O conto é de Cícero Acaiaba, grande poeta e escritor mineiro, famoso na década de 50 como novelista da Rádio Nacional. Faria aniversário nesse início de mês se não tivesse partido há 3 anos. No dia 9, ao acordar, lembrei-me do colega e amigo; procurei entre os seus diversos livros um texto com o intuito de homenageá-lo. É um costume antigo que tenho: nas datas de nascimento de autores que admiro, gosto de ler em voz alta algumas de suas obras.
Com quase 20 volumes de versos, Acaiaba é sobretudo poeta, mas deixou também uma peça de teatro bastante aplaudida, memórias, crônicas e dois bons livros de ficção, contendo contos premiados em concursos, quase todos já apareceram em jornais e revistas: "O Homem com a Faca no Peito", publicado em 1989, e "Um Anjo no Labirinto", ainda inédito, do qual escolhi o comovente conto.
Com quase 20 volumes de versos, Acaiaba é sobretudo poeta, mas deixou também uma peça de teatro bastante aplaudida, memórias, crônicas e dois bons livros de ficção, contendo contos premiados em concursos, quase todos já apareceram em jornais e revistas: "O Homem com a Faca no Peito", publicado em 1989, e "Um Anjo no Labirinto", ainda inédito, do qual escolhi o comovente conto.
Deste Amor se Vive
Tinha só metade das pernas, até
os joelhos. Vítima de um trágico acidente de estrada, desses que acontecem
quase todos os dias. Era moço, muito moço. Mas tinha também dentro de si uma
força, uma intensa vontade de viver. Para isso o sonho e a fantasia de sua
poderosa imaginação davam-lhe esperança. Ficava, às tardes, horas e horas à
janela de sua casa antiga, colonial, apreciando crianças e pessoas no lazer da
praça ajardinada, um pouco distante. Um dia acordou com um vago pressentimento,
algo que ia mudar sua vida monótona para sempre. Ela surgiu não sabe de onde,
só a percebeu quando estava debaixo da janela, sorrindo, e era de uma beleza de
tirar o fôlego. Nunca a vira andando nos arredores do bairro.
Foi amável com ele: “bom dia,
como vai?” E ele indeciso: “vive-se conforme Deus quer.” “ah, você é religioso, isso é muito bom!” No
meio do silêncio pôde notar que os olhos dela eram azuis profundos, “acredito
em Deus, mas também não sou fanático”, e ambos riram. Curioso, meio sem jeito,
ele, enquanto batia com os dedos no parapeito, “você é daqui mesmo, ou...?”
“não, não, de vez em quando venho até o bairro ver uns amigos, gosto de andar à
toa pelos caminhos da cidade” “... os caminhos da cidade”, ele repetiu
pensativo. Um breve silêncio, e não resistiu por mais tempo “você me conhece
desde quando?” ela respondeu de maneira vaga “desde um certo tempo, simpatizei
com seu modo solitário de ficar todas as tardes olhando o jardim da praça.”
Com esforço ajeitou os
travesseiros na cadeira em que apoiava as pernas. Vendo que ele se calava e
parecia inquieto, “espero não estar aborrecendo”, “oh, de jeito nenhum, ao
contrário, é um prazer te conhecer”, “jura?”, “juro, você é uma garota... uma
garota encantadora, aliás, quem não vê isso”. Ela não se perturbou, ficou toda
alegre e contendo a emoção que lhe umedecia um pouco os olhos, prometeu vir
agora todas as tardes conversar embaixo da janela com ele...
Silêncio. Os dois calados de
repente. Ela fixou o profundo olhar azul no rosto pálido e desta vez não
escondeu a emoção.
- Acredite. É um prazer conversar
com você.
- De verdade mesmo?
- De verdade mesmo. Você... eu simpatizei com você, desde a primeira vez em que o vi... sonhando na janela.
- Sonhando... (ele sorri). É
justamente isso que faço. Sonhar.
Houve uma longa pausa, ela voltou
a cabeça para o jardim da praça, ele aproveitou para analisar melhor sua figura
de jovem esbelta, cabelos castanho-claro, mais para o louro. Talhe perfeito, um
pouco mais baixa que ele, altura mediana. Boca bem desenhada e dois seios
firmes arredondando a blusa levíssima, de cambraia branca.
Falaram de repente, quase ao
mesmo tempo:
- Mas quem sabe um dia...
E riram felizes. Era uma alegria
espontânea, pura. Uma alegria de dois jovens que se encontram nos atalhos da
existência e estão preparados para amar. Era a surpresa talvez de duas almas
que se reconhecem em meio ao turbilhão de um mundo confuso, incompreensível.
Eram dois meninos no jogo eterno das paixões primitivas e avassaladoras. Ou
seria apenas aparência?
- Alguém falou de mim... contou a
minha história? – ele apreensivo.
- Não. Por que? – ela natural.
- Então... você, de fato,
aproximou-se daqui, de mim... desta janela... digamos... por mera curiosidade?
– ele, um tanto desapontado.
- Não, não... – ela sincera. Vim
porque simpatizei com seu jeito, já disse.
- Ah... simpatizou com ‘meu
jeito’... – ele sorrindo.
- Com seu jeito, com seu rosto,
com seu olhar de sonhador, com sua solidão... com você inteiro – ela
completou.
- Você... tem namorado? – ele,
com esforço.
Um pequeno silêncio. Num meio
sorriso, ela respondeu:
- Por enquanto, não. Só amigos...
colegas. Quer ser meu namorado?
- É melhor a gente não brincar com
coisa séria... É melhor a gente ser bons amigos – ele inquieto.
- Tem razão. Assim, evitam-se
futuros problemas, não é? Mas você não vai me proibir de vê-lo, vai?
- Oh, em absoluto... Venha quando
quiser.
- Você ainda não me disse seu
nome.
- Natália. E o seu?
- Celso.
Ela disse que tinha que ir
embora. Ele esticou o braço e apertaram as mãos, como num pacto de firme
amizade, a partir daquele momento. Ela afastou-se tranqüila, mas deixou alguém
sofrendo na janela de um amor súbito, estranho e definitivo. Todas as tardes
ela voltava para o bate-papo com o rapaz, de quem Natália conhecia a história
trágica do acidente que o aleijara para sempre. Fazia aquilo para lhe dar um
pouco de alegria, de paz, e quem sabe? esperança para continuar vivendo. Mas um
dia, uma tarde belíssima de outono, teve que lhe contar que estava noiva e ia
casar-se em dezembro. Foi como se o mundo tivesse desabado sobre os ombros de
Celso, e esmagado cruelmente seu coração. Num esforço sobrehumano conseguiu
dominar-se. Pediu que ela, depois da lua de mel, viesse apresentar-lhe o
marido. Ela prometeu que sim. E afastou-se, perturbada, com a emoção a
embaçar-lhe o céu dos olhos azuis. Enquanto ela desaparecia no jardim do parque,
lágrimas silenciosas desciam pelo rosto envelhecido de Celso.
E ele repetia para si,
atormentado, angustiado, inconformado, “deste amor se vive”, apesar de tudo
- “deste amor se vive”, o mundo
pareceu-lhe escuro e inimigo, as cores estavam apagadas, cinzentas, os ruídos
iam se dissolvendo num murmúrio longínquo, ameaçador, no grande céu as nuvens
de juntavam prometendo para breve a mais terrível tempestade de todos os
tempos, e do seu ninho desconhecido o pássaro do vento batia as imensas asas
avançando lentamente contra a cidade encolhida e amedrontada, agarrando com as
mãos o parapeito da janela, começou a chorar longamente, quietamente como um
ser inútil e machucado, e de sua trêmula voz o nome da moça saía às vezes em
palavras dilacerantes, o frio intenso, de indefinível gelo apanhou-lhe os
restos das pernas e veio subindo, subindo, era uma onda que tudo absorve, que
tudo engole, só lhe restou o último
pensamento, e foi – “deste amor também se morre.”
***
Cícero Acaiaba
(1925-2009)
Pintura:
Henri Gadbois - Sky Windows, óleo sobre tela, 1972






