domingo, 14 de dezembro de 2014

Walt Whitman: Canção de Mim Mesmo



Me elevo da lua .... me elevo da noite,
E percebo nesse lívido lampejo
os raios do sol do meio-dia refletidos,
E desemboco no que é estável 
e está no centro do maior ou menor rebento.

Aquela coisa em mim .... não sei o que é .... 
só sei que está em mim.

Cansado e suado .... calmo e fresco fica meu corpo;
Durmo ... durmo por muito tempo.

Não sei o que é .... não tem nome .... é uma palavra não dita,
Não figura em nenhum dicionário nem expressão nem símbolo.

Algo que gira acima de algo mais imenso que a Terra aonde giro,
Para ela a criação é o amigo cujo abraço me faz recordar.

Quem sabe diga mais alguma coisa .... 
Esquemas! Imploro a meus irmãos e irmãs.

Estão vendo isso Ó meus irmãos e irmãs?
Não é caos nem morte .... é forma e coesão e projeto .... 
é vida eterna .... é felicidade.

O passado e o presente definham .... já os enchi e esvaziei,
Passo a encher minha própria dobra do futuro.

Vocês que me escutam aí em cima! Você aí .... 
algum segredo para me contar?
Me encare enquanto assopro o discreto poente,
Seja sincero, ninguém está te ouvindo, 
só vou ficar mais um minuto.

Me contradigo?
Tudo bem, então .... me contradigo;
Sou vasto .... contenho multidões.

Me concentro nos que estão perto .... espero na porta.

Quem terminou o batente e vai jantar mais cedo?
Quem quer passear comigo?

Você vai falar antes que eu vá embora? 
Ou virá quando já for tarde demais?

O falcão pintado dá uma rasante sobre mim e me acusa .... 
reclama de minha conversa fiada, minha preguiça.

Também não sou facilmente amestrado ....
também não sou facilmente traduzível,
Solto meu urro bárbaro sobre os telhados do mundo.

A última nuvem do dia se demora por mim.

Lança minha semelhança após o resto, 
fiel como todas nos ermos sombrios,
Me incita para o vapor e para o crepúsculo.

Vou-me feito vento .... agito meus cabelos brancos 
contra o sol fugitivo,
Esparramo minha carne em redemoinhos 
e a deixo flutuar em retalhos rendados.

Me entrego à terra pra crescer da relva que amo,
Se me quiser de novo me procure sob a sola de suas botas.

Vai ser difícil você saber quem sou 
ou o que estou querendo dizer,
Mas mesmo assim vou dar saúde,
Vou filtrar e dar fibra a seu sangue.

Não me cruzando na primeira não desista,
Não me vendo num lugar procure em outro,
Em algum lugar eu paro e espero você.


(final do poema "Canção de Mim Mesmo",
em "As Folhas da Relva")

quarta-feira, 5 de março de 2014

Villa-Lobos: 4 Bailados do Amazonas



Heitor Villa-Lobos nasceu no dia 5 de março de 1887 e faleceu em 17 de novembro de 1959, com a idade de 72 anos. Rio de Janeiro foi o seu berço e também o seu último leito. No percurso, uma vida inteira dedicada à música. De sua inspiração surgiram muito mais de duas mil obras em todos os gêneros: suítes orquestrais, sinfonias e concertos, peças para instrumento solo (piano e violão), quartetos de cordas e as mais inusitadas formações de câmara, centenas de canções para voz solo, corais; e como se não bastasse toda essa prolífica obra, ainda lhe restou tempo para compor alguns balés, óperas e trilhas para dois filmes. Hoje, após mais de 50 anos de sua morte, a arte musical de Villa-Lobos, gênio tupiniquim, permanece mais viva do que nunca, executada com entusiasmo nas mais importantes salas de recitais e concertos do mundo todo.

Essa denominação de 'gênio tupiniquim' é apenas uma saudável brincadeira, pois é bastante conhecida a indignação - uma indignação bem humorada, em tom de galhofa - que o próprio compositor demonstrava ao ser chamado de ''compositor brasileiro'', retrucando que ninguém se refere a Beethoven como músico alemão, ou Mozart, austríaco. Sim, entendemos... Então o qualifiquemos da forma como gostaria de ser chamado: Villa-Lobos, compositor nascido no Brasil, cujas obras foram criadas para a Humanidade, de qualquer tempo e de qualquer lugar. Enfim, Heitor Villa-Lobos, homem do Brasil, artista do mundo.

Na década de 40, nos EUA, quando Villa-Lobos foi considerado o maior compositor das três Américas, muita gente importante da música torceu o nariz, porém não havia exagero nessa elevação superlativa. Copland, o compositor mais querido dos americanos, embora discordasse de alguns pontos de vista estéticos de Villa-Lobos, o respeitava muito. No México, Manuel Maria Ponce e Carlos Chávez dedicavam-lhe reverência. O grande Ginastera da Argentina sempre demonstrou-lhe humilde gratidão. Isso só para citar nomes de peso da música erudita de outros países das Américas.

É difícil catalogar uma obra como a de Villa-Lobos, tão vasta como a própria selva amazônica, caudalosa como nossos rios, rica como a flora e a fauna de nossas florestas e campos, exoticamente melodiosa como o canto de nossos pássaros. Apesar de muitos defeitos, principalmente na orquestração excessiva, às vezes de exaustiva prolixidade, ou na falta de inspiração de várias obras de encomenda, ou da grande quantidade de coros cívicos e obras comemorativas de valor apenas para a ocasião, a inspiração de Villa é exuberante, sincera e de alta qualidade em pelo menos 50% da totalidade de sua criação.

Para avaliar a grandeza de Villa-Lobos, além das duas séries mais importantes: os Choros e as Bachianas Brasileiras, que já são obras-primas da música clássica moderna, bastaria mencionar a impressionante série de quartetos de cordas, 17 ao todo, e um inacabado, que escrevia quando morreu. É só lembrar que Hindemith compôs 7; Bartók, 6; Schoenberg, 4; Debussy, 1; Stravinsky, nenhum, para compreendermos a prolificidade villalobiana. Esse gênero difícil, pouco frequentado pela maioria dos compositores, foi o foco de atenção de Villa-Lobos em sua última década de vida, e vários desses quartetos permanecem como algumas de suas obras mais ricas. Quando a quantidade é citada, pensa-se que o número inibe o talento, mas não; diferente do que ocorrera com as sinfonias e vários concertos da última fase, a maioria escrita sob encomenda, e às vezes sem muita inspiração, os melhores desses quartetos de cordas foram criados pela necessidade do artista de dar voz a uma sensibilidade mais íntima.  

As sinfonias, em número de 12, mais as sinfonietas, não mostram o melhor de Villa-Lobos, com raras exceções, como a No. 6, de 1944, dita 'Sobre a Linha das Montanhas do Brasil', bela e interessantíssima em seu propósito criativo, ao seguir o gráfico da Serra dos Órgãos e torná-lo real em som; e talvez a No.10, a 'Sumé Pater Patrium' (1952), com texto do padre Anchieta. Mas esta é uma obra híbrida, mais um oratório do que sinfonia e, ainda assim, irregular; há momentos brilhantes e outros de uma inegável monotonia. O tema sacro não era o mais forte nem o mais sincero em Villa-Lobos, salvo quando podia contrapô-lo a um tema secular ou a uma crença diversa, como é o caso do grandioso e fascinante coro 'tupi' na Suíte No.4 de 'O Descobrimento do Brasil'.  

Já os 17 quartetos de cordas, ricos em profundidade, técnica, e sobretudo maturidade artística, hão de permanecer, e já bastariam para destacar Villa-Lobos como um dos maiores compositores, não somente das Américas, mas de todo século XX.

Com a devida justiça, Villa-Lobos, já é considerado pelos musicólogos de renome como um dos mais criativos compositores da história da música, e o mais significativo do continente latino-americano no sentido de englobar a música erudita, a folclórica (principalmente a ameríndia e a nordestina) e a popular (choros e modinhas do Rio de Janeiro, modas de viola do cancioneiro rural paulista e mineiro, etc.)

Há algumas décadas, afirmar com ênfase a genialidade de Villa-Lobos, seria motivo de riso para alguns críticos resistentes, mas hoje sabemos que de todos os lados do planeta aparecem gravações de obras do "índio de casaca", que seria do Brasil, se já não o fosse do mundo todo. Músicos admirados executam e proclamam a excelência dessas peças; ouvintes entusiastas divulgam-nas, realçando a emoção e a vida que há nessas criações. A frase inscrita na lápide de Villa-Lobos, a pedido do próprio: "Considero as minhas obras como cartas que escrevi à posteridade sem esperar resposta" não tem mais sentido, pois a posteridade já responde a essas "cartas" com júbilo e agradecimento.

De que maneira homenagear um grande compositor na data de seu nascimento, senão ouvi-lo com o mais respeitoso silêncio? Por isso, hoje, com a oportunidade de prestar minha reverência a um de meus compositores preferidos, escolhi quatro obras para ouvir. Todas têm em comum o fato de explorarem o tema da floresta amazônica, e pelo menos três delas foram escritas originariamente para a dança. A seleção é minha. Não existem como um todo em nenhum álbum gravado.


Amazonas (1917) poema sinfônico e bailado para orquestra. É a primeira obra-prima de Villa-Lobos. Utiliza melodias indígenas coletadas durante sua viagem ao norte do país. Mário de Andrade, que às vezes errava em seus comentários musicais, mas que também acertava, tinha toda a razão quando ouviu o bailado pela primeira vez e exclamou que ali irrompia o verdadeiro gênio de Villa. É uma música visceral e nos envolve desde o início com a presença do Amazonas, o rio mais imponente do planeta, e da paisagem selvagem da floresta que o circunda, cujo solo se oculta em cipós e ramagens escuras que se estendem cada vez mais ao alto pelas copas intrincadas das árvores. A peça musical é exata: a sensação é de claustrofobia. Um dinamismo de vida macro e microscópica nos toma a imaginação: ruídos, sussurros de animais e canto de aves exóticas re-inventados por uma orquestra experimental, introduzindo o violinofone (trompa+violino), instrumento inventado pelo Villa. Embora a orquestração em muitos trechos seja caótica, se comparada à límpida escrita neoclássica de Camargo Guarnieri, não deixa de ser original e ousada. Tanto que, anos depois, foi muito elogiada por Messiaen.

Uirapuru, o outro poema sinfônico e bailado para orquestra, escrito em 1917, apesar de menos comentado e menos famoso do que 'Amazonas', não é, de maneira alguma, inferior. Considero-o mais rico e imaginativo. Além de utilizar também temas aborígenes primitivos, colhidos por Roquete Pinto, Villa-Lobos constrói sobre a linha melódica do canto do pássaro Uirapuru uma arquitetura sonora mais do que admirável. Variando as três ou quatro notas da melodia da ave a música vai sendo exposta lentamente formando a estrutura orquestral, semelhante ao que fez Beethoven na 'Sinfonia No.5'. Em ambos os casos são pouquíssimas notas, células que vão se bipartindo e aumentando até surgir um tecido complexo.

O libreto foi escrito pelo compositor, adaptado das inúmeras narrativas dos indígenas e caboclos do Amazonas aos folcloristas: "...Conta uma lenda que a magia do canto noturno do Uirapuru era tão atraente, que as índias sumiam, durante a noite, à procura do mágico trovador das florestas brasileiras, porque as feiticeiras lhes haviam contado que o Uirapuru era o rei do amor e o mais belo cacique da Terra."

Mas há outras nuances da lenda... O Uirapuru é uma ave rara, mesmo na imensa variedade de pássaros amazonenses. E raro é também seu canto. Talvez não seja o mais belo, pois há o Sabiá Laranjeira com sua riqueza de timbres. Mas o do Uirapuru é um canto mágico, varia de ritmo e melodia, como uma improvisação. E nem é essa peculiaridade que o diferencia de outros, e sim a acentuada melancolia. Sendo um pássaro cuja espécie nunca foi numerosa, acredita-se que no tempo do acasalamento surge a dificuldade de encontrar a parceira. Então, quando se ouve no anoitecer ou no amanhecer a sua melodia triste, imagina-se que ele esteja chamando a companheira. E a floresta inteira para sentindo a solidão do Uirapuru. E, de fato, dizem que essa cantiga triste é precedida por um inquietante silêncio nas matas, que dura enquanto dura o seu canto. Essa versão da lenda é bem possível que seja uma invenção poética como metáfora da solidão do artista. E há lógica na comparação, pois os artistas são admirados pelo mais belo canto que possuem, mas pouco compreendidos quanto ao motivo que os impulsiona a emitir esse mesmo canto. São solitários mesmo ao lado daqueles que mais amam. Evidentemente, é rara a companheira que poderá ouvir esse chamado.

Mandú-Çarará (1939), cantata profana para coro misto, coro infantil e orquestra, que é também um bailado. Extraída de uma lenda amazônica colhida por Barbosa Rodrigues, é simplesmente outra obra-prima de Villa-Lobos que deveria ser mais conhecida e comentada. É a apoteose índia da dança.
 
Vasco Mariz em seu famoso livro sobre Villa nos conta sobre o conteúdo da lenda e da peça: "Abandonado na floresta pelo pai, por gostarem de 'Mandú-Çarará', a encarnação da dança, um casalzinho de irmãos depara subitamente com o Currupira, que procura atrair os dois para a sua cabana e comê-los. O autor conseguiu aqui uma feliz conjugação dos coros infantil e adulto, pintando de maneira expressiva a conversa de Currupira com as crianças, atemorizadas pelos gritos do monstro, em glissandi. Após um breve trecho orquestral, surge o tema do 'Mandú-Çarará', a princípio nos baixos e barítonos, para se estender a toda a massa coral com sonoridade empolgante. As crianças conseguem, enfim, enganar o Currupira e, após muitas peripécias, encontram a casa dos pais, onde já os aguarda o 'Mandú-Çarará' para dançar e brincar."

Choros No.10 (1925) para orquestra e coro, aqui é a única que não foi escrita diretamente para a dança. Alguns anos depois de sua composição original foi adaptada e coreografada para bailado, primeiro no Rio de Janeiro, depois em Paris por Serge Lifar, com o título de 'Jurupari'. Mesmo entre as mais fascinantes criações do mestre, essa obra merece um lugar de destaque. Trata-se, com certeza, da maior obra-prima de Villa-Lobos , e quanto à fama, só perde para a famosa 'Aria' de 'Bachianas Brasileiras No.5'. No entanto, existem várias obras do mestre que estão no mesmo nível em genialidade, força e beleza.

Novamente aqui, semelhante às três obras anteriores, a floresta amazônica, densa, imensa, misteriosa surge aos poucos no amanhecer. Ao contrário do bailado Amazonas, que é de tonalidades escuras, neste 'Choros No.10' Villa-Lobos supera-se a si mesmo na reconstituição da mata que desperta no lusco-fusco da aurora seguido pela claridade matinal. A flauta é a primeira a aparecer, sugerindo o canto do Azulão; depois, as flautas e as clarinetas soam como gorgeios e trinados de pássaros que vão unindo-se a ruídos de insetos que chiam e zunem. A fauna lentamente toma nuances e formas incitando-nos a sentir a flora luxuriante dos bosques e selvas. A metade da peça é orquestral. A partir daí aparece o coro; primeiro as vozes masculinas; depois as femininas com sons onomatopéicos em vocalises que aumentam de intensidade, pouco a pouco, mostrando o elemento humano, os indígenas que iniciam o dia em seu meio natural. O ritmo das vozes é sincronizado de tal maneira com os tambores e timbales que não é difícil enxergar a poderosa dança na taba: guerreiros e esposas saudando o sol. O êxtase de júbilo que vem a partir daí com a polifonia de vozes agudas e graves entrelaçando-se é o momento mais sublime e representativo da música erudita brasileira. A contagiante verve do coro associado aos instrumentos indígenas e sincronizados com a melodia quase selvagem de toda a peça, no final eclode na música "Yara" de Anacleto de Medeiros, que ao receber letra de Catulo da Paixão Cearense, tornou-se "Rasga Coração". Villa-Lobos fez isso, durante toda a vida: quis unir o folclore, o erudito e o popular. Mas somente no 'Choros No.10' ele o conseguiu da forma mais perfeita, sincera e grandiosa. 

***
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Amazonas
Czecho-Slovak Radio Symphonic Orchestra (Bratislava)
Roberto Duarte, conductor

Uirapurú
Stadium Symphonic Orchestra of New York
Leopold Stokowski, conductor

Mandu-Çarará
Sistema Nacional de Coros Sinfónicos
(Zulia, Tachira, Merida y Metropolitano)
Niños Cantores del Nucleo Los Teques
Sinfónica de la Juventud Venezolana "Simon Bolívar"
Roberto Tibiriçá, director 

Choros No. 10 "Rasga o Coração"
OSESP: Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo
Coro Sinfônico do Estado de São Paulo
John Neschling, regente



segunda-feira, 3 de março de 2014

Conto Oriental


Ah, branca ave,
branca e bela no cativeiro,
como podes tu cantar ainda?
se o horizonte é mistério
e a tua espera é eterna
e tanto voas mas só
no sonho interrompido?

De que é feita essa melodia
triste como os caniços
onde o vento sopra e sopra
e depois vira rumo e te deixa
vazia - flauta que soluça?
Esse cantar que amo?
para mim apenas
é que amo assim?

Liberta a ave!
disse-me, um dia, o sábio hindu,
com ternura.
Ama-a, ama-a sempre,
mas lá na natural morada,
nas nuvens distantes,
feliz na própria canção de viver.
Momentos há - disse-me ele -
que o maior amor
é libertar o que mais se ama.

Numa noite a meditar à lua clara,
do velho brâmane
a refletir o bom conselho,
compreendi, por fim.
E no outro dia - era primavera,
mas as flores não sorriam -
ouviu-se na gaiola dourada
a portinhola que se abria.
Silenciosas - as palavras.
Sorri, apenas sorri
para a avezinha tímida -
a mesma que me trazia o sol
todas as manhãs:

Voa, ser que amo,
voa livre, segue em paz
para o teu Azul!






Image from Mindrolling Jetsün Khandro Rinpoche
http://www.khandrorinpoche.org/featured-quote/

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

Sensatez



‘Viver tudo que o presente nos oferece, como se não houvesse o amanhã’ é um pensamento perigoso, que impulsiona a atitudes irreversíveis, na maioria das vezes com amargas consequências. 

Nos leitos dos hospitais há muitas pessoas, prematuramente estropiadas, com os órgãos esfacelados: com a cabeça baixa, a maioria chora, arrepende-se das aventuras extravagantes dos dias da juventude. E isso também ocorre nas sarjetas e nos asilos. Pessoas que, levianamente, investiram tudo nos sonhos, hoje comem do pão alheio, são obrigadas a viver sob tetos que não lhes pertencem, dependentes que são da caridade de estranhos. 

É preciso romper amarras, voar e concretizar sonhos; é preciso viver com intensidade o presente que jamais se repete, porém nem tudo que queremos, podemos; e nem tudo que podemos, devemos fazer. 

Eis o lema, o leme e a bússola dos sensatos: Viver o presente com moderação, refletir sobre as lições do passado e preparar-se para as possibilidades do futuro.


terça-feira, 26 de novembro de 2013

O Imutável Devir



Perpétua e mutável elipse
movimento cíclico 
que vai que volta
que vai que volta

Sempre o mesmo Nunca igual
Tudo retorna Tudo se repete
em múltiplas variantes

E no exato momento
há a incidência da Luz
na Crisálida pronta para voar



Imagem:
Centro da galáxia NGC 254 na constelação de Piscis. 
90 milhões de anos-luz da Terra. 
Galáxia antiquíssima, berçário de estrelas.
[Captada pelo Telescópio Espacial Hubble da NASA]

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Anotações atrás da Cortina (4)


o velho palhaço sai de cena
para retocar o sorriso
para secar a umidade dos olhos
a ‘furtiva lagrima’

por que? por que? o Silêncio grita
o espetáculo tem que continuar?
as crianças têm sede de risos?
será que muito além do picadeiro
há uma filhinha que agoniza?
sussurros dos netos não-nascidos?
Sim - mas as crianças nada sabem

a vida em suas entranhas
guarda as ranhuras do abismo
e o breu da noite é uma rede
à espreita do último salto

o que parece ser, não é
e o que é, jamais será

desvala o riso
pelo friso do camarim
leito seco de um rio
que gargalha...

viver não é uma opção
viver é uma ordem



sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Jorge Luis Borges: 3 Poemas




















 


As Coisas

A bengala, as moedas, o chaveiro,
a fechadura dócil, as tardias
notas que não lerão os poucos dias
que me restam, o naipe, o tabuleiro,
um livro e dentro dele a emurchecida
violeta, monumento de uma tarde
por certo inesquecível já esquecida,
o rubro espelho ocidental em que arde
uma aurora ilusória. Quantas coisas,
atlas, limas, umbrais, taças e cravos
nos servem como tácitos escravos –
cegas e estranhamente sigilosas.
Durarão muito mais que nosso olvido,
não saberão quando tivermos ido. 

Arte Poética

Olhar o rio feito de tempo e água,
e recordar que o tempo é outro rio,
saber que nos perdemos como o rio
e que passam os rostos como a água.
 
Descobrir que a vigília é outro sonho
que sonha não sonhar; sentir que a morte
que teme nossa carne é essa morte
de cada noite, que se chama sonho.
 
No breve dia ou no ano ver um símbolo
dos dias do homem e também seus anos,
e o longo ultraje converter dos anos
num rumor, numa música e num símbolo:
 
ver o sonho na morte, ver no ocaso
um ouro triste – tal é a poesia,
que é imortal e pobre. A poesia
retorna como a aurora ou como o ocaso.
 
Às vezes, pelas tardes, uma cara
nos mira desde o fundo de um espelho:
a arte deve ser como esse espelho
que nos revela nossa própria cara.
 
Contam que Ulisses, farto de prodígios,
chorou de amor ao divisar sua Ítaca
humilde e verde. A arte é essa Ítaca,
de verde eternidade, e não prodígios.
 
Também é como um rio interminável
que passa e fica, e é o cristal de um mesmo
Heráclito inconstante, que é o mesmo
e é outro, como o rio interminável.
 
A Um Gato

Os espelhos não são mais silenciosos,
nem mais furtiva a aurora aventureira:
eras, à luz da lua, essa pantera
que ao longe divisamos, temerosos.
Por obra indecifrável de um decreto
divino, te buscamos baldamente;
mais remoto que o Ganges ou o poente,
a solidão é tua, e o mais secreto.
Teu lombo condescende à vagarosa
carícia de uma mão. Tens admitido,
desde essa eternidade que é já olvido,
o amor de minha mão tão receosa.
Em outro tempo estás: és dom, suponho,
de um âmbito cerrado como um sonho.
 

Jorge Luis Borges (1899-1986)


Arte: Erik Desmazières - Passage Choiseoul, 1990

[poemas traduzidos por Renato Suttana] 

terça-feira, 1 de outubro de 2013

Beethoven, o Prometheu das Artes



Mário de Andrade, em sua obsessão por nacionalismo, idealizou uma modificação na forma brasileira de escrever, e tentou criar uma 'gramatiquinha'. Não conseguiu. Não deu certo. Ninguém quis segui-lo. E por isso, felizmente, não conseguiu empobrecer a língua. Não exageremos os méritos de Sr. Mário de Andrade. Como poeta foi um experimentador; acertou sim, vez ou outra. E, sem dúvida, foi ficcionista de valor, deixando-nos, além de outras, o Macunaíma, uma narrativa burlesca que o autor chamou de ‘rapsódia’, nela acusando o povo brasileiro de não ter personalidade. Nisso acertou também. É sua obra mais lida e comentada. Vários de seus contos também merecem ser admirados pela trama e estrutura bem feitas. Mas a glória nacional deste autor reside em sua prosa ensaística. Por vezes estudando o folclore, ou tecendo críticas em todas as áreas da arte, literatura, cinema e... música, tornou-se uma importante figura da cultura brasileira. Mas não podemos também exagerar o seu legado histórico. A Semana de Arte Moderna eclodiria de qualquer forma, com ou sem Mário de Andrade. Era algo que já estava no ar.

De forma que o ensaísta escreveu também uma História da Música, tentando a todo instante ser original, e sempre fazendo questão de utilizar a sua gramática de simplificação. Tirando alguns disparates e pontos de vista muito particulares, a obra de Sr. Mário de Andrade Compêndio da História da Música tem a sua importância e continua sendo uma obra bastante lida. Mas está repleta de comentários estranhos, ‘non sense’, irreais, assim como o referido neste trecho sobre Beethoven:

“(...) e sabemos que (Beethoven) compunha às vezes com dificuldade extrema. E esta dificuldade não provinha da ânsia de perfeição musical, porém de preocupações intelectuais, de ordem literária, de ordem especialmente filosófica, que nada tem a ver com a Música. (...) deixou páginas literárias geniais pela grandeza e elevação das ideas, força, profundeza de expressão. Entre estas o Testamento de Heiligenstadt é um monumento imortal.”

Ora, se o historiador se baseia nesse documento para atestar as condições literárias de Beethoven por certo está muito equivocado. Nada há de arte literária genial no Testamento, e menos ainda na Carta à Amada Imortal, que é a declaração de amor mais caótica de que se tem notícia. Amamos essa carta porque ela nos diz que Beethoven, o solitário “Luiz”, após o desprezo de tantas, ao menos uma vez foi amado por uma mulher, ficando esta na obscuridade porque o amado quis ocultá-la ao mundo, por razões pessoais. Hoje sabe-se que era Antonie Brentano, uma grande mulher, de alma e posição nobres, e amiga de Beethoven, porém casada. Amou o músico, verdadeiramente, e por ele foi amada, sendo, entretanto, um amor que não se consumou por motivos ainda misteriosos. Semelhante ao Testamento de Heiligenstadt, a carta possui valor histórico, e nada mais. Não há um grande poeta submerso nesses textos. São muito parecidos com os escritos e os desabafos de um homem comum que sofre por amor. O que ambos os documentos destacam é que, a partir deles, o músico haveria de iniciar a peregrinação ao interior de suas obras verdadeiramente imortais no campo da música. Tais obras surgiram só após muitos tormentos. Sem dúvida, a expressão artística em Beethoven jamais se mostrou com a mesma facilidade como ocorrera a Haydn ou a Mozart. O Testamento de 1802 e a Carta de 1812 são uma espécie de partes de uma autobiografia, que registram as transições do músico: da primeira para a segunda fase, chamada de ‘Heróica’, e desta para a última fase. Cada um dos documentos fecha um período para iniciar outro. No entanto, possuem inestimável valor histórico, não literário.

Eis o que ocorre no Testamento de Heiligenstadt: nele relata-se o combate de um artista consigo mesmo para se manter vivo dentro dos requisitos de sua arte: a perfeição auditiva. E tal desabafo comove-nos extremamente e também nos glorifica, pois é a capacidade que tem o homem de renascer das próprias cinzas. Ali, Beethoven repete o mito de Prometheu e pressente a sua própria jornada de silêncio e solidão, muito semelhante àquele outro castigo imposto pelos deuses: um abutre devoraria o seu coração incessantemente, atado a uma montanha, sofrendo a dilaceração pela surdez, distante, cada vez mais, do convívio de outros homens. Eis o símbolo de Prometheu tão bem vivenciado em Beethoven. Porque, ao ver tantos e tantos adormecidos pela surdez e pela cegueira, imersos na banalidade dos valores burgueses, o músico, à medida que rouba a labareda dos deuses, acordando os homens com a claridade de sua música, perde-se do próprio brilho. Sente-o mas não pode apreciá-lo como os outros. Aí estão o fogo e o brilho de sua música – o despertar. Eis o verdadeiro significado das batidas retumbantes no início de suas sinfonias: quase todas iniciam semelhantes ao batido seco de um martelo ou de um gongo a soar, sempre querendo dizer: “Acordem ! Ergam a cabeça ! O mundo não é feito somente de comprimento e largura. Há ainda uma outra dimensão! Há uma altura e há uma profundidade em tudo! Ergam-se, aplumem a cabeça e os ouvidos! Enxerguem e ouçam as maravilhas que existem ao redor, na beleza que pode existir na vida. Cresçam como homens! E serão deuses também!” Assim é o início. E o que vem, logo depois, do interior dessa música, aqueles que a conhecem, sabem.

Todas as grandes obras de Beethoven são uma luta entre matéria e espírito, entre sombra e luz. O combate que se trava com o destino em toda Sinfonia No. 5 é trágico, mas no final surge do escuro túnel a esperança, seguida de júbilo. É a música mais esotérica escrita até hoje. É a arte mais profunda no que diz respeito à transitoriedade dos elementos diante da perenidade e da essência primordial da alma.

Apesar do elogio de Sr. Mário de Andrade ao compositor, sinto camuflado nas entrelinhas de todo texto um tom irônico, aquele tipo de deboche do nacionalista extremado apenas contido em expressão sutil. “(...) Porém, estou convencido que (Beethoven) poderia ser tão grande ou maior poeta, filósofo ou, quem sabe, imperador.”

Equivocara-se Mário de Andrade dizendo que Beethoven poderia ter sido um poeta ou filósofo, se quisesse. Quem disse que não o foi? Pois o compositor de Bonn recebeu pela música uma missão muito maior: ser tudo isso e mais um pouco. Filósofo do trágico e do júbilo, arquiteto gótico de invisíveis catedrais, ou, então, ‘poeta dos sons’, como ele mesmo se chamava. Mas não criou a sua obra imortal do nada; e nem poderia. Aqui está um de seus méritos e, ao mesmo tempo, doloroso sacrifício criativo. Foi lenta a gestação de quase todas sinfonias, concertos, sonatas e quartetos. E hoje permanecem para comprovarmos a perfeição: não precisam de retoques ou revisão, não há falhas, principalmente nas obras criadas no período ‘heróico’. Os defeitos que querem encontrar nas obras da última fase são apenas a incompreensão de nossa época diante de um gênio que já vivia com os olhos em tempos distantemente futuros.

Quase oito anos para dar-se por completa a Quinta Sinfonia! O mesmo tempo para a Sinfonia Pastoral. Quase vinte para surgir a Nona! Mais de uma década para ficar terminada a Missa Solemnis! Vinham-se-lhe, aos poucos, melodia, compasso e cadência, estrutura e conteúdo, orquestração e vozes e, quando surgiam, lapidadas e puras, pela orquestra ou pelo piano, pelo conjunto de câmara ou coral a ele soavam como um alívio, como mais uma pedra angular defronte ao templo de sua travessia, a do artista sacrificado pela dor de não perceber exatamente o que criava; e dor humana de não ouvir aplausos e gratidões. E, ainda assim, o resultado de tudo isso nas obras não é grito raivoso, não é lamúria, não é estertor. É cântico. É água. É luz. E assim continuará: canção e luminosidade, enquanto brilhar no mundo algum archote de civilização.

Por fim, o escritor Mário de Andrade acertou. Beethoven poderia ter sido imperador... Mas quem disse que pela música ele não o foi? E, acaso, não continua ele pertencendo à uma estirpe bem mais gloriosa do que a de qualquer Bonaparte?

Com humildade, reverencio Beethoven e a grandiosa obra que nos legou. Continua sendo para mim o verdadeiro Prometheu da Arte. Sim, compadecido da escuridão humana, roubou a luz dos deuses para entregá-la aos homens através da mais profunda música escrita até hoje. 

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Abaixo, o monumento a Beethoven na cidade natal, Bonn. 
O semblante do gênio permanece como foi em vida, 
com o olhar altivo, abstraído em longínquos horizontes.

Ludwig van Beethoven (1770-1827)



Beethoven em retrato de 1823, do pintor Waldmüller. Completamente surdo, o músico criava a 'Nona Sinfonia', cujo final, sobre poema 'Ode à Alegria' de Schiller, tornou-se o Hino de toda a Europa.

E, ao lado, o retrato de Toni Brentano, a verdadeira Amada Imortal, a única mulher que amou Beethoven e para quem ele escreveu a famosa Carta. Após um século e meio do episódio, por fim o mistério foi desvendado pelo admirável musicólogo americano Maynard Solomon, cuja árdua investigação, em 1977, resultou em provas tão convincentes que não deixam mais dúvidas sobre a identidade de Brentano, tanto tempo oculta.



sexta-feira, 13 de setembro de 2013

Nenhum Homem é uma Ilha



"Nenhum homem é uma ilha isolada", diz o belíssimo poema de John Donne.

Ninguém basta-se a si mesmo.

Poderíamos pensar dessa forma: é possível que haja uma teia singular que une todos os homens, ainda que indivíduos completamente diferentes? Há uma sincronia que nos entrelaça na mesma ideologia e na mesma jornada? A morte de um único homem diminuiria o tamanho do continente e seu isolamento tornaria menor a humanidade? Talvez sim, talvez não.

Ao homem também precisa existir o direito de se isolar, se assim for a sua vontade, com o objetivo de refletir, de se corrigir e de se ampliar interiormente. Aquele que encontrar a si mesmo estará apaziguado. Esse ato também é uma contribuição ao mundo.

Os grandes mestres, em determinada etapa da vida, isolaram-se: Buda sob a figueira, Jesus nos desertos. Isolaram-se para que o encontro fosse possível; para que, através da individualidade compreendida, a pluralidade fosse alcançada. A partir dessa compreensão tornaram-se prontos para acrescentar algo ao povo de onde vieram.  

O Ocidente vê a doação ao próximo como a mais bela forma de subjugar o ego através do amor altruísta. Já no Oriente, na Índia principalmente, compreende-se que 'santo' é aquele que consegue refrear os próprios desejos. Isolado, imerso nas matas mais insalubres, praticando a abstinência, evitando todas as sedes e as fomes que o desviem da rota da purificação, o indivíduo sai vitorioso na guerra contra a própria ignorância. Um homem assim é considerado quase 'deus', porque ao se iluminar, acrescenta um ponto de luz no Universo. 

Portanto em cada povo há um conceito de iluminação. Alguns compreendem que o homem não é e não deve ser uma ilha, que precisa de se unir ao continente; outros crêem que sim, que é necessário que se isole, que proceda assim para se compreender melhor.

Em verdade, não será o homem uma ilha? Todos homens, ilhas esparsas no oceano? Algumas, estreitas; outras, muito largas, tão vastas que podemos chamar de continentes? Mas não importa o tamanho das ilhas. O importante é que todas ilhas possuam pontes, que se comuniquem entre si, que se permitam a permuta de riquezas e o aprendizado mútuo. 

Concluo que nenhum de nós possui visão de águia. Cada um pensa e vê uma parte do mundo. Somando nossos olhos é possível enxergar um imenso panorama. A amizade, a solidariedade e o altruísmo são pontes que nos aproximam. Mas é necessário que a individualidade seja reverenciada, que o ensimesmamento seja livre, que seja respeitada a vontade de ir, de vir, de se retirar no momento desejado. Só assim, creio eu, cada homem em sua ilha interior será uno e ao mesmo tempo universal.   


Fotografia: Solitude, de Roberto Cambusano