quinta-feira, 23 de abril de 2009

Cícero Acaiaba. O mestre nos deixa



No último 20 de abril, faleceu Cícero Acaiaba, poeta-maior, com quem tive muita proximidade na década de 90 em Varginha. Mas não pude homenageá-lo pela última vez, pois estava em viagem e só abri meus e-mails dois dias após, quando li a notícia enviada pelo amigo e escritor Aníbal Albuquerque, que há alguns anos escreveu a elogiada tese de mestrado Um Passeio pela Obra de Cícero Acaiaba, Talento Esquecido.

Cícero ficou famoso nas décadas de 50 a 70 como autor de peças para a Rádio Nacional do Rio de Janeiro. Escreveu 130 novelas, que o tornaram campeão de audiência, junto com Janet Clair. Após esse período, foi redator do Caderno Literário da Imprensa Oficial em Belo Horizonte, retornando a Varginha, onde viveu o restante da vida. Escreveu 20 livros de poesia, publicou 10, além de 2 livros de contos, uma peça de teatro, inúmeras crônicas e a autobiografia Meu Pé Direito, em 5 volumes.

A literatura de Cícero engrandeceu o nome de Cambuquira, terra onde nasceu, e destacou Varginha, cidade onde viveu a maior parte de seus 85 anos de vida.

Como já disse várias vezes, Cícero Acaiaba não é apenas um dos maiores sonetistas do Brasil; com sincera convicção afirmo que pelo menos a metade de sua volumosa obra poética está entre o que de mais belo e sublime foi escrito neste país. Nos últimos anos, jamais obteve um maior destaque na mídia, apesar de bastante conhecido entre os literatos, entre os quais Rubem Fonseca, Lygia Fagundes Telles e Caio Porfirio Carneiro, que eram seus amigos particulares e admiradores.

A minha admiração pelo poeta é imensa. Em um período de 10 anos, fui o primeiro a ouvir os seus versos, contos, crônicas e trechos de autobiografia, que o autor lia para mim, com entusiasmo, às vezes pessoalmente, às vezes por telefone. Acompanhei de perto o momento da criação e a voz emocionada do grande poeta interpretando a si mesmo em uma grande quantidade de textos. Aprendi muito com ele. Se fosse para escolher um epíteto que mais pudesse caracterizá-lo seria este: o mestre da metáfora.

Em 1987, o último cartão que Carlos Drummond enviou antes de falecer foi para Cícero Acaiaba, dizendo: "... a sua poesia é a continuação da minha." Apesar de estilos completamente diferentes, a produção poética de Cícero está no mesmo nível da de Drummond, tanto em forma quanto em conteúdo, mas a riqueza de metáforas do varginhense é muito superior.

A obra poética mais conhecida de Cícero Acaiaba é Poemas Escritos na Névoa (1982-88). É excelente, mas não é tudo. Há uma outra, que há mais de uma década está entre meus livros de cabeceira. Trata-se de A Última Elegia e 30 Noturnos de Minas (1987), que considero um dos mais ricos e fascinantes livros de poesia já escritos em todas as literaturas de todos os tempos. Curioso é que ele, grande sonetista, escreveu sua maior obra em versos brancos, em um estilo meio impressionista, meio surrealista, rico em imagens e musicalidade. Nesta obra, é muito difícil de escolher os melhores poemas, de separá-los para uma antologia; são todos de uma beleza inesquecível. Penso que nunca o tema da morte foi tratado com tanta sublimação.

Agora, com a morte, tema sobre o qual tanto escreveu, Cícero Acaiaba torna-se também encantado. A mídia, que o rejeitou, talvez corra atrás de sua obra, que está dispersa em sebos ou mofando em prateleiras de leitores pouco entusiastas. A novela que ele escreveu para a Rede Globo, e esperou com tanta ilusão ver na telinha, o que nunca aconteceu, após tantas desculpas, talvez agora seja negociada. É a festança que tem direito aqueles que não estão mais entre os vivos, podendo o ausente ser chamado até de gênio, sem prejudicar a inveja alheia. Talentoso, porém morto. Mas tudo isso já não importa mais. Talvez a posteridade se encarregue de criticar ou elogiar, talvez providencie e teça louros à sua memória; talvez, não. Porém Cícero Acaiaba não precisa mais de se preocupar com reconhecimento algum.

Aqui fica a minha homenagem, através de seu próprio poema que dá título à obra que continuarei amando e admirando, profundamente: A Última Elegia e 30 Noturnos de Minas.

Obrigado, Cícero, pela riqueza, pelas pérolas de arte, pelos momentos espirituais de comovente beleza que nos deixou!


A ÚLTIMA ELEGIA


1

Eu não estarei aqui amanhã.
Haverá mais um ausente nesta mesa,
e na parede um retrato instantâneo.
No quarto, os móveis nos mesmos lugares,
as janelas com as cortinas lisas,
e uma cama para sempre arrumada
na esperança do hóspede.
Mas eu não estarei aqui amanhã,
nem depois nem nunca.
Talvez na casa ressoem meus passos
um certo tempo,
talvez se escute altas horas da noite
a respiração pausada,
as páginas velhas de um livro
ou o embaçado monólogo de insônia
que o relógio da sala acompanha.
Tudo irá desaparecer aos poucos,
o hábito voltará a tecer a rotina,
e aqui será de novo uma casa pacificada.

2

Sinto a antecipada amargura das coisas findas,
estranha saudade do quarto estreito, da estante de livros,
da escrivaninha onde latejava a semente dos poemas,
da janela que era a viagem para o mistério da noite.
Sinto a presença lúcida do espelho,
o jogo brusco de imagens em seu túnel de segredos,
sinto medo
de não reconhecer meu rosto na turva superfície.
E sinto um gosto,
uma longínqua e brumosa tarde,
a chuva garoando lenta ofuscando a cidade,
sinto um gosto de infância na tarde que chove.
Sinto depois os retratos
na parede do corredor penumbra,
um diante do outro como vagões de um trem
a caminho do tempo.
Sinto as vozes na sala,
mas distantes apagadas,
vozes nascidas dentro de um prisma.
Sinto passos na varanda,
cadeiras de vime modornando à sesta,
sinto a festa
de aniversários com a alegria cintilando nas taças,
sinto o frouxo silêncio
escorrido de lua nas vidraças, sinto
de súbito a impossibilidade de juntar minhas sombras,
meus pertences,
vingado por completo deste mundo, ilhado neste reino,
porque sou o esvaído, o inefável,
e porque hoje é sábado
e eu não serei amanhã o domingo.

3

Quem se lembrará de mim quando o relógio parar
entre a noite e a madrugada?
Talvez ainda desarmem o gesto
das mãos caladas,
modelem o corpo com flores vivas
para compor no pensamento
a última elegia.
Quem olhará na direção do meu dia
sabendo que, afinal, quebrou-se a âncora
e estou perfeito?
Qual deles plantará sobre meu peito
um lençol de relva,
qual dentre todos ficará sozinho
até a consumação dos séculos?
O céu é um deserto de nuvens
às vezes minando estrelas.
Morre o vento no vale das estátuas
e o cipreste vela.

4

Confinado no meu reino, entrelaçado de raízes,
no tépido sabor do húmus, maduro de sementes,
o castanho úmido da terra entre os cabelos,
ouvirei no vento as vozes passeando
ao rés do chão?
Quem será capaz de velar, insone, minha ausência?
Quem há de me chamar com o clarim
do silêncio?
Quem virá bater na porta deste cofre
de mármore?


Cícero Acaiaba (1925-2009)


5 comentários:

Anônimo disse...

Caro Poetamigo AILTON:
Belíssima homenagem prestada ao saudoso confrade CÍCERO.
Seu texto é o reflexo de seu talento, de sua amizade sincera e de seu imenso coração sul-mineiro.
Compartilhando a dor pela ausência de nosso amigo em comum, muito grato.
Aníbal Albuquerque
ACADEMIA VARGINHENSE DE LETRAS

Meimei Corrêa disse...

Caro Ailton:
Permita-me apresentar-me.
Sou Meimei Corrêa, também amiga do grande poeta Cícero Acaiaba. Fui criada em Cambuquira, depois morei em Três Corações, minha terra natal, por um bom tempo. Sempre ouvia falar de Cicero, era amigo de minha família, mas só vim conhecê-lo através de meu amigo Aníbal Albuquerque. Nesse período, também pude ser confidente de seus sentimentos e pensamentos, ouvidora de seus poemas e um tanto "conselheira" em muitas vezes em que se encontrava triste.
Parabenizo-o pelo maravilhoso texto sobre nosso amigo, cheguei às lágrimas ao lê-lo
Hoje sou Membro Correspondente da Academia Varginhense de Letras, Artes e Ciências, aqui na cidade de Campos Gerais, onde moro já há quase oito anos.
Fico feliz pelo nosso amigo, com seu carinho e amizade sincera.
Obrigada, de coração, por esta homenagem.
Abraços fraternos.

Meimei Corrêa
(Presidente da CAPPAZ- Confraria de Artista e Poetas Pela Paz - seccional Campos Gerais e Membro Correspondente da AVLAC - Academia Varginhense de Letras, Artes e Ciências).

Ailton Rocha disse...

Caro Poetamigo Aníbal:

A minha homenagem é muito simples, foi apenas ditada pela emoção sincera de amigo que relembra momentos bons. Espero que muitas outras pessoas continuem essas minhas palavras, elevando o incentivo para que sejam publicadas as obras do Cícero que permanecem inéditas.

Você foi o primeiro que tomou a iniciativa desse incentivo, nobremente, ao escolhê-lo para sua tese de mestrado, que muito tem contribuído para despertar o interesse pela obra de Acaiaba no meio acadêmico de outras cidades. E é essa é a maior homenagem que podemos fazer a um autor: ler as suas obras com a mesma dedicação com que foram escritas, e despertar outros leitores para que as conheçam e as apreciem.

Fraterno Abraço
Ailton

Ailton Rocha disse...

Cara Meimei

Não a conheço pessoalmente, mas recordo de certa vez o próprio Cícero mencionar o seu nome, e de quanto você foi gentil com ele, devotando-lhe amizade e paciência nos momentos de tristeza e dúvida. Por isso compreendo que a sua emoção, ao ler minhas palavras, surgiu também de belas lembranças.

Quando fazemos tudo que podemos a um amigo, enquanto vivo, é natural que surja o lamento, quando o perdemos para a morte. Mas não é de apenas pesar a nossa lágrima. Atinge-nos com mais intensidade é a antecipada saudade, que já começa a latejar na primeira lembrança. Mas saiba: quem dá as flores em vida, na despedida chora, mas chora menos do que aqueles que nada fizeram.

Abraços

Anônimo disse...

Carrísimo Ailton,

Você foi muito feliz nas suas colocações sobre o saudoso Cícero Acaiaba. Conheci as obras do Cícero quando fiz "Um Passeio Pelas Obras de Cícero" a convite do poetamigo Aníbal Albuquerque. Parabéns!

Um amplexo de
Dário Teixeira Cotrim
Academia Montesclarense de Letras
Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais e de Montes Claros.