ou os benefícios da filosofia e das religiões. Quem crê em nada carrega a mesma tolice daqueles que acreditam em tudo. O que me preocupa é a estagnação pela certeza, quando o resultado das investigações torna-se em dogma religioso, científico, seja ele qual for, que estreita os caminhos, que entulha de pedras a passagem estreita, transformando as possibilidades em garganta fechada, por onde é impossível entrar ou sair, enfim, de transitar livremente.  

Talvez, naquela remota época, Pilatos, o procurador romano, só quisesse dizer: cada qual abrace a própria verdade mas, por gentileza, não a proclame como se fosse a única verdade verdadeira.

domingo, 25 de setembro de 2011

Inscrição para minha Lápide


Se algum dia eu tiver uma,
peço aos amigos que inscrevam
palavras em minha lápide:
algum verso colhido de meu riso,
da dor ou da resignação. Não importa!
Mas quero o meu sorriso presente
na derradeira hora da benção
para que todos cantem comigo.

E se,
nos tempos a virem, nada tiver de meu
que compre uma lápide bela e vã,
e tiver que adormecer a cabeça
sob a sombra úmida de um canteiro,
peço-vos que guardem no coração
a minha mais pura lembrança.

E que o corpo seja húmus para a terra,
o meu coração seja vida para as flores,
e que o nome retorne ao que era:
palavra nas águas, brisa nas árvores.

Que todos os meus andrajos da vida
sejam devolvidos à mesma terra
de que foram feitos. Porque a alma,
esta eu devolvo pessoalmente

A Deus.



Ailton Rocha

domingo, 4 de setembro de 2011

Anotações atrás da Cortina (1)


Amor e Pensamento
conduziram a vontade
que elegeu a palavra
que fez surgir a ordem:

Faça-se a Luz!
E a Luz se fez.

O primeiro homem foi moldado e cozido
em poeira, água e fogo;
ao lhe ser insuflado o hálito,
foi dito: Viva! E ele viveu.

E quando homem e mulher erraram,
os Elohim disseram-lhes: Vivam;
com suor e agrúrias, mas vivam!
E eles viveram e colheram ciência.

Porque Luz e Vida andam juntas.
É preciso absorvê-las e cumpri-las.
E isso é bom. 


terça-feira, 23 de agosto de 2011

Infância























Verdelentos bosques em círculos
atrás o riacho: espelho de águas

depois: uma planície de margaridas
- mais infinita –

eucaliptos: sombras de mel
nuvens: Ó brisas de março!

eu: menino, abria os braços
com asas no olhar

canários rolinhas curiós
nos finos filamentos dos galhos

periquitos maritacas em revoada
eram folhas verdes no céu

na igrejinha o sino tocava
- tão longe –

de tão longe chamava
os meninos pra casa

sobre a folhagem da perobeira
o sol bocejava cansado e feliz

e hoje tudo é quietude:
tão breve silêncio
para tão longa saudade.


(agosto-1991)


Óleo sobre Tela:
Enfants dans le Pâturage (Paul Gauguin, 1884)

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Vivaldi: Laudate pueri Dominum, Stabat Mater e Motetos



Durante 38 anos, de 1703 a 1741, o grande Antonio Vivaldi trabalhou na Igreja de Santa Maria della Pietà, em Veneza, onde dirigia e instruía um orfanato de moças, o 'Ospedale', que era também um conservatório. Nesse período, demonstrou que era tão genial nas obras corais e vocais sacras quanto nos concertos orquestrais, que o tornaram famoso em toda a Europa. Dessa atividade, como compositor e regente da Pietà, surgiram mais de 30 obras corais, entre as quais o Gloria RV589, o Magnificat RV611 e os poderosos salmos para coro duplo e duas orquestras: o Dixit Dominus RV594 e o Beatur vir RV597 - estes últimos são corais de magistral estrutura e de inspiração sublime, dignos de Bach e Handel. Não podemos esquecer também do oratório Juditha Triumphans, de incontestável valor dramático.

Além das peças corais citadas, há inúmeras outras para voz solo e cordas que, nesta coletânea, compartilho com os amantes da música barroca.

A música de igreja de Vivaldi é ágil e virtuosística, assim como os concertos, e não há como negar que a voz solo tem semelhança com o violino; nem sempre é profunda, mas é de comovente beleza. Prestem atenção no Gloria da parte VII do Laudate pueri. Que maravilha!!!! É de tirar lágrimas até das pedras!

As sopranos Magda Kalmár, Emma Kirkby e Friederike Sailer estão simplesmente divinas, de arrepiar a pele, de comover a alma!!! E a contralto Margarethe Bence excedeu minhas expectativas. Para mim é a mais sentida e a mais profunda interpretação desse que é considerado por muitos o mais belo Stabat Mater já escrito.


Download MP3 - BAIXAR: 

Vivaldi.Laudatepueri.zip


1-Laudate pueri Dominum (salmo)
2-In furore (moteto)
Magda Kalmár, soprano
Orquestra de Câmara Franz Liszt

Frigyes Sándor, regente


3-Nulla in mundo pax sincera (moteto)
Emma Kirkby, soprano 
Academia de Música Antiga Simon Preston, regente

4-O qui coeli terraeque serenitas (moteto)
Friederike Sailer, soprano
Stuttgart Pro Musica
Marcel Courad, regente


5-Stabat Mater (hino)
Margarethe Bence, contralto
Stuttgart Pro Musica

Marcel Courad, regente

_______

Antonio Vivaldi (1678-1741)


quarta-feira, 13 de julho de 2011

Fernando Pessoa: Alguns Poemas



















FERNANDO PESSOA ELE MESMO

Quando Ela Passa

Quando eu me sento à janela
P’los vidros que a neve embaça
Vejo a doce imagem dela
Quando passa... passa... passa...

Lançou-me a mágoa seu véu:
Menos um ser neste mundo
E mais um anjo no céu.

Quando eu me sento à janela,
P’los vidros que a neve embaça
Julgo ver a imagem dela
Que já não passa... não passa...

(um dos primeiros poemas de Fernando Pessoa,
escrito aos 14 anos de idade: 5.5.1902)

__________

HÁ DOENÇAS piores que as doenças,
Há dores que não doem, nem na alma
Mas que são dolorosas mais que as outras.
Há angústias sonhadas mais reais
Que as que a vida nos traz, há sensações
Sentidas só com imaginá-las
Que são mais nossas do que a própria vida.
Há tanta cousa que, sem existir,
Existe, existe demoradamente,
E demoradamente é nossa e nós...
Por sobre o verde turvo do amplo rio
Os circunflexos brancos das gaivotas...
Por sobre a alma o adejar inútil
Do que não foi, nem pode ser, e é tudo.

Dá-me mais vinho, porque a vida é nada.

(um dos últimos poemas de Fernando Pessoa,
escrito 11 dias antes de sua morte: 19.11.1935)

__________

terça-feira, 5 de julho de 2011

Dimitri Cervo: compositor brasileiro


A música ‘erudita’ brasileira, ainda que obscura no próprio país, sempre se destacou no cenário mundial: com reconhecimento imediato na Europa (Carlos Gomes) e depois internacionalmente (Villa-Lobos, Guarnieri, Santoro). Desde então, gerações de ótimos músicos se sucedem, alguns inspirando-se no rico manancial de nosso folclore e no cancioneiro popular; outros, optando por diferentes correntes estéticas, que souberam utilizar com criatividade. São vários os talentosos compositores de vanguarda da década de 60 até os dias atuais, citando alguns: Gilberto Mendes, Edino Krieger, Breno Blauth, Marlos Nobre, Almeida Prado, Jorge Antunes, Ronaldo Miranda e, recentemente, Harry Crowl, cuja obra tem se destacado bastante no exterior.

Entretanto, apesar do aumento significativo dos festivais de música contemporânea, não é possível negar o fato: depois que os movimentos concretistas e eletrônicos ditaram as regras à música 'erudita', tornando-a extremamente hermética, o grande público afastou-se das salas de concerto. Mas já surgem no cenário 'erudito' vários compositores com uma linguagem acessível àqueles que não se identificam com o cerebralismo das composições seriais e concretas. Hoje, a música de concerto, reclusa após décadas em círculos intelectuais, abre-se com um aceno visando uma maior comunicabilidade com os ouvintes que, apesar de não terem conhecimento técnico, possuem sensibilidade suficiente para apreciar uma obra elaborada. A tendência é a tonalidade, com ocasional atmosfera dodecafônica, mesclada com técnicas politonais, e temática nacionalista ou cosmopolita. Todas as experimentações e acertos anteriores a serviço da arte contemporânea, sem radicalismo e sem 'eruditismo'. Esse será o caminho da música do século XXI, penso eu.

Dimitri Cervo, nascido em 1968, em Santa Maria (RS) faz parte dessa nova geração de compositores que incentiva as pessoas a um retorno à música de concerto. São merecidos os elogios que o compositor gaúcho vem recebendo, nacional e internacionalmente. Suas obras em diversos gêneros (sinfônico, câmara, piano solo, coral) já foram apresentadas em todos os estados brasileiros e seguem caminho pelos festivais de várias cidades mundo afora. Nota-se nele um nacionalismo de voz própria: o bom aproveitamento do folclore indígena e a maneira como usa a dinâmica da percussão e os acordes minimalistas. Pensando nos apreciadores da boa música brasileira contemporânea, compartilho aqui, através de alguns vídeos, uma pequena parte de sua obra:

Toronubá, nesta ótima versão para cordas, percussão e piano, não perde o ritmo contagiante, é uma das melhores peças de Dimitri Cervo. O quadro sinfônico Brasil Amazônico nos encanta como a sugestão de uma clareira na grande selva, a melodia nos recorda um pouco a alegria folclórica de algumas peças de Guarnieri e Breno Blauth. E bela, muito bela é a poesia encantatória e intimista do Tema para Filme I, aqui interpretado com sensibilidade pelo próprio compositor.

Existem ainda diversas obras de valor: o elaborado Concerto para Violão; o Concerto para 2 Flautas e Cordas, interessante releitura do barroco vivaldiano; a canção coral Renova-te, com texto baseado em Cecília Meireles, etc. Esta última será apresentada no próximo 16 de julho no 42. Festival de Campos de Jordão.

Para maiores informações sobre biografia, recitais e concertos:

Dimitri Cervo: Official Website





Toronubá op. 16 (Série Brasil 2000 no. 4)
Orquestra Sinfônica de Sergipe - ORSSE
Guilherme Mannis, regente


Brasil Amazônico op. 13 (Série Brasil 2000 no. 1)
Orquestra Sinfônica de Porto Alegre - OSPA
Isaac Karabtchevsky, regente


Tema para Filme I op. 23
Dimitri Cervo, piano
StudioClio, Porto Alegre - Brazil - UFRGS TV



Reflexões Musicais 2


É curioso notar: quase todos os inovadores sentem uma espécie de remorso após o radical avanço de fronteiras, e tentam retornar ao ponto inicial de sua formação, ou ao passado, às vezes remoto. Cito apenas alguns casos: Monteverdi, após o Orfeu e as Vésperas, escreveu uma missa no estilo renascentista. Algumas décadas mais tarde, Schütz, o pai do barroco alemão, concluiu a obra de sua vida com uma série de paixões escritas à maneira antiga. O último quarteto de cordas de Beethoven é quase um retorno ao classicismo haydniano. Ocorrera algo semelhante com Wagner depois de Tristão e Isolda: o inusitado cromatismo cedeu à claridade quase barroca de Os Mestres Cantores. Stravinsky, assim que deu ao mundo o paganismo da Sagração da Primavera, retornou ao passado em busca da voz límpida de Pergolese, de Bach e dos mestres anteriores a Bach, e no auge de seu neoclassicismo criou uma missa nos rigorosos moldes clássicos. E assim também Penderecki, talvez o mais representativo e genial criador da segunda metade do tumultuado século XX: nos limites da experimentação sonora, após a quase dissolução do que entendemos como música, de repente o compositor interrompeu o curso retornando a um estilo próximo a Brahms e Mahler. Um retrocesso, disse a crítica.

No entanto, sabemos que em tudo há um movimento de pêndulo. Quando o futuro cobre-se de neblina, o retorno ao passado é o caminho para a reflexão. Todo artista sabe: a arte que não comunica perde-se em si mesma.

Assim como toda manifestação cultural e artística, a música também evolui no contexto historico-sociologico. Após a polirritmia e todos os ismos do século XX, de todas as correntes experimentais - reflexos da fragmentação moderna da psique – politonalismo, dodecafonismo, serialismo, concretismo, abstracionismo, minimalismo, etc. a tendência do final do milênio é o sábio equilíbrio: uma expressão que aproveite todos os ensinamentos antigos e modernos associados à clareza de forma e ao hermetismo moderado. Enfim, criatividade aliada a uma linguagem mais comunicativa.

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Rabindranath Tagore: As Coisas Transitórias



Chegará um silêncio absoluto,
e, então, a música será perfeita.
A vida inclinar-se-á ao poente
para afogar-se em sombras douradas.
O amor há-de ser chamado do seu jogo
para beber o sofrimento
e subir ao céu das lágrimas ...
Irmão, recorda isto, e alegra-te.

Apanhemos, no ar, as nossas flores,
não no-las arrebate o vento que passa.
Arde-nos o sangue e brilham nossos olhos
roubando beijos que murchariam
se os esquecêssemos.
É ânsia a nossa vida
e força o nosso desejo,
porque o tempo toca a finados.
Irmão, recorda isto, e alegra-te.

Não podemos, num momento, abraçar as coisas,
parti-las e atirá-las ao chão.
Passam rápidas as horas,
com os sonhos debaixo do manto.
A vida, infindável para o trabalho
e para o fastio,
dá-nos apenas um dia para o amor.
Irmão, recorda isto, e alegra-te.

Sabe-nos bem a beleza
porque a sua dança volúvel
é o ritmo das nossas vidas. Gostamos da sabedoria
porque não temos sempre de a acabar.
No eterno tudo está feito e concluído,
mas as flores da ilusão terrena
são eternamente frescas,
por causa da morte.
Irmão, recorda isto, e alegra-te.


Rabindranath Tagore (1861-1941)


segunda-feira, 30 de maio de 2011

e.e. cummings - em algum lugar

















em algum lugar onde nunca estive, e felizmente aquém
de qualquer experiência, teus olhos guardam seu silêncio:
em teu gesto mais frágil há coisas que me envolvem
ou que não posso tocar porque estão muito próximas

teu olhar mais leve facilmente me descerra
embora eu me tenha fechado como dedos,
e me entreabres sempre, pétala por pétala, como a Primavera
(por toques habilidosos, misteriosamente) ante a primeira rosa

ou se teu desejo é me fechar, eu e
minha vida nos fecharemos formosa e rapidamente
como quando o coração desta flor imagina
que a neve — cuidadosamente — está caindo em toda a parte;

nada do que podemos perceber neste mundo se compara
ao poder de tua imensa fragilidade: cuja textura
me compromete com a cor de seus países
e me entrega para sempre a morte cada vez que respiro

(nada sei do que te faz tão poderosa
ao me mover; mas algo em mim compreende apenas
que a voz de teus olhos é mais profunda que todas as rosas)
ninguém, nem mesmo a chuva, tem as mãos assim tão pequenas.


e. e. cummings (1894-1962)


[tradução de Jorge Wanderley]

Imagem: Pierre-Auguste Renoir: Jardim

sábado, 19 de março de 2011

William E. Henley: "Invictus"


Este é o poema do britânico William E. Henley, de onde o sábio Nelson Mandela conseguiu forças para suportar as longas décadas de prisão na África do Sul.

O poema, hoje famosíssimo, foi muito bem utilizado no filme homônimo, dirigido em 2009 por Clint Eastwood.

Principalmente os versos finais sempre hão de ser um hino de superação diante dos revezes e dos desafios, momentos em que temos a chance de nos conectarmos com o Transcendente, com a Presença incogniscível, porém Viva, a partir da qual compreendemos a nossa grandeza, que nos ergue a cabeça, prontifica nossas asas para que prossigamos a planos mais elevados.

"Invictus"

Out of the night that covers me,
Black as the pit from pole to pole,
I thank whatever gods may be
For my unconquerable soul.

In the fell clutch of circumstance
I have not winced nor cried aloud.
Under the bludgeonings of chance
My head is bloody, but unbowed.

Beyond this place of wrath and tears
Looms but the Horror of the shade,
And yet the menace of the years
Finds and shall find me unafraid.

It matters not how strait the gate,
How charged with punishments the scroll,
I am the master of my fate:
I am the captain of my soul.

(escrito em 1875, publicado em Book of Verses, 1888)

William Ernest Henley (1849-1903)

__________

Na tentativa de traduzir esses versos, fiz o que pude para me aproximar do texto original, mas com alguma liberdade estética, visando a musicalidade de nosso idioma. Na transcrição, para que permanecessem o sentido do poema e o estilo do autor, não foi possível manter rima e métrica, infelizmente.

Da noite que me cobre,
Negra como um poço de polo a polo,
Agradeço os deuses, quaisquer que possam ser,
Por minha alma invencível.

Na garra cruel da circunstância
Eu não estremeci nem chorei alto.
Sob os golpes do acaso
Minha cabeça está em sangue, mas não abatida.

Além deste lugar de ira e lágrimas
Assoma o horror na sombra,
E ainda assim a ameaça dos anos
Me encontra e me encontrará sem medo.

Não importa quão estreito o portão,
Quão cheio de castigos o pergaminho.
Eu sou o mestre de meu destino:  
Eu sou o capitão de minha alma.



sábado, 12 de março de 2011

Mandú-Çarará: Roberto Tibiriçá rege Villa-Lobos na Venezuela


Novamente o brilhante maestro Roberto Tibiriçá nos proporciona valiosos momentos de satisfação artística. Sem qualquer dúvida, o alto nível de interpretação que Tibiriçá vem demonstrando o torna um dos maiores regentes brasileiros da atualidade. Em 2010, no IV Festival Villa-Lobos em Caracas, Venezuela, a sua presença foi um sucesso, quando apresentou, entre outras peças, a fantasia Momoprecoce, com Cristina Ortiz ao piano. 

E no último 30 de janeiro, na Sala Simón Bolívar, em Caracas, Roberto Tibiriçá regeu uma das grandes obras de nosso mestre Villa-Lobos. Nada menos do que o bailado-cantata Mandú-Çarará, para coro e orquestra, uma de minhas preferidas em toda a vasta produção villalobiana, e pouco gravada, injustamente, já que se encontra no mesmo nível de outros bailados como Amazonas e o Uirapurú

Eis a leitura do maestro Tibiriçá, realçando as melodias indígenas repletas de verve rítmica que tão bem caracterizam a obra! Recomendo muitíssimo o vídeo abaixo, gravado ao vivo com a Sinfónica de la Juventud Venezolana ‘Simon Bolívar’ e o Sistema Nacional de Coros FESNOJIV.



Villa-Lobos por Tibiriçá



Importantes obras de Villa-Lobos na regência de Roberto Tibiriçá, 
algumas gravações gentilmente cedidas pelo maestro a este blog:

Sinfonia No. 4 “A Vitória”, para orquestra (1919) [2011]
Choros No. 9, para orquestra (1929) [2010]
Mandú-Çarará, para coro e orquestra (1940) ** [2011]

Sinfónica de la Juventud Venezolana “Simon Bolívar”
Sistema Nacional de Coros FESNOJIV **
Roberto Tibiriçá, regente

Download MP3:
VillaLobos.Sinfonia4-Choros9-ManduCarara.Tibirica.zip

Momoprecoce, fantasia para piano e orquestra (1929) [2010]
Cristina Ortiz, piano
Sinfónica de la Juventud Venezolana “Simon Bolívar”


Bachianas Brasileiras No. 3, para piano e orquestra (1938)
Linda Bustani, piano
Orquestra Sinfônica Petrobrás Pró Música

Concerto para Piano e Orquestra No. 5 (1954) [1993]
Vera Astrachan, piano
OSESP: Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo

Roberto Tibiriçá, regente

Download MP3:


terça-feira, 8 de março de 2011

Renascença na Inglaterra: Música Instrumental de Byrd e Dowland


Esta postagem é para os amantes da música da Renascença. O virginal muselar e o alaúde utilizados nestas gravações foram construídos rigorosamente a partir de modelos do século XVI e início do século XVII.

E, evidentemente, destina-se também aos interessados em conhecer a música desse fascinante período, além da virtual oportunidade de ouvir dois excelentes instrumentistas: Davitt Moroney e Paul O'Dette.

Para quem não conhece, é importante dizer que William Byrd e John Dowland foram dois dos maiores compositores da Era Elizabetana, contemporâneos de William Shakespeare, o genial dramaturgo.

William Byrd foi exímio organista e genial compositor polifonista, cuja obra coral para a liturgia anglicana - services, anthems, etc - era ouvida com admiração na capela real. Mas, por ser católico, talvez as suas peças mais belas sejam as missas e os motetos, que escrevia para as capelas particulares de nobres ricos. John Dowland foi um menestrel: cantor e mestre do alaúde, famoso em toda a Europa. Suas canções eram as favoritas da corte de Elizabeth I, embora jamais tenha conseguido nessa mesma corte o tão almejado cargo de alaudista.

Byrd e Dowland também escreveram música instrumental de grande valor. A pavan era uma das mais nobres danças do século XVI, de ritmo binário e andamento moderado, quase sempre seguida por outra dança mais viva, a galliard. Essas peças atravessaram os séculos e chegaram até os nossos dias, incorporando-se ao repertório dos recitais, a partir da revitalização da música renascentista e barroca. Pela qualidade artística e pelo rigor arqueológico, a obra desses compositores continua viva entre nós, apesar dos quatro séculos que nos separam.


O virginal muselar é um instrumento da família do cravo, um avô do piano moderno, díriamos. Difere do cravo por ser menor e pela colocação do teclado: à direita, e mais frequentemente no meio da caixa, de forma que as cordas são beliscadas no centro, o que lhe dá uma sonoridade mais abafada e quente. No século XVIII o virginal já era anacrônico, devido à evolução de outros modelos do cravo dos quais originou o piano-forte.

O alaúde, descendente talvez de um antigo instrumento persa ou árabe, tem a caixa em forma de meia pera. O seu conjunto de cordas, ao ser dedilhado ou palhetado, expande-se em belos timbres. Foi muito utilizado durante mais de três séculos até cair no esquecimento.

Esses dois instrumentos soam-nos hoje com alguma estranheza. Dessa forma, o antigo torna-se moderno, é sensação nova diante de uma delicada beleza.



John Dowland (1563-1626) por Paul O’Dette


em Alaúde construído por Paul Thomson, Londres, 1984,
baseado em modelo Magno Tieffenbrucker, de 1550
.


















Download - Baixar:



William Byrd (1543-1623) por Davitt Moroney

em Virginal Muselar, construído por John Phillips,
1991, a partir de instrumento flamengo de 1679.

















Download - Baixar:Byrd.DavittMoroney.zip



terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Walt Whitman: 3 Poemas























Para muitos, Walt Whitman é o maior dos poetas norte-americanos. Alguns discordam, mas ninguém pode negar que Folhas de Relva é uma das obras que mais influenciaram a poesia moderna em quase todos os países. Eu me posiciono entre aqueles que sentiram, desde a primeira leitura, o impacto de Whitman, poderoso como uma tempestade que surge para abalar e purificar a atmosfera, anunciando tempos novos.

Os dois primeiros títulos, curtos e de suave lirismo, diferem do habitual estilo do autor, que preferia os poemas extensos e estruturados como odes sem rimas e métrica. O terceiro mostra toda a força do misticismo panteísta de Whitman.

Do Inquieto Oceano da Multidão

Do inquieto oceano da multidão veio a mim uma gota
[gentilmente suspirando: Eu te amo, há longo tempo
Fiz uma extensa caminhada apenas para te olhar, tocar-te,
Pois não podia morrer sem te olhar uma vez antes,
com o meu temor de perder-te depois.


Agora nos encontramos e olhamos, estamos salvos,
Retorne em paz ao oceano, meu amor,
Também sou parte do oceano, meu amor,
[não estamos assim tão separados,
Olhe a imensa curvatura, a coesão de tudo tão perfeito!
Quanto a mim e a você, separa-nos o mar irresistível
Levando-nos algum tempo afastados,
[embora não possa afastar-nos sempre:
Não fique impaciente – um breve espaço –
[e fique certa de que eu saúdo o ar,
[a terra e o oceano,
Todos os dias ao pôr-do-sol,
[por sua amada causa, meu amor.

Quando Analiso a Conquistada Fama

Quando analiso a conquistada fama dos heróis
e as vitórias dos grandes generais,
não sinto inveja desses generais
nem do presidente na presidência
nem do ricaço em sua vistosa mansão;
mas quando eu ouço falar
do entendimento fraterno entre dois amantes,
de como tudo se passou com eles,
de como juntos passaram a vida
através do perigo, do ódio, sem mudança
por longo e longo tempo atravessando
a juventude e a meia-idade e a velhice
sem titubeios, de como leais
e afeiçoados se mantiveram
aí então é que eu me ponho pensativo
e saio de perto às pressas
com a mais amarga inveja.

Na praia, sozinho, à noite

Na praia, sozinho, à noite,
Quando a velha mãe balança para a frente e para trás,
[entoando sua canção vigorosa,
Quando assisto à brilhante estrela que cintila,
[reflito sobre a chave dos universos e sobre o futuro.

Uma vasta similitude engrena todas as coisas,
Todas as esferas, as desenvolvidas, as mirradas, as pequenas,
[as grandes, os sóis, as luas, os planetas,
Todas as distâncias de lugares, não importando quão longínquos,
Todas as distâncias do tempo, todas as formas inanimadas,
Todas as almas, todos os corpos viventes embora tão diferentes,
[ou de mundos diferentes,
Todos os processos gasosos, aquáticos, vegetais, minerais,
[os peixes, as criaturas,
Todas as nações, cores, barbarismos, civilizações, línguas,
Todas as identidades que existiram ou possam existir
[neste globo ou em qualquer globo,
Todas as vidas e mortes, todo o passado, o presente, o futuro,
Essa vasta similitude os abarca, e sempre os abarcou,
E há de abarcá-los para sempre e solidamente envolvê-los e contê-los.

(de Folhas de Relva,
  livros: Filhos de Adão, Cálamo e À Deriva do Mar)

Walt Whitman (1819-1892)