quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Fernando Pessoa: Prece


Senhor, que és o céu e a terra, que és a vida e a morte! O sol és tu e a lua és tu e o vento és tu! Tu és os nossos corpos e as nossas almas e o nosso amor és tu também. Onde nada está tu habitas e onde tudo está - (o teu templo) - eis o teu corpo.

Dá-me alma para te servir e alma para te amar. Dá-me vista para te ver sempre no céu e na terra, ouvidos para te ouvir no vento e no mar, e mãos para trabalhar em teu nome.

Torna-me puro como a água e alto como o céu. Que não haja lama nas estradas dos meus pensamentos nem folhas mortas nas lagoas dos meus propósitos. Faze com que eu saiba amar os outros como irmãos e servir-te como a um pai.

[...]

Minha vida seja digna da tua presença. Meu corpo seja digno da terra, tua cama. Minha alma possa aparecer diante de ti como um filho que volta ao lar.

Torna-me grande como o Sol, para que eu te possa adorar em mim; e torna-me puro como a lua, para que eu te possa rezar em mim; e torna-me claro como o dia para que eu te possa ver sempre em mim e rezar-te e adorar-te.

Senhor, protege-me e ampara-me. Dá-me que eu me sinta teu. Senhor, livra-me de mim.


(Em Obras em Prosa: O Eu Profundo, Ed. Nova Aguilar)

Fernando Pessoa (1888-1935)

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Este curto texto do grande poeta português Fernando Pessoa encontra-se espalhado pela Net. Repeti-lo aqui não seria necessário, mas o faço por admiração e tributo. A Prece é muito apreciada por leigos e especialistas, com razão, pois o conteúdo sincero e vasto que há nela vai muito além de credos pessoais ou de confrarias. Penso mesmo que deveria ser reconhecida como um elo entre as religiões para promover o verdadeiro Ecumenismo.

Teóricos da literatura, psicólogos, parapsicólogos, místicos e esotéricos, todos tentam explicar o fenômeno dos heteronômios em Fernando Pessoa. No entanto, esquecem que o próprio poeta escreveu longamente sobre o assunto, atribuindo vida própria aos inúmeros autores que co-escreveram a sua obra; segundo ele, não eram personagens mas sim entidades, tanto que discordava veemente de alguns, muito mais de Alberto Caieiro, como podemos notar nesse trecho de carta:

“(...) escrevi com sobressalto e repugnância o poema oitavo do ‘Guardador de Rebanhos’, com a sua blasfêmia infantil e o seu antiespiritualismo absoluto. Na minha pessoa própria, e aparentemente real, com que vivo social e objetivamente, nem uso da blasfêmia, nem sou antiespiritualista. Alberto Caieiro, porém, como eu o concebi, é assim: assim tem pois ele que escrever, quer eu queira, quer não, quer eu pense como ele ou não. (...)”Não é ilógico crer que os diversos autores que participaram da obra de Fernando Pessoa eram "pessoas" distintas. Apesar da discordância dos céticos, este é um caso nítido de mediunidade, da qual o poeta tinha consciência e, apoiado em sua erudição, explicava.

Pessoa era um esotérico, um iniciado que conhecia com profundidade as chaves secretas de várias fraternidades. Tinha na previsão da Astrologia, entre outras, uma espécie de condutora para os seus passos, associada à lucidez da lógica filosófica. Basta dizer que despertou o interesse de Aleister Crowley, o maior bruxo do século XX. Vários encontros ocorreram entre os dois.

Mas não tenho dúvida, diante da comparação dos estilos, que a Prece acima transcrita pertença a Fernando Pessoa, ele mesmo.

2 comentários:

Suzane Lima disse...

Muito bom esse poema...
Fernando Pessoa é mesmo o contrário de ALberto Caeiro. Tanto que esse poema me lembrou outro que é exatamente o contrário deste, "Há metafísica bastante em não se pensar em nada..." http://www.jornaldepoesia.jor.br/fp210.html

Eu, leiga, juntando-me aos psicólogos, esotéricos, teóricos etc... que tentam "explicar" os heteronômios de Fernando Pessoa, já que como eles não posso escrever nada parecido, tenho uma opinião bem simples a respeito: há muitas coisas que os outros dizem e acreditam e não concordamos, mas entendemos exatamente o que querem dizer e até concordamos com essas coisas em alguns momentos... Fernando Pessoa, ao invés de se igualar aos comuns e criticar o que não concorda, soube, da maneira mais convincente e bela possível, exprimir a opinião da não-espiritualidade e da não-metafísica.
Não é que não entendamos, mas há pensamentos que não se encaixam em algum lugar da alma, ou da cabeça, como quiser. Enfim...
Acompanhando seu blog sempre Ailton!
Beijo!
Suzane

Carmen Salgado disse...

Gosto da clareza de suas palavras, Uma amuga portuguesa, professora e estudiosa de Literatura , no seu livrinho destinado a motivar o conhecimento de Pessoa. diz que ele teve alem dos três mais conhecidos além de Bernardo Soares mais um bom número de heterônimos. Interessante, sem dúvida. o que vale são seus poemas e sua prosa magnífica. o que haverá ainda a descobrir?. Um abraço. Carmen