domingo, 16 de setembro de 2012

Cântico da Chegada

















Se, em horas noturnas, sentires o hálito
de brumas, diáfano e leve sobre o corpo,
saibas que sou eu que me faço presente.

Venho de longas distâncias, nas urzes do ar,
frágil luz ao sabor do vento e das dimensões,
alma alada adoecida de saudade dos olhos teus.

E aproximo, deito-me, abraçado juntinho a ti.
Desperta ! Venho trazendo um lírio do campo;
de azul é meu olhar nesta lágrima interrompida,

pois no riso, ah! neste riso que te trago, amor,
há a alegria em que sonhas o aroma da aurora.


quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Há uma Mancha Cinza no Horizonte


A desolação nos campos é grande
e entristece quem vem das cidades.
Há uma mancha cinza no horizonte
e um som de asas rondando as plantações.
Talvez gafanhotos. Talvez moscas venenosas.
Não. É bem provável que seja uma nuvem apenas.

As espigas de milho, mirradas,
pendem, umas aqui outras ali,
poucas, bem poucas, diante dos olhos.
Os camponeses sentem algo mais além da fome.
Os canarinhos entoam melodias tristes.

O rádio anuncia as últimas notícias:

“Os mísseis estão preparados.
Os exércitos estão reunidos
no lugar chamado Armagedom.”

O camponês ainda se levanta, olha o tempo:
Não vai chover.
Apanha algumas espigas de grãos esparsos
e leva-as para o moinho. Depois colhe
alguns tomates de um vermelho pálido
e leva-os para a sua senhora que prepara a refeição.

As crianças estão sentadas
no degrau da varanda (todas juntas)
olhando o espantalho.

O espantalho está de braços abertos,
amarrado em cruz no arame farpado da cerca.
Alguns corvos assentam sobre o seu chapéu.
Muito velho está o paletó branco,
sovado pelo tempo, pelo bico das aves negras.
No seu rosto de abóbora: dois olhos vazios,
parecem olhar tudo ao redor.
E o sorriso, aberto a canivete,
cortado sobre as estrias da redonda abóbora,
não é patético. É um riso irônico, de dor.
Tem uma face humana, de homem, se formando
por baixo dos restos e das lascas
da máscara de espantalho.

A mulher mostra o rosto na janela
e grita para as crianças:

“Está pronto o almoço.”

E o rádio anuncia:
“Está consumado.”


(de “Ilcha – Lamentações na Ilha de Patmos”)

segunda-feira, 21 de maio de 2012

Rainer Maria Rilke: Sobre o Amor



“[...] Amar também é bom; porque o amor é difícil. O amor de duas criaturas humanas talvez seja a tarefa mais difícil que nos foi imposta, a maior e última prova, a obra para a qual todas as outras são apenas uma preparação. Por isso, pessoas jovens que ainda são estreantes em tudo, não sabem amar: tem que aprendê-lo. [ ] Com todo o seu ser, com todas as suas forças concentradas em seu coração solitário, medroso e palpitante, devem aprender a amar. Mas a aprendizagem é sempre uma longa clausura. Assim, para quem ama, o amor, por muito tempo e pela vida afora, é solidão, isolamento cada vez mais intenso e profundo. O amor, antes de tudo, não é o que se chama entregar-se, confundir-se, unir-se a outra pessoa. Que sentido teria, com efeito, a união com algo não esclarecido, inacabado, dependente? O amor é uma ocasião sublime para o indivíduo amadurecer, tornar-se algo em si mesmo, tornar-se um mundo para si, por causa de outro ser. [...]" (em “Cartas a um Jovem Poeta”, sétima carta)

Rainer Maria Rilke (1875-1926)

Imagem: Eros e Psiquê (detalhe)
escultura de Antonio Canova (1757-1822)

domingo, 12 de fevereiro de 2012

Cícero Acaiaba: Deste Amor se Vive



O conto é de Cícero Acaiaba, grande poeta e escritor mineiro, famoso na década de 50 como novelista da Rádio Nacional do Rio de Janeiro. Faria aniversário nesse início de mês se não tivesse partido há 3 anos. No dia 9, ao acordar, lembrei-me do colega e amigo; procurei entre os seus diversos livros um texto com o intuito de homenageá-lo. É um costume antigo que tenho: nas datas de nascimento de autores que admiro, gosto de ler em voz alta algumas de suas obras.

Com quase 20 coletâneas de versos, Acaiaba é sobretudo poeta, mas deixou também 4 volumes de memórias "Meu Pé Direito", uma peça de teatro bastante aplaudida "Deus com Muita Raiva" e dois bons livros de ficção, contendo contos premiados em concursos, quase todos já apareceram em jornais e revistas: "O Homem com a Faca no Peito", publicado em 1989, e "Um Anjo no Labirinto", ainda inédito, do qual escolhi o comovente conto.    


 Deste Amor se Vive


Tinha só metade das pernas, até os joelhos. Vítima de um trágico acidente de estrada, desses que acontecem quase todos os dias. Era moço, muito moço. Mas tinha também dentro de si uma força, uma intensa vontade de viver. Para isso o sonho e a fantasia de sua poderosa imaginação davam-lhe esperança. Ficava, às tardes, horas e horas à janela de sua casa antiga, colonial, apreciando crianças e pessoas no lazer da praça ajardinada, um pouco distante. Um dia acordou com um vago pressentimento, algo que ia mudar sua vida monótona para sempre. Ela surgiu não sabe de onde, só a percebeu quando estava debaixo da janela, sorrindo, e era de uma beleza de tirar o fôlego. Nunca a vira andando nos arredores do bairro.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Canções da China Antiga






[Pintura atribuída a Wang Wei]

Canção

(Escrita no século 12 antes de Cristo. Possivelmente, é a mais antiga canção à bebida de que se tem notícia na literatura chinesa e no mundo.)

O orvalho cai espesso sobre a relva.
O sol se pôs, finalmente.
Encha, encha até às bordas as taças de jade,
Ainda temos a noite diante de nós!

A noite inteira o orvalho ficará cobrindo
A relva e o trevo.
Em breve, bem breve, o orvalho secará,
Muito em breve a noite estará terminada!


Cao Cao (viveu entre 155 a 220 d.C.)

Contemplando o Mar

Da Pedra Erguida, olhando pra leste,
Exploro o mar sem fim:
Fervilham as águas, sem parar;
Ilhas montanhosas emergem,
Arvoredos espessos,
Luxuriante, a erva.
O vento do Outono sopra e assobia,
Vagas, imensas, se elevam no céu.
O sol e a lua, na sua viagem, parece
Que surgem do meio das ondas
E a Via Láctea, cintilante,
Como que vem do fundo do mar.

Que maravilha!
Canto-a
Nesta canção.


Tao Yuanming (Tao Qian) (365-427)

Bebendo Vinho (O Número Sete)

Crisântemos no Outono, a mais bela cor.
Com orvalho ainda – os colho, e faço-os
Flutuar neste que afoga cuidados:
- Põe-me bem longe do mundo.
Encho, sozinho, um copo de vinho,
Se fica vazio, deita por ele o jarro.
Põe-se o sol, tudo o que é vivo sossega,
Aves de volta entram no bosque cantando.
Assobio na varanda do leste, alegremente:
Encontrei de novo o sentido para a vida.


Meng Haoran (689-740)

Passando a Noite no Rio Jiang-De

A barca atraca na ilhota de bruma,
Crepúsculo: renasce a comoção do viajante.
Uma planura imensa: desce o céu às árvores,
Límpido, o rio: chega-se a lua aos homens.


Wang Wei (701-761)

(Poeta e pintor admirável, igualmente músico, numa das épocas grandiosas da História da China – a dinastia Tang. O Budismo, e particularmente o Budismo cha (zen), de que era convicto praticante, não o impediu de exercer durante bastante tempo cargos oficiais – como bom chinês que era. Da sua obra se diz “que os seus poemas são pinturas e as suas pinturas poemas”.)

Adeus a Yuan, o Segundo, ao Partir em Missão para Anxi

Na cidade de Wei, a chuva, matutina,
Fez assentar a poeira leve do ar.
Tudo está verde, na estalagem,
Verde como as folhas novas do salgueiro.
Peço-te que esvazies, uma vez mais, a tua taça.
Tu vais para o Oeste, além-fronteiras, e não tens lá amigos.

Na Alta Torre

No alto da torre: para a despedida,
Rio e planície no crepúsculo se perdem
Voltam as aves: pôr-do-sol,
O homem caminha, cada vez mais longe.


Bai Juyi (772-846)

(O mais popular poeta chinês, tanto na China como a Ocidente. Foi prolífico e, capaz de ir da sátira  - da aguda crítica social - ao lirismo, deu-nos uma poesia em que o humanitarismo se alia à simplicidade, fazendo dele um dos grandes poetas chineses. Conta-se que lia os poemas a uma sua criada, destruindo os que ela não entendia.)

Ervas sobre a Planície Antiga: Uma Canção de Despedida

Aqui e ali, surgem ervas na planície,
Em cada ano morrem e renascem.
Fogos selvagens queimam-nas, não as matam,
Com o vento primaveril, ei-las outras vez!
A fragrância, longínqua, perfuma a via antiga:
Um feixe de esmeraldas nas velhas ruínas.
É tempo, outra vez, de dizermos adeus,
E do senhor que parte se despedem elas.


Liu Zongyuan (773-819)

Neve no Rio

Sobre mil colinas, nem um voo de ave.
Em dez mil veredas, vestígio algum de passos.
Uma barca solitária, um velho de capa e chapéu de palha,
Pescando, solitário, na neve do rio gelado.

_______________


** (Com exceção da canção inicial, todas as poesias
pertencem a Uma Antologia de Poesia Chinesa,
traduzida e organizada por Gil de Carvalho,
Ed. Assírio e Alvim, 1989)




Não me curvo facilmente


Admiro o talento, a sensibilidade, a inteligência e o conhecimento de várias pessoas, e admiro muito os que persistem na bondade, porque desde que o mundo é mundo os bons quase sempre são recompensados com a ingratidão. Admiro-as, respeito-as pelo que conhecem e pelo que fazem, porém na maioria das vezes o meu corpo permanece em posição reta, não me curvo facilmente. Porque tenho visto só vaidade de vaidades, inclusive neste que ora reflete. O artista, o intelectual, o erudito só fazem porque precisam de platéia e aplausos, sonham em ver seus nomes nas placas e monumentos. E há muitos caridosos que ajudam só pela paz da consciência, ajudam a si mesmos.

Mas quando encontro alguém que possui inteligência e bondade nas mesmas proporções e todo bem que faz é pelo altruísmo que transcende, ou o talentoso genial que consegue ser humilde com sinceridade,  ou o bondoso que não perde o senso de justiça, e da mesma forma o justo que é equânime ao julgar - diante desses eu me curvo em profunda reverência. Em minha vida encontrei pouquíssimas pessoas assim. São raras.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Christmas Night: Carols of the Nativity


Aos amigos que visitam Palavra e Melodia, deixo este presente especial: hinos de Natal de sublime beleza, quase todos colhidos do folclore de diferentes nações, ora entoados pelas vozes celestiais do coro Cambridge Singers. 

Em 2012, Paz Profunda aos homens e às mulheres de boa vontade!

The Cambridge Singers
Soloists:
Nicholas Sears, tenor [5,16]
Ruth Holton, soprano [7]
Gerald Finley, baritone [9]

The City of London Sinfonia
John Rutter, conductor

1-In dulci jubilo (traditional) (3:20) 
2-Adam lay y bounden (1:12) 
3-Christmas Night (french traditional) (4:04)
4-Once, as I remember (italian traditional) (2:34)
5-A Spotless Rose (2:49)
6-In the Bleak Midwinter (4:40)
7-There is a Flower (4:08)
8-The Cherry Tree Carol (traditional) (1:55)
9-I Wonder as I Wander (american  traditional) (2:59)
10-Candlelight Carol (4:09)
11-O Tannenbaum (traditional) (2:02)
12-Tomorrow shall be my dancing day (english traditional) (1:59)
13-A Virgin Most Pure (english traditional) (2:44)
14-I Sing a Maiden (2:59)
15-Lute-book Lullaby (2:08)
16-The Three Kings (2:21)
17-Myn Lyking (2:41)
18-O Little One Sweet (3:18)
19-All my heart this night rejoices (2:18)
20-I Saw a Maiden (basque traditional) [arr. E. Pettman] (2:57)
21-Away in a Manger (2:18)
22-Nativity Carol (4:28)

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domingo, 18 de dezembro de 2011

Natal Barroco: D. Buxtehude, A. Corelli, G. Torelli, J.S. Bach, G.F. Handel



Adoração dos Pastores, óleo sobre tela
- Bartolomé Esteban Murillo -
(1617-1682)
_

Diderik Buxtehude 
Cantata do Advento: In dulci jubilo
Cantata de Natal: Ihr lieben Christen

Archangelo Corelli
Concerto Grosso Op.6: no.8
“Fatto per la Notte de Natale” 

Giuseppe Torelli
Concerto Grosso Op.8: no.6
“Pastorale per il Santissimo Natale” 

Johann Sebastian Bach
Oratório de Natal (trechos) 

George Frideric Handel
O Messias (trechos) 

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BaroqueChristmas.zip


terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Chet Baker: Silent Nights. A Christmas Jazz Album




1. Silent Night (2:50)
2. The First Noel (2:06)
3. We Three Kings (2:27)
4. Hark! The Herald Angels Sing (2:01)
5. Nobody Knows the Trouble I've Seen (3:57)
6. Amazing Grace (3:36)
7. Come All Ye Faithful (4:28)
8. Joy to the World (2:40)
9. Amen (1:41)
10. It Came upon a Midnight Clear (1:57)
11. Swing Low, Sweet Chariot (3:24)
12. Silent Night (4:03)

Personnel:
Chet Baker - trumpet
Christopher Mason - alto sax
Mike Pellara - piano
Jim Singleton - bass
Johnny Vidacovich - drums


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domingo, 11 de dezembro de 2011

Handel: 'O Messias' - cond. Marriner, solistas: E.Ameling, A.Reynolds, P.Langridge e G.Howell



Compositores geniais escreveram belíssimos oratórios sobre o nascimento de Cristo, entre os quais Heinrich Schütz: “Weihnachtshistorie” (História da Natividade, 1660) e Johann Sebastian Bach: “Weihnachtsoratorium” (6 cantatas de 1734, entituladas ‘Oratório de Natal’), mas nenhum deles supera a beleza e a espontaneidade, a poesia pastoral das cordas e a intensidade dramática do coral com trumpetes do “Messiah” de Handel; escrito em apenas 24 dias, rapidamente, como se os querubins e os serafins ditassem-lhe em atmosfera etérea as melodias, a harmonia das árias e a polifonia dos coros. 

Semelhante ao crítico literário e historiador musical Otto Maria Carpeaux, eu também considero I know that my Redemeer liveth a mais bela prece já escrita em forma de música.

O sublime oratório de Handel foi criado em 1741 e apresentado em um teatro de Dublin, Irlanda, em 1742, para comemorar a Páscoa. Mas, desde então, as associações corais revivem-no em princípios de dezembro, período do Advento, quando se prepara para as festas do Natal. O oratório é dividido em 3 partes, cujos temas podem ser compreendidos assim: 1- Anunciação (a partir da profecia de Isaías) e Nascimento; 2- missão redentora da Paixão, e Ressurreição; e 3- Cântico de Ação de Graças. Sendo assim, o teor da primeira parte do oratório é que está relacionado ao Natal.

O Messias e a Música Aquática, de Handel; o Oratório de Natal e os Concertos de Brandenburgo, de Bach, as Quatro Estações e o Gloria, de Vivaldi; a Quinta Sinfonia e a Pastoral, de Beethoven; são exemplos de arte perfeita; e extremamente popularizadas com o passar dos anos, porque encantam leigos e eruditos de todas as raças, crenças e épocas. Essas peças já foram gravadas centenas e centenas de vezes, mas se mostrarmos disposição para ouvi-las com se fosse pela primeira vez, reencontraremos nelas a beleza e o arrebatamento, e entenderemos o motivo de serem tão populares.

Enquanto existir algum lume em nossa Civilização, essas grandes obras não serão esquecidas. 

 

MP3 Download 320 kbps - BAIXAR:
Elly Ameling, soprano
Anna Reynolds, alto
Philip Langridge, tenor
Gwynne Howell, bass
Academy and Chorus of St Martin-in-the-Fields
(Chorus Master: László Heltay)

Neville Marriner, conductor


sábado, 26 de novembro de 2011

Sobre o Perdão


O perdão continua sendo um ideal a ser alcançado. Falo do perdão verdadeiro, sem hipocrisia. É um estágio evolutivo que a humanidade ainda não alcançou, com exceção de alguns poucos seres, almas velhas que por aqui passaram incontáveis vezes; e em cada vez, já compreendem a fraqueza humana, e adquirem forças para perdoar. Fora esses casos, nós e a maioria dos que ainda somos humanos, no sentido vasto da palavra, temos que galgar degraus, sendo o primeiro deles evitar todo tipo de vingança, ainda que vivenciemos intimamente o momento de raiva diante das ofensas. O outro passo é trabalhar essa raiva em nós com lucidez, e fazer o possível para que não seja transformada em vibrações de ódio direcionadas para a pessoa que nos magoa. Creio que não desejar o mal já seja um ato benigno que algum dia pode nos levar ao perdão de fato. E é melhor aceitar o fato de que a tristeza e a magoa são uma realidade em nós do que fingir um grau de evolução espiritual que ainda não alcançamos.

Talvez, por isso é que Salomão, homem rico que tudo tinha, só pediu a Deus uma bênção: a sabedoria. Estando de posse dessa graça, adquire-se saúde e paz, compreende-se a fé e o amor com justiça. Mas até mesmo Salomão equivocou-se, pois sabedoria não é um presente que se ganha simplesmente. Na verdade, é uma riqueza que se conquista com o tempo, através de reflexões e ponderações. De tal forma a sabedoria é uma dádiva conquistada que vamos compreendendo que ela não é sinônimo exato de velhice. Nem todos os velhos são sábios. A idade não é contada pelos anos simplesmente vividos, mas sim pelos momentos de reflexão pelos quais as lições são assimiladas, tornando-nos pessoas melhores.

O que podemos pedir a Deus senão a lucidez para estarmos atentos aos sinais e às oportunidades para que esse aprendizado nos leve à sabedoria? Sabedoria e capacidade de perdão são conquistas. Quando sentimos ódio temos que aceitá-lo como tal, e com lucidez entendermos que a ofensa e a humilhação nos acarretam no mínimo uma grande tristeza. É uma reação natural e humana. O que fizermos desse sentimento é que se torna responsabilidade nossa. Se o estendemos por anos a fio, desejando o mal a quem nos feriu, é causa e efeito que somente nós podemos modificar.

Em resumo, ainda que compreendemos em nós por enquanto, com realismo e humildade, a incapacidade de perdoar, podemos também ter a alegria de que já conseguimos não desejar o mal ao ofensor. É um auspicioso degrau na escalada ao ideal do perdão puro.