terça-feira, 30 de junho de 2009

Canção Taoísta


Após o ciclone
o poeta fala às flores destroçadas:
“outro mundo há de existir
além deste pequeno jardim”.

Olhando a terra um filósofo chora:
“Ruínas, como sempre”.
E o outro filósofo consola: “Mas,
... veja como o céu ficou claro.”

Só Chuangtse o sábio
nada pensa nada diz
apenas toca a flauta de bambu
após o ciclone.



sábado, 27 de junho de 2009

Beethoven: o Arquiduque pelo Trio Brasileiro



Este é um de meus CDs preferidos. Ouço-o frequentemente. Primeiro, por ser uma das maiores obras de BEETHOVEN; segundo, pela interpretação exata do Trio Brasileiro (Gilberto Tinetti: piano, Erich Lehninger: violino e Watson Clis: violoncelo).

Dentre todas que já ouvi, esta elegante e maravilhosa leitura do TRIO BRASILEIRO é a que conseguiu captar com mais profundidade o espírito do mestre.

O Trio para Piano, Violino e Violoncelo em Mi bemol maior Op. 97, de 1811, é o último escrito por Beethoven para essa formação. Foi dedicado ao arquiduque Rodolfo, aluno, protetor paciente e amigo afetuoso do compositor. Essa é a razão do subtítulo “Archduke”, pelo qual é mais conhecida.

Obra perfeita e sublime, tanto em forma como em conteúdo, eleva-se a alturas espirituais como poucas antes e depois dela. Percebam a inexcedível beleza, desde os primeiros acordes do movimento inicial Allegro moderato, passando pelo Scherzo, ora ensolarado ora de júbilo contido, demorando-se um pouco mais na profunda reflexão de adeus do terceiro, o Andante cantabile, ma però com moto, para concluir sem interrupção no último Allegro moderato, de resignado agradecimento.

De resignação sim, pois a obra de 1811 é também histórica, data em que Beethoven despede-se de sua carreira de virtuose do piano. Foi a última que tocou em público. Improvisador impressionante, desde a adolescência, considerado um dos maiores pianistas da época, como relatam os documentos, Beethoven viu-se obrigado, aos 41 anos de idade, a se silenciar como intérprete, devido à surdez que o impedia de ouvir a própria execução.

Diante disso, é justo dizer: o Trio Arquiduque é o mais comovente adeus de um músico ao seu instrumento.


Download MP3: Baixar
Beethoven.TrioArchduke.TrioBrasileiro.zip



domingo, 14 de junho de 2009

Fernando Pessoa: Reflexões Paradoxais



Sentir é criar.

Sentir é pensar sem idéias, e por isso sentir é compreender, visto que o Universo não tem idéias.

- Mas o que é sentir?

Ter opiniões é não sentir.

Todas as nossas opiniões são dos outros.

Pensar é querer transmitir aos outros aquilo que se julga que se sente.

Só o que se pensa é que se pode comunicar aos outros. O que se sente não se pode comunicar. Só se pode comunicar o valor do que se sente. Só se pode fazer sentir o que se sente. Não que o leitor sinta pena comum [?]. Basta que sinta da mesma maneira.

O sentimento abre as portas da prisão com que o pensamento fecha a alma.

A lucidez só deve chegar ao limiar da alma. Nas próprias antecâmaras do sentimento é proibido ser explícito.

Sentir é compreender. Pensar é errar. Compreender o que outra pessoa pensa é discordar dela. Compreender o que outra pessoa sente é ser ela. Ser outra pessoa é de uma grande utilidade metafísica. Deus é toda gente.

Fernando Pessoa (1888-1935)

(de Obras em Prosa – O Eu Profundo, Ed. Nova Aguillar)

domingo, 7 de junho de 2009

No Fim do Arco-íris Há um Pote de Ouro




Há um pote de ouro no fim do arco-íris.

Eis o sentido de uma lenda que pode ser real dependendo de cada um. Mas só chegaremos até o pote após a compreensão das sete cores e de seu vasto significado:

O VERMELHO da necessária paixão que impulsiona e cria experiências novas, alimentadas pelo direito de sonhar. É a que possui menos energia espiritual, mas vem da matéria palpável, por isso condensa a força da terra, barro santo de onde surgimos para recriar possibilidades de reiventarmos o milagre da vida.

O LARANJA é o sol, ensinando-nos a manter um dos bens supremos: a saúde, que nos dá a chance de viver, de caminhar cada trecho do caminho. Sol que perpassa átomos e células, que nos incita a desenvolver asas, a sonhar com a absorção do brilho de auréolas.

O AMARELO da inteligência, herança do Criador em nós. Silenciosa chama sem combustão, que nos permite refletir, analisar, ponderar. Associada ao vermelho rubro da paixão, impulsiona e concede-nos a construção do real. A inteligência – luz antes da luz, energia criativa antes do verbo – pensamento que gradativamente se enriquece na vivência, transmutando-se em prudência e sensatez.

O VERDE da clorofila das matas, da renovação das naturais belezas, que nos alimenta e ensina que somos parte da terra, dela viemos e a ela retornaremos, eternos viandantes e aprendizes.

O AZUL da liberdade, cuja compreensão almejamos, mas que ainda não se tornou em voo ou em paz da consciência, e esta tem muitas maneiras individuais de ser conquistada.

O ANIL é a noite que guarda tantas estrelas. E fé: semente do dia a nascer, pois tudo pode se transformar no curto período de uma noite para outra manhã que nasce. O Anil, sendo noite que se transforma ou madrugada que chega, é luz insinuada, acena pela busca da verdade e do caminho que transcende.

O VIOLETA, que está do outro lado do arco, parece ser o oposto do vermelho. Em verdade é complemento e sequência. É o fogo que deixou de arder, é a substância consumada pela cinza, a metamorfose da ação para a contemplação. Anuncia e nos faz compreender tristezas inevitáveis, que nos conduzem ao aprofundamento do espírito, pois tudo é indispensável na vida: as alegrias são importantes, as tristezas são necessárias. É a cor de mais energia espiritual, pois dela vem a meditação sobre verdades eternas.

A insensatez é a ausência de todos os conhecimentos, é a escuridão da noite sem estrelas. É Maya, é Adam Belial.

O conhecimento da harmonia das cores, aplicado em nossa vida surge quando há LUZ captada no prisma, transformando-se no BRANCO da paz interior.

No fim do arco-íris há um pote. E esse pote com o tesouro dentro chama-se sabedoria, e é fato, só temos direito de encontrá-lo após vivenciarmos cada etapa da vida, profundamente bem vivida na dor e no riso.



(em "Sobre a Cinza e o Fogo: Pequenas Reflexões")




terça-feira, 2 de junho de 2009

do Dhammapada



 Certo dia, perguntaram
ao príncipe Siddharta Gautama, o Buddha:
- Tu és Deus ?

E ele disse: - Não.

- Mas tu és um anjo porque tu brilhas.

- Também não.

- E por que brilhas tanto ?

- Porque estou desperto, porque acordei do letargo.


(do Dhammapada)