quinta-feira, 2 de abril de 2009

As Sinfonias de Vaughan Williams



Falar sobre música britânica do século XX sem destacar Ralph Vaughan Williams é como falar de música clássica brasileira e omitir Heitor Villa-Lobos. Ambos são de importância fundamental na utilização e desenvolvimento do folclore no nacionalismo de suas respectivas nações.

Ao buscar no folclore e na Renascença de Tallis e Byrd o ponto de apoio de onde ergueu a sua sólida Obra, o compositor da Inglaterra, nascido na aldeia de Down Ampney, e com doutorado em música por Cambridge, foi um dos primeiros que realmente libertou a música inglesa da influência alemã. Semelhante ao que fizeram Janácek em terras tchecas, e Bartók e Kodály, na Hungria, Vaughan Williams e seu amigo de todas horas, Gustav Holst, percorreram os vilarejos mais remotos do Norfolk e outras regiões com o objetivo de compilar canções, danças e tradicionais hinos religiosos, que depois também serviram de inspiração para a obra de ambos. Enfim, foi um admirável trabalho de compilação desses dois homens eruditos em música: com trajes surrados, bastão, boné e botinas de andarilho surgiam nas aldeias mais agrestes da Inglaterra, a pedirem aos camponeses que cantassem a melodia que os pais lhes ensinaram, e do mesmo modo participavam de festas rurais, observando atentamente como as jovens camponesas dançavam, e concluíam a visita com participação nas pequenas igrejas, registrando os hinos que as senhoras entoavam. E com reverência a toda aquela pureza colhida na fonte, anotavam, recolhiam o folclore intacto do país.

Muitos conhecem Vaughan Williams através de duas peças que ficaram famosas no mundo todo: The Lark Ascending, um belo romance para violino e orquestra, que utiliza melodias folclóricas e, ao mesmo tempo, faz paráfrase ao canto da cotovia, ave comum nos campos ingleses; e Fantasia Tallis, uma recriação muito pessoal de um coral de Thomas Tallis, porém substituindo o coro por orquestra de cordas, tendo o tradicional quarteto (violinos, viola e violoncelo) como solista.

Essas duas obras mencionadas são pontos de referência para se ingressar na música de Vaughan Williams, pois o ouvinte tem chance de familiarizar com algumas das principais fontes de inspiração do compositor: folclore e hino da Renascença.

No entanto, não é a parte de sua obra mais substancial e importante. As sinfonias: eis a espinha dorsal deste grande compositor, talvez o maior que nasceu em terras britânicas. Ao menos é, incontestavelmente, o maior sinfonista inglês e um dos maiores de todo o século XX.

Semelhante a Beethoven, Schubert e Bruckner o compositor deixou nove sinfonias, cada uma com feição própria, estruturadas de tal maneira diferentes entre si que ficamos espantados quando as conhecemos pela primeira vez. Essa versátil individualidade chega a ser mais marcante do que as sinfonias de Sibelius. Vaughan Williams pertence àquela rara categoria dos ‘compositores filósofos’ que, a cada obra, querem recriar o íntimo e fragmentado universo com o intuito de descobri-lo novamente. A essa linhagem pertencem Bach, Beethoven e César Franck e, evidentemente, Mahler, o filósofo do entre-séculos.

Entretanto, para quem sente interesse em se aprofundar nesse campo da obra de Vaughan Williams, há um aviso: não espere encontrar aqui as deliciosas melodias folclóricas utilizadas em suas canções e música orquestral ligeira, que têm valor à parte. Em quase todas sinfonias há pouca menção ao folclore de seu país. Antes, são obras densas de conteúdo filosófico realista e pessimista, com questionamentos sobre os problemas existenciais da humanidade. O músico em questão era, antes de tudo, homem fiel ao seu tempo.

Uma das admiráveis qualidades na obra de Vaughan Williams é o equilíbrio: em um estilo sóbrio e de emoção deveras complexa, soube dosar o antigo e o novo, sem cair na monotonia ou na cacofonia meramente experimental. Antes mesmo de qualquer movimento neoclássico, cujos pioneiros foram Busoni, Satie e Roussel, consolidado por Stravinsky, Vaughan Williams já escrevia, como já foi dito, peças inspiradas na Renascença, sendo o exemplo mais feliz aquela magnífica Fantasia Tallis. Depois, também aderiu ao ‘modismo neoclássico', propriamente dito, compondo o Concerto Accademico, inspirado em Bach, o compositor que amava acima de todos. Utilizou em suas sinfonias técnicas de escrita "antigas” como a Fuga e a Passacaglia, transmutadas em sonoridades novas, às vezes atonais. O cromatismo do final da Sinfonia No. 6 é de uma magia desoladora, cujo efeito leva-nos a crer na fugacidade do tempo e no impalpável que há em todas as coisas. Mas não experimentou a politonalidade e o dodecafonismo. Vaughan Williams, por trás de sua intrincada teia de ‘filosofia musical’, não podia esconder que era um melodista nato. Em todas as obras nota-se uma elaboração cerebral à serviço da melodia, às vezes árdua, mas bela, sem dúvida, e nem sempre de assimilação fácil.

Esse compositor nascido em 1872, nos montes Cotswold, que é o coração da Inglaterra, e criado nas proximidades de Londres, aluno dedicado em Cambridge, erudito em história da música, peregrino dos campos e vilarejos, talvez seja o mais britânico de todos compositores britânicos. Apesar de ser considerado por muitos como um eclético, é o músico que mais assimilou e demonstrou em suas peças eruditas, ou de cunho popular ou acentuadamente folclóricas a essência do ‘espírito’ inglês, característica esta que perpassa, intima e fisicamente, a sonoridade de sua música. Pode ser observada nas grandes obras corais a estilização dos hinos anglicanos assim como nos metais da orquestra a pompa cerimonial de um país que sempre acreditou na monarquia. Alguns dizem: inglês até demais, tanto que o global de sua obra ainda encontra incompreensão em muitos países, fazendo com que seja pouco conhecido internacionalmente. A poderosa melancolia do romantismo tardio de Elgar e a produção lírica-teatral de Britten sempre serão mais digeríveis e aceitas onde quer que se apresentem, porque de certa forma são..., diríamos, mais 'universais'.

E, no entanto, Vaughan Williams, esse homem profundamente britânico, era cético diante da fama, não tinha ilusões quanto às honrarias mundanas, rejeitando a distinção máxima que um cidadão e artista de seu país poderia receber: a condecoração de ‘Sir’. Pois recusou a Ordem dos Cavaleiros e a indicação para assumir a alta posição de ‘Master of the King’s Musick’, dizendo que não queria ser ‘grande’ em nada, o que foi um espanto geral, pois estas honras foram bem aceitas por Elgar e depois por outros músicos como Bax e Walton. Mas Vaughan Williams preferiu abrir mão desse título de ‘Cavaleiro real’. Foi uma atitude de desprendimento semelhante a de Maurice Ravel que havia recusado na França a homenagem da Legião de Honra.

Outro fato curioso na vida desse grande músico era a sua 'agnose'. Em ato contínuo, durante muitos anos trabalhou na ópera Pilgrim’s Progress, cujo conteúdo litero-musical é essencialmente místico. Também mística é a Sinfonia No. 5, que foi construída com temas aproveitados da referida ópera. Essa grande obra é daquele tipo de comoção extática e sincera, uma religiosidade que dispensa templos. Como se não bastasse toda essa compenetração meditativa, ainda escreveu uma das mais belas Missas a capella do século XX. E mesmo assim era um ateu ou agnóstico assumido, o que não convencia muito.

As Sinfonias – Um Breve Comentário

O compositor começou a enumerar as suas sinfonias somente a partir da quarta, gerando um equívoco a muitos esteticistas, que se referiram às primeiras como poemas sinfônicos. Não é verdade. São sinfonias no sentido estrito e vasto da palavra.

A primeira, chamada de Uma Sinfonia do Mar (1910), sobre poemas de Walt Whitman, é uma sinfonia coral do início ao fim, mas seguindo a estrutura dos quatro movimentos clássicos, o que é uma raridade. É obra interessante e em alguns momentos chega a ser poderosa, mas trata-se ainda do esforço de um artista que está em busca de um estilo próprio.

A segunda, Sinfonia Londrina (1914), é obra programática, mas também com rigorosa estrutura. Ilustra de maneira cíclica um dia na vida da metrópole londrina: do nascer do sol até a madrugada do dia seguinte. Já é obra puramente orquestral que desperta o interesse, principalmente o belo movimento lento. A sinfonia termina da mesma forma que começa, com a suavidade das horas que antecedem a alvorada. Verifica-se facilmente nesta obra, embora tenha mais maturidade do que a anterior, que a qualidade dos movimentos é desigual, ainda há altos e baixos. O compositor está crescendo, nota-se. E na fase criativa seguinte, após o período do conhecimento da dor e da perda da ingenuidade política, o artista surgirá grande em sua arte mais profunda e humanista.

A terceira, a Sinfonia Pastoral, concluída em 1921, mas iniciada em terras francesas, durante a Primeira Guerra, já é obra definitiva. Bela e comovente, não há outra palavra mais exata para lhe atribuir. É quase toda em andamento lento, uma longa reflexão mística sobre a guerra e a paz. Nela não há pássaros nem florestas ou riachos, e sim as reminiscências da desolada planície européia, palco do conflito mundial, e da própria alma do compositor, que fora testemunha das recentes batalhas. Vaughan Williams serviu no exército como motorista de ambulância e nas horas vagas compunha para pequenos grupos instrumentais com o objetivo de entreter os soldados feridos. Na curta pausa entre fuzilaria e bombardeios anotava os fragmentos de sua canção íntima, ansioso pela paz. Dela surgiu a atmosfera aparentemente tranquila dessa nova sinfonia, onde não há danças nem canções folclóricas. Concluindo a obra uma soprano em vocálise entoa um hino de agradecimento. Enfim, faz-se necessária a re-edificação da esperança. Uma dança de júbilo é insinuada, mas não acontece. Do início ao fim é uma prece pela trégua e uma avaliação diante das ruínas, como alguém que olha a inocência idílica dos campos, mas com aquela certeza de que jamais serão como antes, como de fato o mundo nunca mais foi o mesmo após o tenebroso ano de 1914, quando irmãos ergueram a espada contra irmãos, e perderam o sentido as palavras Liberdade, Igualdade e Fraternidade. Por isso, vivendo em outra época, diferente da de Beethoven, o compositor não permitiu que os camponeses dançassem no desfecho de sua Pastoral.

A Sinfonia No. 4 (1934), o oposto da anterior, é vertiginosamente dissonante e tumultuada nos três movimentos, com pausa apenas no meio, o melancólico Andante. A expressão é asperamene moderna, porém construída sob os moldes arquitetônicos de Beethoven, do qual ela se aproxima; intimamente da Quinta, pelo evocação da fatalidade do destino, e da Sétima, pelo alucinante ritmo de dança. Agitada, quase não dá trégua para fôlego, um labirinto constante de polifonia moderna. É obra genial. Não há outra palavra para distingui-la. Muitos admiradores do compositor sentiram nessa obra uma visão profética, como um presságio de que tempos mais tortuosos estavam para vir, e que o período de paz era só camuflagem de uma guerra adormecida e não concluída.

E a seguir, já em pleno conflito mundial, a belíssima No. 5 (1943), a mais profunda obra do músico, na humilde opinião deste que escreve. Em todos os sentidos diferente da anterior, e, em muitos aspectos, semelhante àquela Pastoral: a mesma perquirição místico-panteísta, a mesma suavidade ocultando profundezas. É construída com rigor clássico e com formas eruditas: utiliza o contraponto e termina com uma passacaglia. A fonte inspiradora foi o livro de John Bunyan The Pilgrim’s Progress, do qual o compositor também retirou o tema para sua melhor ópera com título homônimo, escrita e trabalhada durante 25 anos.

Depois dessa profunda meditação vem outra Sinfonia sobre a guerra: a No. 6 (1947), poderosa e elaboradíssima; a crítica diz: a obra máxima de Vaughan Williams, onde ele reúne todos os recursos aprendidos e utilizados nas sinfonias anteriores. Diferente das outras, termina com um movimento lento em forma de fuga. De conteúdo pessimista, alguns sentem nela a visão profética do futuro da Humanidade. A desolação cromática simboliza as ruínas que poderão surgir após uma abrangente terceira e última guerra mundial. Já outros comentaristas vêem nesse final uma apoteose aos versos shakespeareanos de The Tempest sobre a fugacidade da vida e da inconsistência dos sonhos. Se na 'Pastoral' parece surgir uma luz no final do túnel, aqui não há a mínima insinuação de júbilo. É de uma realidade crua que não oculta as experiências que a Europa e o mundo viveram naqueles tristes dias.

A seguir, outra grande obra, a Sinfonia Antartica (1952), também sem numeração. Aproveitando o material de sua própria trilha para o filme Scott of the Antartic, o compositor cria outra contemplação místico-filosofica, desta vez em um território natural e selvagem: as terras geladas do Pólo Norte. Entremeio às tempestades de neve sentimos a Natureza fria e a imensa solidão que ela evoca. Ao lado de Tapiola de Sibelius, Edgon Heath de Holst, Amazonas de Villa-Lobos, é uma das mais instigantes obras já criadas retratando uma região bravia.

As duas últimas sinfonias, a No. 8 (1955) e a No. 9 (1957), que é ‘canto do cisne’, são obras de um Vaughan Williams já octagenário que não transige e continua criando música complexa e fechada em si mesma, de difícil acesso. Considero-as peças árduas, que não podem ser desbravadas com muita facilidade, mas não sou insensato a ponto de não render-lhes o justo reconhecimento que merecem. São grandes obras que apenas nos aguardam para serem conhecidas em toda sua grandeza e mistério.

Os versos de The Tempest de Shakespeare, atribuído como fonte inspiradora do final da Sexta, são a meu ver o leitmotiv de todas as outras:

“As torres que se elevam para as nuvens,
os palácios altivos, as igrejas
majestosas, o próprio globo imenso
com tudo o que contém, hão de sumir-se
sem deixarem vestígios. Somos feitos
da matéria dos sonhos; nossa vida
pequenina é cercada pelo sono.”

A sólida estrutura, a amplitude do desenvolvimento temático e a profundidade criativa fazem de Vaughan Williams, sem dúvida alguma, um dos maiores sinfonistas do século XX. Pertence à mesma plêiade de Mahler, Sibelius, Prokofiev e Shostakovich.




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