segunda-feira, 9 de março de 2009

Gustave Flaubert: A Lenda de S. Julião Hospitaleiro



Continuando o ciclo de lendas reescritas por grandes escritores, seleciono aqui esta, que de maneira alguma pode ser classificada como divertida; é de conteúdo trágico, diríamos, e possui mesmo similaridade com a história do Rei Édipo. Pela atmosfera genialmente construída, pela beleza da sintaxe e um dos desfechos mais belos sobre redenção, este é um dos contos mais impressionantes que já tive oportunidade de ler. A narrativa é de tamanho médio, quase uma novela, um pouco longa para uma postagem em blog, mas chegando ao final da leitura não creio que alguém possa arrepender do tempo dedicado a cada um dos parágrafos. Perfeição é a característica dessa obra. Não poderia ser de outra maneira. Trata-se de Gustave Flaubert, um dos mais perfeitos escritores de que se tem notícia na história da literatura. É o autor que deu à prosa a dignidade da poesia no sentido de lapidação e condensamento, ou seja, a arte de dizer muito com poucas palavras. Cada parágrafo é como um soneto de perfeição estilística. Esse ficcionista francês, obstinado com forma e conteúdo, passava semanas e semanas burilando uma única página até tornar cada frase um diamante. Não estranhamos o fato de ter deixado poucas obras, entre elas 5 romances: ‘Madame Bovary’, que é a obra de estréia e continua sendo a mais famosa, seguida de ‘Educação Sentimental’, ambos se inscrevem como os primeiros romances verdadeiramente realistas da literatura; os outros dois são “Salammbô”, romance arqueológico que reconstitui a Cartago na época das guerras púnicas, e o experimental ‘As Tentações de São Antão’, que assusta até hoje pela modernidade; o quinto, ‘Bouvard e Pecuchet’ ficou inacabado. Além desses romances escreveu 3 contos, apenas 3 extraordinários contos: o realista e comovente ‘Um Coração Simples’, o histórico ‘Herodíade’, e esta “Lenda de São Julião Hospitaleiro”, que é maravilha das maravilhas, embora seja a obra que o autor demorou menos tempo para escrever, cerca de 2 meses. Imaginem o êxtase que deve sentir um leitor apaixonado por linguística, e que lê o francês com fluência, quando degusta cada palavra desse mestre, que não é somente um escritor para escritores, como costumam chamá-lo. A sua Obra é patrimônio da Humanidade: é de todo mundo, todos podem e devem se enriquecer com ela. Uma boa tradução nos dá idéia da lapidação flaubertiana, como a que segue, belo trabalho de Luís Lima para a Editora Três:

A Lenda de São Julião Hospitaleiro

1

O pai e a mãe de Julião moravam num castelo no meio de um bosque, na encosta de uma colina. As quatro torres dos ângulos, tinham os tetos pontiagudos, revestidas de chapas de chumbo, e a base das muralhas apoiavam-se sobre blocos de rocha, que desciam abruptamente até ao fundo dos fossos. As calçadas do pátio estavam limpas como o lajeamento de uma igreja. As goteiras figuravam dragões de boca aberta, jorrando água das chuvas para as cisternas; em todos os peitoris das janelas encontrava-se um vaso de plantas, quer fossem basiliscos ou heliotropos (1).

Uma segunda cerca feita de estacaria, rodeava um pomar de árvores de fruto, seguido de um parque onde nos canteiros as flores desenhavam monogramas; depois um fresco túnel de ramaria e um terreiro de jogo da malha que servia de divertimento aos pagens. Do outro lado encontravam-se o canil, as cavalariças, a padaria, o lagar e os celeiros. Uma pastagem de relva verde rodeava-os, enquadrando-os numa espessa sebe de espinhos. Vivia-se em paz, de modo que nem era preciso fechar a grade de segurança; os fossos estavam cheios de água, as andorinhas faziam o seu ninho nas frestas das ameias, e o archeiro que todo o dia passeava ao longo das muralhas, quando o calor apertava, recolhia-se à sua torrinha e adormecia placidamente. No interior, as ferragens reluziam, as tapeçarias protegiam os quartos do frio, os armários regurgitavam de roupa branca, os tonéis cheios de vinho empilhavam-se nos celeiros, as arcas de carvalho vergavam sob o peso dos sacos de dinheiro. Viam-se na sala de armas entre estandartes e cabeças de animais selvagens, armas de todos os tempos e nações, fundas dos Amalecitas, dardos dos Garamantes (2), alfanges sarracenos e cotas de malha dos Normandos. O maior espeto da cozinha podia voltejar um boi.

A capela era suntuosa como um oratório de um rei. Havia mesmo num compartimento afastado, uma sala de banhos quentes, como as usadas pelos romanos mas o bom senhor não a utilizava, julgando ser um hábito de idólatras.

Sempre envergando uma pelica de pele de raposa, passeava pela casa, fazia a justiça dos seus vassalos, acalmava as questões entre os vizinhos. Durante o inverno olhava os flocos da neve que caía, ou gostava de ouvir ler histórias. Logo que vinham os primeiros dias bons, montava na mula, indo ao longo dos caminhos sobranceiros aos trigais que reverdesciam, falando com campónios, dando conselhos.

Após muitas aventuras arranjara para esposa uma menina de alta linhagem. Era muito branca, um pouco altiva e sisuda. Os seus cônicos chapéus roçavam nas bandeiras das portas; a cauda do seu vestido arrastava-se três passos atrás de si. A vida da sua casa era regulada como num mosteiro; cada manhã distribuía o trabalho às suas criadas, vigiava as compotas e os unguentos, fiava à roca ou bordava toalhas de altar. E à força de rogar a Deus, acabou por ter um filho. Houve grande alegria, e para a comemorar, um festim que durou três dias e quatro noites, com iluminação de archotes, e música de harpa sob um docel de romarias.

Comeram-se as mais raras iguarias, galinhas tão gordas como carneiros; e entre os divertimentos surgiu um anão de dentro de um bolo; as escudelas não paravam, e como a alegria aumentava sempre, até se bebeu por trompas de marfim e elmos.
A jovem mãe não assistiu a estas festas. Ficara no leito tranquilamente. Uma noite, acordou assustada, e viu envolvida por um raio de luar que entrava pela janela, uma sombra que se movia. Era um ancião vestido com um borel, apertando a cintura com um rosário, de alforge ao ombro enfim toda a aparência de um ermita.

Aproximou-se da sua cabeceira e murmurou-lhe sem descerrar os lábios: ”Alegra-te ó mãe, o teu filho será um santo!”

Ia para acreditar, mas escorregando sobre o raio de luar, ele ergueu-se docemente no ar e depois desapareceu. Os ecos do banquete soaram mais forte. Ela escutava a voz dos anjos, e a sua cabeça recaiu no travesseiro sob o qual se escondia um osso de mártir dentro do seu escrínio de rubis.

No dia seguinte todos os criados interrogados declararam que nenhum havia visto o ermita. Sonho ou realidade, aquilo seria certamente uma comunicação do céu; mas nada revelou, pois não queria que a acusassem de orgulhosa.

Os convivas partiram pelos alvores da madrugada, e, o pai de Julião encontrava-se de parte de fora da poterna (3) onde tinha vindo acompanhar os convidados, quando subitamente um mendigo se apresentou na sua frente, surgindo do nevoeiro. Era um Boémio, de barba encaracolada, pulseiras nos braços e olhos vivos. De repente, como que inspirado, pronunciou estas palavras: - Ah, o teu filho! Muito vivo e muitas glórias! Muito feliz! A família de um imperador!

Logo que se dobrou para apanhar a esmola, perdeu-se nos campos, desaparecendo. O castelão olhou em redor, chamando-o. Nada. O vento sibilava, a bruma da manhã envolvia-o. Atribuiu esta visão à fadiga do seu cérebro, por ter dormido pouco. Se eu falar rir-se-ão de mim - pensou.

Todavia os esplendores destinados ao seu filho, maravilharam-no, se bem que a promessa não fosse clara e duvidasse mesmo de a ter ouvido.

Os esposos calaram-se com o seu segredo. Os dois dedicavam ao menino igual amor, e acreditando que ele estava marcado por Deus rodeavam-no de cuidados infinitos. Por de cima do seu berço que era forrado de penas e do mais fino tecido, uma lamparina em forma de pomba bruxuleava continuadamente.

Três amas o embalavam, e bem apertado nos cueiros, a face rosada, os olhos azuis, com o seu fatinho de seda bordado a oiro e a prata, e a touca debruada a pérolas, assemelhava-se a um Menino Jesus. Os dentes nasceram-lhe sem que tivesse chorado uma só vez.

Quando tinha sete anos, a mãe ensinou-lhe a cantar. Para lhe dar coragem o pai montou-o num fogoso cavalo. O menino sorriu de contentamento e não tardou em saber tudo o que dizia respeito a um mestre de cavalaria. Um velho monge, muito sabedor, ensinou-lhe a santa escritura, a numeração dos árabes, o latim, e a fazer no pergaminho pequenas pinturas.

Trabalhavam juntamente no alto de um torreão afim de fugirem ao barulho.

Terminada a lição, invariavelmente desciam ao jardim onde passeavam vagarosamente estudando as flores. Algumas vezes avistavam caminhando na distância do vale uma fila de animais de carga, conduzidos por um peão vestido à oriental. O castelão que o havia reconhecido como um comerciante mandava ao seu encontro um escudeiro.

O estrangeiro, ganhando confiança, desviava-se do seu caminho, e introduzido na portaria, retirava dos seus cofres as peças de veludo e de seda, jóias e perfumes, coisas singulares de um uso desconhecido; por fim o bom homem ia-se embora depois de boa venda, sem ter sofrido qualquer espécie de violência. Doutras vezes, era um grupo de peregrinos que batia à porta. Os seus fatos encharcados secavam diante da lareira, e, quando estavam refeitos, contavam das suas viagens, do balanço dos barcos sobre as ondas do mar, das caminhadas nas areias escaldantes, da ferocidade dos pagãos, das cavernas da Síria, do Palheiro e do Santo Sepulcro. Depois, ofereciam ao jovem senhor conchas (4) tiradas das suas capas. De outras vezes o castelão recebia velhos companheiros de armas.

Enquanto bebiam, falavam das suas guerras, assaltos a fortalezas com o auxílio de máquinas e de ferimentos extraordinários. Julião, que os escutava, soltava gritos, e o pai não duvidava que ele viria a ser, sem dúvida alguma, um conquistador. Mas uma tarde ao sair do Angelus, quando passava por entre mendigos inclinados, abrindo a bolsa, com muita modéstia e um ar nobre, a mãe ficou absolutamente segura que a sua futura carreira seria a eclesiástica. O seu lugar na capela era ao lado dos pais, e por muito longos que fossem os ofícios, permanecia de joelhos no seu lugar, o gorro por terra e as mãos juntas.

Um dia durante a missa, avistou, erguendo a cabeça, um ratito saindo de um buraco da parede. Saltitava no primeiro degrau do altar, e após duas ou três voltas, regressou ao ponto de partida. No domingo seguinte o pensamento de o tornar a ver preocupou-o. Voltou, e cada domingo verificava como ele era importuno, tomou-se de rancor e resolveu matá-lo. Fechou a porta e semeou os degraus com migalhas de um bolo, colocando-se diante do buraco com uma vara na mão. Ao fim de algum tempo um focinhito rosáceo surgiu, depois o corpo. Desfechou um golpe rápido e ficou estupefacto perante o pequeno corpo que deixara de mexer. Uma gota de sangue manchava a laje. Limpou-a rapidamente com a manga, atirou fora o rato e não disse nada a ninguém.

Todas as espécies de passarinhos vinham debicar nas sementes do jardim. Pensou em meter grãos no côncavo de uma cana. Quando ouvia um chilreio numa árvore aproximava-se silenciosamente, erguia a cana e assoprava; e as avezinhas assustadas choviam em seu redor, de tal modo, que ele não podia deixar de rir da sua malícia.

Uma manhã ao afastar a cortina, viu pousado no parapeito da janela, um belo pombo que se espanejava ao sol. Julião agachou-se para o observar; a parede neste lugar tinha uma brecha, enfiou os dedos, apanhou uma pedra, rodou o braço e abateu a ave que caiu no fosso. Precipitou-se em direcção a este, arranhando-se nas silvas, farejando mais lesto que um cachorro. O pombo de asas quebradas, palpitava, suspenso aos ramos de um arbusto.

A resistência da sua vida irritou a criança. Pôs-se a estrangulá-lo e as convulsões do animalzinho faziam palpitar o seu coração envolvendo-o numa volúpia selvagem e tumultuosa. Ao último esticão sentiu-se desfalecer.

À noite, enquanto ceavam, o pai declarou que com a idade de Julião já aprendera a arte de caçar; e foi buscar um velho caderno de apontamentos, contendo perguntas e respostas sobre todas as espécies de caça. Mais tarde um mestre demonstrou ao menino a arte de adestrar cães, de ensinar falcões, de colocar ratoeiras e de reconhecer o veado pelos seus excrementos, a raposa pelas suas pistas, o lobo pelas pegadas, a melhor maneira de discernir os seus trilhos, o modo de o abater e de localizar os seus refúgios; quais eram os ventos mais propícios, enumerando os gritos, e as regras de como devem ser distribuídas aos cães as entranhas dos animais abatidos.

Quando Julião recitou para o pai todas estas normas, este apressou-se em lhe arranjar uma matilha. Nela se distinguiam vinte e quatro galgos africanos, mais rápidos do que gazelas, difíceis de conduzir; dezassete casais de cães da Bretanha, vermelhos, malhados de branco, infalíveis na caça, largos de peito e muito uivadores. Para o ataque ao javali e pistas perigosas, possuía «griffons» (5) peludos como ursos. Os mastins da Tartaria mais altos do que burros, de espinha larga e jarrete direito, eram os destinados à caça grossa. As capas negras dos fraldiqueiros luziam como cetim; os latidos dos «talbots» tapavam todos os outros. Num pátio à parte, rosnavam puxando as trelas e dardejando olhares, oito cães Álamos (6), animais formidáveis e tão ferozes que não tinham medo dos leões. Todos comiam pão de trigo e bebiam em bebedouros de pedra. Tinham nomes sonoros.

A falconaria talvez fosse superior à matilha; o bom senhor, à força de dinheiro, comprara Terçôs do Cáucaso, Sacres da Babilónia, gerifalcos da Alemanha, «falções-peregrinos» capturados nas falésias das praias dos mares frios, em distantes países.

Viviam em barracões cobertos de colmo, e, presos por ordem de alturas aos poleiros, tinham na sua frente um canteiro de relva, onde de quando em quando poisavam a fim de desentorpecer. As bolsas (7), os anzóis, as ratoeiras (8), enfim todos os apetrechos foram feitos.

Frequentemente saíam a campo os «cães passarinheiros» que caíam bem depressa sobre as presas. Então os palafroneiros avançavam passo a passo, estendendo com cuidado sobre os seus corpos impassíveis uma larga rede. Um batedor obrigava-os a ladrar; as codornizes esvoaçavam, e as senhoras dos arredores convidadas com seus maridos, as crianças, as camareiras, toda a gente, procurava apanhá-las o que conseguia facilmente. Outras vezes para fazer sair as lebres, batiam tambores; as raposas desembocavam dos fossos como balas, iludindo algum lobo que lhes aparecesse pela frente.

Mas Julião não prestava atenção a estes cómodos divertimentos; gostava mais de caçar longe das gentes, com o seu cavalo e o falcão.

Acompanhava-o quase sempre um grande Tártaro (9) de Scythie, branco como a neve. No seu carapuço de coiro flutuava um penacho, os guizos de oiro ressoavam nas patas azuis; e ele mantinha-se firme no braço do dono enquanto o cavalo galopava e os campos se desdobravam na sua frente. Julião, desapertava a correia soltando-o em seguida, e o falcão cortava atrevidamente o espaço como uma flecha. Depois podiam-se ver duas silhuetas diferentes confundindo-se e desaparecendo nas alturas azuis. O falcão não tardava a descer segurando no bico qualquer pássaro e voltava a pousar no guante, com as asas ainda frementes.

Julião caçava deste modo a garça real, o milhafre, a gralha, e o abutre. Gostava de soprar a trompa, seguir os seus cães, que corriam nas vertentes da colina, saltando ribeiros, subindo em direcção ao bosque, e quando o veado mordido começava a gemer, abatia-o de súbito, abandonando-o à fúria dos cães que o devoravam abocando a carne ainda quente. Nos dias de nevoeiro enfronhava-se nos pântanos para esperas aos gansos, lontras e patos bravos.

Naquele dia três escudeiros desde a aurora, que se encontravam no fim da escadaria e o velho monge debruçando-se na sua mansarda fazia grandes sinais chamando-o, mas Julião não regressava. Era sempre assim. Quer fosse com as ardências do sol, com a chuva, com a tempestade, bebendo com as mãos em concha a água dos ribeiros, comendo frutos selvagens enquanto galopava, e se estava fatigado repousando à sombra de um carvalho só voltava pelo escurecer, coberto de sangue e de lodo, com espinhos no cabelo e cheirando a animais ferozes. Imaginava-se como eles. Quando a mãe o acarinhava, aceitava friamente as suas carícias como se estivesse sonhando, ausente.

Matava ursos a golpes de faca, touros com o machado, javalis com o venábulo (10), e mesmo uma vez, nada mais tendo do que um bordão, defendeu-se contra os lobos que estavam devorando cadáveres ao pé de um cadafalso.

Uma manhã de inverno partiu antes de nascer o sol, bem equipado, uma balista (11) ao ombro e um punhado de flechas no arção da sela. O seu ginete dinamarquês seguido de dois podengos, estremecia o terreno. Gotas de geada perolavam a sua capa, uma brisa violenta soprava.

Parte do horizonte clareou, na brancura do crepúsculo, avistou coelhos saltitando perto das suas tocas. Os dois podengos lépidos, atiraram-se a eles, aqui e ali despedaçando-lhes com violência os lombos. Seguidamente entrou num bosque. Num ramo, um galo do campo encolhido pelo frio, dormia com a cabeça sob a asa. Julião com um golpe de espada decepou-lhe as patas, e sem se demorar continuou o seu caminho.

Três horas mais tarde encontrou-se na encosta de uma montanha muito alta, que escurecia o céu. Diante dele erguia-se um rochedo como se fosse uma barreira, e cujo declive levava a um precipício; dois bodes selvagens espiavam o abismo. Não tendo flechas, e o seu cavalo ficara distante, pensou descer até eles. Caminhou descalço e agachado, conseguindo chegar perto do primeiro, o qual abateu com um golpe de punhal. O segundo espavorido saltou no vácuo. Julião atirou-se para o agarrar, mas tropeçou no animal abatido. Em frente do seu rosto, o abismo.

Descendo para a planície seguiu os salgueiros que marginavam uma ribeira. Grous voavam muito baixo, de quando em quando quase rasando a sua cabeça. Julião fustigou-os com o chicote, não escapando nenhum. Entretanto o ar mais tépido, tinha feito fundir a geada e grandes manchas de vapores flutuavam quando o sol descobriu.

Viu brilhar ao longe um lago gelado, como se fosse uma mancha plúmbea. No meio do lago, seus olhos abarcaram um animal que não conhecia, um castor, de pêlo negro. Não obstante a distância, acertou-se com uma flecha, ao mesmo tempo que lastimou não lhe tirar a pele.

Seguidamente avançou numa álea de grande arvoredo, cujas copas formavam um grande túnel como se fosse um arco de triunfo. Um cabrito montês desembocava perto de um tufo; um gano surgiu numa encruzilhada; um texugo saiu de um buraco, e um pavão passeando pela relva, ia agitando a cauda, e quando os matou surgiram outros ganos, texugos, pavões, melros, gaios, doninhas, raposas, ouriços, linces, uma infinidade de animais, cada vez mais numerosos. Voltejavam em seu redor veados nervosos com um olhar pleno de doçura e de súplica. Mas Julião ia-os matando, disparando a sua balista rapidamente, ferindo com a espada e com o cutelo, em nada pensando.

Era para ele uma caçada num país qualquer, numa época indeterminada, enquadrando-se no seu ambiente, e, em que tudo acontecia com a facilidade que só os sonhos conhecem. Um espectáculo extraordinário suspendeu-o. Os veados anichados num pequeno vale, haviam formado um círculo, e, apertados uns contra os outros aqueciam-se com o próprio hálito, parecendo estarem mergulhados em denso nevoeiro. O pensamento de uma carnificina encheu-o de emoção durante algum tempo.
Descendo da montada retesou a corda do arco e principiou atirando as primeiras flechas; todos os veados voltaram as cabeças. Encolheram-se, gritos de terror ergueram-se, e agitaram-se freneticamente. A barreira do vale era alta demais para que saltassem. Pulavam para ela, procurando fugir. Julião visava-os, atirava, e as flechas voavam às saraivadas. Os veados embravecidos pela luta, erguiam-se, encavalitavam-se uns nos outros; e os seus corpos com as armações entrelaçadas, formavam uma barreira que se desmoronava, movimentando-se. Por fim, morreram estendidos sobre o terreno, espumando, rebentados, e o vibrar dos ventres foi-se extinguindo. Depois tudo se aquietou. A noite entretanto chegara e para além do bosque, o céu avermelhara-se como uma toalha de sangue.

Julião encostara-se a uma árvore. Contemplava espantado a devastação causada pelo massacre, não compreendendo como tinha tido coragem de o realizar. Do outro lado do valado, à entrada da floresta avistou um veado, uma corça e a sua cria. O veado era negro e monstruoso de volume, tendo seis armações e plumagem farta.

A corça acastanhada como as folhas mortas, pastava na relva, a cria mosqueada, sem interromper o seu caminho ia-lhe chupando as tetas. A balista mais uma vez vibrou. Logo de seguida a cria foi abatida. Então, a mãe olhando para o céu, brama com uma voz profunda, delirante, humana. Julião exasperado, com um golpe em pleno peitoral, atira-a por terra. O grande veado que havia visto, deu um salto.

Julião atirou-lhe a última flecha. Atinge-o em plena testa e o animal ficou especado. O veado parecia não ter sentido; avançando por de cima dos mortos, caminhava sempre, caindo a fundo sobre ele, bufando e Julião recuava apavoradamente indeciso. O prodigioso animal deteve-se, os olhos chamejantes, e solene como um patriarca, como um justiceiro, ao mesmo tempo que um campanário ao longe soava, repetiu três vezes: ”Malvado, maldito, maldito. Um dia coração feroz, assassinarás teu pai e tua mãe.”

Dobrou os joelhos, e fechando docemente os olhos, morreu.
Julião ficou estupefacto, cheio duma fadiga súbita: e um desgosto, uma tristeza imensa invadiu-o. Com a cabeça entre as mãos chorou longo tempo. Perdera o cavalo. Os cães tinham-no abandonado; a solidão que o envolvia parecia-lhe ameaçada de mil perigos indefinidos. Então apavorado, principiou correndo através do campo, tomando ao acaso um atalho e encontrou-se quase imediatamente à porta do castelo.

Não dormiu naquela noite. Sob o bruxulear da lamparina suspensa, revê sempre o grande veado negro, o seu vaticínio obceca-o, torturando-o.

”Não, não, não os posso matar!”
E pensava: se isso acontecesse? Temia que o diabo houvesse inspirado o incidente.

Durante três meses, a mãe angustiada encontrou-se à sua cabeceira, e o pai lastimando-se passeava agitado pelos corredores. Mandou vir físicos dos mais famosos, os quais medicaram várias drogas. O mal de Julião, diziam, era causado por alguma praga funesta, ou maleita de amor. Mas o menino a todas as perguntas abanava a cabeça. As forças regressavam, e ele passeava no terreiro, o velho monge e o bom castelão amparando-o.

Quando ficou completamente restabelecido, recusou-se a caçar. O pai desejando distraí-lo, ofereceu-lhe uma grande espada sarracena, que estava no alto de uma coluna numa panóplia. Para a ir buscar foi necessário o auxílio de uma escada. A espada muito pesada escapou-se dos dedos enfraquecidos de Julião e caindo roçou o castelão, tão de perto que lhe rasgou o capote; Julião acreditando ter morto o pai, desmaiou. Desde então, repudiou as armas. Bastava avistar uma lâmina para logo empalidecer. Esta fraqueza era uma desolação para a sua família.

Por fim o velho monge, em nome de Deus e da honra dos antepassados, ordenou-lhe que retomasse os exercícios, apanágio dos gentis-homens. Os escudeiros, todos os dias, divertiam-se manejando a zagaia. Julião excede-os muito depressa. Enfiava a sua zagaia no gargalo das garrafas, acertava nos cata-ventos, e a cem passos, nas fechaduras das portas.

Uma tarde de verão, à hora em que a bruma torna as coisas indistintas, estando sob as ramarias do pomar avistou ao longe duas asas brancas que alvejavam à altura das árvores de fruto. Sem ter dúvidas de que se tratava de uma cegonha, disparou a sua zagaia. Um grito doloroso ecoou. Era sua mãe cujas abas da touca assomavam sobre o muro. Julião entrou no castelo para não mais tornar a ser visto.

2

Engajou-se num rancho de mercenários que passavam. Conheceu fome, a sede, as febres, e os parasitas. Acostumou-se às doenças e ao aspecto dos moribundos.

O vento bronzeou-lhe a pele. Os membros haviam endurecido com o contacto das armaduras, e como era muito forte, destemido, sóbrio e ajuizado obteve sem trabalho o comando de um exército. No início das batalhas, saudava os seus soldados agitando a espada. Com uma escada de nós, escalava os muros das cidadelas, à noite envolvido pelo vendaval, enquanto as faúlhas do «fogo grego» (12) se colavam à sua couraça, e a resina fervente e o chumbo fundido jorravam das ameias. Uma pedra amachucou o seu escudo. Dos pontos mais guarnecidos homens correram sobre ele. Empunhando a clava, libertou-se de catorze cavaleiros. Deixou em campo aberto todos aqueles que vieram ao seu encontro.

Depois de vinte vezes, julgou-se perdido. Graças ao favor divino escapava-se sempre, porque protegia as gentes da igreja, os órfãos e as viúvas e principalmente os velhos. Quando encontrava um caminhante na sua frente, desejava conhecê-lo, não o fosse matar por engano. Os escravos em fuga, os camponeses revoltados, os bastardos sem fortuna, toda a espécie de audaciosos agregavam sob a sua bandeira e constituíam numerosa falange. Tornara-se famoso. Procuravam-no. Aqui e ali estava presente, quer socorrendo o Delfim de França, o Rei de Inglaterra, os templários de Jerusalém, o Negus da Abissínia e o Imperador de Calicut.

Combatera os Escandinavos cobertos de escamas de peixe, os negros munidos de escudos circulares feitos de pele de hipopótamo e cavalgando burros arruivados, indianos bronzeados e bradindo por de cima dos turbantes, grandes sabres, mais brilhantes do que espelhos. Vencera os trogloditas (13) e Os antropófagos. Atravessara regiões tão tórridas que sobre os ardores do sol os cabelos se incendiavam como se fossem archotes, e outras que de tão glaciais faziam que os braços se desprendessem do corpo, caindo por terra; e também países em que haviam tantos nevoeiros, que marchavam como que rodeados de fantasmas.

As repúblicas em perigo consultavam-no. Por intermédio dos embaixadores obtinha condições inesperadas. Se um monarca se conduzia mal, ele chegava de súbito e admoestava-o. Libertava os povos, e as rainhas encerradas nas torres.

Fora ele e não outro que matara a serpente de Milão e o dragão de Oberbirbach. Ora o imperador de Ocitania (14) tendo triunfado dos muçulmanos espanhóis, juntara-se com uma irmã do califa de Córdova embora conservando consigo uma filha que educara no cristianismo. Mas o califa protestando desejar converter-se, fez-lhe uma visita, acompanhado de uma escolta numerosa, acabando por massacrar toda a guarnição, atirando-o para uma masmorra, onde foi torturado duramente afim de lhe arrancarem o segredo dos seus tesouros. Julião correu em seu auxílio, e tendo destruído o exército dos infiéis, assediou a cidade, matou o califa, cortou-lhe a cabeça que atirou como uma bola por de cima das muralhas.
Finalmente libertou o imperador da prisão, reconduziu-o ao trono na presença de toda a corte. O imperador por um tal serviço, ofertou-lhe vários açafates repletos de dinheiro; Julião agradeceu mas não aceitou. Julgando que ele se tinha ofendido, ofereceu-lhe a terça parte da sua riqueza, nova recusa; depois a partilha do reino. Julião agradeceu mas tornou a recusar, e o imperador chorando de despeito, e, não encontrando maneira de testemunhar a sua gratidão, baixou a cabeça, dizendo algumas palavras ao ouvido de um cortesão; levantou-se um cortinado, e uma jovem menina apareceu. Seus grandes olhos negros brilhavam como duas estreIas muito doces. Um sorriso encantador desenhava-se-lhe nos lábios. Os anéis da sua cabeleira caíam sobre o vestido entreaberto e recamado de pedrarias. Era bonita, muito bem feita, distinta. Julião ficou cheio de amor.

Recebeu em casamento a filha do imperador, que tinha como dote um castelo herdado de sua mãe. Quando as núpcias terminaram, isolaram-se esquecendo políticas e intrigas. Era um palácio de mármore branco construído à maneira dos mouros, sobre um promontório, num laranjal. Os canteiros de flores desciam até à beira do golfo, onde conchas róseas estalavam sob os passos. Por detrás do castelo estendia-se uma floresta que se abria como um leque. O céu era continuamente azul, e as árvores inclinavam-se ao impulso da brisa do mar, e do vento que vinha daquelas montanhas que fechavam ao longe o horizonte.

Os quartos, cheios de crepúsculo, eram iluminados pelas incrustações das muralhas. Altas colunatas, delicadas como rosas, suportavam as abóbadas das cúpulas, ornamentadas de relevos imitando as estalactites das grutas. Havia fontes nas salas, mosaicos nos pátios, cercaduras de trepadeiras, mil delicadezas de arquitecturas, e, por toda a parte um tal silêncio que se podia escutar o ranger de uma seda ou o eco de um suspiro.

Julião nunca mais combatera. Repousava rodeado de um povo tranquilo, e cada dia uma multidão passava pela sua frente, com genuflexões e saudações de estilo oriental. Vestido de púrpura, quedava-se encostado ao vão de uma janela, relembrando-se das coisas passadas, e teria desejado correr de novo no deserto juntamente com as gazelas e as avestruzes, ou então ficar escondido entre bambus à espera dos leopardos. Desejava atravessar florestas cheias de rinocerontes, subir às montanhas para melhor ver as águias, ou então sobre os gelos do mar lutar com ursos brancos.

Algumas vezes em sonhos, imaginava-se como nosso pai Adão, no meio do Paraíso, entre animais; e estendendo os braços matava-os, ou ainda eram eles que desfilavam, dois a dois, por ordem de alturas, os elefantes e os leões, seguidos dos arminhos e dos patos, como no dia em que tinham entrado na arca do patriarca Noé. À sombra de uma caverna, alvejava-os com os seus dardos certeiros; vinham mais, um nunca acabar, e acordava com o olhar esgazeado. Os príncipes seus amigos convidavam-no para caçar. Recusava sempre, acreditando que o seu sacrifício afastaria a sua infelicidade, julgando que matando animais, jogava a sorte dos seus pais. Sofria por não os ver, o que para ele se ia tornando doloroso. Sua mulher para o distrair mandou vir malabaristas e dançarinas. De quando em quando passava pelo campo numa liteira aberta ou então debruçados na murada de uma chalupa, olhavam os peixes vagabundeando na água serena e clara como o céu. Muitas vezes ela atirava-lhe flores ao rosto, ou agachada a seus pés arrancava do bandolim árias; pousava-lhe as mãos nos ombros, dizendo numa voz tímida: “Que tendes querido senhor?”

Não lhe respondia, ou rompia a soluçar; enfim, um dia confessou-lhe o seu horrível pensamento.
Ela rebateu, argumentando muito justamente:

"Que seu pai e sua mãe provavelmente estariam mortos, e se jamais os visse por qualquer motivo, em que pessoa faria recair tão dominável pensamento? Tal estado de coisas era despropositado, devia recomeçar a caçar".

Julião sorriu escutando-a, mas não se resolveu a satisfazer o seu desejo.

Uma noite do mês de Agosto estavam no quarto, e Julião acabara de se deitar, enquanto a esposa ajoelhada, orava. Foi nesse momento que ele ouviu o latido de uma raposa, e depois passos leves debaixo da janela, e avistou uma sombra que lhe pareceu ser um animal. A tentação era demasiadamente forte. Procurou a sua aljava.

A esposa ficou surpresa.

"Obedeço-te - disse - ao nascer do sol, estarei de volta".

Todavia, ela receava uma aventura funesta, embora o tivesse entusiasmado. Mas Julião depois de ter saído espantava-se de que tivesse ousado dar aquele passo.

Pouco tempo após, um pagem, anunciou que dois desconhecidos, à falta do Senhor desejavam falar com a Senhorinha. Imediatamente entraram no quarto um homem idoso e uma velha senhora, curvados e empoeirados, cada um arrimado a um bordão. Avançaram declarando que traziam notícias para Julião, novas de seus pais.

A castelã ergueu-se para os receber. Tendo trocado um olhar, perguntaram-lhe se ele não os teria esquecido, e, se algumas vezes os recordava.- Certamente - volveu a jovem. Então os visitantes confessaram-se: "Bem, somos nós".
Sentaram-se emocionados e exaustos. Nada assegurara à jovem senhora que aqueles forasteiros fossem os pais do seu marido. Eles deram-lhe a prova, descrevendo os seus sinais particulares. Saltou de pronto da cama, chamou o seu pagem, e ofereceu-lhes uma refeição. Se bem que trouxessem apetite, pouco comeram. De parte, ela observava o tremor das suas mãos ossudas, segurando os copos.

Fizeram mil perguntas sobre Julião. Respondeu a algumas, ocultando cuidadosamente o pensamento funesto que com eles se relacionava. Não o tornando a ver, haviam partido ao seu castelo, e marcharam vários anos ao sabor das vagas indicações, sem perderem a esperança. Tinha sido necessário tanto dinheiro para viagens e hospedagens, para liquidar os direitos dos príncipes e satisfazer as exigências dos salteadores, que viram o fundo dos seus bornais, e agora mendigavam. Que importava, se iam abraçar o seu filho?

Alegravam-se que tivesse uma esposa tão gentil, e não deixavam de a contemplar e de a beijar. A riqueza da casa encantava-os, e o velho tendo examinado as paredes perguntou porque razão se encontrava ali o brasão do Imperador de Ocitania. A senhora informou: “É o meu pai!”

Perante isto, o velho castelão recordou-se do vaticínio do vagabundo e a mãe das palavras do ermita. Sem dúvida a glória de seu filho era o pronuncio da aurora dos esplendores eternos, e os dois ficaram abismados e pensativos sob a luz do candelabro que iluminava a mesa.

Haviam sido muito belos na mocidade. A mãe conservava ainda, embora que grisalha, a cabeleira apertada em bandós que lhe enquadravam o rosto, e o pai com a sua alta figura assemelhava-se a uma velha e imponente estátua. A esposa de Julião aconselhou que não o esperassem. Deitou-os no seu leito, fechou a janela, e adormeceram.

O dia principiava a nascer. Para além das vidraças pequenos passarinhos rompiam a cantar. Julião depois de ter atravessado o parque, caminhava pela floresta com um passo nervoso, deliciado com a relva macia e a doçura da temperatura. A sombra das árvores alastrava-se sobre o musgo Por vezes a lua fazia auréolas brancas nas clareiras, e ele hesitava avançar, julgando avistar charcos ou a superfície espelhenta de lagos tranquilos. Tudo mergulhado num grande silêncio, e Julião não lograva encontrar nenhum dos animais que pouco antes erravam em redor do seu castelo. O bosque ia-se adensando, a escuridão era profunda. Lufadas de vento quente passavam carregadas de odores embriagantes. Enterrava-se no tapete de folhas caídas, e finalmente encostou-se a um carvalho para descansar um pouco.

Subitamente, por detrás de si, deslizou um vulto muito escuro, um javali. Julião nem teve tempo de sacar do seu arco, e ficou apreensivo vaticinando uma desgraça. Saindo do bosque, vislumbrou por detrás de uma sebe, um lobo. Atirou-lhe uma flecha. A fera parou, ergueu a cabeça, olhou-o, e continuou caminhando. Marchava sempre de modo a manter a mesma distância entre os dois, parando por vezes, e logo que era visado recomeçava a fugir.

Julião atravessou deste modo uma planície imensa, depois pequenas dunas de areia, e por fim encontrou-se num planalto dominando um largo horizonte. Pedras lisas sobressaíam de entre sepulturas em ruínas. Tropeçava em ossadas humanas, a esmo, cruzes partidas, apodreciam desprezívelmente. Vultos movimentavam-se na sombra indecisa dos túmulos, eram hienas que assustadas choravam. Arranhando com as unhas as lajes, aproximaram-se dele, arremessando de tal modo que se viam as gengivas. Desembainhou o sabre. Espavoridas, partiram em todas as direções, num galope tão precipitado, que se perderam longe envoltas numa nuvem de poeira.

Uma hora mais tarde, encontrou numa ravina um touro furioso, de hastes em riste, e raspando na areia. Julião atirou-lhe a lança ao queixado. Soou surdamente como se o animal fosse de bronze. Fechou os olhos esperando a morte. Mas quando os reabriu, o touro desaparecera. Então a sua alma enche-se de vergonha. Um poder superior destruíra a sua força, e para regressar a casa, reentrou na floresta. Enredara-se na vegetação, e cortava-a com o sabre quando uma fuinha deslizou rapidamente por entre as suas pernas, ao mesmo tempo que uma pantera saltando sobre ele quase lhe tocava nos ombros, e uma serpente se enrolava no tronco de uma árvore. Entre a folhagem um grande corvo espiava Julião, e profusamente, por entre os ramos, surgiam luminosidades como estrelas cadentes, como se o firmamento desejasse povoar a floresta com todas as suas estrelas.

Eram os olhos dos animais, dos gatos selvagens, dos esquilos, dos mochos, dos papagaios e macacos. Julião atirava-lhes flechas e setas que com as suas plumas ficavam baloiçando-se na folhagem como borboletas brancas. Atira-lhes pedras e as pedras caem. Irrita-se, gostaria de os abater, clamou a sua raiva, quase sufocando.

Todos os animais que perseguira, formaram em seu redor um estreito círculo. Uns empoleirados nos ramos, outros no chão, e no meio deles, cheio de terror e incapaz do menor movimento, estava Julião. Por um superior esforço, tentou um passo; os que estavam nas árvores ergueram voo, os outros levantaram-se, e todos o acompanharam. As hienas na frente, os lobos e os macacos atrás. O touro na direita balanceando a cabeça, e na esquerda a serpente coleando entre árvores, enquanto que a pantera avançava rápida, com largas passadas. Julião caminhava vagarosamente afim de os não irritar, ao mesmo tempo que via sair das tocas porcos espinhos, raposas, víboras, chacais e ursos.

Correu, eles seguiram-no. A serpente soprava e todos os outros espumavam. O javali arranhava-lhe os calcanhares com as unhas; o lobo as palmas das mãos com o focinho; os macacos beliscavam-no fazendo caretas; a fuinha cabriolava em redor dos seus pés; um urso com um rápido movimento de uma das patas, arrancou-lhe o chapéu; e a pantera desdenhosamente deixou cair a flecha com que ele a ferira no pescoço. Nos seus olhares manhosos, vislumbrava como que uma ironia. Todos o olhavam pelo canto dos olhos, parecendo estarem meditando num plano de vingança; e ensurdecido pelo zumbido dos insectos, fustigado pelas caudas dos pássaros, sufocado pelo bafo de toda aquela bicharada, caminhava de braços estendidos, com os olhos fechados como um cego que não tivesse forças para gritar: Por favor!

O canto de um galo vibrou no ar. Outros lhe responderam; era o nascer do dia, e para além das laranjeiras avistou a silhueta do seu palácio. Num campo vislumbrou a cerca de três passos, duas perdizes que voavam sobre medas. Desembaraçou-se da capa e rápido correu para elas. Porém, quando julgava tê-las descoberto, eis que não as encontra, e para maior desânimo seu elas vão morrer muito longe. Esta decepção exaspera-o muito mais que todas as outras. Sente necessidade de matar; os animais fogem-lhe, e para saciar, acreditava-se capaz de até massacrar homens.

Galgou os três terraços, empurrou violentamente a porta, mas ao fundo da escada a recordação da sua querida esposa faz-lhe vibrar o coração. De certo estava dormindo, iria surpreendê-la. Descalçou as sandálias, correu docemente a fechadura da porta, e entrou. Os vitrais protegidos por cortinados, velavam a luz da manhã. Julião libertou-se do vestuário, um pouco mais longe viu sobre uma mesinha os restos de uma refeição. «Sem dúvida que esteve comendo», pensou.

Nas trevas, avançou para o leito. Debruçou-se tentando abraçar a esposa, e notou que no travesseiro repousavam duas cabeças, muito perto uma da outra. Sentiu na sua boca a impressão de uma barba. Recuou julgando-se louco; mas reaproximando-se do leito e tacteando encontrou uma cabeleira muito comprida. Para se certificar apalpou o travesseiro.

Era uma barba, desta vez, um homem!

Possuído de uma desenfreada cólera, desferiu sobre os corpos golpes de punhal, bateu com os pés no chão espumando, tal qual um animal feroz. Depois silenciou. As vítimas atingidas no coração, nem um grito tinham soltado. Escutou atentamente os seus estertores muito iguais, e, à medida que se iam extinguindo, um outro mais longínquo os secundava. Indistinta então, aquela voz vai-se aproximando, cada vez mais cruel e nítida, e terrificado, reconheceu o bramir de um grande veado negro. Ao voltar-se julgou ver na moldura da porta o fantasma da sua mulher com uma vela na mão. O barulho causado pelo atentado, havia-a despertado. Num relance compreendeu tudo, e tomada de justificado horror, deixou cair o castiçal.

Ele levantou-o.

O pai e a mãe estavam na sua frente, cada um com um buraco no peito, e nos seus rostos, de uma doce majestade, tinham estampado o ar de quem está guardando um eterno segredo. Lama e salpicos de sangue maculavam a brancura dos seus corpos, a roupa da cama, e por terra, um Cristo crucificado que havia estado pendurado no quarto. O reflexo escarlate do vitral agora batido pelo sol, iluminava as manchas de sangue que eram muito numerosas no quarto.

Julião acercou-se dos dois mortos, calado, recusando acreditar que tudo aquilo houvesse sido possível, imaginando que estivesse enganado, pois por vezes acontecia haver semelhanças inexplicáveis. Baixou-se ligeiramente afim de ver de perto o morto, e percebeu entre as suas pálpebras semicerradas, os olhos ardentes como fogo. Rodeou a cama e aproximou-se do outro lado, onde repousava o segundo corpo, cujos cabelos brancos tapavam parte do rosto. Julião acariciou-lhe os bandós, ergueu a cabeça, olhou-a, deixou-a descair no seu braço, enquanto que com a outra mão a iluminava com o castiçal. E o sangue resvalando do colchão, tombava lentamente no sobrado.

Pelo fim do dia, apresentou-se em frente da sua esposa, e com voz alterada ordenou-lhe que não se aproximasse, que não lhe respondesse, que não o olhasse, e que cumpra terminantemente todas as suas ordens, que são definitivas e irrevogáveis. Os funerais seriam feitos segundo instruções suas que deixara escritas sob um crucifixo no quarto dos mortos. Ia abandonar o palácio, os seus vassalos, todos os bens, até incluindo as vestes e as sandálias que poderiam ser encontradas no topo das escadas.
Obedecera à vontade de Deus cometendo um crime, e devia passar a cuidar da sua alma, pois que a partir daquele momento ele já não existia. Enterrou magnificentemente os seus mortos na capela de um mosteiro que ficava a três dias de jornada do castelo. Um monge de borel imaculado seguiu o cortejo, afastado de todos, não falando a ninguém. Ficou durante a missa parado no meio do átrio, os braços cruzados, a cabeça baixa. Após o enterramento, viram-no tomar o caminho que levava às montanhas. Voltou algumas vezes mais, e por fim desapareceu.

3

Partiu, indo pelos caminhos do mundo, esmolando.

Nas estradas estendia a mão aos cavaleiros, aproximava-se dos ceifeiros humildemente, ou ficava impassível diante das muralhas dos castelos, e o seu rosto entristecia quando lhe recusavam esmola.

Por espírito de sacrifício contava a sua história, e então todos se afastavam fazendo o sinal da cruz. Nas aldeias por onde tinha passado, sendo já conhecido, as portas fechavam-se, gritavam-lhe injúrias, ou atiravam-lhe pedras. Os mais caridosos pousavam no peitoril das janelas uma escudela, mas não a tornavam a abrir para a receber.

Renegado por todos, evitava os homens, alimentando-se de legumes, de frutos abandonados, de mariscos, que apanhava ao logo das praias.

Algumas vezes contornando uma encosta, deixava os olhos correrem sobre uma confusão de telhados, de pontes, de torres, de ruas escuras coleando, chegando até ele um sussurro contínuo.

O desejo de conhecer outras gentes obrigava-o a descer à cidade. Mas o aspecto bestial das pessoas, o falatório do povo, a banalidade das conversações, gelavam o seu coração.

Nos dias de festa, quando os carrilhões das catedrais despertavam toda a gente desde a aurora, observava os habitantes quando saíam de suas casas; depois as danças nas praças, as fontes de cerveja nos cruzamentos, as ricas colgaduras drapejando nas janelas das casas principescas, e, ao cair da noite, espreitando pelas janelas, espiava as famílias reunidas à volta das mesas, ao mesmo tempo que as amas, carinhosamente, embalavam nos seus joelhos, risonhas criancinhas. Os soluços assaltavam-no e partia para o campo.

Contemplava com paroxismos de amor os poldros nas pastagens, os pássaros nos seus ninhos, os insectos voltejando sobre as flores, e todos à sua aproximação afastavam-se para longe, tomados de medo, desaparecendo rapidamente.

Procurava lugares ermos. Mas o vento arrastava até si como que longos suspiros de agonia. O orvalho dos roseirais, gota a gota, caía por terra, lembrando-lhe lágrimas, outras suas lágrimas muito sombrias. O sol pelo entardecer tingia de sangue as nuvens, e infalivelmente em cada noite os sonhos recordavam-lhe o terrível parricídio. Usava um cilício (15) com dentes de ferro. Subia de joelhos todas as colinas onde alvejava uma capela. Mas a sua fé era obscurecida por um terrível pensamento, que sufocava com as dolorosas macerações da penitência.

Não se revoltava contra Deus que lhe tinha determinado tal acto, somente se desesperava por o ter cometido. A própria pessoa causava-lhe tanta repulsa que como lenitivo buscava a morte, correndo aventurosamente quaisquer perigos. Salvava das chamas os paralíticos, e as crianças de morrerem afogadas. Não obstante o abismo respeitava-o, e as chamas poupavam-no. Nem com o tempo esquecia o sofrimento que continuava intolerável. E por isso resolveu morrer.

Um dia em que se encontrava debruçado à beira de uma fonte verificando a profundidade da água, viu surgir do espelho líquido o rosto de um velho, todo descarnado, a barba branca e um aspecto tão lamentável que lhe foi impossível reter as lágrimas. O outro também chorava. Sem se ter reconhecido, pareceu-lhe que se recordava confusamente de um outro semelhante. Soltou um grito: era de certo seu pai, e deixou de parte o negro pensamento de se matar.

Assim, arrastando atrás de si o pó das recordações, viajou por vários países, até chegar à margem de um rio cuja travessia era muito perigosa pela violência da corrente, e porque as suas margens estavam cobertas de lodo. Poucas ou nenhumas pessoas se atreviam a atravessá-lo. Um velho barco encontrava-se varado, e abandonado entre juncos.

Examinando-o, Julião descobriu um par de remos assim como a ideia de se tornar útil, pondo-se ao serviço dos outros. Começou por fazer na falésia um caminho que lhe permitisse descer até ao rio, e por isso, servindo-se das mãos, rebolou pedras enormes, apoiando-as ao ventre para as mover, obrigando-as a deslizar no lodo, ferindo-se, estando prestes a morrer mais do que uma vez. De seguida reparou o barco, com salvados de naufrágios, fazendo também uma cabana com greda e troncos de árvores.

A travessia passou a ser conhecida, e os viajantes principiaram a aparecer. Chamavam-no da outra margem acenando; Julião saltava lesto para o barco, que ficava então mais pesado, sobrecarregado por toda a espécie de bagagens e de fardos, sem contar com as bestas de carga que escoiceavam medrosas, aumentando a confusão.

Nada levava pelo seu trabalho; alguns davam-lhe o resto das vitualhas que traziam nos alforges, ou vestes usadas que já não queriam. Os brutos vociferavam blasfémias, Julião repreendia-os com doçura; retorquiam-lhe com injúrias. Então, limitava-se a benzer-se.

Uma pequena mesa, um escabelo, uma enxerga e três púcaros de barro, eis ao que se reduzia o seu mobiliário. Duas frestas rasgadas na parede, serviam de janelas. De um lado estendiam-se a perder de vista campos estéreis, onde de quando em quando surgiam charcos de água pútridas, e em frente a mancha larga do rio. Na primavera, a terra húmida, cheirava a podre. Então um vento desordenado erguia turbilhões de poeira que tudo invadia, empastelando a água, colando-se às gengivas. Um pouco mais tarde era o fremir das nuvens de mosquitos, cujas mordeduras não paravam de dia e de noite. Seguidamente apareciam os gelos que emprestavam às coisas a rigidez monolítica das pedras, e que despertava o louco desejo de comer carne.

Gastavam-se os meses e Julião não via ninguém. Fechava os olhos e revia a mocidade - o pátio de um castelo desdobrava-se a seus olhos, com os «lebreiros» plantados no topo das escadarias, os escudeiros nas salas de armas, e num berço de pâmpano um adolescente de cabelos loiros, entre um velho de peliça e uma dama de grande e cónico chapéu, mas de súbito apareciam os dois cadáveres. Atirava-se para cima do leito e chorando lastimava-se, repetindo:- Meu pobre pai! Minha infeliz mãe! Minha mãe!

Caía num entorpecimento cheio de visões fúnebres. Uma noite julgou ouvir alguém que o chamava. Escutou mas nada ouvia, a não ser o sussurrar das ondas. E cortando a noite, chegava até ele o insistente apelo:- Julião! Parecia-lhe que aquele grito vinha da outra margem do rio. E pela terceira vez:- Julião!

Era como o eco da uma palavra gritado na soturnidade de uma nave.

Empunhou a lanterna e afrontou a noite que um tremendo vendaval varria. A escuridão era profunda, aqui e ali cortada pela alvura da crista esbranquiçada das ondas.

Após um minuto de dúvida, desprendeu a amarra da embarcação. A água como que acalmou, e o barco deslizou até varar na outra margem, onde um homem o esperava. Envolvia-se num amplo manto, mas o rosto estava tapado, e os olhos ardentes como tições tinham um fulgor estranho.

Aproximando a lanterna verificou que se encontrava na presença de um leproso; mas os gestos do desconhecido, eram pousados e majestosos.

Quando entraram no barco, este sob o peso súbito mergulhou pesadamente, depois estremeceu num balanço, e finalmente os remos impulsionados por Julião arrastaram-no para o largo. A cada remada, a ressaca das ondas fazia-o saltar. A água estava mais escura do que tinta; corria lepidamente, e, o rio que abraçava a embarcação, abria-se em montanhas e a chalupa mergulhava para de novo se levantar, caminhava veloz fustigada pelo vento que a empurrava. Julião inclinava o tronco, alargava os braços, firmava as pernas em arco retesando-as a fim de conseguir maior rendimento do seu esforço.

A água chicoteava-lhe as mãos, a chuva escorria-lhe pelas costas, a violência do vento sufocava-o, e, largou os remos. Andaram à deriva. E Julião repentinamente recordando-se duma ordem que não podia deixar de cumprir, retomou os remos; unicamente a cortar o murmúrio da noite tempestuosa, o seco cair dos remos nos toletes. A pequena lanterna brilhava na proa. Os pássaros esvoaçavam em seu redor ocultando por vezes a claridade débil. Mas mesmo assim encontrava os olhos do leproso, que atrás de si se mantinha imóvel como uma estátua. E aquilo foi longo, muito longo...

Ao chegarem à cabana, Julião fechou a porta, sentando-se o viajante no banco. A túnica que o envolvia deslizara até à cintura, e os seus ombros, o peito, os magros braços, mostravam-se cobertos de postulas pestilentas, profundas rugas marcavam-lhe o rosto. Tal como num esqueleto as fossas nasais nada mais eram do que um horrendo buraco, e dos seus lábios azulados, escapava-se um hálito nauseabundo.

"Tenho fome" - disse.

Julião deu-lhe o que tinha, um pouco de toucinho e côdeas dum pão escuro.

Quando acabou de comer, tanto a mesa como a escudela e a lâmina da faca, tinham vestígios das mesmas postulas que lhe marcavam o corpo.

“Tenho sede” - afirmou.

Julião foi buscar uma das púcaras, e, quando lhe pegou, aspirou um delicioso aroma que lhe dilatou o coração e as narinas.Era vinho. Que belo achado! Mas o leproso estendeu os braços, e dum só trago bebeu todo o conteúdo. Voltou a exigir: “Tenho frio”.

Julião com uma vela acendeu no meio da casa uma fogueira.O leproso acocorando-se ficou perto do lume aquecendo-se. Os seus membros enfraquecidos tremiam; os olhos já não brilhavam mais, as suas úlceras purgavam, e sumidamente murmurou: “A tua cama?”

Julião ergueu-o docemente, tapando-o com a vela do barco.O leproso gemia. Dos cantos da boca, através dos dentes, evolava-se um estertor que lhe sacudia o peito, e o ventre quando das aspirações mais fundas, colava-se às costelas. Acabou cerrando os olhos.

”Sinto como que gelo nos meus ossos. Vem para perto de mim!”

E Julião levantando a coberta, deitou-se na enxerga, perto dele, lado a lado. O leproso rodou a cabeça.

“Despe-te para que possa ter o calor do teu corpo!”

E Julião, desnudado como no dia em que nascera, voltou ao leito, sentindo contra o seu, o corpo do leproso, mais frio que de uma serpente, e rugoso como a casca de um limão. Procurava encorajá-lo, mas o outro respondia-lhe:

“Vou morrer... Aperta-me, apertemo-nos. Não com as mãos, mas com todo o corpo!”

Ficaram juntos, completamente unidos, boca contra boca, peito contra peito. E então o leproso finou-se; os seus olhos ganharam o fulgor das estrelas, os cabelos alongaram-se como raios de sol, a sua respiração tinha o perfume das rosas, uma nuvem de incenso elevou-se da chaminé, as ondas cantavam. Entretanto numa inundação de magníficas delícias, uma alegria sobre-humana invadia a alma surpreendida de Julião, e aquele que apertava nos seus braços, crescia, ocupava toda a cabana. O tecto rompe-se, e aparece o firmamento, e Julião caminha para a infinidade azul, encontrando-se face a face com Nosso Senhor Jesus Cristo que o chama para o céu.

É esta a história de São Julião Hospitaleiro, como se encontra descrita, pouco mais ou menos, num dos vitrais da igreja da minha terra.

***

Gustave Flaubert (1821-1880)


***
Notas:
1 Plantas vulgarmente pouco conhecidas. Basilisco, planta de folhas odoríferas.
Heliotropia, flor azul de um suave perfume.
2 Amalecitas, povos do sul da Judeia, inimigo dos Israelitas. Garamantes, tribos do Saara.
3 Poterna, porta falsa nas praças fortes.
4 Símbolo usado pelos peregrinos.
5 Griffons, cães de pelo muito comprido.
6 Grandes cães introduzidos com as invasões dos Álamos.
7 Bolsas em rede que se colocavam à entrada dos covis na caça aos coelhos com falcão.
8 Ratoeiras para lobos e raposas.
9 Espécie de falcão.
10 Venábulo, dardo de montaria.
11 Antiga máquina de disparos.
12 Conjunto de substâncias incendiárias que os Bizantinos e os Sarracenos atiravam sobre os inimigos, antecedência do actual lança-chamas.
13 Povo que os antigos situavam nas margens do golfo arábico, no sudoeste do Egipto e que passavam por viver em cavernas.
14 Designação da França do Sudoeste. Os espanhóis na luta contra os mouros foram ajudados pelos Barões franceses.
15 Cinto de penitência.

Nenhum comentário: