sábado, 14 de janeiro de 2017

Igor Stravinsky e Miles Davis: grandes inovadores da música



De certa forma, Miles Davis está para o Jazz assim como Stravinsky para a Música Clássica do século XX. Pela sede de pesquisa e descoberta de novos sons, ambos estiveram na vanguarda de quase todos os movimentos importantes da época em que viveram, cada qual em seu gênero. Desbravaram fronteiras e criaram vertentes que foram seguidas por inúmeros músicos.

No balé inicial O Pássaro de Fogo (1910), Stravinsky foi influenciado por Rimsky-Korsakov e Debussy, mas logo encontrou a individualidade em Petrushka (1911), que o levou em 1913 à sua obra-prima mais famosa que é a Sagração da Primavera, de indiscutível valor artístico e histórico, pois esse audacioso bailado alterou definitivamente o caminho da música. Contudo, não permaneceu muito tempo nesse estilo. Buscou outras formas: a música de cena A História do Soldado (1918), de gênero indefinido, uma curiosa pantomima, mescla de commedia dell’arte e circo mambembe - extremamente original, uma obra-prima absoluta, e As Bodas, de 1919, balé-cantata com inspiração no folclore russo. No princípio dos anos 20, Stravinsky perturba o mundo com outra metamorfose. Muda completamente a direção, buscando na arte musical antes de Bach e de Pergolesi o novo estilo. Daí surge o balé Pulcinella (1920), depois Apollon Musagéte (1928) e, em destaque, a obra-prima Octeto para Instrumentos de Sopros (1923). A esse estilo (re)inventado deram o nome de 'neoclassico' ou 'neobarroco', que permaneceu por mais de trinta anos como diretriz para muitos compositores. A partir da estética sugerida por ele, para tirar a música dos excessos do romantismo, o compositor renova-se a cada obra, transmutando os clássicos do passado através de sua própria linguagem. E na mesma década de 20, a partir de Handel, cria outra obra-prima: a ópera-oratório com texto em latim Oedipus Rex (1927). A austera Sinfonia dos Salmos (1930), outra peça de estrutura mista, entre sinfonia e cantata, é uma das melhores de Stravinsky; foi a primeira obra coral surgida de sua necessidade de renovação, além de artística, espiritual. Nos anos 40, após alguma investida sinfônica à maneira de Beethoven e Brahms, como podemos notar em sua Sinfonia em Dó (1940) e sobretudo na Sinfonia em 3 Movimentos (sinfonia-suíte!), de 1945,  o russo mais uma vez muda de pele: torna-se católico fervoroso e escreve a Missa (1947), uma das mais belas e sinceras do século XX. E, no final da vida, a partir da Cantata (1952) e do Canticum Sacrum (1955), o compositor novamente modifica o estilo, desta vez adotando a 'técnica dos 12 tons' de Schoenberg (via Webern). De forma que, na velhice, já muito distante do período inicial das danças pagãs, Stravinsky torna-se introspectivo. Desta vez, na música sacra, gênero onde se localiza a maioria das obras da última fase, e ainda hoje pouco conhecidas, o ‘eterno inovador’ segue até o final experimentando no dodecafonismo novas possibilidades sonoras.

Em termos de metamorfoses, não foi diferente o caminho de Miles Davis. Começou no Bepop, tocou no quinteto do grande Charlie Parker, mas em pouco tempo, no período de 1949-50, torna-se um dos criadores do Cool, uma nova maneira de se fazer jazz, através das sessões de Birth of the Cool. Em 1956, surgem registros grandiosos em uma série com o The Miles Davis Quintet, que é uma de minhas preferidas: Cookin’, Relaxin’, Steamin’ e Workin’. Fase rica que culminou no Kind of Blue, de 1959, um dos maiores e mais importantes álbuns gravados na história não só do jazz mas de toda a música ocidental. Nos anos 60, mais uma vez Miles Davis demonstra em suas experiências inquietude e sede por renovação estética: é responsável pela fusão jazz-rock, com o álbum duplo Bitches Brew, de 1969, outra grande obra do jazz e de toda a música instrumental, ainda hoje considerado belamente ácida e inovadora. No final da vida, aproximou-se do Funk, procurando novas fusões e inovações.

É curioso lembrar que ambos os músicos também experimentaram no campo um do outro. Stravinsky, no final da guerra de 1914, quando residiu na Suiça, demonstrou interesse por rag-time que utilizou em peças para piano e de câmara, entre elas o Rag-time para 11 instrumentos. Na década de 40, escreveu o Ebony Concerto, obra mais próxima do jazz propriamente dito. Por outro lado, Miles Davis, junto com o genial arranjador Gil Evans, buscaram na música clássica uma nova atmosfera criativa. Gravaram uma versão de Porgy & Bess do americano George Gershwin, e Sketches of Spain, com peças dos espanhóis Joaquín Rodrigo e Manuel de Falla que, interpretadas de maneira muito pessoal, adquiriram face diferente, mas não menos geniais. São álbuns já antológicos, considerados obras supremas pelos melômanos. Para mim, superior a esses dois trabalhos é o instigante Miles Ahead, também em parceria com Evans, o responsável pelos arranjos da big band. E é histórico: nesse álbum está The Maids of Cádiz, de Délibes, a primeira peça de música clássica gravada por Miles Davis.

Como homenagem a esses desbravadores de fronteiras, deixo aqui duas gravações. Já são obras conhecidas, de longa data, por todos os apaixonados pelos dois gêneros. Mas nem todas as pessoas tiveram a chance de ouvi-las. Por isso, aqui estão.

O balé Le Sacre du Printemps (A Sagração da Primavera). A curiosidade é que esta versão apresenta-se na regência do próprio Stravinsky. É o primeiro de 9 CDs de uma coleção remasterizada e lançada pela Sony em 1999, com gravações dos anos 60. É uma oportunidade de ouvir a maneira como o compositor interpretava a sua prima obra.

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E Kind of Blue, a obra-prima de Miles Davis e de seu grupo, gravada em apenas duas sessões.

Um dos inúmeros méritos de Miles Davis era a sábia escolha dos músicos que integravam os seus grupos. A formação abaixo passou para a história do jazz como ‘o sexteto que gravou Kind of Blues’. De uma coesão impressionante, admirável em todos os sentidos, daquele tipo de interação que acontece raríssimas vezes, o sexteto brilha. Não era pra menos, eis os músicos:

Miles Davis (trumpete) - Julian "Cannonball" Adderley (sax alto) - John Coltrane (sax tenor) -Wynton Kelly & Bill Evans (piano) - Paul Chambers (contrabaixo) - Jimmy Cobb (bateria)

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MilesDavis.KindOfBlue1959.zip

 

2 comentários:

Anônimo disse...

Caro Ailton, quem sou eu para comentar sobre Stravinsky. Mas para aumentar (ou complicar) a busca de seu leitor, deixe-me incluir na obra fundamental de Miles o seu Segundo Quinteto, formado em 1964, mas que oficialmente durou de 65 a 68. Apesar de meu grande respeito a todos os discos citados em seu artigo, esta segunda formação também fez muito. Miles recrutou uma "molecada" (Herbie Hancock, Wayne Shorter, Ron Carter e Tony Williams) que nunca mais deixaria o jazz em paz. Em discos como Miles Smiles, Sorcerer, Nefertiti, E.S.P. e Miles in The Sky podemos ver um quinteto furioso, desconstruindo tudo o que até então havia sido pavimentado por períodos anteriores, até culminar com o seu mencionado Bitches Brew. Para muitos é um período de transição, mas para mim essa fase figura como a formação do gás que iria empurrar a rolha do jazz rock. Alexandre Eli

Edson Neto disse...

Eu realmente tenho mil comentários possíveis sobre o Stravinsky, sobre o Debussy, sobre o Mile Davis... Mas, antes disso tudo, eu gostaria de dizer que seu blog foi um verdadeiro achado (acidental, inclusive). É muito bom saber que algo como ele existe na internet!
Parabéns, de verdade, pelo seu trabalho :)