segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

As Longitudes


pequenas asas
camufladas na nuvem

mariposa
engendrada no azul

alamandas fictícias
na madeira branca

rútila manhã
em estáticos bambuzais

bambus sem música
que amanhã serão flautas

ah! estes longes desvanecidos
colinas arabescos emblemas

bosque
que se esgarça na névoa

Liturgia do Silêncio 



sábado, 14 de janeiro de 2017

Igor Stravinsky e Miles Davis: grandes inovadores da música



De certa forma, Miles Davis está para o Jazz assim como Stravinsky para a Música Clássica do século XX. Pela sede de pesquisa e descoberta de novos sons, ambos estiveram na vanguarda de quase todos os movimentos importantes da época em que viveram, cada qual em seu gênero. Desbravaram fronteiras e criaram vertentes que foram seguidas por inúmeros músicos.

No balé inicial O Pássaro de Fogo (1910), Stravinsky foi influenciado por Rimsky-Korsakov e Debussy, mas logo encontrou a individualidade em Petrushka (1911), que o levou em 1913 à sua obra-prima mais famosa que é a Sagração da Primavera, de indiscutível valor artístico e histórico, pois esse audacioso bailado alterou definitivamente o caminho da música. Contudo, não permaneceu muito tempo nesse estilo. Buscou outras formas: a música de cena A História do Soldado (1918), de gênero indefinido, uma curiosa pantomima, mescla de commedia dell’arte e circo mambembe - extremamente original, uma obra-prima absoluta, e As Bodas, de 1919, balé-cantata com inspiração no folclore russo. No princípio dos anos 20, Stravinsky perturba o mundo com outra metamorfose. Muda completamente a direção, buscando na arte musical antes de Bach e de Pergolesi o novo estilo. Daí surge o balé Pulcinella (1920), depois Apollon Musagéte (1928) e, em destaque, a obra-prima Octeto para Instrumentos de Sopros (1923). A esse estilo (re)inventado deram o nome de 'neoclassico' ou 'neobarroco', que permaneceu por mais de trinta anos como diretriz para muitos compositores. A partir da estética sugerida por ele, para tirar a música dos excessos do romantismo, o compositor renova-se a cada obra, transmutando os clássicos do passado através de sua própria linguagem. E na mesma década de 20, a partir de Handel, cria outra obra-prima: a ópera-oratório com texto em latim Oedipus Rex (1927). A austera Sinfonia dos Salmos (1930), outra peça de estrutura mista, entre sinfonia e cantata, é uma das melhores de Stravinsky; foi a primeira obra coral surgida de sua necessidade de renovação, além de artística, espiritual. Nos anos 40, após alguma investida sinfônica à maneira de Beethoven e Brahms, como podemos notar em sua Sinfonia em Dó (1940) e sobretudo na Sinfonia em 3 Movimentos (sinfonia-suíte!), de 1945,  o russo mais uma vez muda de pele: torna-se católico fervoroso e escreve a Missa (1947), uma das mais belas e sinceras do século XX. E, no final da vida, a partir da Cantata (1952) e do Canticum Sacrum (1955), o compositor novamente modifica o estilo, desta vez adotando a 'técnica dos 12 tons' de Schoenberg (via Webern). De forma que, na velhice, já muito distante do período inicial das danças pagãs, Stravinsky torna-se introspectivo. Desta vez, na música sacra, gênero onde se localiza a maioria das obras da última fase, e ainda hoje pouco conhecidas, o ‘eterno inovador’ segue até o final experimentando no dodecafonismo novas possibilidades sonoras.

Em termos de metamorfoses, não foi diferente o caminho de Miles Davis. Começou no Bepop, tocou no quinteto do grande Charlie Parker, mas em pouco tempo, no período de 1949-50, torna-se um dos criadores do Cool, uma nova maneira de se fazer jazz, através das sessões de Birth of the Cool. Em 1956, surgem registros grandiosos em uma série com o The Miles Davis Quintet, que é uma de minhas preferidas: Cookin’, Relaxin’, Steamin’ e Workin’. Fase rica que culminou no Kind of Blue, de 1959, um dos maiores e mais importantes álbuns gravados na história não só do jazz mas de toda a música ocidental. Nos anos 60, mais uma vez Miles Davis demonstra em suas experiências inquietude e sede por renovação estética: é responsável pela fusão jazz-rock, com o álbum duplo Bitches Brew, de 1969, outra grande obra do jazz e de toda a música instrumental, ainda hoje considerado belamente ácida e inovadora. No final da vida, aproximou-se do Funk, procurando novas fusões e inovações.

É curioso lembrar que ambos os músicos também experimentaram no campo um do outro. Stravinsky, no final da guerra de 1914, quando residiu na Suiça, demonstrou interesse por rag-time que utilizou em peças para piano e de câmara, entre elas o Rag-time para 11 instrumentos. Na década de 40, escreveu o Ebony Concerto, obra mais próxima do jazz propriamente dito. Por outro lado, Miles Davis, junto com o genial arranjador Gil Evans, buscaram na música clássica uma nova atmosfera criativa. Gravaram uma versão de Porgy & Bess do americano George Gershwin, e Sketches of Spain, com peças dos espanhóis Joaquín Rodrigo e Manuel de Falla que, interpretadas de maneira muito pessoal, adquiriram face diferente, mas não menos geniais. São álbuns já antológicos, considerados obras supremas pelos melômanos. Para mim, superior a esses dois trabalhos é o instigante Miles Ahead, também em parceria com Evans, o responsável pelos arranjos da big band. E é histórico: nesse álbum está The Maids of Cádiz, de Délibes, a primeira peça de música clássica gravada por Miles Davis.

Como homenagem a esses desbravadores de fronteiras, deixo aqui duas gravações. Já são obras conhecidas, de longa data, por todos os apaixonados pelos dois gêneros. Mas nem todas as pessoas tiveram a chance de ouvi-las. Por isso, aqui estão.

O balé Le Sacre du Printemps (A Sagração da Primavera). A curiosidade é que esta versão apresenta-se na regência do próprio Stravinsky. É o primeiro de 9 CDs de uma coleção remasterizada e lançada pela Sony em 1999, com gravações dos anos 60. É uma oportunidade de ouvir a maneira como o compositor interpretava a sua prima obra.

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E Kind of Blue, a obra-prima de Miles Davis e de seu grupo, gravada em apenas duas sessões.

Um dos inúmeros méritos de Miles Davis era a sábia escolha dos músicos que integravam os seus grupos. A formação abaixo passou para a história do jazz como ‘o sexteto que gravou Kind of Blues’. De uma coesão impressionante, admirável em todos os sentidos, daquele tipo de interação que acontece raríssimas vezes, o sexteto brilha. Não era pra menos, eis os músicos:

Miles Davis (trumpete) - Julian "Cannonball" Adderley (sax alto) - John Coltrane (sax tenor) -Wynton Kelly & Bill Evans (piano) - Paul Chambers (contrabaixo) - Jimmy Cobb (bateria)

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MilesDavis.KindOfBlue1959.zip