terça-feira, 1 de setembro de 2015

Kafka

 
- Não - disse o sacerdote. - Não é preciso considerar tudo como verdade, é preciso apenas considerá-lo necessário.

- Opinião desoladora - disse K. - A mentira se converte em ordem universal.


Esse diálogo devastador é o ápice do medo e da descrença de Kafka. Está no capítulo 'A Catedral' de O Processo.

Na verdade, o capítulo 'A Catedral' não é simplesmente a chave, mas o ponto crucial onde se revelam a amargura e a desesperança de Joseph K. diante de todos os processos da vida e do mundo. Kafka pensava assim: a distância dos seres comuns para o Deus todo poderoso é infinita e inatingível, não existe o ponto de chegada.

Não é possível compreender o homem Kafka, lendo-o com olhos cristãos, porque a formação religiosa do tcheco era judaica. A problemática de O Processo e de toda a obra de Kafka é religiosa. O ponto de partida e de regresso, antes de ser filosófico, é psicanalítico; nos dois aspectos o entendimento é como uma serpente correndo atrás da cauda. E é também metafísica a metáfora da culpa, e mais ainda: é esotérica. O que Hermes Trismegisto escreveu na 'Tábua de Esmeralda' aplica-se à cosmogonia kafkeana: "Assim como é em cima, é embaixo". O pai carnal de Kafka é a súmula e a extrapolação da severidade: como em um jogo de espelhos essa figura paterna torna-se o reflexo direto da visão divina no trono, sempre inatingível.

Se O Processo é o eixo do conjunto da obra kafkeana, e A Metamorfose a maneira como o autor se sentia diante do espelho: um inseto insignificante porque assim o pai o fez sentir desde menino, já O Castelo, o outro grande romance do escritor, é a nuance, o aceno, o vislumbre de que talvez pudesse ser aceito tanto pelo pai terreno como pelo pai celestial. Esta grande obra ficou inacabada, mas os amigos, a quem o autor comentou o final que nunca foi escrito, dizem que o personagem, após tantas lutas, por fim consegue a anuência de atingir o 'castelo'. Da mesma forma que o sacristão da catedral em O Processo é o porteiro para este lugar abstrato, também a burocracia é o portal que impede o homem de chegar ao Castelo. A metáfora é a mesma, embora na segunda há uma sutil luz de esperança.

Creio que também deve ser mencionado Um Artista da Fome, talvez o mais significativo conto do autor;  narrativa curta, artistica e estilisticamente perfeita, que está no mesmo nível das anteriores.

As quatro grandes obras que citei - dois romances, uma novela e um conto - são a voz máxima de Kafka enquanto artista criador, mas só é possível compreender o homem Kafka após a leitura de uma quinta obra, a Carta ao Pai, de alta importância biográfica. Essa 'carta' gigante seria o acerto de contas com a tirania do homem que o educou, o correspondente neste plano material ao Deus Onipotente. Mas o terror diante do patriarca, tanto o celestial quanto o reflexo dele, o terreno, era de tal dimensão que o autor não teve coragem de entregar a carta. O pai de Kafka partiu desta vida sem saber do tamanho do esfacelamento que fez na personalidade do filho.

E, talvez por isso mesmo, não entregando a carta, não recebendo a anuência paterna, o escritor não teve coragem de terminar a narrativa de O Castelo. De forma que deixa a nós leitores a eterna dúvida: o agrimensor conseguiu ser aceito no castelo ou não?

No fundo, no fundo o que Kafka mais queria era ser amado pelo pai e dele obter um mínimo de atenção e concordância. Porém, se isso tivesse ocorrido não teríamos essas grandes obras de um autor cuja angústia é a súmula do século XX, a que mais representa a fragmentação do indivíduo por qualquer tipo de poder que oprime e destrói.

Em Kafka, como em todos os escritores herméticos, é preciso enxergar as metáforas abrangendo o todo, embora em cada símbolo esteja oculto o fio de Ariadne para que encontremos a saída do labirinto - metáfora que se enquadra em todos os 'nós' dos questionamentos existenciais.


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